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Capítulo 09 - Priscar Dracronico

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 09 - Priscar Dracronico

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Cérbero esperava que tamanho feitiço não precisasse ser usado novamente, e que o ser que usava aquilo já tivesse “morrido” a tempos.

Porém, suas falhas e ações ocasionaram aquilo novamente, sua irresponsabilidade se tornou novamente um motivo de um deslize que devia ser consertado. E o mesmo temia que aquilo iniciasse mais um ciclo secundário em sua vida que deverá, assim como todos, ser encarado como a morte.

Seus olhos se abriram lentamente e deles uma pulsação de aura vermelha emanava no lugar tendo como origem sua pessoa.

O efeito dessa magia não era entendido por ninguém. Não os deixava mais calmos, não os fazia parar de se mover, mas foi com o aumento da potência que tudo começou.

Aos poucos, todos em sua volta começaram a desvirtuar-se de seus conceitos. Tanto o pavor do grito de Varis, quanto até mesmo a direção em que andavam foram completamente embaralhadas como uma perca de memória instantânea. Algo que o camuflou por completo em uma área considerável.

Em meio aquilo tudo, apenas os dois permaneceram em uma frequência original. Tanto que, Varis até mesmo estranhou uma espécie de fumaça subliminar que estava sendo espalhada pelo local.

Tal fumaça parecia evitar Cérbero como se uma bola de ar tivesse o protegendo – junto nessa bola de ar, Varis se protegia inconscientemente.

Quando Cérbero se virou para Varis, a fumaça já havia sessado naquele ponto.

O ladino teve um medo superior ao que sentiu no olhar que viu antes. O rosto do caçador era moldado em puro ódio e dor, emanando uma tonalidade vermelha fraca, algo que o ladino achou que fosse apenas de sua mente

Ele olhou friamente para Varis, pensando em contrariá-lo, mas o mesmo sabia que parte da culpa era sua.

— Não chame a atenção em um momento assim. — Reclamou Cérbero, desfazendo sua cara amedrontadora e voltando para o controle da carroça. – Espere para quando pudermos resolver as coisas na base da violência.  Eles querem o serviço limpo, não a força bruta, a ameaça foi um ato necessário.

— Certo... — Varis não conseguiu descrever seu medo, seu coração pulsava tanto que parecia próximo de explodir. Em seguida ele caiu para trás de nervosismo em um quase desmaio.

— Aquele cara não era um simples morador dessa cidade. — Cérbero começou a explicar. — Há dois dias uma vila foi atacada por demônios, como eu tinha dito, mas nesse caso, para o ataque ter acontecido, alguém quebrou o selo de um dos demônios que a atacou.

— “Selo”?

— É só uma denominação para uma espécie de vínculo que um ser ligado a demônios vigias, mas não é exclusivo deles. Uma lembrança, uma vergonha, um segredo, tanto faz, algo de relevante para o demônio, que se quebrado pode deixá-lo extremamente arisco o deixando com vontade de atacar todo mundo.

— Uma lembrança?

— Presta atenção! Não vou lhe explicar tudo, tenho coisa melhor para fazer! — Reclamou o caçador, impaciente. — Enfim, aquele homem quebrou este “selo”, o que ocasionou numa maldição. Após isso ele correu para cá invadindo uma casa abandonada e se escondeu nela.

— O que foi que ele quebrou?

— Sei lá. — Cérbero desviou sua visão brevemente para uma igreja que ficava na rota que o caçador havia traçado para a saída de Monssolus. – Diferentes demônios possuem diferentes selos, normalmente apenas os demônios de nível três para cima tem tal capacidade cerebral para discernir esse tipo de coisa, tendo tal limitação, demônios com selos tendem a ser mais fortes.

Varis reparou que o foco de Cérbero havia sido tomado por um padre com um crucifixo de madeira, que gritava e orava frente a uma movimentada catedral de pedra que se destacava pela sua arquitetura gótica diferente das casas ao redor.

— A gente vai precisar de algo santo para isso?  — Perguntou Varis, brevemente.

— Não... — Respondeu o caçador pensativo —.... Apenas estava pensando em algo.

— E o que era?

— Nada não.

A conversa dos dois se encerrou com Varis decidindo ignorar Cérbero e se estabilizar de todos os modos.

Trilhando um caminho que demorou horas para terminar, eles continuaram a viajem.

Ao pôr do sol, a carroça parou em um campo verde que antecedia a vila que havia sido atacada por demônios. Ao sair calmamente da carroça, Cérbero percebeu que Varis já havia dormido, provavelmente por causa dos eventos anteriores.

Ele refletiu sobre o olhar que fez e pensou que Varis supostamente sofreu com o feitiço utilizado anteriormente. Logo, ele deu a colher de chá de um descanso para o ladino.

Com um breve suspiro, o caçador retirou de seu bolso o saco com a pedra e o jogou para o alto, pegando logo em seguida.

— Espero que esse seja mais forte do que os anteriores. — Disse Cérbero, com um tom cansado e entediado, desfazendo vagamente o sorriso e assumindo uma feição neutra.

Ele andou calmamente pelos campos, que já haviam perdido seu brilho e a cor verde clara do amanhecer. Eles ganharam um tom verde musgo, os ventos deixavam de enfeitar as planícies e começavam a causar frio a quem trilhasse aqueles caminhos.

Mesmo com a atmosfera assustadora, Cérbero continuou friamente calmo em direção a pequena vila que supostamente estava abandonada.

As casas de dois andares feitas de madeira velha com poucos detalhes de pedra se tornavam parte de um lugar completamente amaldiçoado, que era calmamente cruzado pelo caçador que percebeu a leve alteração espiritual no lugar.

O sentimento de peso na consciência, semelhante ao que se tinha ao usar um objeto mágico, era sentido naturalmente ao trilhar as ruas da pequena vila. Porém, aquele era algo mais depressivo e agoniante.

Cérbero não demonstrou medo ou angústia, pelo contrário, o caçador parecia entediado e despreocupado com tudo ao seu redor.

Após alguns minutos trilhando o caminho pelas construções abandonadas, Cérbero percebeu o que havia no lugar. Os fatos se encaixavam na cabeça do homem, que decidiu parar para refletir.

“Maldição: é desenvolvido o suficiente para usar magia, supostamente nível quatro” começou a listar Cérbero, analisando minuciosamente seus arredores. “Deixou um vivo... talvez um deslize, mas pode ter sido um aviso ou uma limitação de área que ele pode percorrer”.

Seus olhos percorreram a região, procurando qualquer coisa, seja ela um vulto, animal ou pessoa.

“Magia facilmente removida: não deve estar em sua forma máxima, ou é apenas um dos fracos, provavelmente não é uma espécie de finta. Não deixou marcas de sangue ou corpos espalhados, aproveitando cem por cento de suas vítimas, ele pode ficar mais forte se continuar consumindo corpos...” Cérbero fungou profundamente, sentindo o cheiro de terra, poeira e um aroma podre altamente suspeito. “Está fraco sem dúvida. Ele sabe que eu estou aqui, não preciso deixar mais aparente só esperá-lo... ou atrai-lo”.

Com um deslize proposital o caçador deixou a pedra cair no chão.

Com um segundo movimento básico e lento, ele se abaixou para pegá-la, mas em outra ação que possuía uma velocidade sem tamanho, o caçador afundou sua mão na terra e recitou uma oração rápida, após guardar a pedra com a outra mão.

Experit Demstruio Malternos...

A mão direita, que antes estava afundada na terra, agora emanava um forte brilho verde, se espalhando por uma área extremamente grande, imensamente maior que a parede que servira de alvo anteriormente – algo em torno de quinze metros.

Novamente, a esfera de ar anulava a participação de Cérbero na área afetada pela magia.

Após alguns milissegundos, a área verde que havia sido criada por Cérbero explodiu, criando uma gigantesca cratera no chão, que danificou parcialmente as casas em sua volta e pouquíssimo de seu manto e sobretudo.

A alteração feita no solo revelou uma enorme cauda negra, que se assemelhava a de um lagarto ou a o corpo de uma cobra.

Ao sentir o frio do ar da superfície, que era diferente do calor que estava quando soterrada, a cauda se retraiu como uma sanfona, alterando seu tamanho de uma forma inconsistente – hora ficando grande ao ponto de se expandir para fora da terra, hora tão pequena que era imperceptível – e começou a percorrer o chão, deixando um rastro de buracos no solo.

Cérbero correu por esse rastro que teve seu fim em uma casa que, em comparação às outras, era muito grande.

“Tinha como segundo palpite que ele estava em uma dessas casas” pensou o caçador com audácia e ironia, enquanto corria atrás dos rastros no solo.

Movimentos frios o conduziram até a localização do demônio. As mãos frias de Cérbero encostaram na parede da casa suavemente, provocando um leve ranger na madeira.

— Experit Demstruio... — Recitou Cérbero calmamente, depositando mais energia que o normal em suas palmas com o intuito de espalhar a aura ao invés de concentrá-la como anteriormente.

A energia verde cobriu a parede e em seguida a deixou instável.

Fortemente eliminada por uma explosão, a destruição das paredes revelou uma criatura que não era vista por Cérbero a tempos.

Um ser esguio e esquelético que possuía quinze metros de tamanho, contraída em uma estrutura de cinco, curvado de forma corcunda e completamente deplorável com uma pele de escamas secas semelhante as de cobras mortas, inclusive com escamas velhas que estavam sobrepondo algumas partes de carne podre.

Putrefato, o ser também possuía falhas em sua carapaça, com ossos a atravessando e a cortando em momentos de respirar e inspirar.

Sua fisionomia se assemelhava a um lagarto, mas suas patas dianteiras, além de possuírem juntas – assim como cotovelos – deixava-o com a postura mais atrofiada e aparentando cair a cada segundo.

Para finalizar e concluir a análise do caçador, ele viu se escondendo em suas costas, grandes asas cinzas rasgadas, cortadas e esburacadas.

Aquele ser podre, que mais aparentava ser um cadáver vivo, era claramente um dragão, ou algum derivado draconiano.

Cérbero estava surpreso, suas experiências anteriores já fizeram-lhe acreditar que todos que possuíam ligação draconiana haviam morrido, quase que uma certeza que nas Américas não havia nenhum espécime do tipo.

O panteão diacrônico era constituído de dois irmãos: Drákollum e Drákomati, ambos eram considerados dragões Deuses e dividiam um planeta único. Eles foram responsáveis pela criação de cada draconiano vivo, junto das ramificações de raças como draconatos.

Enquanto Drákomati criara diferentes tipos de dragões como os sem patas dianteiras – Wyvern –, dragões sem patas – Wyrm – e outras variações de dragões normais, Drákollum os evoluíam, tornando deles seres pensantes e sábios.

A medida que o tempo passou, foram surgindo os draconatos, dragões humanoides de tamanhos menores. Após os anos mil, draconianos foram caçados por sua carapaça e ossos que eram materiais extremamente cobiçados. Supostamente o último dragão registrado fora morto por uma balestra, enquanto tentava encontrar uma tribo de draconatos que nunca tinha sido encontrada, dando-se como morta posteriormente.

“Não existem demônios dragões”.  Pensou Cérbero, revisando cada espécie demoníaca que sua vasta galeria mental possuía, em questão de segundos. “A única teoria que posso tirar, além de uma ilusão ou transmutação de alto nível... Um Priscar possuindo alguém de origem draconiana! ”.

 A mente do caçador clareou vagamente, enquanto a estratégia era montada.

Priscar’s, demônios de nível cinco, mas que intercalavam no quesito dependendo da dieta seguida. Eles eram conhecidos por parasitarem outros seres vivos, conseguindo modificar suas vítimas a níveis moleculares e genéticos baseando em detalhes de raça, boa parte das vezes retrocedendo-as na escala evolutiva.

Porém, os mesmos necessitavam de múltiplas vítimas para evoluir em uma escala de ameaça. Para chegarem no nível de demônio maior e apresentar uma real ameaça, eles necessitavam devorar carne, ossos, almas e principalmente pecados, aos montes.

O mesmo, sendo um demônio maior, poderia fazer coisas anormais como ocultar presença ou infectar múltiplos alvos simultaneamente.

O caçador viu lentamente o ser morto abrir os olhos sem alma do dragão.

Cérbero, apesar da teoria de que o ser estava morto, conseguiu sentir e ver algo vivo naquilo. Sua mente começou a formular teorias enquanto o combate acontecia.

O ser de pescoço longo e dentes podres com metade do crânio exposto baforou uma forte onda de um fogo escarlate contra Cérbero.

As labaredas mágicas chegaram a meio metro de Cérbero, mas elas simplesmente foram refletidas para os lados pela esfera de vento que o protegia. O mesmo viu como se não fosse nada, afinal estava acostumado a isso e se preparava para atacar.

Os olhos de Cérbero, ainda impressionados com a existência do dragão, percebendo o fogo saindo dos buracos em seu tórax e o barulho do emanar das chamas se misturando com um grito de dor, como se ele estivesse sofrendo com os movimentos.

Momentos antes do inimigo o atacar novamente, Cérbero abriu seu punho, formando uma espécie de escudo redemoinho que tapou sua cara e absorveu o fogo como um buraco negro em miniatura.

As poucas chamas que não eram sugadas por Cerbero, mancharam vagamente o chão do lugar e as que emanavam do tórax do dragão começaram a queimar lentamente a casa.

— Não foi tão forte, você está em um estado muito fraco ainda. – Refletiu Cérbero, falando consigo mesmo, enquanto manipulava as chamas absorvidas. – Mesmo consumindo uma vila de umas trinta pessoas você não aparenta nem ao menos ter poder para se mover, mal para atacar, talvez tenha escolhido um portador além de sua capacidade ou achou que ia conseguir mais pessoas com o tempo, não achando que ia achar uma ameaça a altura.

O caçador fechou o punho, transformando as chamas em um emanar de luz branca, que se revelou vagamente uma esfera de fogo dourada e pequena, dessa vez completamente estável e reluzente, sem dúvida uma das magias brancas das mais puras possível.

A pequena chama foi jogada e, à medida que se aproximava do dragão, ela ia crescendo cada vez mais – chegando ao ponto de ficar do tamanho de Cérbero.

A esfera atingiu o que seria o abdômen do dragão, queimando a pele podre com queimaduras reluzentes de graus extremos.

Com a abertura momentânea causada pela chama, Cérbero percebeu que, em seu interior, atrás de uma espécie de jaula feita de ossos grossos, nervos, veias e órgãos, no lugar em que deveria estar o seu coração, um vulto vermelho humanoide.

O ferimento se regenerou rapidamente, mas a certeza de que possuía algo lá era concreta.

O espanto era notório no rosto de Cérbero, que esbanjou um grande e assustador sorriso, mas por dentro ele havia traçado um novo objetivo: exorcizar o demônio e salvar o que estivesse dentro, não só eliminá-lo normalmente.

A pedra foi retirada cuidadosamente e em seguida, erguida pelo caçador que a segurava, liberando uma quantidade de poder surrealmente grande na mesma.

A pedra começou a repetir os dizeres do homem, que antes havia orado junto de Cérbero como um gravador.

Raios verdes circularam o punho de Cérbero, que se mantinha firme, usando sua mão como catalisador para a invocação de uma arma mágica, ele se pôs em posição de ataque.

Uma lança de luz se moldou da pedra em meio as orações gravadas. Feita de trovões e eletricidade esverdeada, a arma mágica era levemente menor que o caçador.

Cérbero a manejou com cuidado, pois sabia que, igual a todas suas magias divinas, essa também poderia vir a explodir devido a sua fé controversa.

O poder sagrado concentrado entre os dedos do caçador era suficiente para espantar completamente a aura demoníaca que assombrava o lugar, mostrando tamanha a quantidade de energia depositada como uma espécie de emanar de vento involuntário.

A lança em certos momentos parecia que iria transbordar de energia. Isso alertava Cérbero do quanto tempo ele ainda tinha para manter o feitiço.

O caçador fechou seu olho esquerdo e direcionou o foco de seu direito para três centímetros acima de onde ele achava ter visto a cabeça do vulto vermelho.

O braço tapado pela capa e sobretudo vermelho escuro deixavam um pouco de sua armadura escapar, mas aquilo ainda cobria principalmente seu enorme braço que esbanjava veias saltando.

A ação de arremesso durou dois segundos. O braço do caçador havia jogado a lança que perfurou o peito do dragão em uma velocidade sem tamanho e, por pouco, não atingiu o ser que havia dentro do esqueleto vivo da fera.

Por Tisso | 16/04/20 às 18:19 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia