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Capítulo 02 - Aqueles que não deveriam andar

A Crônica do Caçador de Deuses (CCD)

Capítulo 02 - Aqueles que não deveriam andar

Autor: General Xin | Revisão: Stromkirk

— Uh… Está frio... — Hildr prendeu seu machado à cintura e esfregou as mãos para esquentá-las. Ao assoprá-las, produzia uma densa fumaça branca em razão da baixa temperatura. — É a primeira vez que vejo uma noite de outono tão fria…

— Boa noite, guardião. — Um guarda que fazia ronda cumprimentou-o. Ele segurava uma tocha em uma mão e um pedaço de carne na outra.

Hildr assentiu com a cabeça e sorriu. — Oh, vejo que já aproveitou um pouco da festa da fartura. Guarde um pouco para mim.

— O senhor não irá? — O homem enfiou forçosamente o restante de carne em sua boca e mastigou com dificuldade. Ele caminhou lentamente na direção de Hildr, que se encontrava na porta da cabana de Agmundr. — Como está seu filho? Soube que ele foi muito corajoso ao lutar contra os lobos.

— Não, eu tenho algo a fazer. Magnbjorn está se recuperando. Agmundr está cuidando de suas feridas, mas parece que Magnbjorn pegou algo infeccioso dos lobos. O velho está sendo muito nobre por colocar sua vida em risco pelo meu filho. Eu estou indo às montanhas buscar algumas ervas que ele pediu. — Hildr colocou sua mão direita sobre o ombro do guarda e continuou: — Não deixe que ninguém se aproxime desta cabana. É crucial que Magn não espalhe sua doença.

— Sim, senhor guardião! — De forma desengonçada, o guarda se pôs em continência.

— Eu confiarei em você. Bom, até mais. Tenho uma tarefa a cumprir. — Hildr despediu-se e caminhou lentamente até o portão de Soltinnber. Enquanto caminhava, olhava as estrelas. Os astros dispostos pelo céu negro pareciam diferentes, eles irradiavam um brilho levemente avermelhado.

— Senhor guardião, vai sair a esta hora? — Um guarda em uma torre gritou para Hildr.

— Sim, irei à montanha buscar algumas ervas para tratar Magn. Abram os portões. — Hildr esticou uma das mãos enquanto fitava o homem. — Me jogue uma tocha, também.

— Sim, senhor guardião! — O homem retirou uma entre diversas tochas escoradas em uma parede e jogou-a para Hildr. — Ei, seu vagabundo! Ouviu o senhor guardião, vamos abrir os portões!

— S-sim! — O guarda de outra torre respondeu e começou a girar uma grande manivela.  

O ranger da madeira começou a ressoar e o portão a se abrir lentamente. Hildr agradeceu e seguiu seu caminho. Para evitar desconfiança, não levou cavalo e evitou acender sua tocha.

Desprendendo uma pequena garrafa da cintura, arrancou sua rolha e desfrutou de um gole de vinho. Seu teor alcoólico era tão alto que fazia as entranhas arderem. — Vinho para despertar o espírito adormecido em mim. — Ao olhar novamente para o céu, suspirou e balançou a cabeça. — Será um longo caminho… Será que sou um bom pai? Oh, eu queria ter casado… — Enquanto se dirigia ao bosque, dividia-se entre seu monólogo e vinho.

De repente, um vulto cruzou sobre sua cabeça e pousou no topo de uma árvore no horizonte. Hildr, que agora estava prestes a entrar no bosque, olhou para o alto e pôde perceber que se tratava de uma criatura humanóide.

— Quem é você? O que está fazendo aí em cima? — Já sofrendo os efeitos do álcool, Hildr, meio cambaleante, falava com a dicção prejudicada.

Contudo, a criatura não respondeu. Pelo contrário, ignorou-o e retirou uma flauta, tocando-a em seguida. Era uma melodia triste, distante e fúnebre. Ao terminá-la, ela guardou sua flauta e enormes asas se abriram. Neste momento, a luz do luar recaiu sobre ela e revelou a figura de uma mulher alada trajada em uma armadura dourada. Até seu elmo era feito do nobre metal.

— Uma valquíria? — Sussurrou Hildr.

Em seguida, a mulher sacudiu suas asas e voou como uma flecha para algum lugar do qual Hildr não pôde acompanhar. Após isso, olhou para sua garrafa de vinho e jogou-a na grama.

— Devem ter colocado algo neste vinho… A valquírias morreram! Todas elas! Não posso alucinar... Não em um momento como este. — Hildr desprendeu seu machado e entrou no bosque.

O vento naquela noite soprava de maneira incrivelmente violenta, fazendo com que a copa das árvores se inclinasse de tal forma que era capaz produzir ruídos altíssimos. Além disso, ele espalhava inúmeros odores distintos. Um deles incomodou tremendamente os sentidos do homem.

— Que cheiro é esse? — Hildr ergueu a cabeça e respirou lentamente tentando decifrar o que era e de onde vinha. Apertando ainda mais forte seu machado, seguiu caminho enquanto mantinha-se preparado para lutar.

De repente, sentiu algo passar entre suas pernas. Ao olhar para baixo, viu uma lebre correr ao encontro de uma árvore e se suicidar enquanto aplicava cabeçadas sobre a madeira. — Mas o que? — Uma ave caiu ao lado de seus pés, ela apresentava furos em seu crânio. Hildr olhou para cima e viu em um galho o pássaro responsável. Contudo, para sua surpresa, ele pulou de cabeça diretamente no chão. — O que está havendo?

Pego desprevenido, Hildr sentiu algo golpear-lhe as costas. Devido à força, acabou sendo arremessado contra o chão. Desconfiado de que fosse Nattavargr, virou seu corpo rapidamente na direção do que lhe golpeara.

— Um… Cervo? — Prendendo sua galhada no chão, o animal girou a cabeça com toda sua força, quebrando seu próprio pescoço. Hildr levantou-se, se aproximou e se agachou. — Seus olhos… — Colocando a cabeça do animal sobre seu colo, ele pôde perceber que os olhos do cervo estavam terrivelmente vermelhos. — O que está deixando eles insanos? Isto deve ser obra daquele maldito demônio… — Retirando uma pequena adaga de sua cintura, abriu um extenso corte na região da barriga do cervo e banhou-se em sangue para que pudesse mascarar seu odor natural. — Nattavargr, hoje será nossa última noite.

Um sonoro uivo ecoou das profundezas de Edrakvenna. — Você já sabe que estou aqui? Ótimo... — De maneira silenciosa, ele se dirigiu até o local de origem do som, chegando ao pé de uma pequena montanha. Nela havia uma grande e profunda abertura. — Então é aqui que você se esconde… Que estranho… Por que tão perto de Soltinnber? Sempre me foi dito que o Nattavargr morava no coração de Edrakvenna

Subitamente, Hildr sentiu um calafrio na espinha. Uma sensação de perigo iminente. Sendo assim, jogou-se para a esquerda e rolou. Um lobo cinzento tentou atacá-lo, porém o humano havia sido mais rápido.

— Você servirá para me aquecer! — Hildr arremessou seu machado no pescoço da fera, matando-o instantaneamente. Entretanto, o choro da criatura chamou a atenção de outros lobos e, em questão de segundos, haviam três deles em sua frente. — Venham! Venham todos! Esta noite vocês terão um banquete… No inferno! — Hildr correu até o lobo morto, arrancou seu machado e pôs-se em guarda. Quando o primeiro dos animais avançou, agarrou um punhado de terra e jogou em seus olhos. Em seguida, desceu sua arma verticalmente por entre seus olhos.

Saliva escorria da mandíbula dos lobos. Seus olhos refletiam o mais puro e profundo ódio ao humano. Então o segundo lobo pulou para de Hildr. Para evitar ser mordido, rolou para frente e parou sob a barriga da fera. Com sua mão esquerda, pegou sua pequena faca e estocou-o diversas vezes. Na última, cravou-a em seu peito e desceu-a até a região das genitálias. Sangue e entranhas banharam o homem.

O último lobo tentou morder a região de sua cintura, mas Hildr esquivou-se com um pulo para trás e, na sequência, aplicou uma joelhada sobre o focinho do animal. Este último, desnorteado pela dor, encolheu-se e esfregava suas patas no local atingido. — Adeus. — Hildr pisou forte em sua cabeça por diversas vezes, esmagando seu crânio e criando um buraco. Consumido pela fúria, continuou golpeando-o com seu machado, só parando após a cabeça do animal estar totalmente desfigurada. Em meio ao frio, seus olhos contendo o frenesi de um bárbaro e a fumaça de sua respiração davam-no uma concepção demoníaca. Passando a língua ao redor de seus lábios, limpou-os do sangue que escorria pela sua face. — Nojento! — Hildr cuspiu.

— Grr… — De repente, das profundezas da caverna, algo começou a emergir. De olho escarlate e brilhante, Hildr já sabia o que era. Afinal, ele o aguardava.

— Finalmente você veio me receber! Eu estou aqui! — Sacudindo seu machado, limpou toda sujeira que cobria sua lâmina. — Hoje será seu sangue a macular a arma de meu pai! Nattavargr, eu vim cobrar sua cabeça! — Hildr acendeu sua tocha e passou-a pela grama ao seu redor. Aos poucos, as chamas começaram a surgir. — Eu irei para o inferno montado sobre seu corpo!

Nattavargr então latiu, produzindo um forte tufão de ar capaz de empurrar seu inimigo para trás. Diferentemente do que esperava, Hildr retornou alguns passos para frente. — Você não pode incutir medo em alguém que já decidiu abraçar a morte. — Logo após, avançou sobre o lobo com um pulo e agarrou-se em sua pelagem. Enquanto isso, golpeava-o com seu machado. Contudo, sua pele era demasiada rígida, resistindo à maioria dos ataques.

Furioso, o animal se jogou no chão, esmagando o humano e fazendo-o se desprender de seu pelo. Sangue pingava de seus ferimentos.

Hildr se levantou rapidamente e buscou recuperar o fôlego. Nattavargr era extremamente pesado, acarretando na quebra de algumas costelas. — Você não vai acabar comigo só com isso… — Sussurrou ele.

O lobo negro tentou mordê-lo, mas Hildr rolou por debaixo da criatura e desferiu uma machadada em suas costelas, abrindo um corte profundo. Nattavargr chorou e recuou. Ele então abriu sua enorme boca e chamas azuladas começaram a sair de sua boca. Hildr jogou-se para a esquerda, evitando as chamas que haviam sido expelidas pelo seu nemesis. Curiosamente, elas não queimavam, mas sim congelavam tudo que tocassem.

Hildr fechou os olhos rapidamente e respirou fundo. Após isso, começou a se mover de maneira estranha. Nattavargr rapidamente se lembrou dos movimentos e pareceu entrar em um profundo transe violento.

— Awooooooooo! — O chão ao seu redor começara a congelar e ele avançou sobre o humano. Desta vez, ele estava muito mais rápido.

— Você se lembrou de algo. Não se lembrou? Este era o estilo de combate de meu pai! — Hildr correu ao encontro da fera e, ao se aproximar dela, jogou-se no chão e deslizou sob ela. Erguendo seu machado, deixou-o percorrer por toda extensão de seu corpo, abrindo um longo corte. Contudo, acabou recebendo um coice do animal e sendo jogado de cabeça contra uma árvore, perto de onde havia jogado a tocha.

Nattavargr urrou de dor e virou-se para o humano. — Grrr… — Ele caminhou lentamente até Hildr, abrindo sua boca ao passo que se aproximava. Sangue e saliva escorriam sem parar, era uma visão perturbadora.

Algo, todavia, surpreendeu Hildr. Ao se aproximar das chamas, Nattavargr se encolheu e hesitou. Neste momento ele percebeu que a fera tinha medo das chamas - que agora já estavam ganhando tamanho e intensidade, engolindo uma abrangente área de pastagem e algumas árvores.

As chamas de outrora surgiram novamente. — Oh… Você quer dar fim às chamas? Sinto muito, eu prefiro o calor! — Hildr estendeu sua mão e colocou sua arma sobre as chamas, tornando-a incandescente. Em seguida, arremessou-a na cabeça de Nattavargr. Ele tentou se esquivar, mas teve o pescoço atingido e queimado de forma severa. O machado havia ficado encrustado em seu corpo, consumindo a região atingida.

Enlouquecido pela dor lacerante, jogou-se no chão até conseguir remover o machado preso a si. Enquanto isso, Hildr levantou-se e caminhou até as chamas. — Oh… Isso vai doer… — Hildr colocou as mãos e antebraços sobre o fogo, fazendo-o envolver seus membros. Urros abafados escapavam de seus lábios, ele havia posto fogo em seus próprios braços para que pudesse enfrentar a criatura.

— Awn, awn! — Nattavargr chorava em desespero. Hildr aproveitou da chance e avançou sobre ele com uma série de socos. Seus punhos em brasa queimavam facilmente a carne que havia se apresentado tão difícil de cortar outrora. Claramente o fogo era sua maior fraqueza.

Desconcertado em razão dos constantes golpes, o lobo negro tentou afastar seu inimigo com seu pulso de vento. Hildr foi novamente arremessado para longe. Contudo, desta vez, o lobo fora mais rápido e conseguiu morder seu ombro e prendê-lo entre suas presas. Furioso, o animal começou a chacoalhar a cabeça. Com a única mão hábil no momento, Hildr enfiou seus dedos no focinho do animal e o queimou enquanto puxava-o para cima. Percebendo a ineficiência do método escolhido, decidiu morder o rosto do lobo e arrancar seu olho restante.

Imediatamente o lobo soltou-o e recuou. — Ah… Maldito… — Sua visão começava a apresentar avarias e seu corpo aquecia-se com seu próprio sangue que corria como um leito de um rio. Hildr levantou-se novamente. Seus antebraços e punhos estavam carbonizados e não lhe eram mais úteis.

As chamas derivadas de sua tocha agora haviam alcançado um grande perímetro e cercado ambos. A temperatura era tamanha que suas narinas ardiam simplesmente por respirar. Além disso, a fumaça consumia sua força e prejudicava sua visão. — Ugh… — Com dificuldade, Hildr caminhou até o lobo e tentou chutar seu focinho. Entretanto, embora o animal não possuísse mais visão, ainda era dotado de uma audição superior à humana. Sendo assim, golpeou Hildr com sua pata, abrindo uma ferida enorme e profunda em seu torso.

Nattavargr vagarosamente se aproximou do humano. Ambos estavam em condições deploráveis. Sobre Hildr, abriu sua boca; prestes a mastigar sua cabeça. — Anda filho da put… — Inesperadamente, o lobo cessou sua ação como se estivesse congelado. — O… que? — Nattavargr então caiu para o lado. Morto. Uma longa e rudimentar lança havia perfurado suas costas.

Neste momento, uma intensa brisa de ar congelante passou por Hildr. Tão forte e álgida que rapidamente extinguiu as chamas. Outrossim, trouxe escuridão e um peculiar cheiro.

— Uma… lança? E esse cheiro… É o mesmo de… antes… — Sussurrou. Colocando-se de pé novamente, escorou-se em uma árvore. Ao respirar, notou que produzia fumaça. — Está frio… As chamas, elas se foram.

— Eeek...

Hildr arregalou os olhos em surpresa. Uma voz ressoou de cima da montanha, ela era seca e arranhada. Subindo o olhar, ele pôde ver uma espécie de humano em estado de decomposição. Ele vestia armadura, tinha pele cinza, era alto, magro e possuía longos cabelos cristalinos. — Draugr! Isso deve ser um draugr! Oh, merda… — Hildr começou a correr com dificuldade até Soltinnber. Colidindo algumas vezes contra árvores, sentia os efeitos da gradual perda de consciência em razão do sangramento que assolava-o.

Sobre a montanha, o cadáver de armadura observava o humano que tentava fugir. Sussurrando algumas palavras ininteligíveis, pulou do alto da montanha e caiu ao lado do lobo. Em seguida, outras figuras pousaram ao seu redor. Todos cadáveres. Haviam mais de vinte deles.

— Vig borgamadr… — O draugr de cabelos cristalinos apontou para uma direção.

— Ja… hilmir… — Um morto-vivo de cabelos levemente ruivos e extremamente alto se aproximou. Ele segurava um arco de caça e apresentava uma severa e profunda ferida em seu rosto, não possuindo parte de seu maxilar e um dos olhos. — Nu? — Perguntou o draugr arqueiro.

— Ja…

Colocando uma flecha no arco, esticou a corda o máximo que pudera e disparou. A flecha percorreu o ar a uma velocidade assustadora.

Hildr, que tentava deixar o bosque de Edrakvenna, já enxergava o término das árvores e o início dos pastos que cobriam os arredores de Soltinnber quando sentiu algo passar por entre seus olhos. Instantes depois, o mundo tornou-se lento, como se estivesse sendo congelado. Ao mesmo tempo, observava seu corpo não responder aos seus comandos e gradualmente ir ao encontro do chão.

Uma melodia rompeu o silêncio e uma aurora boreal surgiu no céu, sucedida por um clarão e o soar de uma trombeta. Antes que pudesse perceber, a mulher de antes havia surgido novamente. Desta vez a sua frente. Ela caminhou até seu corpo e envolveu-o com suas asas.

— Quem é… você? — Sua voz falhada parecia distante e distinta.

— Você não precisa saber quem sou, só o que sou. Quanto a isso, acho que você já imagina. — Colocando sua cabeça sobre seu colo, ela fitou seus olhos. Hildr olhou através da brecha de seu capacete e conseguiu enxergar olhos verdes como uma esmeralda.

— Val… quíria… Mas as lendas diziam que vocês estavam mortas…

— Você não tem o que é necessário para saber da verdade… Eu vim levá-lo ao Folkvangr sob ordens de Freya.

— Folkvangr? E Valhalla?

A valquíria se manteve em silêncio. Sua expressão mudou levemente. Ela parecia desconfortável com a pergunta do homem humano. Hildr fechou os olhos e suspirou profundamente. Um complexo sentimento melancólico tomou conta de seu ser. Em seguida, respondeu: — Pois bem, leve-me.

A mulher alada retirou uma pequena garrafa da cintura, removeu sua rolha e a colocou na boca de Hildr. — Beba. — Sem pestanejar, bebeu. Ele jamais havia provado bebida tão forte e doce ao mesmo tempo.

Gradativamente seus sentidos começaram a voltar e ele pôde se sentar. — Sua alma está livre deste mundo. Abrace-me e o levarei aos campos de Folkvangr. — Disse a valquíria, estendo-lhe a mão.

Hildr pegou em sua mão e abraçou-a. — Posso pedir um favor?

— Não. — Abrindo suas colossais asas, ela se preparou para alçar voo.

— Meu filho… Ele é só um garoto… Salve-o, por favor.

— Minha ocupação é somente para com os mortos. Se ele morrer e Freyja desejar tê-lo, eu buscarei seu filho. Agora ocupe-se de você mesmo. — A valquíria ergueu sua cabeça e olhou para o alto. O céu então se abriu e ela voou para dentro de uma fenda. — Desculpe, Magn…

— Hverr nu? — Ao lado do cadáver de Hildr. Cerca de vinte draugrs encaravam o vilarejo de Soltinnber que, devido às festividades, era como uma estrela em meio aos campos escuros. O arqueiro que havia disparado a flecha retirou uma faca que estava cravada em sua nuca e decepou a cabeça do homem aos seus pés. Como se fosse uma fruta, começou a comê-la. O som de ossos sendo triturados estalavam.

— Vig allr… — Disse o draugr lanceiro, apontando sua lança na direção do vilarejo.

Ao redor de uma fogueira, dezenas de camponeses dançavam, cantarolavam, bebiam e preparavam alimentos. Eles agradeciam à fartura provida pela runa oriunda da volur que surgira em Soltinnber há quinze anos. Graças à ela, fome nunca mais havia sido um problema.

Um grupo de jovens moças balançavam-se animadamente enquanto circulavam entre os camponeses. Todas elas utilizavam belas grinaldas. Uma em especial ostentava uma exuberante flor vermelha.

— Alffinna é a garota mais bonita de Soltinnber! — Um jovem rapaz cutucou seu amigo que estava ao lado. Ele inclinou-se para se aproximar do ouvido de seu amigo e sussurrou: — Eu ainda vou fazê-la minha mulher.

— Você está sonhando! Todo mundo sabe que ela só tem olhos para o Magn. — Rebateu seu amigo. Tirando-o de seus devaneios.

— Magnbjorn isso, Magnbjorn aquilo… Ele não é um de nós! — O rapaz cruzou os braços e enrugou sua testa. Ele estava visivelmente irritado.

— É graças a ele que podemos celebrar hoje. Se não fosse a volur que o trouxe, provavelmente você não estaria falando estas besteiras com a boca cheia de comida! — Seu amigo se levantou e foi encher seu copo com vinho.

— Staki, o que está te incomodando? — Uma moça sentou-se ao seu lado. Ela possuía cabelos loiros até os ombros e belos olhos cinzentos. Além disso, era alta e corpulenta. Seu rosto tinha traços selvagens em razão de sua boca carnuda, sobrancelhas afiadas e olhos com formato similar aos felinos.

— Não foi nada, Viborgr… Vou dar uma volta. — Staki levantou-se e foi na direção dos portões, pois sua casa ficava próxima. Em momentos de stress, ele gostava de assistir às estrelas deitado sobre seu telhado. Após chegar, sentou-se e posicionou sua caneca ao seu lado. — Maldito sortudo… Forte e tendo o amor de Alffinna… Argh! Droga! — Staki passou a mão no recipiente e deu um talagaço. Subitamente, algo atingiu sua caneca e jogou-a para longe, fazendo um pouco do vinho virar sobre ele. — Mas que merda! Quem fez iss… o… — Staki olhou para o horizonte e enxergou inúmeros indivíduos azulados e levemente cintilantes a caminho de Soltinnber. — Inimigos?... Merda! — Após pular de seu telhado, correu até as torres onde ficavam os soldados responsáveis pela defesa do portão e por avisar os cidadãos acerca de perigos. Em sua cabeça, talvez os guardas não tivessem os visto.

— Ei! Há inimigos se aproximando! — Gritou Staki enquanto batia palmas. Todavia, ninguém respondeu. Furioso, pensava que talvez os guardas pudessem ter exagerado na bebida e dormido quando deviam estar de prontidão. — Será que dormiram? — Murmurou ele. Em seguida, fechou a cara e gritou: — Se eu tiver que acordá-los, vocês vão se ver com o guardião! É uma situação de risco!

No entanto, não houve resposta. Sendo assim, decidiu ele mesmo subir e checar. — Bando de imprestáveis! Vocês estão pondo Soltinnber em perig… — Após subir a escada que dava acesso a uma das torres, Staki viu um dos guardas com uma flecha atravessada em seu peito. Imediatamente correu em auxílio.  — Céus… Vai ficar tudo bem! Eu vou levá-lo a Agmundr! Mas primeiro, me empreste sua trombeta. — Staki tomou o item do homem, inflou os pulmões e preparou-se para tocar. Isso, todavia, acabou sendo impossível, pois uma flecha passou por sua garganta. O rapaz instantaneamente foi ao chão enquanto banhava-se em seu próprio sangue.

— Allmikil… — Disse o draugr lanceiro enquanto se aproximava do vilarejo.

— Thokk… — Curvando-se, o draugr arqueiro demonstrou gratidão.

Um enorme draugr então surgiu. Ele era muito mais alto que os outros, possuía cerca de dois metros e sessenta. Ademais, era extremamente forte, apesar de ter todo seu corpo em estado de decomposição. — Vig borg… — O lanceiro apontou para o portão e o grande draugr assentiu positivamente. Em seguida, correu ao encontro dele e chocou-se contra, destruindo-o.

— Vocês ouviram isso? — Disse um jovem de média estatura, magro e careca. Ele segurava uma caneca de chifres.

— Isso o q… Ah! — A moça de grinalda vermelha teve sua fala interrompida por uma lança que perfurara sua cabeça. Sua morte instantânea provocou o silêncio de todos e foi sucedida por um pânico sem precedentes.

Aterrorizado, o jovem olhou para a direção de origem da lança. Ao descobrir o que havia atacado Alffinna, urinou-se e perdeu a força nas pernas tamanho o terror que sentira. Afinal, ele jamais havia visto mortos vivos guerreiros.

Por General Xin | 03/05/18 às 02:09 | Ação, Aventura, Fantasia, Mitologia, Violência, Maduro, Romance