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Capítulo 1.2 - Escolhas

Artemísia (ART)

Capítulo 1.2 - Escolhas

Autor: Francélia Pereira

No templo do antigo mestre Ybytuura, Jove aguarda por Andyrá, o atual mestre do templo e também seu grande amigo. Um dos discípulos indicou o jardim a Jove, pois ele mantinha um clima agradável àquela hora em Marte.

Enquanto espera pelo mestre do templo, Jove se senta debaixo da bela cerejeira no jardim. Ele coloca sua espada no chão, ao seu lado, enquanto medita.

Andyrá se aproxima e se senta do lado de Jove. que continua com os olhos fechados.

─ Quando você me falou, há alguns anos, que eu teria uma filha e que um dia deveria escolher entre ela e o Clã, não pude deixar de lembrar de suas palavras quando a peguei nos braços, assim que nasceu, e pude me ver nos olhos dela. O amor que ela despertou em mim me fez duvidar da sua profecia, mas ela se cumpriu e eu não estava pronto para poder escolher... ─ Jove diz, ainda sentado ao pé da cerejeira e com os olhos fechados.

─ Meu caro Jove, independente da sua vontade, a escolha foi feita e o destino da sua Artemísia agora está selado, não há volta. ─ Andyrá fala serenamente.

─ Então a menina ainda vive? ─ Jove abre os olhos e os direciona ao amigo.

─ Sim, ela vive... mas você nunca mais poderá se encontrar com ela.

─ Não há motivo para que eu não possa vê-la... A mãe da menina tirou a própria vida, seu corpo foi levado para a cidade do Clã. Diante dessa tragédia, forjei a morte de Artemísia para que o Conselho não a perseguisse. Ninguém sabe que minha filha ainda vive. ─ Andyrá se aproxima do amigo, se abaixa e põe sua mão direita sobre o ombro dele.

─ Entenda, meu amigo, se você entrar em contato com Artemísia, agora, todo o destino dela estará comprometido. ─ Jove fica sério.

─ Posso ao menos saber que destino é esse?

─ O destino dela é a Eternidade. Não o tipo de eternidade almejada pelos mortais, mas o tipo de eternidade que somente os deuses conhecem.  ─ Andyrá olha nos olhos do amigo, como se quisesse dizer algo além das palavras. Jove fica pensativo, como se tivesse compreendido a mensagem oculta do mestre.

─ Sempre fui muito frio e distante com ela. Carrego uma tristeza muito grande por saber que ela jamais entenderá o quanto a amo... ─ Jove sente pesar. Andyrá olha para a espada no chão.

─ Me dê sua espada. ─ O mestre se levanta. Jove pega a espada, se levanta e a entrega para o amigo.

Andyrá ergue a espada e diz palavras em um idioma antigo. A espada parece absorver os raios do Sol, junto de uma parte da energia vital de Jove. Após alguns instantes, o mestre fica em silêncio, abaixa a espada, suavemente, e a devolve para o amigo.

─ Tome. Vai chegar o dia em que você deverá entregar essa espada para Artemísia, mas ela não poderá te ver.

─ Essa espada só levará dor para Artemísia, pois foi por tocá-la que ela se tornou sozinha nesse mundo. ─ O filho do Clã se entristece, se lembrando do dia em que viu a filha erguendo a Espada Ancestral de sua família, na sala sagrada em sua casa.

─ Não. Essa espada revelará a verdade à sua filha e, no momento certo, libertará Artemísia de todo o sofrimento que ela acumulará em sua vida. E não se preocupe, ela saberá o quanto o pai dela a amou. ─ Andyrá sorri, inspirando paz.

─ Um dia a verei novamente?

─ Sim. Mas ela não poderá te ver, nunca, entendeu? ─ Jove faz sinal positivo com a cabeça.

─ E quando a verei?

─ Quando o destino permitir... até lá, ele a esconderá de você.

─ Você sabe onde ela está?

─ Não. Só sei que ela está bem e que encontrou quem cuide dela e a ensine tudo o que precisa para sobreviver até que chegue à vida adulta. ─ Os olhos de Jove se enchem de lágrimas. ─ Somente as escolhas que nos levam a uma melhor compreensão de quem somos, ou seja, as escolhas sinceras, que fazemos com o coração, não nos causam arrependimento, meu nobre amigo... todas as demais só geram frustração e dúvidas, para toda a vida.

─ Quem nasce no Clã não tem o direito de fazer escolhas, somente seguimos as tradições. Quem ousa ouvir o coração geralmente é punido severamente.

─ Creio que nenhuma punição é mais severa que a da consciência, caro Jove. Mas compreendo sua condição e espero que no seu Clã lhe tenham ensinado a conviver com as consequências das escolhas feitas em nome das tradições, pois é tudo o que você tem agora. ─ Um jovem discípulo chama por Andyrá. ─ Tenho que ir. Pode ficar no templo o quanto precisar... Até breve! ─ O mestre se despede do amigo se inclinando um pouco, em sinal de respeito, Jove faz o mesmo, depois volta a meditar sob a sombra da cerejeira.

Na casa das jovens guerreiras, em Vênus, mais um ciclo Os humanos preservaram os costumes de seu planeta original. Cada ciclo representa 24 horas terrestres, que funcionam como dia e noite, na Terra. Isso organiza as sociedades humanas espalhadas por Apolo, para que definam seus horários para dormir e despertar, já que em certas regiões os períodos de dia, em que há incidência direta da Luz solar, e noite, onde há escuridão, não coincidem com os dias e noites na Terra, como é o caso de Vênus. começa. As meninas mais jovens estão no quintal, preparando tudo para o desjejum. Artemísia e Kiki ficaram responsáveis por buscar os ovos na granja, onde havia aves que lembravam as antigas galinhas da Terra.

─ Vai beeeeem devagar... se essas aves acordarem, ficaremos sem ovos no desjejum e Petra vai nos castigar. ─ Kiki fala, quase sussurrando, enquanto as meninas entram em uma casinha que lembra um galinheiro, mas bem maior. As aves ainda dormem. Os ovos ficam em ninhos próximos a elas.

Kiki carrega um cesto e começa a enchê-lo com ovos, Artemísia faz o mesmo, observando aquelas aves grandes, algumas quase do tamanho dela. Quando os cestos então cheios, Kiki faz sinal para que as duas saiam do lugar. As meninas saem nas pontas dos pés.

Já do lado de fora da casinha, Artemísia sorri para Kiki, mas antes que a menina possa sorrir de volta é interrompida por um espirro. Artemísia se assusta, as aves acordam fazendo muito barulho.

─ Coooorre!!!! ─ Kiki corre à frente, desesperada. Artemísia corre também, mas uma ave vem em sua direção.

Artemísia grita e quase não vê quando uma das meninas surge, instantaneamente, perto dela e leva o cesto com os ovos. Antes que a ave atropele Artemísia, Petra atravessa o animal com sua espada e joga a menina para outra garota, que está do lado de fora do cercado da granja. Petra acalma as aves e as leva para o outro lado, para se alimentarem, depois retorna e pede a algumas meninas que cuidem da ave morta.

─ Preparem a carne dela pro almoço. ─ Petra diz a três meninas, depois segue até Artemísia, que assistia a tudo. ─ E você, novatinha... vá ajudar Kiki com os ovos, lá na cozinha. ─ Petra faz sinal com a cabeça para a outra guerreira, para que ela entregue o cesto com os ovos para Artemísia. ─ Vamos, suas molengas... temos muito o que fazer hoje! ─ A guerreira fala de forma firme.

Artemísia alcança Kiki na entrada da cozinha.

─ Petra acha que a culpa foi minha... ─ A menina se irrita.

─ Não se preocupe, Petra está com ciúmes de você porque Yby será sua guardiã, só isso.

─ Por isso ela tá tão irritada, hoje?

─ Não. Petra tá irritada porque foi sorteada pra cuidar da casa enquanto as irmãs mais velhas saíram em missão.

─ Missão.... ─ Artemísia não completa a frase.

─ Sim... missão mercenária. A partir dos dezesseis anos todas vamos para as missões, até lá, ficamos aqui, tomamos conta da casa e somos treinadas a partir dos treze. Sempre que há missões, as mais velhas sorteiam quem ficará por aqui, pra que tudo fique em ordem e pra cuidar da proteção da casa. Essa missão, pra qual as irmãs foram, é uma missão bem perigosa, em uma base de mineração perto do nosso planeta... Petra queria muito ir, segundo ela, pra provar seu valor, mas, na verdade, ela queria provar pra Yby que pode ser discípula dela, enfim... ─ Artemísia fica pensativa.

─ Meu pai também era mercenário... ─ Artemísia comenta com tristeza. Os olhos de Kiki brilham.

─ Era um grande guerreiro? Qual era a Casa dele?

─ Ele era... era de um grupo diferente... só de homens. ─ Artemísia fica incomodada com o assunto e começa a tirar os ovos do cesto e colocá-los em uma tigela. Kiki percebe o constrangimento da amiga e tenta mudar o foco da conversa.

─ Aqui também só tem mulheres... ─ Kiki sorri.

─ É verdade! ─ Artemísia sorri. ─ E por que só há mulheres nessa casa?

─ Isso é coisa da Yby. O que sei é que ela e Dandara faziam parte da mesma casa de mercenários, a maioria deles eram órfãos, como por aqui, mas lá havia homens e mulheres. Após uma missão, Yby decidiu visitar a Terra e, lá, parece que ela se encontrou com um grupo estranho, só de homens, que foi responsável pela morte de sua mãe...

─ Os homens mataram a mãe dela?

─ Pelo que entendi, sim... A mãe de Yby fazia parte de um grupo que acreditava ser descendente de uma Nação muito antiga, só de mulheres. Essas mulheres eram guerreiras muito temidas em seu tempo e tinha uma lenda aí que não me lembro, só sei que elas eram importantes e o grupo do qual a mãe de Yby fazia parte morreu por acreditar nessa lenda... e quando ela voltou da Terra, decidiu honrar a memória da mãe criando uma Casa de mercenárias. Como Dandara era sua melhor amiga, ela a ajudou nisso.

─ Que história! ─ Kiki balança a cabeça para cima e para baixo, concordando. ─ E por que Yby me escolheu pra ser discípula dela?

─ Vocês duas têm traços físicos semelhantes, talvez ela veja em você uma descendente dessas guerreiras antigas, sei lá... ─ Kiki coloca alguns ovos em uma panela grande, cheia de água. ─ Vamos logo preparar esses ovos antes que Petra fique mais brava ainda...

Artemísia olha pela porta da cozinha e vê Petra, um pouco distante, dando ordens, irritada.

Por ScryzZ | 26/02/18 às 11:24 | Ficção Cientifica, Ação, Protagonismo Feminino, Fantasia, Brasileira, Poder, Drama