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Capítulo 2.3 - Regressão

Artemísia (ART)

Capítulo 2.3 - Regressão

Autor: Francélia Pereira

Enquanto medita, Malik recebe uma mensagem de Andyrá. O jovem mercenário se levanta, sai do seu quarto e segue por um longo corredor. Kamikia o encontra.

─ Ei! Pra onde vai com tanta pressa?

─ Meu tio... Me disse que preciso despertar a essência de Artemísia. ─ Malik diz, um pouco irritado.

─ Sei o que está pensando... “não sou babá de uma pirralha”. ─ O líder de Kûara fala em tom irônico.

─ Ei... não me irrita. Ela foi entregue aos seus cuidados, você que deveria...

─ Eu sei, e a treinaria com prazer, mas quem sou eu pra contrariar os “desígnios do destino”... seu tio é um dos sábios mais respeitados em Apolo, e o mais respeitado entre os mercenários, se ele escolheu você pra...

─ Tá! Já entendi... não precisa me lembrar disso toda hora.

─ E o que você vai fazer pra despertar a essência da Artemísia?

─ Ainda não... ─ Antes de completar a frase, Malik observa um quadro na parede. É uma imagem de alguém que se desconecta de sua consciência. ─ Regressão! Diga a Artemísia que a espero no dojo. ─ O mercenário sorri e segue pelo corredor.

No dojo, Malik aguarda Artemísia. Ela entra no grande salão e segue em direção ao seu novo mestre. Os dois se cumprimentam e se sentam de frente um para o outro.

─ Artemísia, você já fez regressão?

─ Regressão? Não sei... o que é isso?

─ Há muito tempo foi descoberto que nossas células funcionam como unidades de memória, elas carregam não somente as nossas memórias, mas, também, de todos os nossos ancestrais diretos. Assim, é possível recordar momentos vividos por ancestrais nossos, em qualquer época.

─ Puxa! Não sabia disso... realmente nunca fiz regressão. Parece incrível, mas qual a utilidade disso pro meu treinamento?

─ Digamos que há dons adormecidos em você e que precisamos despertá-los...

─ E não haveria outra forma?

─ Talvez, mas não tão eficiente quanto a regressão pode ser. ─ Artemísia fica preocupada e olha para o chão. ─ Você está com medo?

─ Não... ─ A jovem discípula responde com a voz trêmula. Malik sorri.

─ Melhor deixar pra outro dia, então... ─ O mercenário se levanta e se afasta, seguindo em direção às armas. Artemísia observa o mestre se afastando e teme parecer indigna de ser sua discípula. O medo era um sentimento vergonhoso para ela.

─ Não precisamos esperar por outro dia... ─ Malik para e sorri. ─ O que devo fazer? ─ O mestre se vira.

─ Venha! Iremos para o jardim!

Artemísia segue em frente. Malik abre uma das portas do dojo, que leva até o jardim da nova Casa de Kûara. Eles se sentam perto de uma pequena cachoeira artificial. O sábio mercenário pede que Artemísia feche os olhos e que se concentre no barulho da água caindo. Após Malik recitar alguns pequenos mantras, Artemísia entra em transe com facilidade.

─ Onde você está?

─ Estou em uma floresta... é tudo muito lindo! ─ Artemísia sorri.

─ Você está sozinha?

─ Sim.

Malik segura na mão de Artemísia e fecha os olhos. Sua consciência consegue seguir a consciência de sua discípula. Ele agora pode ver tudo que ela vê, mas ela não sabe que ele está por perto. Artemísia só ouve a voz do jovem mestre, que vai ficando cada vez mais distante, à medida que ela vai despertando em uma nova realidade.

─ Quando quiser regressar, diga o meu nome e eu te resgatarei!

Artemísia se torna consciente na floresta.

Um barulho assustador chama a atenção da menina, parece um animal feroz. A filha do Clã sobe em uma árvore para tentar ver de onde viria o barulho. Ela está nua, com pinturas espalhadas pelo corpo e usando adornos diversos. Em sua mão carrega um arco.

Ao longe, Artemísia vê um garoto correndo, ele parece assustado. A fera ruge novamente. Artemísia se movimenta através das árvores e segue até o garoto.

─ Cooooooorre, Kugooooo! O rio deve tá perto, agora... ─ O garoto diz ao seu amigo macaquinho, do outro lado do rio fica a aldeia dele. Os dois aceleram a corrida, mas, no lugar do rio, eles encontram um grande paredão de pedra. Os dois entram em pânico. O macaco desmaia.

A fera que os persegue é uma onça, uma enorme onça pintada. Quando percebe que suas vítimas estão acuadas, ela caminha lentamente. O garoto tenta escalar o paredão, mas escorrega. Ao ver a onça, seu coração dispara. Então ele respira fundo e decide encarar o inimigo.

─ Se vou morrer, morrerei lutando! ─ diz o menino.

Quando o garoto começa a se mover em direção à onça, uma chuva de mangas verdes cai sobre o animal. O garoto para, então vê flechas acertando as mangueiras que rodeiam a fera. A onça foge, enquanto mangas continuam caindo sobre ela. O macaquinho desperta, o menino olha para ele, Artemísia dá um salto e desce perto deles.

─ Venham... o rio que você citou fica aqui perto, mas se não corrermos logo, a onça pode voltar!

─ Icamiaba! ─ O garoto fica boquiaberto.

─ O quê?

─ Vo...vo...vo...cê, você é uma Icamiaba! Pensei que vocês não existissem... ─ O garoto fala como se estivesse diante de um ser mágico. Artemísia sorri.

─ Venham logo, não quero me tornar comida de onça. ─ A filha do Clã segue à frente. O garoto e o macaquinho vão junto.

Após andar um pouco, Artemísia para.

─ Ei! Me desculpe... qual é mesmo o seu nome?

─ Eu sou Bóia[1], e esse é o Kugo! ─ O macaquinho sobe no ombro do menino.

─ Prazer! Eu sou... ─ Artemísia vacila um pouco antes de dizer seu nome. ─ Eu sou uma guerreira Icamiaba! ─ A menina fala com orgulho.

Antes de continuar seguindo seu caminho pelo rio, a voz de Malik faz Artemísia regressar à Europa. Ela acorda suada e ofegante. O jovem mestre ainda segura sua mão.

─ Calma! Respire devagar... ─ Artemísia tenta controlar sua respiração. ─ Isso! Se acalme... ─ Malik observa os olhos de Artemísia. ─ Você sabe quem eu sou?

─ Malik!

─ Sim. Está se sentindo melhor?

─ Sim... Pode começar quando quiser.

Malik se preocupa.

─ Já terminamos, Artemísia... Você não se lembra de nada?

─ Não brinque comigo, Malik... acabamos de nos sentar aqui! ─ Artemísia fica confusa.

─ Hum... Olhe para o céu!

Artemísia olha para o céu, através da cúpula cristalina da cidade, e percebe que Io[2] não está mais lá. Ela fica pensativa.

─ O que aconteceu?

─ Você ficou em transe por várias horas... deixei você no passado o quanto foi possível, mas, se continuasse, correria o risco de sua consciência se perder pra sempre, por isso a despertei.

─ Mas não me lembro de nada... eu falhei, certo?

─ Não... você não falhou. Estive do seu lado e pude ver do que se trata seu destino. Mesmo não se lembrando, sua essência despertou nessa regressão. O que precisamos, agora, é fortalecê-la...

─ E qual é a minha essência?

Malik sorri e se levanta.

─ Vamos... precisamos nos alimentar.


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[1] Bóia e Kugo são personagens da obra A Lenda de Bóia, de Léo D. Andrade.

[2] Io é uma das luas de Júpiter e aparece no céu de Europa duas vezes por dia – um dia em Europa dura 3,5 dias da Terra.

Por FranHDC | 05/03/18 às 10:14 | Ficção Cientifica, Ação, Protagonismo Feminino, Fantasia, Brasileira, Poder, Drama