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Capítulo 31 - Um Deserto Dourado

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 31 - Um Deserto Dourado

Autor: Tisso | Tradução: Matheus Freitas (Leia SZPS)

A areia cortante atravessou o imenso deserto de Harenae. O calor emanado pelo sol era forte o suficiente para desidratar qualquer desavisado que ousasse cruzá-lo.

Nessa grande imensidão de montes de areia amarela como ouro e fina como a lâmina da mais refinada espada, duas carroças atravessavam este inferno reluzente, com seu objetivo principal de chegar à capital do país.

Edward guiava as carroças, comandando os cavalos que as puxavam. Junto dele, estavam Glans e Voltten, ambos com roupas leves, ensopados de suor e cansados devido ao calor.

Em contraste, o paladino aparentava estar em sintonia com o clima extremo. O mesmo não havia tirado sua armadura de ferro e nem demonstrava sinais de cansaço.

A armadura do paladino foi trocada por um modelo sem o brasão de Tac Nyan, para não chamar atenção dos guardas do país.

Logo atrás deles, Aquiles conduzia a segunda carroça, desprovido de sua armadura tirada devido o calor.

Varis servia de copiloto, o irritando constantemente com comentários desnecessários e piadas ruins. Dentro do veículo, James desfrutava de sua pele desprovida de pelos que o deixava mais fresco em comparação aos outros companheiros, o mesmo também estava sem armadura.

Após se irritar ao máximo com os comentários rápidos e desnecessários do ladino, o cavaleiro tentou intervir o grupo.

— A quanto tempo estamos viajando? — Gritou Aquiles tendo a voz atrapalhada pelas ventanias infinitas do deserto.

— Uns treze dias. — Respondeu Voltten no mesmo alto tom de voz.

Merlin, após alguns dias de preparação, conseguiu prever a localização do próximo escolhido. Porém, a localização era catastrófica.

Suma, a cidade rodeada pelos inúmeros desertos de Harenae e sendo a capital do mesmo.

A rixa entre Harenae, Artit e Civitas era algo peculiar. Os dois países dominados pela religião de Tac Nyan e pelo clã dos Cavaleiros Negros rodeavam quase que completamente Harenae que só fazia divisa com o vasto oceano.

– Nesse ritmo vamos morrer de calor antes mesmo de chegar a alguma cidade. – Afirmou Aquiles desanimado.

— Não sei do que você reclama, não está tão quente. — Retrucou Varis, que assim como Edward não se importava com o calor.

— Por que diabos você acha isso? – Aquiles perguntou, incomodado com o ladino.

— Elfos negros tem sangue frio, isso os faz não sentir muito calor. —Explicou James em um comentário vago enquanto secava sua careca com um pano. – Ajuda no verão, mas dificulta no inverno. O deserto é algo a parte.

— Como você sabe disso? – Questionou o ladino virando seu rosto para trás e se deparando com o arqueiro conferindo as dispensas após se limpar.

— Fruto de viagens. — Respondeu James, dando uma averiguada nas dispensas que ainda restavam. — Os suprimentos já estão quase no fim, é melhor avisarmos Edward.

Aquiles concordou com a cabeça e abriu a sua mão direita, a posicionando do lado de sua boca para ecoar melhor perante o imenso deserto.

– Melhor darmos uma pausa! — Gritou Aquiles, tendo sua voz atrapalhada pelas ventanias. — Edward pare a carroça!

O paladino ouviu a mensagem e obedeceu ao pedido do amigo, parando os cavalos com um rápido puxar das cordas, os deixando imóveis com o tempo.

Todos desceram de seus veículos e se encontraram em meio a areia quente do deserto.

Aquiles despido da cintura para cima; Voltten sem seu manto branco e suas vestes verdes abertas mostrando seu peito magro e extremamente branco; James com roupas leves; Glans apenas com a clássica bermuda de couro.

Porém, Edward e Varis estavam com o mesmo padrão de vestimenta de sempre, sem suar nem nada.

— Qual o motivo da pausa? — Questionou Voltten levemente cansado e soprando para dentro de sua roupa para circular melhor o ar.

— Os nossos suprimentos estão no fim, logo ficaremos sem comida. — Respondeu James colocando um pedaço de pano em seu rosto para prevenir de respirar areia.

— Água também está a acabar. — Completou Glans.

— Quanto tempo falta para chegarmos? — Perguntou Varis, colocando suas mãos atrás da cabeça se espreguiçando.

— Eu analisei a partir da bússola e pelo mapa local e estelar. — Respondeu Voltten, observando cuidadosamente o sol que estava se pondo lentamente. — Acho melhor ficarmos por aqui, o sol está se recolhendo e esse calor infernal se transformará em um frio mortífero de novo.

— Certo! — Os companheiros assentiram voltando para a carroça.

Após meia hora, o grupo preparou um acampamento provisório em volta de uma fogueira feita por Voltten.

O sol caiu com rapidez e a lua nasceu majestosa, trazendo junto com ela um forte frio que os apavorou, mesmo não demonstrando fisicamente tal alteração.

Minutos após o brilho de prata e o frio da noite cobrir o deserto, os seis amigos se sentaram ao redor da fogueira e começaram a conversar, degustando as rações e carnes secas que ainda restavam.

— Me lembrem do porque eu ainda estou aqui. — Murmurou Varis com extremo cansaço e ânimo depressivo.

— Merlin afirmou que o próximo escolhido estaria aqui nesse país e é nosso dever encontrá-lo. — Respondeu Voltten, averiguando as estrelas e sua bússola para traçar a rota de sua viagem.

– Não é isso, tipo, a meses atrás nós não sabíamos na existência um do outro e estávamos condenados a morrer. – O ladino resmungou de agonia. – A que nível chegamos em tão pouco tempo?

— Parysas me falou o porquê dele ter nos escolhido, caso isso sirva para alguma coisa. — Interrompeu Edward, tomando a atenção de todos. — Ele me disse que, devido a Guerra dos Povos, boa parte de seus antigos “soldados especiais” foram mortos e eles viram potencial na gente.

– E você acredita nisso?

— Salvos por falta de mão de obra. — Caçoou Aquiles com um breve riso. – Mas eu entendo como é isso, os Cavaleiros Negros se destacavam entre outros clãs por estar de portas abertas para qualquer tipo de pessoa, independente do sexo, raça ou até idade dependendo.

— Algo como ser salvo pelo destino, se ver por outro ângulo. —Complementou James. – Tac Nyan sorriu para estarmos aqui.

— Eu estar bem com vocês ter me aceito em seu grupo. — disse Glans, levemente envergonhado perante os cinco companheiros a sua frente.

— Escamoso, não iríamos estar completos sem você. — Insinuou Aquiles, dando tapas nas costas do amigo em sinal de respeito e amizade, sentindo uma leve dor na cicatriz. – Compartilhamos momentos juntos, uns mais que os outros, mas todos estamos unidos por algo agora, querendo ou não. – Passando a mão em sua cicatriz em seu peito, o cavaleiro afirmou calmamente.

— Então nós somos uma “grande família bizarra”? — Questionou Varis de forma irônica, mas exalando sua vaga felicidade e animação.

— É, é, você está certo. — Afirmou Edward tomando a atenção de todos. — Somos diferentes e nos odiamos um pouco, mas mesmo com isso ainda somos amigos eu diria. – Edward ergueu seu cantil de água na altura de sua cabeça e pôs um sorriso em seu rosto. – E que no futuro, continuemos assim.

– Continuar? — Perguntou Aquiles, aproveitando a deixa para uma breve piada. — Eu pretendo odiar cada vez mais vocês.

Todos começaram a rir. Suas gargalhadas cruzaram as areias e são levadas pelo vento, rapidamente os deixando cansados.

Nada se comparava a solidão do deserto. Ao horizonte, apenas areia e mais areia. Ao período do dia o sol poderia matar qualquer um de desidratação. À noite, você poderia morrer de frio e hipotermia.

Aquele lugar era maldito e vazio, mas estranhamente belo.

Uma beleza vaga. Uma beleza simples. Uma beleza modesta. Uma beleza minimalista.

Em um raio de quilômetros, os seis amigos em volta da fogueira eram a única coisa viva no local.

Antes de estar lá, o grupo encontrou poços de água e vilas abandonadas, mas nada que os fosse útil.

Já era de conhecimento de Aquiles que o país de Harenae possuía poucas cidades, mas aquilo era exagero.

— Aquiles está certo. — Afirmou Varis pensativo enquanto encarava as estrelas cintilantes no céu cor de obsidiana de Evalon. — É bom aproveitarmos o momento, não sabemos se no futuro continuaremos assim. Eu não nego que amizades devem ser boas e que é bom mantê-las. Porém, não posso negar os fatos, nós estaremos cortando nossos olhos e nos odiando no futuro, não podemos prevê-lo de todo modo... – Finalizou receoso.

Todos ficam em silêncio perante os dizeres do amigo que permaneceu a olhar as estrelas enquanto Edward se sentou de volta a roda.

— Pensamento tenebroso, Varis. — Afirmou Aquiles levemente assustado com a frase do amigo.

— Querendo ou não, ele está certo. — Interrompeu Voltten. — O passado é história, o presente é um conceito e o futuro é um mistério.

— Falou bonito, caro amigo mago. — Parabenizou James, olhando fixamente para fogueira pensativo. — Acho melhor irmos dormir.

— Eu concordo. — Falou Edward, cansado. — Temos um longo dia pela frente.

A palha e o feno que residia dentro das carroças serviram de cama para os seis que passaram a noite dentro de seus veículos, ambos cansados, apertados e preocupados com o amanhã que estava chegando.

A noite sumiu em um piscar de olhos, se transformando em dia rapidamente. Junto do nascer do sol, o despertar do paladino que se levantou e fez sua oração matinal, pedindo a benção de Tac Nyan para continuar a sua missão.

Ele logo foi surpreendido pelos colegas, que acordaram um após o outro, sendo deles, Varis o último.

— Bom dia! — Saldou o paladino, aflorando bom humor em meio ao calor do deserto. — Dormiram bem?

— Nada a reclamar. — Afirmou Aquiles, dando um breve bocejo após terminar sua frase e se espreguiçar.

— Falta quanto tempo para chegarmos na cidade? – Questionou Varis tentando dormir de novo, mas não conseguindo.

— O sol acabou de nascer. — Afirmou Voltten raciocinando uma resposta. — Se continuarmos no ritmo que estávamos ontem, chegaremos lá ao meio dia.

— Ótimo, só temos que sobreviver até meio dia. — Insinuou Varis, preocupando levemente seus companheiros.

Os serviços dos cavalos são cobrados novamente. Os animais seguiam a areia, puxando as carroças e carregando os seis amigos que jogavam conversa fora para matar o tédio que os cercava.

Após horas de viagem e com o atravessar de uma enorme duna de areia, a visão privilegiada da cidade capital de Harenae foi concedida a eles.

Um lugar gigante em meio ao deserto, as casas se diferenciavam pelas suas colunas e suas estruturas que em sua maioria possuíam uma cúpula, ao invés do telhado convencional.

Cercada por muros grandes, porém incomparáveis as enormes muralhas de Cartan, a cidade ostentava outro tipo de beleza.

Duas estruturas chamavam mais a atenção do grupo que seguia para a capital. Uma delas era um enorme palácio, semelhante a uma mesquita, que esbanjava magnitude e beleza com seus tons verdes e dourados.

A outra construção que se destacava por sua grandeza, era um coliseu, localizado no que parecia o exato centro da cidade e possuindo quase o dobro do tamanho do palácio anteriormente citado.

— Isso é real ou uma miragem? — Perguntou Voltten e James cansados e deslumbrados.

— Sim, é real meus caros amigos, a sede não me afetou ainda e meus olhos não mentem. — Afirmou Edward igualmente impressionado.

— Vamos seguir, uma cidade no meio do deserto deve ter um poço d'água. Nós vamos morrer se não bebemos um pouco. — Sugeriu Varis, analisando a cidade com sua visão detalhista. – Tirando o fato de ser no fim do mundo, esse lugar ainda é uma cidade.

— Antes de entrarmos temos que rever umas coisas. – Afirmou Edward, diminuindo a velocidade de seus cavalos. – Harenae é um país que a religião dos Deuses da Areia predomina, na Guerra dos Povos eles sozinhos lutaram contra o Oeste, e não ficaram tão prejudicados, se levarmos em consideração os países dominados, podemos começar uma nova guerra apenas por citar o nome de Cartan.

O alerta do paladino reforçou ainda mais a cautela dos amigos, que ficaram ainda mais receosos perante aquele lugar.

— E podemos também comprometer os Cavaleiros Negros devido a minha presença. — Ressaltou Aquiles olhando para a marcação de ferro derretido feita para esconder o brasão de sua armadura. – Pelo menos meu rosto não deve ser famoso.

— Eles ser tão forte assim? — Pergunto Glans receoso.

— Não os mais fortes, mas se pudermos evitar uma guerra estaríamos no lucro. — Respondeu Edward calmamente. – Principalmente considerando a parte divina.

– Muito bem. – Varis se levantou e apontou para a cidade. – Hora de sequestrarmos uma pessoa.

Após isso, todos começam a olhar para Varis confusos. Até mesmo Edward desviou a visão para o ladino.

– O que foi? – Varis questionou. – Acham realmente que só vamos chegar e pedir para ele vir conosco?

– É, nesse ponto ele está certo. – James comentou. – Nós não podemos chegar e falar para ele vir conosco.

– Realmente, é muito provável que ele tente lutar contra. – Complementou Voltten.

– Bem... – Varis afirmou pegando sua mochila e a abrindo rapidamente. – Eu tenho uns quinze metros de corda.

– Então vamos amarrá-lo? – Aquiles questiona.

– Melhor ver isso depois. – Edward interrompeu seriamente, deixando claro que estava desconfortável com o assunto. – Por agora vamos nos focar em chegar na cidade.

Por Tisso | 02/07/20 às 18:11 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia