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Capítulo 1.8 - Nas ruas

Artemísia (ART)

Capítulo 1.8 - Nas ruas

Autor: Francélia Pereira

O motivo que levou Kamikia a convocar uma reunião com os líderes das Casas era um grande segredo do governo de Vênus. Segundo um dos cientistas do governo venusiano, que paga uma dívida com Kamikia compartilhando com ele informações importantes, um número restrito de ministros e cientistas estavam alarmados com a notícia de que Vênus entraria em colapso em poucos anos terrestres, talvez o planeta ainda se sustentasse relativamente estável por mais algumas décadas, mas não mais que isso. A razão dessa tragédia era o crescimento desordenado das cidades venusianas, que dificultava o controle artificial das condições naturais do planeta.

A atmosfera atual do planeta é mantida à base de tecnologia humana, pois Vênus já havia se tornado inabitável há milhões de anos, desde que a vida abandonou o planeta pela primeira vez. Foi após as catástrofes na Terra que a Natureza de Vênus foi domada por um grupo de bravos cientistas, mas para que o planeta permanecesse estável, até que estivesse pronto para abrigar a humanidade em toda a sua extensão, seria necessário um controle rigoroso do crescimento das cidades. Mas, ao longo das gerações, os governos locais foram perdendo o controle do crescimento de sua população, pois já haviam se acostumado com a instabilidade do planeta e o risco de Vênus entrar em colapso não parecia uma ameaça real.

Agora, os cientistas tinham poucos anos para manter Vênus habitável. Mas essa informação não poderia se espalhar, pois seria um grande problema encontrar um novo lar para tantas pessoas. Todas as demais regiões em Apolo já haviam chegado ao seu limite populacional.

Kamikia decidiu marcar a reunião para que os líderes discutissem o destino de suas Casas.

─ E o que vocês decidiram? ─ Dandara pergunta, em uma das salas da casa.

─ Nada. ─ Yby responde, desanimada.

─ Nada! Se o planeta vai... ─ Dandara fala, indignada, mas é interrompida por Yby, quando uma das meninas passa pela sala.

─ Venha... vamos conversar lá fora. ─ Yby sai pela porta que dá acesso ao jardim de entrada da casa, Dandara a segue. As duas conversam sobre o futuro das Casas e sobre a necessidade de convocar uma reunião para definir as manobras para a batalha contra Dionísio, no Cinturão de Asteroides.

Artemísia está brincando com Kiki e outras novatas nas árvores. Ao saltar de uma árvore para outra ela vê, ao longe, Dandara gesticulando muito ao conversar com a líder da Casa. Kiki pula no tronco onde está Artemísia.

─ Parece que algo sério aconteceu na reunião... nunca vi Dandara brava desse jeito. ─ Kiki comenta, Artemísia fica pensativa. Outra menina pula no galho também. ─ Ei! O galho não vai suportar tanto peso... vamos cair! ─ A ruivinha comenta, ao ouvir o galho rangendo. A outra menina ri.

─ Então vamos logo, se ficarmos paradas aqui, nossa equipe vai perder. ─ A menina que chegou por último diz e pula no galho da árvore à frente.

─ Venha... tenho certeza que depois Dandara te conta o que aconteceu... ─ Kiki diz e pula para a outra árvore. Artemísia faz o mesmo.

 

Após o descanso, depois do almoço, o treinamento de Artemísia continua. O desempenho da menina segue impressionando a todos, o que leva a fama dela se espalhar por Apolo.

A razão pela qual Artemísia aprende rápido as lições foi o treinamento de cinco meses que teve, sem saber, com guerreiras da Casa de Heitor, um jovem desertor do Clã.

O treinamento da Casa de Heitor é severo. Ele abandonou o Clã, mas ainda carrega muito do patriarcado, então, só aceita mulheres em sua Casa após sobreviverem às duras lições da vida nas ruas. Esse período é orientado por alguns de seus generais, que se passam por ladrões.

O encontro de Artemísia com a Casa de Heitor aconteceu em um momento trágico em sua vida. Um grupo de meninas, em treinamento, passava pela rua do hotel onde Artemísia estava hospedada com sua mãe. As duas eram reféns de um grupo de sequestradores, elas eram bem tratadas, mas não podiam circular sozinhas pelas ruas. A mãe da menina temia que fossem vendidas como escravas, para alguém em outro planeta, e após tantos anos de submissão às tradições do Clã, ela já não conseguia mais viver fora dos grandes portões dourados. Aproveitando um momento de ausência do vigia, que havia recebido uma mensagem urgente de seu grupo para ir a algum lugar, a mãe de Artemísia decidiu tirar a própria vida.

 Ao ver o corpo da mãe pendurado no banheiro, Artemísia se desesperou e entrou em contato com a recepção do pequeno hotel. O dono do hotel chamou por soldados do Governo, para resolver a situação, pois não sabia que a mulher era membro do Clã, já que os sequestradores usaram identificações falsas para as duas.

Enquanto conversava com um soldado através da tela holográfica de seu comunicador, o dono do hotel mencionou que havia uma órfã por ali. Artemísia temeu por sua vida e por sua liberdade, ela não queria viver anos e anos dentro de um orfanato qualquer, assim, decidiu fugir.

Artemísia saiu apressada pela rua, então trombou em um grupo de meninas, eram as novatas da Casa de Heitor em treinamento. Elas perceberam o desespero da menina quando um veículo do Governo pousou em frente ao hotel e decidiram escondê-la. Mas após os soldados terem partido, as meninas não deixaram Artemísia seguir o seu caminho, sequestraram-na em um veículo roubado e prenderam um bracelete na menina, que indicava sua localização. Sem conseguir os códigos para abrir o bracelete, Artemísia se tornou refém.

Artemísia não sabia da existência das Casas de mercenários e não fazia ideia de que suas novas companhias eram mercenárias em treinamento, para ela, as meninas eram simples ladras de rua.

Por cinco meses, Artemísia teve que aprender a sobreviver nas ruas, sem lar, sem onde se esconder da chuva, dos ventos fortes, do frio que parecia congelar a alma à noite e teve que aprender a ouvir sua barriga roncar e ignorar a dor da fome.

Todas as meninas eram cruéis. Não se podia confiar em ninguém naquele grupo. Heitor era informado da evolução de cada uma e se interessava muito por Artemísia.

No quinto mês, Artemísia já era uma ladra e usou seus dons para roubar, de uma das meninas, o código que abria o bracelete. Ela escolheu a madrugada fria daquele período para fugir, colocou o bracelete na perna de um animal de rua e a Casa de Heitor não teve mais notícias dela.

Artemísia foi o mais longe que pôde da fronteira do Clã, e assim chegou em Abaeté.

Agora, na Casa de Yby, Artemísia tem a oportunidade de desenvolver os dons adquiridos nas ruas. O medo e o instinto de sobrevivência ainda são fortes na menina, o que a leva a se dedicar mais que as outras.

O tempo passa. Após um ano de treinamento, Artemísia já está pronta para participar de pequenas missões, mas como só tem doze anos terrestres, as regras das Casas de Vênus a impedem de se arriscar em batalhas. Mesmo assim, Artemísia já deixou de usar as antigas roupas de criança e agora se veste como uma jovem mercenária.

Por ScryzZ | 26/02/18 às 11:33 | Ficção Cientifica, Ação, Protagonismo Feminino, Fantasia, Brasileira, Poder, Drama