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Capítulo 01 - Magnbjorn

A Crônica do Caçador de Deuses (CCD)

Capítulo 01 - Magnbjorn

Autor: General Xin | Revisão: Stromkirk

— Hoje o tempo está horrível.

No centro de uma região montanhosa, o vento castigava um vilarejo. O pasto em um tom verde acinzentado indicava a recente chegada do inverno; casas de madeira com telhados piramidais de palha espalhavam-se em grande número. Apesar de exuberantes em um primeiro olhar, tinham tábuas soltas, crostas de mofo e partes com pouca ou nenhuma palha. Um sinal de seu excelente desenvolvimento no passado, mas atual estado de declínio.

Camponeses cuja tristeza tomava conta dos rostos evitavam toda e qualquer conversa, se dedicando quase que completamente ao labor rural.

Não por menos, afinal era o sétimo dia do sétimo mês. Uma data folclórica considerada por muitos nada auspiciosa. Era comum crer que, neste dia, a chance de conflitos e infortúnios recaírem sobre as pessoas era demasiadamente grande. Pois fora em um dia como este em que o Ragnarok ocorreu, levando à morte de incontáveis deuses e consumindo boa parte dos nove mundos, tendo somente Helheim escapado intacto. Sete mil anos se passaram desde então e os mundos finalmente estavam recuperados, mas diferentes do que costumavam ser.

— Ãh? O que é aquilo? — Um camponês ergueu sua cabeça, levou a mão esquerda sobre os olhos e forçou sua visão. Ele tentava enxergar a distância.

— É uma… mulher? — Uma idosa cravou seu ancinho no solo e também começou a observar.
Um veloz corcel cinzento rasgava o vento cruzando a planície. Ele possuía duas enormes bolsas em suas laterais, ambas engatadas na sela. Montada, uma mulher de meia idade e cabelos negros segurava as rédeas com uma mão enquanto na outra carregava algo embrulhado. Ao avistar o vilarejo sorriu forçosamente e olhou para o objeto que carregava.
— Que cavalo veloz! — Disse o camponês.

— Cuidado! Ela carrega algo! — Um homem velho gritou. Imediatamente os aldeões bateram em retirada.

Fazendo gestos de mão e sussurrando palavras ininteligíveis, as mãos da mulher brilharam em um tom de violeta e vinhas surgiram do chão formando um paredão, impedindo o recuo dos aldeões. De joelhos, eles rezavam aos deuses para que estes tivessem piedade. Neste meio tempo, o corcel passou pelos portões do vilarejo e parou perto dos indivíduos.

— Alguém… ajude… — Disse a misteriosa mulher, caindo de seu corcel em seguida e revelando uma porção de flechas cravadas em suas costas.

— Por que deveríamos? Você é uma völur, você sabe se cuidar! Além do mais, você deve saber bem que dia é hoje! Você tem flechas cravadas em suas costas, alguma coisa deve ter feito! — A idosa gritava furiosa enquanto ostentava o dedo indicador em riste na direção da mulher.General Xin: völur são bruxas/feiticeiras.

— Mamãe… É uma vida! Não interessa se ela é uma völur ou não. Como aldeões, somos peritos em plantar e semear a vida. — Um sujeito robusto, também de meia idade, com longos cabelos negros e uma densa barba de mesma cor se aproximou da mulher que estava no chão e agachou-se na sua frente. — Desculpe minha mãe, somos seres comuns. É natural que eles tenham medo daqueles que são diferentes, uma vez que sequer sabem se defender. Espere um instante, eu chamarei alguém para cuidar de seus ferimentos.

— Não! É inútil… — Tossindo, a mulher acabou expelindo uma grande quantidade de sangue negro. — São flechas de... vinha furiosa, eu não… tenho muito… tempo… tome… — Estendendo a mão, ela ofereceu seu embrulho a ele.

— O que é is-... — Subitamente, um choro infantil se originou do embrulho. Gentilmente retirando os diversos panos enrolados, a figura de um bebê de cabelos avermelhados e olhos azuis como o céu sido revelada. Lentamente, todos os outros aldeões se aproximaram para vê-lo.

— Por fav-… — Uma enxurrada de sangue fluiu de sua boca. Com dificuldade, a mulher ergueu sua cabeça e beijou a testa do infante. — Por favor… cuide… da criança…

— Cuidar? Eu nunca cuidei de uma criança! Eu não posso! — Respondeu ele. Após isso, tentou devolver a criança, mas a teve tomada pela idosa.

— Estes cabelos são como fogo vivo! Ela é tão bela… E estes olhos... — Removendo ainda mais os panos, a idosa acabou descobrindo o sexo da criança. — É um garoto! E céus, como chora!

— Seu nome é… Magnbjorn… — De repente, os olhos da mulher começaram a ficar extremamente vermelhos e veias negras se espalharam como rachaduras sob sua pele branca.

— Você não entende… São tempos difíceis. Estamos sofrendo com a falta de comida. Mais uma boca para alimentar seria algo extremamente difícil… Mas não se preocupe, aguente firme! Nós iremos te ajudar! — O homem apontou para um idoso e ordenou. — Rápido, chame um curandeiro!General Xin: Magn: Forte, Bjorn: Urso/Guerreiro/Herói.

— Hm… — Retirando uma pedra de seu bolso, a mulher percorria seus dedos enquanto proferia estranhas palavras. — Vaxaert… — Símbolos rúnicos então surgiram na pedra e ela entregou-a ao sujeito a sua frente. — Enterre isto… sob o campo… é uma runa mágica para… fertilidade… considere isto o pag… amento para que cuidem… do menino…

Observando a pedra em suas mãos, o homem fechou os punhos e assentiu com a cabeça. Ele havia tomado sua decisão. Logo em seguida, tomou o menino dos braços de sua mãe e ergueu. Neste momento ele parou de chorar e seus olhos, fixos no indivíduo que o segurava, brilharam como estrelas. — Magnbjorn, filho de Hildr… Magnbjorn Hildrsen!

— Magnbjorn Hildrsen… É um… bom nome… Cuide de seus pertences… e do cavalo, Vindrheistr... — Fechando seus olhos pela última vez, o corpo da mulher se tornou completamente negro e transformou-se em pó.

General Xin: Vindrhestr significa Garanhão do Vento.

Seis anos se passaram.

No interior de uma simples cabana, lenha estalava perfumando o ambiente. Além dela, havia um amontoado de fezes de vaca queimando para afastar mosquitos e um caldeirão com cozido de batatas que borbulhava sem parar. O inverno havia chegado.

— Papai, conte uma história — Deitado sobre uma cama de palha, um menino magro, de cabelos escarlates e íris tão azuis quanto o céu em um dia ensolarado encarava um corpulento homem. Seu olhar irradiava um brilho de empolgação inato às crianças.

Sentado na borda da cama, seu pai esticou o braço e alcançou um livro que estava em cima de uma pequena mesa próxima.

— Hm… Esta é uma boa história… O Conto de Eovar, o Conquistador. — Curvando os lábios em um sinal de satisfação, folheou o livro aleatoriamente e abriu. — Oh, este capítulo é o meu preferido! Você está pronto, Magn?

— Sim! Conte, conte! — Coberto por um costurado de couro de cabra, o garoto se aconchegou e ficou atento.

— Eovar e o Festival de Lâminas! No mar gelado, o conquistador navegou. Cem montanhas subiu, dez mil homens derrotou; no pé de Snjórbjarg um intenso frio o assolou. Decidiu viajar até seu pico e o Lorde Álgido enfrentou. Sverdfrost obteve. Em um quente deserto de lava o conquistador caminhou. Mil depressões desceu, dez mil criaturas derrotou; nas profundezas de Brennahellir um ardente calor o assolou. Decidiu viajar até um palácio consumido pelas chamas e o Lorde Abrasador enfrentou. Sverdbruni obteve. Em mundo engolido pelas sombras o conquistador cavalgou; a língua dos elfos aprendeu e dez mil destes derrotou.  Incomodado com a falta de luz no local, esbravejou. A solução para o seu problema em ruínas antigas encontrou e então o Lorde Negro enfrentou. Sverdgrimma obteve. O fogo a ele se curvou, o frio aos seus ouvidos sussurrou e a escuridão a ele abraçou. Sverdskophata então nasceu. — Após a leitura, Hildr fechou o livro e o colocou em seu lugar original. — E aí, o que achou da história de hoje?

— Incrível! Eu quero ser como Eovar! Olhe papai! Tofrmaekir! — O garoto se levantou de sua cama e, por um breve momento, falou em uma estranha língua. Após isso, uma espada semitransparente e um pouco maior que uma adaga se materializou em sua pequena mão. — Eu também tenho uma espada!

General Xin: tofr significa mágica e maekir significa espada/lâmina, ambas são palavras do rúnico arcaico.

— Mag...ia? Magnbjorn, você compreende os livros dentro do baú? — Surpreso, seu pai fitava-o sem parar.

— Só algumas coisas, papai. Algumas palavras brilham e parecem sussurrar nos meus ouvidos. — A arma em sua mão se tornou instável e se desfez. — O único problema é que me cansa demais… — Magnbjorn se deitou novamente. Ele agora apresentava extremo cansaço.

— Você me surpreende, Magn…. Não bastasse sua força, você ainda compreende as runas! Seu velho pai está orgulhoso. — Acariciando os cabelos carmesins de seu filho, ele o cobriu. Rapidamente Magnbjorn caiu em sono profundo. — Seu tamanho não se equipara à sua grandeza… Você certamente está destinado a grandes feitos, meu filho… Magnbjorn filho de Hildr! Hahaha! Daria um bom título.

Em seguida, Hildr se levantou e se sentou próximo ao caldeirão. Após pegar uma tigela de madeira e uma caneca, ele se serviu do cozido e encheu sua caneca com um forte hidromel.
— Magnbjorn Hildrsen! Hahahahaha! — Disse Hildr em baixo tom enquanto tomava sua bebida em grandes goles.

E então vagarosamente dez invernos haviam se passado. Soltinnber se desenvolvia como nunca graças à runa dada pela feiticeira. Seus campos haviam se tornado férteis e verdejantes mesmo sob o rigoroso frio. Seu trigo nunca secava, suas frutas nunca perdiam o gosto, suas ervas tinham propriedades medicinais muito mais intensas que em outras áreas e a madeira dos arredores era forte como as rochas.

Em um pequeno bosque próximo, uma bela moça de cabelos dourados coletava flores e as depositava em uma caixa feita de trançado de palha. Ela cantarolava cantigas diversas e ostentava uma voz gentil e afinada.

— Eu quero ver Magn não me notar depois que eu...  — Uma linda flor chamou sua atenção. De longas pétalas avermelhadas e de inigualável fragrância, Alffinna havia decidido que deveria colhê-la de qualquer forma.

Quando se aproximou, foi surpreendida por uma lebre que surgiu de uns arbustos. Atrás dela vinha um filhote de lobo.

— Que bonitinho! — Alffinna se abaixou e o pegou em seu colo. O animal tentava se desvencilhar, mas após ter sua barriga acariciada cedeu à garota. — Que garoto comportado! Muito bem, muito bem. — A garota voltou para recolher a flor que tanto ansiava enquanto segurava o filhote em seus braços. Contudo, por não enxergar uma raiz de árvore protuberante, acabou tropeçando e caindo sobre o animal que começou a chorar descontroladamente.

— Acalme-se! Pshhh! Acalme-se! — Ela tentou tapar o focinho da criatura, mas fora em vão. De repente, começou a escutar o rosnar de múltiplos lobos. Ao subir seu olhar, pôde ver em meio a floresta uma matilha vindo na sua direção. Eram seis lobos. — Pelos deuses! Tenham piedade! — Alffinna arrancou a flor e saiu em disparada na direção de seu vilarejo.
Um poderoso uivo ecoou no horizonte.

— Lobos! Lobos se aproximando! — Um rapaz de aproximadamente trinta anos soprava uma corneta de chifres e gritava desesperadamente.

— Fechem os portões imediatamente! — Hildr, que cortava lenha, desprendeu seu machado de batalha da cintura e correu para a entrada do vilarejo.

— Alffinna! Minha filha Alffinna! — Uma mulher carregando uma cesta de ovos correu na direção de Hildr.

— Bitra, sua filha está lá fora? — Hildr colocou as mãos sobre os ombros de Bitra e falou calmamente.

— Sim… Ela queria fazer uma grinalda… Ela foi colher flores… Por favor, Hildr, salve-a! — Bitra se ajoelhou e se agarrou no cinto dele.

— Bitra… São lobos… — A expressão de Hildr se contorceu, pois, enfrentar lobos era uma tarefa difícil. — Não sou jovem como em meus tempos dourados de guerreiro, mas cumprirei o meu propósito como guardião de Soltinnber… — Agarrando as mãos da mulher, ele se agachou e olhou diretamente em seus olhos. Em seguida, caminhou rumo aos portões.

— Hildr! O que está fazendo? — Sua mãe, que tentava acalmar os outros aldeões, correu com dificuldade na direção do filho.

— Mamãe…. É meu dever cuidar do vilarejo. Se alguma coisa acontecer comigo, cuide de Magn-... — Inesperadamente, um vulto passou pela sua lateral e roubou o machado de batalha de suas mãos.

— Eu trarei Alffinna de volta! — Um adolescente de longos cabelos vermelhos e olhos azuis respondeu enquanto corria com o machado em suas mãos. — Abram os portões! Eu vou atrás dela!

— Não façam isso! Ele é só um garoto! — Ordenou Hildr. — Magnbjorn, o que está fazendo?

Magnbjorn sorriu e chutou os portões, abrindo-os de maneira bruta. — Assim como você, estou cumprindo meu propósito. Vindrheistr, venha garoto! — Como um tufão, o corcel cinzento foi de encontro a Magnbjorn que o montou e avançou na direção do uivo. — Ha! Mais rápido! Hradrstig! — Os cascos de Vindrheistr reluziram e sua velocidade aumentou tremendamente.

General Xin: Hradrstig: Passos Acelerados.

— Alguém me ajude! — Alffinna deixou o bosque. Extremamente nervosa, perdia pelo caminho as flores que havia colhido sem perceber. — Magn! Socorro! — Ao enxergar o inconfundível jovem ruivo, inflou seus pulmões e gritou com toda a força que possuía.

De repente, um lobo pulou em suas costas, a derrubando. Utilizando as flores, Alffinna o golpeou no focinho, o machucando levemente com os espinhos. Ele rosnou e avançou sobre ela novamente.

— Não! — Magnbjorn balançou seu machado e o arremessou na direção da cabeça da fera. Produzindo um som similar ao de uma casca de ovo sendo quebrada, a arma penetrou a cabeça do animal e o matou instantaneamente.

— Awooo! — Outro lobo surgiu. Ao ver a execução de seu companheiro, foi tomado por uma fúria ainda maior. Diferente dos outros, este lobo era completamente negro e muito maior. Além disso, parecia ser inteligente e possuía uma grande cicatriz em sua cabeça. Ao seu chamado, os outros quatro vieram.

Magnbjorn acelerou. Inclinando o corpo para esquerda, conseguiu juntar Alffinna do chão e colocá-la na garupa de seu cavalo. — Você está a salv-... — Inesperadamente, um lobo sorrateiramente mordeu seu cinto e o puxou para o chão. Antes de cair, ele chutou o traseiro de seu animal e gritou. — Deixe-a em Soltinnber e volte aqui para me ajudar. Vá rápido!

— Magn! Não! — Alffinna esticou a mão para tentar pegá-lo, mas Vindrheistr saiu correndo absurdamente rápido. — Não morra, Magn!

Magnbjorn agora encarava os cinco lobos. De presas à mostra, espumavam enfurecidos, prontos para destroçá-lo. Magnbjorn passou a mão pelo machado e sussurrou: — Hjarngudkoss — Uma crosta branca cobriu seu machado e passou a emanar uma energia congelante.

— Grr! — Um dos lobos avançou sobre o garoto. Magnbjorn pulou para a direita e se esquivou da mordida. Após isso, chutou com força a lateral da fera, a empurrando contra uma rocha. Só então desceu seu machado sobre a cabeça dela. — Wuu… — Sangue de lobo tingiu sua face. Seus olhos azuis reluziam ainda mais em contraste com o vermelho que tomava conta de seu rosto.

Outro lobo se aproximava dele. Entretanto, o garoto cravou seu pé direito no solo e arremessou terra nos olhos da fera, prejudicando sua visão. No momento em que se preparava para golpeá-lo, outro lobo pulou sobre ele, o levando ao chão e fazendo com que derrubasse seu machado. Magnbjorn chutou as genitais do animal com toda força e o fez abrir a boca. Com uma das mãos segurou a mandíbula superior e com a outra a inferior. — Vai pro inferno! — Girando em sentido horário com toda sua força, o garoto quebrou o pescoço do animal.

Após recuperar seu machado, o jogou entre os olhos do lobo momentaneamente cego. Outros dois lobos apareceram na sua frente. Sem poder recuperá-lo, ergueu os punhos e recuou dois passos.

O primeiro visou suas pernas, tentando imobilizá-lo com uma mordida. Entretanto, o garoto se esquivou pulando para trás. Furioso, o segundo lobo realizou uma investida e desferiu uma patada que cortou seu peito e rasgou sua camisa. Magnbjorn, em resposta, chutou seu focinho o forçando a recuar.

O outro lobo tentou morder sua garganta, mas Magnbjorn colocou o antebraço na frente. O lobo sacudia sua cabeça e suas presas entravam cada vez mais fundo na carne do garoto. — Me solta, me solta! — Ele então cerrou o punho esquerdo e começou a golpear a cabeça do animal. Devido à sua força descomunal, destruiu o crânio da criatura, a matando.

Logo após se desvencilhar, correu na direção do segundo lobo e chutou seu maxilar, o fazendo cair de barriga para cima. Em seguida, recuperou seu machado e cortou horizontalmente sobre a barriga do animal. Em razão da magia aplicada sobre a arma, o corpo do lobo foi congelado e quebrou em inúmeros pedaços. Magnbjorn respirou fundo e sentiu seus braços adormecerem lentamente.

— Merda… Não tenho condições de enfrentá-lo. Não agora…

— Grr… — O grande lobo negro deu seus primeiros passos em direção ao adolescente. Contudo, foi surpreendido pelo surgimento de um corcel cinzento que tentou atacá-lo com coices. Após recuar, o último e maior lobo assumiu uma posição de ataque e avançou sobre o corcel.

— Nem pense nisso! — Uma dor lacerante surgiu na região de seu olho. Ele teve o olho arrancado por um golpe de machado. Magnbjorn montou em Vindrheistr e imediatamente recuou. — Vamos voltar para casa! — O garoto deu um tapa no traseiro de seu cavalo que disparou e rapidamente deixou o lobo negro para trás. Era possível ver nos olhos da criatura uma sufocante intenção de matar.

— Oh, droga… Eu posso sentir que virei seu inimigo…

— Awoooooooo! — A criatura uivou de uma maneira diferente. Não era um chamado de ajuda, era uma declaração de guerra. De alguma forma, Magnbjorn pôde sentir seus ossos vibrarem ao som daquele uivo. Era como se seu corpo tivesse sido marcado como uma presa valiosa.

— Rápido! Abram os portões, Magn está vindo! — Um dos homens gritou de uma das torres. Uma multidão se formou para recebê-lo.

— Ele está bem?! — Preocupada, Alffinna estava trêmula.

— Saiam da frente! Cadê meu filho? Como está Magn... — Hildr foi abrindo caminho por entre as pessoas. Quando chegou à frente dos portões, viu Magnbjorn desmontando de seu cavalo e imediatamente socou sua cabeça. — Seu idiota! Você deve ser cauteloso! Você não aprendeu nada comigo?

— Desculpe papai, a situação era… Ugh! Urgente… — Magnbjorn caiu com um dos joelhos. Ele estava perdendo bastante sangue.

— Você está ferido! — Hildr o pegou no colo e saiu em disparada rumo ao curandeiro do vilarejo. — Saiam da frente! Saiam da frente! — Ele carregou seu filho até uma pequena cabana cuja fachada era coberta por ervas penduradas. Ela possuía um jardim razoavelmente grande e repleto de ervas, batatas, repolhos, alho e cebolas.

Ouvindo os gritos desesperados de Hildr, um idoso de baixa estatura e tão velho que tinha a coluna arqueada abriu a porta da cabana gentilmente. — Que barulheira é essa? — Ao ver o corpo ensanguentado de Magnbjorn, o idoso deu um passo para trás. — Venha, venha! Coloque-o sobre a cama.

— Agmundr, meu filho… El... — Agmundr levou o dedo indicador à sua boca e pediu silêncio. Logo após, correu até um baú e retirou algumas ervas. Colocando-as em uma tigela e amassando com um pilão até produzir uma pasta amarelada que ele passou nos ferimentos de Magnbjorn. Hildr retirou as botas de Magnbjorn e seu machado, colocando-os próximos a cama.

— Se estiver infeccionado, isto puxará a infecção para fora. Agora vamos ver… — O idoso pegou mais alguns ingredientes e os jogou em um caldeirão. — Me ajude aqui! A cada três segundos aperte o fole para manter a chama na temperatura ideal.

Hildr assumiu o controle do fole e seguiu às ordens de Agmundr. Enquanto isso, ele remexia o caldeirão até produzir um caldo marrom e de terrível mau cheiro. — Perfeito! — Com uma colher, pegou um pouco e colocou na boca de Magnbjorn. O corpo do garoto instantaneamente reagiu e começou a se contorcer e suar.

— Isso é normal? — Perguntou Hildr, preocupado.

— Perfeitamente normal. Claro que às vezes alguns morrem, mas se ele não morrer com certeza viverá. — Respondeu Agmundr, sorridente.

— Ah! — Magnbjorn gritou e um líquido preto começou a escorrer de sua boca.

— Oh, ele vai ficar bem! Vê o sangue preto? É sangue infeccionado. A coisa que o machucou é bem porca. — Agmundr pegou uma cadeira e se sentou ao lado do garoto. Retirando uma garrafa de vinho sob a cama, abriu e bebeu um grande gole. Hildr observava a cena inquieto.

Após algumas horas, o corpo do garoto parou de se contorcer e seus ferimentos rapidamente começaram a se fechar.

— Isto é algo que não se vê todo dia… Esta regeneração… Bem, como posso explicar… É uma loucura! — Agmundr levou as mãos a cabeça. Após isso, aproximou seu rosto do corpo de Magnbjorn. — Hildr, se ele morrer você me deixa estudá-lo?

— Ora, seu velho lunático! — Hildr ergueu o punho e encarou o idoso.

— É brincadeira, é brincadeira.

— Oh… — Magnbjorn abriu os olhos e sentou. — Onde eu estou? Oh, merda… É assim que Valhalla se parece? Que muquifo!

— Olha lá como fala, garoto! Foi nesse muquifo que sua vida foi salva. — Agmundr aplicou um tapa sobre a cabeça do garoto.

— Meu filho! — Hildr avançou sobre o garoto e abraçou-o.

— Papai… Me solta… Eu já sou um homem! Eu matei lobos, vários deles! — Magnbjorn afastou seu pai a força. De repente, sua aparência mudou e ele parecia preocupado. — Só faltou aquele lobo negro… Se eu o tivesse matado… Mas eu estava tão cansado.

— Lobo negro? Um lobo maior que a média cujo pelo é mais escuro que a própria noite? — A expressão de Agmundr se tornou incrivelmente feia.

— Sim, exatamente. Você já o viu?

Hildr e Agmundr se entreolharam. Seu pai suspirou profundamente e balançou a cabeça. Já Agmundr se levantou e começou a circular pelo quarto. — Nada bom, nada bom, nada bom…

— O que houve? — Magnbjorn franziu a sobrancelha.

— Nattavargr é o seu nome. É uma fera ancestral, muito mais velha que eu ou Agmundr. Ele é o guardião de todo bosque Edrakvenna… Para ter surgido por aqui algo não anda bem pelo bosque… — Hildr encarou o chão e levou a mão direita ao queixo, pensando. General Xin: Nattavargr significa a fera que transformou-se em noite.

— Oh, então ele tem nome? Ele é um maldito! Pela primeira vez eu senti medo. Ele olhou nos meus olhos e uivou de uma forma que eu nunca ouvi antes… Eu senti meus ossos vibrarem!

— Você olhou nos olhos dele? Quando ele uivou ele estava olhando para você? — Hildr arregalou os olhos e começou a mexer no corpo de seu filho. Ele levantou seus braços, olhou suas axilas, costas, barriga e pernas.

— Papai, pare com isso! — Magnbjorn empurrou seu pai. No entanto, seu movimento fez com que seu cabelo balançasse, Agmundr pôde enxergar uma distinta e conhecida marca em sua nuca.

— A marca! — Agmundr apontou para o garoto. — Na sua nuca! A marca da presa!

— Deixe-me ver! — Hildr removeu o cabelo que cobria a nuca de seu filho. Havia uma marca circular com um traço no meio. — Ele o marcou… Maldito seja! — Hildr se levantou e socou a parede da casa de Agmundr.

— Papai, o que esta marca faz?

— Ele saberá onde você está não importa onde você vá. Ele irá te seguir até te matar… — Hildr cerrou os punhos e continuou: — Assim como fez com meu pai…

— Aquele lobo matou meu avô? Como posso me livrar desta marca? — Magnbjorn se levantou e foi até Agmundr. — Você não pode desfazê-la?

— Garoto… O Nattavargr não é um lobo qualquer… Os primeiros habitantes de Soltinnber já relatavam seus ataques. Dizem que há diversos invernos, durante uma noite anormalmente fria, o corpo de um vanir desceu dos céus na forma de uma estrela vermelha e caiu sobre o bosque. Foi aí que suas aparições começaram. Ele é inteligente, muito mais do que um animal deveria ser... Sabe até usar magia! — Agmundr gritou. Seus ânimos estavam exaltados. — Hildr… Você não pode deixá-lo aqui! Ele colocará todo o vilarejo em perigo! Se você não expulsá-lo, eu irei contar para toda Soltinnber! General Xin: Vanir é uma raça de deuses. Eles são opostos aos Aesir(raça da qual Odin e Thor pertencem).

Hildr se levantou, puxou uma faca de sua cintura e pressionou-a contra o pescoço de Agmundr. — Você não falará nada. É meu filho!

— Ele colocará o vilarejo inteiro em perigo! Você deve bani-lo! Caso contrário, eu espalharei a notícia! — Hildr fechou os olhos e balançou a cabeça como se quisesse negar o que estava acontecendo. Olhando diretamente nos olhos do curandeiro, penetrou sua garganta. — Magnbjorn é o único legado que possuo neste mundo. Não deixarei tirá-lo de mim...

Agmundr caiu sentado, lentamente fechando seus olhos. — Maldito... animal...

— Papai! O que você fez? — Magnbjorn arrancou a faca do pescoço do idoso e segurou-o já sem vida. — Agmundr! Acorda!

— Magn… Não há como fugir do Nattavargr. Eu irei matá-lo para você. É minha culpa você ter sido marcado. Além disso, temos débitos a acertar. — Seu pai pegou o machado que estava ao lado da cama.

— Papai, não! — Magnbjorn tentou segurá-lo. Contudo, Hildr desviou e aplicou uma rasteira. Após isso, chutou seu rosto o fazendo desmaiar.

— Desculpe, Magn. — Hildr olhou em um calendário preso a parede. Ele marcava o sétimo dia do sétimo mês. Em seguida, lavou as mãos em uma bacia com água e deixou a cabana silenciosamente.

Por General Xin | 23/04/18 às 12:39 | Ação, Aventura, Fantasia, Mitologia, Violência, Maduro, Romance