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Capítulo 22 - Passado Colidindo

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 22 - Passado Colidindo

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

A quilômetros do castelo, Varis e Sagita andavam pelos caminhos movimentados da cidade, sempre olhando as barracas e lojas locais como passatempo.

Eles não se falavam, mas era claro a tensão entre os dois. Sagita olhava minunciosamente cada movimento do ladino, sempre mudando seu foco naturalmente.

O ladino percebeu isso rapidamente. Fazendo um jogo de movimentos, direcionando o foco de Sagita para múltiplos lugares no fim terminando com o rosto da elfo negra a um palmo da mão de Varis.

O ladino rapidamente movimentou o dedão e o indicador, efetuando um peteleco rápido no nariz de Sagita que se confundiu completamente com aquilo.

— Acho que eu não perdi o jeito. – Disse Varis com uma risada.

— E isso seria bom? – Sagita perguntou recuperando a postura.

— Em parte. – Parando de falar vagamente, Varis olhando ao seu arredor.

O centro comercial daquele lugar era semelhante a Monssolus. Ambos os lugares eram magníficos e movimentados, mas as ruas de Cartan eram bem mais largas, o que permitiam a passagem de diversas carroças.

A discriminação econômica era normal, diferente da capital dos Cavaleiros Negros que dividia tematicamente seus moradores entre a área iluminada e a área escura.

Belíssimos exemplares de raros equipamentos estavam protegidos em vitrines de requintadas lojas. Porém, uma coisa em especifico chamou a atenção de Varis rapidamente. O objeto em questão, era uma espada curta como um punhal, que imitava uma cobra de metal a morder a lâmina.

— Hum, olhe isso. – Varis falou enquanto se aproximava da vitrine, parando alguns centímetros na frente dela. – Um belo exemplar, não?

Sagita dirigiu a atenção para onde o ladino estava olhando, mas rapidamente voltou seu foco para ele.

— É uma espada, provável que seja de um metal comum. – Sagita a falou se aproximando calmamente.

— Hum... – Varis murmurou pegando no punho de sua espada e a tirou lentamente.

— Parado! – Gritou Sagita em tom ameaça.

Em questão de segundos, a elfa conseguiu sacar debaixo de seu manto roxo um arco curto de madeira negra. A arma possuía cristais ametistas posicionados em suas pontas como se fizessem parte de sua estrutura, as mesmas transmitiam uma corrente magica entre si, a expandindo tanto para a corda do arco quanto para a área de posição do projétil como raízes internas.

— Se acalme, não seja precoce. – Disse Varis, vendo que as pessoas ao seu redor não aparentavam pânico perante a ameaça de Sagita.

Lentamente o ladino tirou sua espada enquanto sagita o circulava empunhando seu arco com uma flecha em mãos. O projétil vibrava em uma mescla de raios aurora, algo notoriamente mágico.

Aos poucos a espada do ladino se revelou, era um modelo próprio de seu antigo clã, forjado com o único intuito de cortar de forma rápida e crua seus inimigos.

Armaduras e roupas eram rasgadas rapidamente com a lâmina da arma, mas em contrapartida sua durabilidade era instável. Prova dos fatores de sua espada era o estado da mesma.

Mesmo podendo fazer um extremo estrago se bem usada, seu fio ficava pior e pior a cada uso da pedra de amolar, era como se alguma hora era ia ceder e quebrar com um golpe mal executado.

— É amiga, acho que você vai morrer logo. – Afirmou Varis olhando pra a espada em suas mãos com um ar peculiar de nostalgia.

— Ela não é uma arma magica, você pode conseguir uma outra facilmente aqui. – Sagita disse recolhendo aos poucos a flecha que perdia seu brilho.

— Você sabe que não é o mesmo. – O ladino pegou a espada pelo cabo e rapidamente a jogou pra cima.

Não só Sagita como muitas pessoas em volta se assustam e se afastam, mas Varis estava extremamente calmo.

Quando a espada caiu, Varis se posicionou perfeitamente enquanto sua arma entrava em seu coldre improvisado.

As pessoas olharam para aquilo bateram palmas pelo show feito pela agilidade do ladino, logo em seguida diversas moedas são jogadas em sua direção como reconhecimento.

O ladino se curvou perante a plateia que ainda estava surpresa. Sagita olhava para aquilo e baixou a guarda, vendo que Varis ainda era o mesmo idiota que conheceu formalmente a certo tempo, mas não com o assassino que tanto lhe era mistificado.

— Então.... – O ladino de aproximou de Sagita que guardava o arco rapidamente. — ...Acho que temos o suficiente para uma janta.

As moedas coletadas pelo ladino quase que encheram completamente seu saco de moedas. Após conferir tudo, Varis estendeu a mão a sagita.

— Vamos?

— Claro... – Sagita voltou a ficar envergonhada, mas logo se recuperou desse pedido.

Logo os dois pararam em uma praça próxima a área comercial.

Sentando num dos bancos de pedra, eles observam as enormes construções góticas que envolviam o local. As barracas da praça não vendiam suvenires de outros lugares e sim comidas das mais diversas.

O escolhido por Varis era uma vasilha mediana com dois ovos mexidos, tiras de carne seca e um pão mediano. Sagita escolheu um enorme pão circular com o recheio de diversos molhos e carnes.

— Essa cidade até que é boa. – Afirmou o ladino pegando pedaços da carne seca com um garfo proporcionado pelo vendedor. – Alias, a quanto tempo está aqui?

— Hum? – Murmurou Sagita mudando o foco de seu pão para Varis. – Uma semana no máximo.

— Uma semana? – questionou Varis impressionado. – Você ficou vagando por aí por quase um mês.

— Fiquei explorando a região. – Inplicou calmamente a elfa enquanto refletia. – Depois que você e o Cérbero me encontraram ele mexeu uns palitos para eu estar aqui.

— Espere, por quais motivos você está aqui?

— Não é obvio?

Varis ficou calado, após alguns segundos pensando ele chegou a uma resposta.

— Não...

— Ah... – Suspirou Sagita lentamente. – Você tentaria uma fuga a qualquer momento, certo?

— Sim... – concordou o ladino.

— Mas o reino não te deixaria sair sem uma pessoa para te vigiar, certo?

— Sim...

— Mas precisaria ser uma pessoa forte para pará-lo se necessário e ao mesmo tempo teria que ser alguém que você não tentaria matar, fazendo você se manter aqui de alguma forma.

— Hum...

— Você não escaparia porque eu estou aqui e ao mesmo tempo não tentaria lutar comigo.

— Ah... – a ficha caiu lentamente para o ladino. – Bem, então vamos aproveitar.

Enquanto Varis pensava, Sagita mordia seu pão sujando vagamente sua boca de molho, mas quando ouve o ladino ela volta a atenção a ele.

— Aproveitar? – Perguntou Sagita confusa.

— Nós dois sabemos nossos objetivos. – Varis afirmou ao comer o ovo mexido com uma única garfada, mastigando-o lentamente.

— Nossos objetivos... – Sagita olhou para seu pão meio seco com o molho avermelhado decorando a marca das mordidas que ela deu.

— Já faz tempo. – Disse Varis, após engolir o ovo mexido, ele olhou para o céu vagamente nostálgico, mesmo que aquela nostalgia fosse extremamente negativa e desconfortável.

— Muito tempo. – Sagita acompanhou o olhar do ladino.

O pôr do sol tomou conta do brilho que se mesclava com o laranja dourado e o preto obsidiana reluzente da noite. Os feixes e brilhos de prata da lua começam a tomar conta do céu com o tempo.

As tochas da cidade eram acendidas uma por uma nos postes da cidade. Os guardas que por lá vagavam não reconheceram a figura dos dois elfos negros que estavam observando a tudo.

— Assassinos sem um lugar pra poder chamar de lar formalmente. – Ela afirmou com uma leve recaída.

— Um recomeço? – Perguntou Varis ao ver tantos guardas e pessoas passarem sem desviar o olhar para eles.

— Ignorar o passado. – Continuou Sagita.

Um objetivo surreal é visto na mente dos dois. Os pecados que lhes acompanham eram tamanhos. Mesmo que ambos fossem jovens, suas almas já estavam condenadas pelos erros do passado. Nem mesmo a agonia eterna e a busca por perdão próprio poderia fazer a consciência dos dois mais leve.

O ceifar da alma de milhares e o roubar de objetos inestimavelmente raros e caros apodrecia completamente seus espíritos. Varis suspirava enquanto lembrava do passado que ainda lhe assombrava e do que teve que fazer por falta de opção.

Lentamente ele deixou sua mão cair de forma suave para a superfície do banco. Quando encosta no que seria o assento, ele sente uma sensação meio fria estranha, mas que é compreendida pelo ladino que reconheceu a mão de Sagita a descansar na sua.

Os dois encararam as mãos juntas sem move-las um centímetro, eles desviaram o olhar e se encaram por alguns segundos. A vergonha tomou conta dos dois levemente.

— Ainda existem sobreviventes? – Perguntou Varis.

— Alguns que não estavam no quartel do clã. – A resposta de Sagita deixou claro que a mesma também estava envergonhada

— Suspeita de alguns mortos?

— Sim, inclusive, achava que você já estava.

— Lamento decepciona-la. — Se desculpou Varis sem graça, se aproximando vagamente de Sagita

— Sabe, Varis... – Indagou Sagita. – Eu realmente o vejo de uma forma peculiar.

— Peculiar? – o ladino se questionou terminando lentamente seu prato de comida. – Explique o que seria isso.

— Você tinha a vida ganha, uma legião de servos que lhe atendiam, uma pilha de dinheiro própria, por ser um elfo teria quase que duzentos anos para aproveitar isso tudo... – ao terminar seu pão, Sagita focou nos olhos vermelhos do ladino de forma inocente. — ...E largou tudo pra ser preso, arrastado de lugar a lugar por um caçador e no fim estar aqui.

Varis olhou para a companheira confusa ao olhar para o céu estrelado que decorava a atmosfera de Evalon.

— Eu me pergunto o porquê. – Sagita continuou. – Na época eu era só uma assassina, meu nível no clã era minúsculo se comparado ao seu. Uma mera plebeia de pele bonita não valia quase nada para o clã, eu era um número. Você era o mais importante de lá praticamente, até mesmo Edgar lhe considerava mais importante que sua própria vida...

— Por favor, não fale esse nome. – Varis a interrompeu seriamente, sua voz estava mais fria e direta que o normal. Isso Assustou Sagita.

A elfa albina voltou a atenção para o ladino, seu rosto não estava igual ao de sempre. Varis estava sério ao extremo, sem expressar sorrisos irônicos nem nada.

— Sagita, quantos você já matou? – Varis a questionou friamente, deixando sua face meio iluminada por uma tocha próxima.

— Hum? – ela murmurou confusa. – Quantos?

— Dez, cem, mil, dez mil? – o ladino contou cada quantidade com pausas de poucos segundos. – Eu não lhe conhecia na guilda. Como você mesmo disse, você era um número. Logo eu não vou poder falar o quanto você matou.

Sagita se sentiu intimidada por Varis que, mesmo sem aparentar ações ofensivas, a amedrontava com seus dizeres calmos e supostamente profundos.

— Eu lembro bem do que eu passei na Interfectores Del Amine. Treinado desde os dois anos, fazendo a primeira vítima aos quatro... – Varis falou isso para si mesmo olhando para suas mãos cobertas por luvas de couro.

O ladino não sabia explicar o que sentia naquele momento. Suas mãos pareciam pingar sangue, seu pescoço era abraçado por uma série de braços invisíveis, seu rosto envolto em água de um balde que o torturava, sua pele queimando em ferro quente em áreas avulsas, sua garganta era fortemente apertada psicologicamente. Até engolir saliva ficou complicado com o tempo, assim como respirar.

Apalpares vinham em seu corpo em lugares completamente aleatórios. As mãos inflavam vagamente sua pele, suas veias pareciam se corromper ao ponto de mudar o fluxo de sangue de forma discreta.

A respiração alterada e o palpitar do coração do ladino finalizavam sua melancolia que acabou com uma piscada de Varis que separou em sua mente o passado e o presente.

— Não vou lhe julgar, eu compreendo o lado lucrativo que era estar naquele clã, mas você escolheu esse caminho, eu fui obrigado.

— Então o que você fez foi apenas por vingança? – Sagita perguntou de forma confusa.

— Exatamente. – afirmou de uma forma tão fria quanto uma mentira perfeita.

Sagita não sabe ao certo como encarar o ladino, mas não poderia o culpar por seu lado da história.

— Eu lhe digo uma coisa. – Varis iniciou mais um pequeno monologo. – Vingança não traz nada de bom. Vingança não revive pessoas. Vingança não absolve seus pecados. Vingança não muda eventos ou os desfaz. Mas a vingança dá um ponto final a uma história que lhe envolve. Em resumo, ela traz satisfação e esse é o ponto.

— Então o simples ato de ter matado aqueles ao seu arredor lhe traz prazer?

— Algo do tipo. – Varis respondeu calmamente.

— Então não se importaria em me matar agora?

A pergunta confundiu Varis. Após alguns segundos ele encontrou uma resposta.

— Eu bem poderia lhe matar, mas acho melhor não. – Afirmou o ladino calmamente.

— E quais os motivos?

— Tenho apenas um, eu a quero viva.

A elfa o questionou com o olhar receoso, mas Varis permanecia calmo.

— Um motivo banal?

— Não. – Afirma Varis a calando vagamente. – Um motivo egoísta. Mas é um motivo que eu escolhi para minha vida.

— Uma escolha própria em meio a tantas que foram escolhidas por você... – Deduziu Sagita refletindo vagamente.

Sem aviso prévio, Sagita sente dedos frios e cobertos por uma luva a pegar seu queixo. Logo ela reconheceu a mão de Varis a conduzindo para perto de seu rosto.

Novamente os dois estavam no clima romântico e a um palmo de se beijar, porem.

— Meu deus. – Sagita afirma afastando Varis e tampando seu nariz rapidamente. – Esse fedor de carne seca faz meus olhos lacrimejarem.

— Claro... – afirma Varis após um suspiro longo e profundo. – Na próxima talvez.

— Já deve estar na hora de voltarmos para o castelo. – Afirmou Sagita rapidamente.

— Ótimo, vamos indo. – O desanimo era percebido aos montes por Varis, mas o mesmo seguiu a elfa até o castelo sem questionamentos.

Por Tisso | 02/06/20 às 17:10 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia