CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 08 - Preparação para Extermínio

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 08 - Preparação para Extermínio

Autor: Tisso

— Aqui está! — disse o senhor colocando o saco de pano com os itens na mão do caçador — Todos juntos, como você pediu.

— Ótimo! — afirmou Cérbero pegando o saco que havia pedido. — Se importa se eu...

— Fique à vontade! — respondeu o velho já sabendo o que ele iria perguntar. — Você é um dos meus clientes mais fiéis, já é cordialidade.

— Obrigado!   — Agradeceu Cérbero rapidamente.

Segurando o saco com a mão esquerda e o rodeando com a direita, começava o ritual.

Aos poucos, raios vermelhos começavam a emanar das mãos de Cérbero, mas ele apenas continuou realizando o feitiço.

Varis estranhou e se apavorou vagamente, pois não esperava que o caçador fosse realizar uma magia dentro da loja.

Porém, não estranhou o fato dele conseguir usar magia, afinal ele já tinha se provado ser um sobre-humano suficiente para conseguir fazer isso, pelo menos em sua visão.

Após cinco segundos, com raios vermelhos lhe rodeando, uma explosão de fumaça ocorreu internamente no saco.

Cérbero o guardou dentro de uma espécie de sobretudo negro que podia ser visto dentro de seu manto vermelho escuro por segundos quando ele efetuava a ação.

Não demonstrando medo ou desconforto algum, ele olhou para Varis que estava levemente assustado e, com um sorriso, ele se aproximou.

— Magia negra. Não gosto muito de usar, mas quando precisa abro essas exceções. — O caçador andou para a porta, abrindo e olhando para a face do ladino que decidiu acompanhá-lo.

Os dois voltam para a carroça e Cérbero começou a conduzir o cavalo para o meio de uma zona que era iluminada pelo sol da cidade.

As lojas começam a sumir na distância e as casas surgiam, muitas delas estavam com rachaduras e falhas na parede devido à baixa estrutura da região que era considerada economicamente inferior a zona que ficava embaixo da montanha.

Varis olhou para Cérbero de relance e reparou uma coisa estranha, o caçador aparentava estar sem arma alguma. Nem mesmo uma espada embainhada, uma adaga, ou um arco improvisado em meio ao manto e sobretudo.

A única coisa que talvez fosse uma arma era o conteúdo do saco que havia sido comprado e aplicado magia.

— Você tem alguma arma? — perguntou Varis curioso.

— Eu? Não. — respondeu Cérbero calmamente como se não se importasse com Varis ou com suas perguntas.

— Você disse que iríamos matar um demônio... e vai fazer isso desarmado?

— Exatamente. — Afirmou o caçador colocando um sorriso no rosto. — Se você fosse tão forte quanto eu saberia a inutilidade de uma espada ou de uma adaga.

— Não sabe usar armas?

— Muito pelo contrário. – Ele afirmou sagazmente com uma vaga risada. – Sou especialista em praticamente todas as armas que existem, ou quase todas, ainda não parei pra rever isso.

— E não usa nenhuma?

— Minhas mãos já são mais do que o necessário.

— E as coisas que você comprou?

— Eram materiais para fazer uma Pedra Xanon.

— O que?

— É uma pedra que repete tudo o que for falado para ela.

— E porque isso iria ser útil?

— Você vai ver quando chegarmos à casa que procuramos.

— Uma outra pergunta, o que eram aqueles raios?

— Não ouviu quando eu disse? Magia negra.

— Mas era vermelha. — Debochou Varis, fazendo uma piada ruim sobre cores.

— Engraçado você. — Ironizou Cérbero de forma vagamente irritada e incomodada. — Magias negras têm coloração vermelha, variando de intencidade, magias brancas são douradas ou brancas, magias divinas podem variar de tons de amarelo, verde em sua maioria, roxo, preto e azul. Entendeu?

— Isso não vai adicionar nada para mim, mas eu entendi sim. — respondeu Varis desinteressado. — Magias negras são vermelhas e as brancas podem não serem brancas.

Após alguns minutos eles pararam.

— Chegamos! — disse Cérbero puxando as rédeas do cavalo e parando em uma casa com o aspecto de abandonada. — O cara que nós procuramos está aqui dentro.

Varis deu uma breve olhada para a construção velha que estava caindo aos pedaços, os musgos e a umidade já tinham tomado conta do lugar a muito tempo e o pouco de madeira que tinha já estava podre.

— Alguém mora aqui? — perguntou o ladino desconfiado.

— Morar é uma palavra forte. — respondeu Cérbero, pulando da carroça para o chão e caminhando lentamente para a porta da casa. — Eu usaria “se escondendo”, ou “invadido” em um outro contexto.

Varis fez o mesmo e os dois ficaram frente-a-frente com a porta de pedra que bloqueava seu caminho e impedia sua entrada.

Cérbero limpou a parede do lado da porta tirando o pó, virando-se de costas e se escorou ali mesmo.

— É agora que você vai ser útil, Varis. — disse calmamente o caçador. —Abra a porta.

— Eu? — perguntou o ladino confuso.

— Sim, você. Eu sei que você é capaz de abrir uma fechadura então, faça isso. – Cérbero afirmou de forma direta. – Eu conseguiria abrir, mas precisamos de um sigilo minimo.

Varis aceitou o pedido do caçador e, mesmo com má vontade, analisou a fechadura da porta que não era a das melhores, mal chegava a ser boa.

O elfo retirou de sua mochila uma gazua levemente usada com marcas e arranhões que a tornavam bem feia, mas não a deformava.

Em alguns minutos a porta foi aberta, causando um enorme ranger que se espalhou pelo interior da casa ecoando por toda a estrutura de pedra.

— Correio! — disse Varis em tentativa de comédia após abrir a porta com uma piada.

— Essa foi boa! — elogiou Cérbero entrando na casa já passando os olhos por todo o interior da residência. – Se quiser pode esperar aqui, mas eu não recomendo muito, podem te confundir com um ladrão ou algo assim.

Os móveis de madeira, que pareciam cair ao primeiro toque de tão podres, decoravam o lugar que estava infestado de teias de aranha e poeira.

Varis apenas seguiu o caçador que andava atento a tudo ao seu redor, mas mantendo o sorriso intimidador no rosto como sempre.

Ao passar por um corredor da pequena moradia de pedra os dois acabaram encontrando um quarto com uma enorme cama de casal e, jogado em cima dela, um homem que não aparentava ter mais que quarenta anos.

O aspecto morto lhe dominava, ele tremia e rangia os dentes com extremo pavor e frequência, mesmo sem perceber os “visitantes”.

Sua aura também não era comum, o sentimento que exalava a penas polegadas dele era uma força eletrizante e depressiva, uma clássica presença demoníaca ínfima.

— Eles estão vindo! — sussurrou o homem repetitivas vezes, sem pausas para respirar quase. Em pura esquizofrenia ele continuava trêmulo e sem se mover bruscamente.

Cérbero olhou aquilo com monotonia, mas manteve em sua face seu sorriso característico.

Esses tipos de casos eram frequentes a pouco tempo atrás, mas ao que aparenta, eles estavam a voltar gradativamente.

Andando calmamente em direção ao homem, o caçador ergueu sua mão, já planejando a usar como a origem da magia.

— O senhor é o cara que sobreviveu ao acidente na vila ao sul a dois dias, certo? — perguntou o caçador estendendo o braço e encostando nas costas do homem.

— Vocês.... Vocês vieram me buscar? – perguntou o homem gaguejando de medo, mas não se virou, em sinal de claro pavor, como se não quisesse ver o rosto de quem o tocou ou como se a mão de Cérbero tivesse o paralisado por completo.

— Sim... – proferiu Cérbero em dizeres calmos e suaves.

O homem grita desesperado.

Rolando seu corpo para direção contraria e caindo da cama.

