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Capítulo 1.1 - A chuva

Artemísia (ART)

Capítulo 1.1 - A chuva

Autor: Francélia Pereira

O céu está escuro, mesmo sendo dia. A escuridão, causada pelas nuvens carregadas de chuva, é algo incomum nessa região de Apolo, pois Vênus é conhecido por ter o céu mais belo do Sistema, em seus longos dias, que duram, aproximadamente, dois meses terrestres, assim como suas noites.

Artemísia anda por uma rua calçada com pedras, que lembram os antigos paralelepípedos da Terra. Há lama em seus sapatos encharcados e suas roupas escuras, encardidas, sem estilo, escondem o seu gênero e a sua origem. Ninguém que a veja assim, com uma pequena manta sobre a cabeça, saberia dizer se é um menino ou uma menina, muito menos saberia dizer que ela é uma filha do famoso Clã, que vive isolado da população original de Vênus, atrás de grandes muros com portões dourados.

Mas Artemísia não anda em uma das ruas da imponente cidade do Clã, ela caminha por uma rua simples, perdida em uma das cidades do interior dessa região de Vênus, a única região habitada por humanos. Embora não tenha sido possível povoar todo o planeta, as cidades venusianas do interior, pequenas ilhas de populações humanas, abrigam corações cheios de esperança, diferente da cidade mais antiga do planeta, fora dos portões do Clã, onde há muitas luzes, muita riqueza concentrada e muita miséria escondida.

A chuva continua caindo forte. Artemísia para e espirra. Uma jovem, de aproximadamente vinte anos, sorri e se aproxima da menina.

─ Ei, mocinha! O que faz perdida nessa chuva? Vai adoecer... ─ A jovem olha para Artemísia, que a olha de volta, mas não diz uma palavra. A moça fica séria. ─ Ei! Você é órfã? ─ Artemísia abaixa a cabeça e segue andando, em passos rápidos. ─ Droga! ─ A jovem vai atrás da menina.

Um soldado do Governo vê Artemísia sozinha e vai até ela.

─ Criança! Onde estão os seus pais? ─ O soldado não recebe resposta.

─ Ela é minha irmã! Deixa ela em paz. ─ A jovem misteriosa diz. O soldado olha para ela, desconfiado, mas decide ignorar a situação, prefere ir embora sem dizer mais nada.

─ Obrigada!

─ Por nada, maninha! ─ A bela jovem sorri. ─ E, a propósito, sou Dandara. ─ Artemísia sorri. ─ Venha, você precisa de uma cama quentinha e algo pra comer.

Dandara usa uma calça preta, colada no corpo, botas longas, sem salto, e uma blusa curta, escura, também colada no corpo, com decote sensual e alças de largura média, com uma espécie de ombreiras. Ela carrega sempre seu triendy preso ao cinto. Ela tem uma postura muito firme e decidida, parece uma líder nata. Os cabelos de Dandara são longos, com pequenas tranças, bem rente ao couro cabeludo, que desenham formas incríveis em sua cabeça. As tranças são presas e jogadas sobre o ombro esquerdo, caindo, juntas, para a frente.

Na casa de Dandara, enquanto come, Artemísia admira a jovem à sua frente.

─ O que foi, Artemísia?

─ Lá na rua, na chuva, como você descobriu que sou uma menina? ─ Artemísia questiona, enquanto toma mais da sopa na tigela, que ela segura com as duas mãos. Dandara se levanta da cadeira, se aproxima de Artemísia e se abaixa, olhando nos olhos dela.

─ Só meninas são tolas o suficiente pra enfrentar perigos desnecessários, como andar sob uma tempestade aqui, em Abaeté! ─ As duas riem. Alguém bate na porta da cozinha. Dandara fica preocupada. ─ Espere aqui.

Antes que que a guerreira chegue até a porta, alguém a abre com um pontapé. Um vento forte invade a cozinha, junto com a chuva, então, outra jovem entra, enfurecida.

─ Por Apolo! Quantas vezes já pedi pra não trancar essa maldita porta? Sabe que sempre esqueço os códigos da porta da frente e essa tempestade tá me congelando...

─ Seja mais educada, Yby! Não vê que temos uma convidada? ─ As duas jovens guerreiras olham para Artemísia, que está assustada, sentada à mesa; um pouco de sopa escorre pelo queixo dela.

─ Mocinha linda, seja bem-vinda! ─ Yby fecha a porta. ─ Não se assuste com meu jeito grosseiro, é que minha família nunca me ensinou bons modos. ─ A guerreira vai se aproximando de Artemísia. ─ Mas não se preocupe. ─ Ela se aproxima, de uma vez, do rosto da menina. ─ Eu não mordo! ─ Yby mostra os dentes, intimidando Artemísia. A menina se assusta, a líder da Casa solta uma gargalhada.

─ Yby! ─ Dandara chama a atenção da guerreira.

─ Ah! Deixa de ser ridícula, Dandara... você sabe que gosto das novatas. ─ Yby pega uma fruta e senta sobre a mesa, apoiando um dos pés em uma cadeira. ─ Qual é o seu nome, mocinha?

Artemísia olha para Dandara, que lhe faz um sinal positivo com a cabeça.

─ Artemísia!

─ Artemísia? Nome diferente... Sou Yby e serei sua guardiã. ─ A jovem guerreira, com um salto, se afasta da mesa, depois segue para as escadas que levam ao segundo andar.

─ Guradiã?

─ Sim! Parece que você agora é parte da família.

─ Família? ─ Artemísia questiona. Uma menina se aproxima, sonolenta, depois mais duas, e mais uma... De repente, a cozinha fica cheia de adolescentes se espreguiçando e procurando algo para comer.

─ Mais uma novata, Dandara? ─ Uma das adolescentes pergunta.

─ Sim! Essa é Artemísia, a nova discípula de Yby. ─ Algumas meninas reclamam.

─ Como assim? Estou aqui há mais de dois anos e Yby sempre me diz que ainda não estou preparada pras lições que ela tem pra ensinar... ─ Uma adolescente loira, alta e forte, diz, enfurecida. Dandara sorri.

─ Parece que a nossa nova irmãzinha tem algo especial... ─ Dandara comenta. ─ E, a propósito, qual a sua idade?

─ Dez! Faço onze mês que vem...

─ Quando terminar sua refeição, Petra vai te levar até o quarto das novatas. ─ Petra, a jovem alta e forte, faz uma expressão de reprovação, enquanto se senta para comer. ─ Agora, vou descansar, meninas! Se comportem... ─ Dandara sobe as escadas.

Uma menina, tão jovem quanto Artemísia, se senta ao lado dela.

─ Oi! Sou Kiki... não se preocupe com a Petra, ela tem cara feia mas é leal, como todas nós. Você vai gostar daqui. Temos uma casa, comida, proteção... enfim, somos uma família! ─ Kiki sorri.

─ E de onde vem os créditos pra manter tudo isso?

─ Ora! De onde mais? Não vê que somos todas guerreiras? ─ Kiki mostra um punhal em sua cintura.

─ Vocês são merce... ─ Antes que Artemísia complete a frase, Petra a interrompe, dando um soco na mesa.

─ Somos GUERREIRAS, e é isso que você será também. ─ Petra volta a comer.

Por ScryzZ | 26/02/18 às 11:23 | Ficção Cientifica, Ação, Protagonismo Feminino, Fantasia, Brasileira, Poder, Drama