CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 1.3 - Centauro

Artemísia (ART)

Capítulo 1.3 - Centauro

Autor: Francélia Pereira

Uma mercenária entra no quarto de Dandara, que decidiu cochilar até que a nave chegasse ao seu destino.

─ Dandara... Centauro não quer dar permissão pra que a gente pouse. ─ A segunda capitã da nave tira o manto que cobre o seu rosto.

─ Onde está Yby?

─ Yby já está na base. Ela chegou antes de nós. Pegou uma das naves de ataque e...

─ Tá, tá, tá... ─ A guerreira se levanta. ─ Vamos logo resolver isso.

Dandara segue, bocejando e se espreguiçando, até a sala de controle da nave Atlântida. Ela se senta na cadeira de comando.

─ Aqui é Dandara. Solicito permissão para aportar com a Atlântida imediatamente. ─ A mercenária está sonolenta e esfregando o rosto.

─ Permissão negada. ─ Uma voz masculina responde.

─ Chame seu superior, rapaz, e não me faça perder mais tempo.

─ Eu sou o líder da rebelião em Centauro. Nenhuma nave mercenária vai pousar aqui. ─ O homem diz, irritado.

─ Droga! ─ Dandara dá um soco na mesa de controles. – Vamos pousar de qualquer jeito.

─ Hahahaha... isso eu quero v.... ─ A voz do homem é interrompida. São ouvidos alguns gritos, então a comunicação é reestabelecida.

─ Podem pousar...  e venham logo, esses rebeldes são muito chatos, não tô com paciência pra matar tanta gente insuportável sozinha. ─ Yby fala da base.

─ Já estamos a caminho. ─ Dandara responde sorrindo.

Desde que a humanidade migrou para o Espaço eram frequentes as rebeliões por todo o Sistema Solar, que ficou conhecido como Sistema Apolo.

Grande parte da população pertencia à classe média e essa classe vivia relativamente bem, em planetas como Marte e Vênus ou nos satélites naturais, como Europa, de Júpiter, e Titã, de Saturno.

Mas a classe mais baixa padecia nas bases artificiais de exploração de recursos naturais, pequenos planetas artificiais, onde trabalhadores viviam de forma precária. Nessas bases, os conflitos e rebeliões eram mais frequentes que nas demais regiões e as tropas do Governo não conseguiam lidar, sozinhas, com tanta gente insatisfeita, assim, os grupos de mercenários sempre eram requisitados para resolver tais conflitos.

Os maiores conflitos, geralmente, eram resolvidos pelo Clã, que já tinha tradição em missões mercenárias, desde o tempo em que a humanidade ainda vivia na Terra. O Clã era chamado diretamente pelo Governo para resolver esses conflitos mais complexos, que geravam mais lucro. Os grupos menores de mercenários ficavam com os conflitos menos significantes, que geravam lucro menor, assim, não era raro o confronto entre grupos do Clã e demais grupos de mercenários que tentavam se sobressair.

Havia outras missões também, missões que não atendiam as necessidades do Governo ou de grupos politicamente corretos. Eram missões lideradas por piratas, que tentavam roubar as rotas dos Comerciantes Tradicionais de Apolo ou missões lideradas por conspiradores, que tentavam tomar o poder em algum planeta. O Clã não aceitava esse tipo de missão, devido aos seus acordos com o Governo, e os grupos menores só as aceitavam se lhes trouxessem muitas vantagens, pois o risco de prisão ou banimento do Sistema era muito grande.

O risco de morte não assustava nenhum mercenário, seja do Clã ou não, então, o Governo não perdia tempo com penas de morte para tais guerreiros. Mas a prisão ou o banimento eram riscos que nenhum deles queria correr em troca de pagamentos comuns.

A missão na base Centauro foi uma oferta do ministro responsável pelas bases nos arredores de Vênus. Ele deu preferência para grupos mercenários locais. Yby nem pensou muito para aceitá-la.

A Atlântida pousa. No porto ainda há muita confusão. Alguns grupos mercenários já estavam no local. O líder da casa de Kûara se aproxima para conversar com Dandara.

─ Como está a situação, Kamikia?

─ Yby liderou um grupo até a sala de controle do porto, mas lá só havia drogados. Ainda não encontramos os líderes da rebelião... se é que esse caos tem algum tipo de líder. ─ Os dois riem.

─ Vocês já foram até o prédio do Ministro?

─ Sim. Os rebeldes já tomaram toda a base... os homens do Governo não estão mais aqui desde que o Ministro desse setor nos convocou. ─ O guerreiro chama por outro mercenário. ─ Malik tem uma teoria... ─ Kamika comenta, enquanto Malik se aproxima.

─ Acredito que os líderes estão nos esgotos. ─ Malik diz.

─ Putz! Justo nos esgotos? ─ Dandara faz cara de nojo.

─ Ei... não fique assim. Vai ser divertido! ─ Kamika passa o braço por trás dos ombros de Dandara. Os dois seguem à frente, abraçados, Malik vai de encontro às demais mercenárias, que descem da Atlântida, para lhes informar os detalhes da missão.

As bases de exploração não são muito limpas na superfície, nelas há sempre mal cheiro e sujeira por toda parte. Nos esgotos, além dos dejetos e do cheiro insuportável, há também pequenos animais peçonhentos, alguns deles são mortais, pois atacam com ácidos que causam efeitos terríveis no corpo humano, como a paralisia total, infecção no sangue ou queimaduras irreparáveis.

─ É muito injusto... enquanto estamos nesse lugar horrível, Yby se diverte com sua espada na superfície. ─ Dandara comenta, enquanto anda devagar pela galeria no esgoto.

─ Pare de reclamar e concentre-se em encontrar esses líderes rebeldes, assim poderemos sair logo daqui. ─ Kamikia diz.

Nos esgotos, os mercenários usam roupas especiais, incluindo um capacete para respirar, ter boa visão no escuro e se proteger do ataque de animais perigosos.

─ Malik! ─ Dandara chama pelo guerreiro, enquanto olha para os dois túneis à sua frente.

─ Vamos pela esquerda. ─ Malik observa o mapa no visor holográfico gerado por seu bracelete. ─ Há movimentação bem perto, acredito que sejam eles.

─ Ou é só a bela fauna dos esgotos... ─ Kamikia sorri. Malik balança a cabeça em sinal de reprovação para o tom debochado do amigo.

─ Vamos logo. ─ Dandara segue à frente do grupo, segurando uma arma a laser.

Após andar um pouco, o grupo chega bem perto do local indicado no mapa de Malik, e todos se movimentam discretamente.

─ Vejam! Uma escada... ─ Dandara diz, sussurrando. Malik faz sinal para o grupo seguir adiante. Kamikia pede para ser o primeiro a subir as escadas feitas de metal cravado na parede. Elas levam para dentro de um túnel estreito.

Um a um os mercenários vão subindo as escadas dentro do túnel. Kamikia chega ao final dele e percebe que está em uma sala bem pequena. Ele vê uma porta à sua frente, então espera mais pessoas do grupo subirem antes de abri-la. Dandara fica apreensiva.

─ Eles já devem saber que estamos aqui. ─ Dandara olha para um ponto luminoso azul, no alto da parede onde está a porta.

─ Vamos logo, então. ─ Kamikia chuta a porta, com a ajuda de Malik, e joga uma bomba de gás dentro da sala. Vários tiros são disparados de dentro. Quando os tiros param, os mercenários entram.

─ Não há ninguém aqui. ─ Dandara comenta.

─ Vejam! ─ Malik diz. Todos seguem para uma porta entreaberta.

Kamikia é o primeiro a passar pela porta, alguém o derruba com uma barra de metal e foge. Dandara passa por cima de Kamikia e acerta a perna do fugitivo, que cai no chão. A mercenária se aproxima dele.

─ Onde estão os outros? ─ Dandara pergunta.

Malik não espera a resposta do homem, segue para um buraco à esquerda e pula nele, sem pensar duas vezes. Outros mercenários o seguem. Ao cair, Malik está novamente sobre os dejetos dos esgotos. Ele vê um vulto à direita. Mais cinco mercenários caem do buraco e o acompanham.

Um grito é ouvido. Os mercenários se apressam, então veem um homem, paralisado no chão, sendo atacado por um aracnídeo de aproximadamente trinta centímetros. Malik acerta o animal com um tiro de laser, depois olha em seu mapa. Não há ninguém por perto. O mercenário decide retornar para o local onde os rebeldes estavam.

Após vasculharem o esconderijo nos esgotos, o grupo liderado por Dandara e Kamikia retorna para a superfície. Eles levam o prisioneiro até o porto, onde Yby os aguardava.

Yby conseguiu as informações que precisavam, com o homem que Dandara mobilizou nos esgotos, e os mercenários capturaram todos os líderes rebeldes. Após prenderem os líderes, Kamikia entrou em contato com o Ministro, representando os mercenários. Tropas do Governo foram enviadas para impor a ordem na base novamente. Os líderes rebeldes foram levados para uma base prisional, onde aguardariam julgamento em regime fechado. Os trabalhadores retomaram seus postos e os mercenários foram liberados, após receberem o pagamento. Toda a missão levou dois dias.

─ Nem acredito que vamos pra casa! ─ Dandara diz, na nave.

─ Quem disse que iremos pra casa? ─ Yby comenta. ─ A governadora de Europa solicitou nossa presença por lá.

─ Europa?

─ Sim. Descansem, meninas... temos uma longa viagem pela frente. ─ Dandara dá de ombros.

 

Na Casa de Yby as meninas treinam na arena. Artemísia está na arquibancada e assiste ao treino, na companhia silenciosa de outras duas novatas. Petra se aproxima, irritada, passa pela arquibancada e segue até o centro da arena.

─ A Atlântida retornará daqui a três semanas. ─ Petra informa.

─ Mas não chegariam hoje? ─ Naomi, uma das generais, pergunta.

─ Sim. Dandara informou que houve uma alteração de última hora na rota. ─ Petra mantém seu perfil sério. ─ Continuem com os treinos.  No próximo ciclo as novatas irão ao mercado. Elas terão que esperar o retorno de Yby e Dandara para indicar lições a elas, enquanto isso... ─ Petra olha para Artemísia. ─ elas serão úteis de alguma forma. ─ Artemísia olha de volta para Petra enquanto ela sai da arena.

Quando Petra já está fora da arena, Artemísia volta a observar as jovens guerreiras em treinamento. Ela se lembra de como era a vida no Clã e percebe que o mundo em que cresceu era totalmente diferente do mundo fora dos portões dourados de sua cidade natal.

Artemísia se lembra do dia em que entrou na sala sagrada de sua família e ousou empunhar a Espada Ancestral; os gritos de seu pai e as maldições proferidas por ele ainda ecoavam dentro da cabeça da menina. Uma mágoa profunda toma conta do coração dela e uma semente de ódio começa a brotar em seu peito.

Por ScryzZ | 26/02/18 às 11:30 | Ficção Cientifica, Ação, Protagonismo Feminino, Fantasia, Brasileira, Poder, Drama