Ao entrar em contato com o chão ele tentou reestabelecer o equilíbrio para se levantar. Logo após conseguir, ele correu mancado amedrontado para um dos cantos do quarto onde acabou por bater suas costas contra a parede.

— ..., mas não somos demônios. — Completou Cérbero com tom irônico.

— O que vocês querem? Minha alma? — gaguejares e cacoetes dominaram o homem que, mesmo atrapalhado, tentava dialogar.

— Esquizofrênico? — se perguntou Cérbero em um tom de cansaço. — Vais ser difícil de lidar casualmente.

— Saiam daqui! Saiam daqui!

— Eu não queria usar de força bruta ou mágica. — Ironizou Cérbero enquanto encara calmamente o homem. — Mas não sou eu quem decido o que precisasse usar, não é mesmo?

Os olhos do caçador começam a adquirir um brilho dourado, coisa essa que incialmente assustou Varis, que recuou brevemente.

Logo após, o homem, que estava tremendo de medo e pavor, começou a relaxar, parando de tremer, ficando com as pernas bambas e os olhos sonolentos.

— Está comunicativo agora? — perguntou Cérbero que lentamente perdia o dourado em seus olhos.

— O... O que você fez? — questionou o homem tentando voltar a seu estado anterior, mas não conseguindo estimular seu corpo para isso.

— Você foi amaldiçoado, eu apenas tirei sua maldição. — explicou o caçador calmamente. – Considere uma purificação ou exorcismo improvisado, o que preferir.

— Amaldiçoado?

— Uma das básicas, não se preocupe com isso. Ela lhe faz ver seu próprio medo como uma espécie de criatura que te persegue, ou algo do tipo. Os detalhes são irrelevantes. – Cérbero riu vagamente. – Qualquer um com pouca experiência mágica conseguiria evitá-la.

— Certo, mas onde eu estou? — perguntou o homem, adquirindo certa confiança ao caçador.

— Há dois dias, relatos de uma vila que tinha sido invadida por demônios vieram à tona, junto com ele diversas reclamações de pessoas que ouviam um cara gritando em uma casa abandonada chegaram. – Cérbero comentou pensativo. – Eu diria que você saiu de lá correndo e, influenciado pela maldição, correu uma noite toda até chegar em Monssolus onde se escondeu nessa casa abandonada de alguma forma, enfim.

— Uma noite inteira? – o homem assimilou de forma vaga.

— Em resumo.

— E você veio me tirar dessa maldição?

— Não, eu vim obrigar você a rezar comigo. — Cérbero se aproximou retirando o saco que havia comprado anteriormente. — Eu lhe digo os versos e você apenas repete eles umas cinco ou seis vezes.

— Hum? Mas por que isso? – questionou o homem se assustando com a figura de Cérbero que caminhava lentamente em sua direção com um sorriso apavorante e os olhos focados em sua face.

O medo lhe tomara conta novamente e seu estado calmo foram substituídos lentamente

– Ei! Não se aproxime!, não chegue perto! Não! Não! – ele suplicou de pavor perante a figura que foi do vinho para água.

— Eu livrei você da maldição e posso fazer mais que isso. — Colocando a mão na parede ao lado e recitando uma palavra que não era compreendida nem por Varis nem homem, Cérbero continuou sua tarefa. — Experit...

A mão rapidamente brilhou em uma aura verde e formou algo que podia se assemelhar a uma pequena e perfeita esfera de energia, mas a curta duração do feitiço foi marcada com o mesmo se deformando em ondas e explodindo levantando a poeira e causando um enorme buraco centralizado na parede de pedra.

— Essa foi apenas a primeira palavra de uma reza que se estende por mais quinze. — disse o caçador, exalando seu lado mais amedrontador e sanguinário. – Cada uma contém um poder que ou aumenta a intensidade mágica ou reproduz um efeito diferente. Está disposto a cooperar agora?

— Ce... Cer... Certo! — responde o homem gaguejando de medo e pavor da figura humanoide tenebrosa de Cérbero.

“Mas que porra! ”. Pensou Varis em quanto via e esperava as rezas acabarem. “Ele depende desse cara para matar o demônio, certo? Então, o porquê de querer matá-lo? Ele queria só intimidar? Não! Era o olhar de um assassino, ou um maníaco! Ele sabia exatamente qual olhar fazer, ele poderia usar a calmaria padrão que usara antes, mas me intimidou com esse olhar que tanto vira aos arredores... O que diabos está acontecendo!?”.

A mente de Varis sofreu de um pequeno ataque de pânico, dando-lhe a vontade de fugir do local, mas ao mesmo tempo, ele pensou que de nada servia.

Um breve desviar de olhar de Cérbero o deixou apavorado mesmo que sem motivo. Não conseguiu discernir se era magia ou coisas do tipo, mas era como se seu corpo fosse parado ao ponto de não responder independente da força exercida para qualquer movimento.

Cérbero tirou de seu saco de pano uma pedra redonda decorada com escrituras e desenhos de múltiplas cores, algo que não seria possível sem a magia utilizada anteriormente.

Junto disso os outros recursos haviam sumido.

Cérbero apenas disse calmamente os deveres do homem em um tom baixo e melancólico, que, mesmo em uma sonoridade fraca, continuava intimidador.

— Repita... Fornastes protrino demstruio. Cinco vezes.

Fornastes protrino demstruio, fornastes protrino demstruio, fornastes protrino demstruio, fornastes protrino demstruio, fornastes protrino demstruio! — o homem desesperado seguiu as ordens de Cérbero, forçando seu corpo ao máximo para não gaguejar, sentindo o caçador próximo. Uma aura que o danificava internamente começa a pinicar seus ossos e nervos, causando-lhe mais nervosismo.

Cérbero aumentou seu sorriso e guardou a pedra dentro do saco, fazendo o brilho dourado em seus olhos retornar. As pálpebras do homem se cansaram aos poucos e em menos de segundos ele já havia caído de sono no piso frio da casa.

— Vamos. — Afirmou Cérbero, aparentando ter voltado a sua postura normal e direcionando sua palavra a Varis enquanto saia da casa.

— O que você fez? — perguntou Varis ao recuperar o controle do corpo, se virando para a saída e seguindo Cérbero, vendo-o já pegar a rédeas do cavalo.

— Hum? — murmurou Cérbero não entendendo o questionamento feito pelo ladino. — Aquilo? Só o coloquei para dormir.

— Isso eu percebi. — Resmungou Varis enquanto entrava na carroça.

— Então por que perguntou? — ironizou Cérbero.

— Eu quis perguntar o que você fez quando explodiu a parede? —respondeu Varis levemente assustado e receoso.

— Ah, Isso. Só queria colocar medo nele. – respondeu o caçador conduzindo a carroça para o portão da cidade. – É mais eficiente você ameaçar alguém do que perder tempo dialogando, não acha?

Varis se sentira intimidado.

Aquele olhar que era reproduzido pelo caçador, aquele maldito olhar.

Suas memórias lhe traziam frieza, sentia os toques em seus corpos e as marcas das chibatadas se abrindo novamente em meio ao aperto magico em seu coração que havia perdido a tempos.

Ele ficou ofegante e angustiado, se controlando para não avançar em Cérbero, mesmo sabendo que era quase que a morte certa ele se pôs a contraria-lo.

— Colocar medo?! — gritou Varis em um grito de desespero. — Você ia matá-lo!

O silêncio tomou conta da rua que eles estavam. Tanto os guardas quanto as pessoas direcionaram sua atenção para a carroça dos dois.

Cérbero viu com clareza todos a sua volta em questão de segundos. Todos dali não iriam deixá-los em paz e, se algo fosse falado para algum dos guardas, ele arrumaria problemas com a corte de Civitas e Artrit, então não lhe sobravam muitas opções ou magias rápidas suficientes, apenas um de seus últimos recursos.

 

Por Tisso | 14/04/20 às 16:03 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia