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Capítulo 11 - O Arqueiro Viajante

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 11 - O Arqueiro Viajante

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

As ruas de Monssolus eram movimentadas, como toda boa capital. Por ela, diversas pessoas de várias raças circulavam. Elfos e humanos eram os que mais se destacavam, como sempre.

Em meio à movimentação de final de tarde, um homem se via perdido no meio de todos a sua volta.

Um humano careca estava coberto por um manto branco sujo de terra, em suas costas, ele carregava uma enorme e volumosa mochila que escondia seu arco e sua aljava.

Com os olhos focados nas placas dos estabelecimentos da zona comercial, o homem, depois de muito tempo, finalmente encontrou o que estava procurando.

Uma humilde pousada numa boa localidade – entre a parte clara e escura da cidade.

Ao adentrar o local, ele se deparou com um grande saguão com uma escadaria rústica, a poucos metros dela, um balcão de pedra era vigiado por uma velha e gentil senhora de cabelos grisalhos com uma cicatriz estranha na bochecha esquerda.

A presença do estranho demorou a ser percebida pelos velhos olhos da recepcionista, que o percebeu quando o mesmo fechou a porta de pedra do lugar, fazendo um pequeno estouro.

— Sim, meu jovem? — Perguntou a velha senhora, guardando um livro que estava lendo em baixo do balcão e se levantando lentamente para atender o possível cliente.

— Gostaria de alugar um quarto. — Respondeu o homem calmamente, se aproximando do balcão. — Mas antes, queria saber uma coisa.

— Pergunte.

— Essa pousada possui uma biblioteca?

A pergunta deixou a senhora pensativa por alguns instantes.

— Sim possui. – Ela afirmou, apontando para uma das portas do local.

— Perfeito. – Ele disse pra si mesmo. – Então quero alugar um quarto por uma semana.

A mulher sorriu e pegou um caderno no balcão, abrindo-o e pegando uma pena que teve a ponta mergulhada em um pote de tinta preta.

— Nome? — Perguntou a senhora.

— Jameson, Jameson Frankenstein. — Respondeu o homem, com leve orgulho em sua fala.

Os olhos da velha mulher arregalaram, ela sentia que já tinha ouvido aquele sobrenome em algum lugar, focando na face do homem, que aparentava ter trinta anos de idade e nenhum pelo facial, incluindo sobrancelhas.

— Você é um duque da nobre família Frankenstein? — Perguntou a mulher, levemente impressionada ao lembrar das origens do sobrenome icônico do continente.

— Talvez eu seja. – Respondeu Jameson, com leve ironia.

— Eles já estão todos mortos pelo que me lembre, você pode conseguir uma boa quantia se reclamasse a herança.

— Não preciso de mais fardos pra carregar. – Ele afirmou, seguido de um riso amigável. – Por sinal prefere receber em moedas ou em joias?

— Como?

— O quarto.

— Ah! Sim! — A senhora retirou a pena do pote de tinta e escreveu no caderno tudo de necessário para o registro do homem. — Serão trezentas e cinquenta moedas, quinhentas e cinquenta com café e jantar incluso.

— Faça o segundo. — Disse Jameson, retirando de seu bolso um saco com moedas.

Após contar o dinheiro que lhe foi entregue, a senhora entregou uma chave com um chaveiro de madeira com o número seis talhando.

O homem agradeceu e pegou a chave, se dirigindo para as escadas para ir ao seu quarto.

— Senhor Frankenstein, espere! — Gritou a mulher, não deixando Jameson completar a ação. — O café será servido duas horas após o nascer do sol.

— Obrigado. — Respondeu o homem com um sorriso simpático, virando de costas e continuando a subir a escada. — E a propósito, me chame de James, não gosto de tanto glamour para uma denominação tão banal.

James subiu até o final dos degraus, se deparando com um pequeno corredor que possuía seis portas - três de cada lado-, sendo a última, a sua.

A luz da lua penetrava o ambiente, entrando pela janela que se localizava do lado das portas de número três e seis.

A paisagem da parte mais humilde da capital era iluminada pela lua, isso acalmou a mente de James, que havia se preocupado muito no dia com a caminhada até o local e a entrada na cidade.

As enormes torres e construções de pedra eram algo que nunca tinham sido vistas por ele, que já passou por inúmeras cidades estranhas e já possuía inúmeros conhecimentos sobre plantas, animais, arquitetura, matemática, enfim, ele era praticamente um eremita que buscava cada vez mais conhecimento.

Com um caminhar exausto e com um leve girar da maçaneta, James abriu a porta do quarto e já percebeu que o lugar tinha muita qualidade.

A cama estava bem arrumada, o quarto era decorado com uma estante que abrangia livros velhos e empoeirados, um tapete feito de palha e lã  e uma mesa de centro que possuía um candelabro de pedra com detalhes em madeira.

A mochila foi tirada das costas e jogada no final da cama, logo em seguida, James colocou gentilmente suas armas na mesa de centro, enquanto acendia o candelabro com uma pedra de fogo que guardou logo em seguida.

Seu arco era um belo exemplar de uma arma feita inteiramente de um aço e ferro único.

Tanto a estrutura quanto a “corda” que puxava as flechas eram feitas de materiais metálicos que haviam sido forjados por grandes especialistas, garantindo mais força no puxar de uma flecha, resultando em maior velocidade do projétil e consequentemente um maior dano.

Seu manuseio era rápido e suave. O material metálico substituiu perfeitamente a madeira e linha visualmente semelhante a de um casual arco longo comum.

 As flechas eram clássicas obras básicas e amadas por qualquer arqueiro. Um palito de madeira resistente com penas em seu final e uma pirâmide laminar em sua ponta.

Elas estavam dentro de uma caixa retangular de ferro leve, que não atrapalhava sua movimentação e que possuía uma tampa de barragem para não escaparem ocasionalmente.

Depois de alongamentos e reflexões James se deitou na cama e repousou calmamente enquanto o tempo passava.

A noite passou em instantes e logo ao amanhecer do dia, a velha senhora levou uma bandeja de comida para James.

Com as suas mãos trêmulas, ela caminhou até a escadaria, mas se surpreendeu ao ver a porta da biblioteca aberta.

As enormes estantes cheias de livros e as poltronas vermelhas de veludo estavam servindo de entretenimento para o arqueiro, que estava quieto lendo um livro qualquer.

A figura da velha senhora observou o rosto reluzente de James, que teve sua concentração tomada e que se viu obrigado a praticar a gentileza de ajudá-la, assim como um bom cavalheiro faria.

Fechando o livro e memorizando a página que havia parado, o homem se levantou e se aproximou calmamente da senhora, que percebeu a intenção do hóspede.

— Precisa de ajuda? — Perguntou James, se oferecendo a ajudar casualmente.

— Me sentiria bem se você pudesse. — Respondeu a velha senhora, estendendo a bandeja para o arqueiro que a levou para seu quarto.

Após a refeição, James desceu novamente para o saguão, encontrando a mulher que estava lendo o mesmo livro que ele havia pegado no dia anterior.

O arqueiro deixou a bandeja no canto do balcão e colocou um sorriso causal no rosto.

— Quando acabar, por favor, me empreste esse livro. Parece ser bom. – Ele falou de forma amistosa e suave.

A senhora sorriu em resposta ao ver James e fechou o livro, o colocando em cima da mesa.

Levando a bandeja para um quarto que ficava atrás do balcão, a senhora sumiu da vista do arqueiro.

James pegou o livro e decidiu voltar para a biblioteca, onde lá ficou por mais alguns minutos até ser chamado a atenção pela velha mulher que tinha voltado do quarto.

— Você é um escritor? — Perguntou a mulher para o arqueiro, que deixou o livro que estava lendo.

— Como? — Perguntou James, virando sua atenção para o saguão, se movendo até ele.

— Você parece ser alguém ligado à leitura e a viagens. Características peculiares e parecidas com as de escritores que eu já conheci.

— Lamento decepcioná-la, mas eu não sou nenhum escritor. — Respondeu James, se escorando na parede ao perceber que iria começar uma conversa com a senhora.

— Então por que aparenta ler tanto? – Ela questionou, intrigada. – O que lhe trouxe para essa pousada fora a biblioteca, não é mesmo?

— Minha vida inteira se resume em praticar pontaria, observar lugares e, o que mais me fascina é conhecer e aprender coisas novas. – James fechou os olhos em uma posição que esbanjava gentileza e confiança. – Não há lugar melhor para ver conhecer coisas novas do que em livros?

— Gostos peculiares para um jovem como você. Me diga, o que lhe traz ao leste da América?

— Queria aprender mais sobre os Cavaleiros Negros e sobre a região em geral. – Voltando a pose original, ele continuou a falar. – Poderia me contar o que sabe?

— Sim, eu acho... — A senhora olhou para o teto, relembrando sua juventude. — Pode não parecer, mas eu era a capitã da terceira divisão dos Cavaleiros Negros quando jovem.

James se impressionou por estar falando com uma mulher que fazia parte na história do país. A face do arqueiro ficou mais séria, os olhos mais focados e os ouvidos mais atentos as palavras da mulher.

— Era conhecida como “Capitã Bellator, a Pico-de-Invasão”. Fui general da terceira divisão por quase 30 anos, mas tive que me aposentar aos meados dos sessenta anos de idade.

— Pelo menos, você não parece estar tão ruim. — Afirmou James, olhando para o rosto enrugado e pacífico da mulher que era lendária naquele lugar.

— É, você está certo nesse ponto. — Concordou a senhora com mudanças minuciosas em sua face e um riso breve. — Mas uma pousada numa zona privilegiada do centro comercial da cidade até que é bom, mas queria realmente ter continuado nas tropas de Kaplar, hoje em dia eles estão ficando mais fracos.... Se bem que, depois do que aconteceu lá, é melhor ter ficado fora das questões do clã.

— Hum? — Questionou James, estranhando a frase da senhora. – Como mais fracos?

— Bem... – Ela se pôs a pensar vagamente. – Apenas três dos seis capitães usam Davi Golias, isso sem contar os dois sacerdotes e o capitão, os soldados estão quase na mesma.

— O que seria isso?

— Ah! É mesmo! Essa técnica não é comum em outros lugares, chuto que nem é mais citada em regiões adjacentes. — Lembrou à senhora, pensando em voz alta. — Davi Golias, é o nome dado a uma combinação de armas, uma leve e uma pesada. Normalmente uma espada e um machado ou uma maça e uma marreta, coisas do tipo. Foi pensado com inspiração em um conto cristão que falava sobre um homem que matou um gigante.

— Entendi. — James pensou sobre esse combo de armas. — Mas isso não exigiria coordenação motora e força física ao extremo de quem a utiliza?

— Por isso que é boa. A junção de poder bruto com a capacidade de moldar situações é excelente. — O tom de voz da mulher se animou ao descrever a técnica, mas logo virou um tom triste e arrependido. — É uma pena que ele está se perdendo com o tempo.

— Concordo. – James mudou seu tom amigável para um sério e extremamente focado. – Outra pergunta, o que você sabe sobre o Caçador?

— Temos muitos caçadores no país caso queira saber... – Bellator afirmou, vagamente desconfortável com a pergunta.

— Não, sendo mais específico, o que você sabe sobre “O Caçador”?

 A mulher se inquietou por um breve momento, suas mãos começaram a tremer e sua voz a gaguejou vagamente, as lembranças chegaram lentamente em sua memória.

— O-O Caçador... a lenda urbana? — Questionou a velha senhora de forma fria e analisadora, com um leve receio. — Por que você quer saber dele?

— Queria conhecer mais sobre sua história, principalmente o porquê de todos o temem. — Respondeu James de forma fria e calma.

A mente de Bellator se acalmou e ela retomou a postura. As lembranças vieram como uma leve brisa gelada que lhe arrepiou, mas ela camuflou todo nervosismo de forma profissional.

— Há muito tempo um homem chamado de “Caçador” foi registrado em contos de fora, virando rapidamente personagem de livros em diversas áreas da região. – Ela começou a recitar de forma desconfortável ao recordar fatos. – Eles relatavam ele como um homem de vestes vermelhas e olhos reluzentes. Ele era forte, usava poderes mágicos e técnicas de combates avançadas, mas claro que, no fim, ele não passou de uma lenda se misturando ao folclore local.

Ela parou brevemente para engolir saliva.

— Nunca sequer vimos um ser tão forte assim nem nos Cavaleiros Negros. – Ela finalizou de forma mais calma, como se o perigo já tivesse passado.

— Então você não sabe de nada diferente. — Reclamou James, vagamente decepcionado.

— Como?

— Essa história, eu já ouvi ela em outros lugares. Todos tem uma versão, mas ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Caçador, apenas lendas, boatos e contos. – Retrucou o arqueiro, decepcionado com as palavras da senhora. – As únicas coisas diferentes que eu ouvi desde a última vez foi que ele tinha sido visto nessa região décadas atrás e que a dois meses, nas ruas dessa cidade, um homem de manto negro usou um feitiço que possuía vagas semelhanças com a lenda.

O receio tomou conta da senhora, que não foi relatada oficialmente sobre o caso do feitiço, mantendo isso apenas como um rumor.

— Por que quer saber tanto sobre ele? – Ela questionou intrigada, temendo o que teria como resposta.

— Eu não tenho muito porque viver e queria obter o máximo de conhecimento antes de minha morte. — Afirmou James com leve tom de desânimo e um humor seco.

— Então é por isso que viaja e lê tanto? — Perguntou a senhora, intrigada.

— É, pode se dizer que sim.

— Mas você ainda é jovem, vai encontrar um motivo para viver, tenho certeza. — Encorajou a mulher, tentando animar o arqueiro, mas falhando.

— Não sou tão jovem assim, mas obrigado. — Contrariou James, recuperando o ânimo aos poucos.

Uma segunda análise foi feita por Bellator que o encarou por alguns segundos.

— Me diga, qual a sua idade? – Ela perguntou.

— Você não acreditaria se eu contasse. — Falou James, em um tom vagamente cômico.

— Não, pode confirmar se não falou ainda.

Uma leve pausa foi feita pelo arqueiro, que focou completamente seus olhos nos da senhora.

— Eu tenho setenta e oito anos. — Respondeu James com um tom incrivelmente sério, desconexo com o ânimo anterior. Era visível em sua face que aquilo não era uma piada.

A mulher ouviu a alegação, o tom sério para ela foi quebrado e a mesma logo começou a rir levemente.

— É você estava certo, eu não acredito em você. — Afirmou a senhora, escondendo o riso com sua mão já calma.

— Eu sabia. — Respondeu James em um incrível bom humor e quase rindo junto, como se já estivesse acostumado com aquele tipo de resposta.

Os dois riram vagamente após isso.

Por Tisso | 23/04/20 às 13:37 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia