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Capítulo 60 - Fluxo da Vida e Poluição Sanguínea

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 60 - Fluxo da Vida e Poluição Sanguínea

Autor: Tisso | Revisão: Shind

Uma tenda grande e espaçosa, internamente dominada pelo total breu, sendo exceção à regra uma lamparina no centro de tudo, revelando as diversas peculiaridades do local.

Tabuleiros religiosos, baralhos de cartas e as próprias cartas jogadas aos montes por aqui e ali. No meio daquilo tudo, havia um homem ajoelhado.

Ele não aparentava ser diferente dos outros que estavam em volta do local. Vestes brancas, armaduras brancas, tudo nos conformes, mas esse possuía adereços diferentes.

Braçadeiras de metal dourado reluzentes com uma joia estranha em cada um, pareciam um diamante ou uma esmeralda revestida em uma resina que as moldava em formato esférico.

Para finalizar e decretar o papel que o ser possuía de mestre, a sua máscara era extremamente diferente.

Ao contrário de uma marca teatral comum, ela era uma máscara dourada que parecia representar uma chama, vagamente semelhante ao sol. Os buracos de seus olhos pareciam maiores do que os das outras máscaras e em seu queixo havia uma grande parte prateada que poderia ser retirada e colocada, algo que revelava sua boca por um encaixe.

Quando a entrada de sua tenda é aberta, a figura do mestre rapidamente dirige seu foco a pessoa que estava a entrar.

O silêncio no local imperava de forma surreal, nunca que um tecido de tenda seria capaz de anular tanto o som externo.

A respiração de ambos era ouvida nitidamente, podendo comparar com facilidade as diferenças entre as duas.

Enquanto o mestre respirava de forma calma e lenta perante o vazio negro de sua tenda, o arqueiro respirava apreensivo, ainda com medo daquele grupo.

As armas de James foram confiscadas antes mesmo dele pensar em contrariar. Aparentemente o mestre também não possuía armas, mas as braçadeiras pareciam claramente com canalizadores de magia.

– Então? – James questionou sem dar um passo adiante, apenas observando a reação do tal “mestre”.

– Então esse é o momento que você segue adiante e nós conversamos. – O mestre afirma em um tom sério, porém casual. Sua voz era bruta e rústica, mas não era amedrontadora ao ponto de deixar o arqueiro receoso.

– Certo... – James da lentos passos na direção da lamparina, sempre checando o piso em que andava.

– O máximo que você vai encontrar é um tapete ou tabuleiro, esse lugar não possui armadilhas ou buracos. – O homem afirmou no mesmo tom de voz, mas deixando claro o deboche ao arqueiro. – Na verdade, fique a meio metro de minha frente, do outro lado da lamparina, acho que é o mais confortável.

Sem contrariar, James o obedece.

Ajoelhando da mesma forma que aquele homem se ajoelhava, James ajeitou a postura e olhou para o buraco dos olhos da máscara.

Mesmo com a pouca luz, James pode ver as íris verdes e reluzentes em torno de pálpebras ainda mais verdes, quase como um neon.

– Sim, eu não sou humano. – Respondeu um segundo após o arqueiro olhar em seus olhos. – Eu sou um orck.

– Hum? Eu não...

– Sim, eu sei as limitações mentais de minha espécie, sei que é estranho você ver um “mestre orck” sábio e eu sei que você iria perguntar isso, então eu optei por deixar as preliminares respondidas em uma única frase. – O mestre afirma com um tom sério e exibido, algo que fazia o arqueiro lembrar de como ele falava quando exaltado. – A propósito, meu nome é Phineas.

O arqueiro engolia a saliva de forma lenta e amedrontada perante a figura de Phineas, que demonstrara ser uma pessoa preparada ou um lunático que previu tudo para falar em uma conversa,  não deixando brecha para resposta devido a voz rústica.

– Você que fez as previsões então? – James questionou receoso.

– Não fiz todas, mas a maioria sim. – Phineas respondeu pegando uma espécie de argola que media um pouco menos de sua palma e um tabuleiro com todos os números e letras. – Basicamente eu coloco a argola no centro do tabuleiro e aplico as forças necessárias.

– Magia?

– Não exatamente.

James ergue as sobrancelhas intrigado.

– Então o que seria? – O arqueiro questiona vendo Phineas a guardar os utensílios.

– Pense comigo, Jameson. – Phineas afirmou se virando para o arqueiro. – Tac Nyan é o deus que “criou” a sorte, ou pelo menos o responsável por ela, certo?

– Sim, eu acho.

– Sorte seria manipular o universo para um sucesso seu, não seria mais eficiente você se adequar ao universo para assim não ter fracassos?

James achara aquilo estranho, mas vira nos olhos do mestre que ele falara de forma tão séria quanto Ortros ou Parysas.

– Como assim “se adequar”? – o arqueiro questiona intrigado e quase boquiaberto com o argumento.

– Isso vai ajudar a compreender. – Pegando uma pequena caixa e diversos dados de diversas faces. – Pode parecer paranóia você ver, mas a lógica por trás é simples.

Com um rolar de dados, Phineas arremessa cinco dados, dois de seis lados, dois de vinte lados e um de quatro.

– Esse é o resultado de algo que vai acontecer, o futuro não vai ser moldado pela nossa sorte, ele apenas vai acontecer. – Phineas explica abrindo os braços. – Me ataque.

– Como? – James questiona supresso.

– Me ataque, use o que quiser.

James fica receoso, mas se levanta, dando leves saltos em posição de luta e rapidamente dá um soco falso seguido de um chute verdadeiro.

Porém, rapidamente Phineas desliza a cabeça para o lado contrário do chute, pegando a perna de James e o imobilizando quase que totalmente.

Os dois voltam a se ajoelhar.

– Você conseguiu prever isso em menos de um minuto? – James questionou intrigado.

– Basicamente. – Phineas afirmou de forma serena. – Se eu tivesse mais tempo poderia dizer qual seria a melhor reação, qual o melhor lugar para atacar, quais os pontos fracos e afins.

– Como você consegue isso sem magia?

– Usamos magia, mas só em seu princípio, pegando-a como base.

– A cada coisa que você fala eu me vejo mais confuso. – O arqueiro afirmou desviando rapidamente o olhar para o chão.

– Já lhe falaram a qual Deus seguimos, certo?

– Seguidores da Vida, não?

– Exatamente, não paladinos ou magos, mas sim teólogos, visionários e pesquisadores.

– Hum? – James arregala os olhos curioso ao ouvir tais denominações lógicas e intrigantes.

– A vida flui como um todo, não só em seres vivos. – Phineas recitava como um velho a contar uma antiga história de guerra. – A vida é mais complexa que células, organismos ou outros seres vivos; A vida está presente no tempo, em acontecimentos, em lugares e em tudo que existe há vida, presente e futuro, o que está fora desse aspecto já morreu e pertence a Morte.

James encarara aquilo quase como um fenômeno. Uma força divina presente em todos os lugares – onipresença.

– A vida deriva do universo, os acontecimentos do universo permanecem escritos no tempo. O que nós fazemos é usar de métodos para ler o que o universo escreve por meios próprios passados de geração em geração.

– Algo como ler a sorte pelos baralhos de Tarot e as arcanas? – James questiona ainda deslumbrado.

– Pelo visto já sabe um pouco do nosso mundo. – Phineas afirmou com alguns risos.

– Eu possuo um baralho de Tarot, um amigo meu sabe fazer previsão... – James volta sua mente para o que ele realmente deveria fazer lá. – Meu deus! Eu preciso salvar Edward, Varis e Aquiles!

– Hum? Ah, os outros três que previmos. – Phineas afirmou após um raciocínio lógico. – Eu lhe garanto que eles estão bem, pelo menos por enquanto.

– Como assim “por enquanto”?

– Eu não posso falar o porquê isso existe ou o porquê estamos aqui, mas seus amigos se meteram nisso. – Afirmou de uma forma tão séria que acalmou James apenas com palavras fortes. – Essa cidade está sofrendo de uma maldição, os fantasmas nessa cidade estão fadados a um dia eterno. Dia após dia, após dia, após dia. Eles vivem um ciclo sem fim, uma falsa existência da vida.

– Um ciclo? Quer dizer que eles não morrem? – James questiona, mas logo engasga pela redundância de sua pergunta.

– Mesmo se sua alma for eliminada, no próximo dia ela voltará pela manhã, sempre fazendo o mesmo, mas esse problema é nosso, não seu. – Phineas deu uma pausa rápida. – Um outro problema que há nesse lugar é uma maldição. Não temos um nome oficial para ela, mas nos últimos casos usamos “Maldição dos Arrependidos” ou “Maledicite habitatoribus poenitentis” se usar o dialeto demoníaco.

– “Arrependidos”? – James fala intrigado. – Arrependimento de que?

– Isso é detalhe da vida pessoal de cada um de seus amigos, mas eles foram arrastados para o núcleo da maldição. Quebrando o núcleo, tanto dentro quanto fora da maldição, eles vão voltar ao estado normal.

– O que seria esse “núcleo”?

– Varia de lugar para lugar e pessoa para pessoa, e no caso desse, estamos tendo alguns problemas com uns requerimentos. – Phineas suspira rapidamente. – Mas agora que você e aquele draconato estão aqui estamos salvos.

– O Glans? O que você pretende fazer com ele?! – James questionou confrontando Phineas por instinto.

– Calma, passamos melhor os detalhes quando chegar a hora de resgatá-los.

– E quando será isso?

– Após você responder uma pergunta minha. – Phineas afirmou rapidamente.

– Como? – James questionou intrigado.

– Você me fez questões e perguntas sobre minhas crenças e afazeres, o mínimo que eu teria a receber é poder questionar algo do mesmo naipe. – Ele pausa rapidamente adicionando um leve clima de tensão – A partir disso temos o objetivo de quebrar a maldição, mas chuto que isso é um caso mútuo.

James pensou em contrariar, mas logo cedou ao pedido de Phineas.

– Qual a sua pergunta? – o mesmo sabia que Phineas deveria ter uma forma de conferir a veracidade de sua resposta.

As rezas na mente do arqueiro suplicavam para que Phineas não perguntasse algo muito importante ou sobre Tac Nyan.

– Nós prevemos os nomes de quem estava na cidade, mas junto deles dois tiveram mais peso, Glansis e Jameson, por sorte vocês dois estão aqui. Sabemos que seu sobrenome é Frankenstein e acho que nós dois sabemos o renome dessa família.

– Onde você quer chegar? – James questionou incomodado.

– Nós previmos que havia entre vocês três, uma raça impura. – Phineas focou seu olhar no de James, proporcionando uma tensão absurda entre os dois. – O que você é?

– A minha aparência não lhe dá alguma ideia?

– Mesmo mestiços ou raças como meio-elfos não possuem uma aura tão impura quanto a sua, sem ofensas.

– “Um monstro como você deve vagar sozinho no mundo pela eternidade! ”. – Citou com ênfase no final da frase. – Foi isso que eu ouvi quando descobriram.

– Eu entendo o que te acompanha.

– Nem tanto, não é fácil ter o meu sangue. – James afirma envergonhado e retraindo vagamente.

– Tampouco, nossos grupos sempre têm pessoas que tem imperfeições. – Phineas olha para James com um senso amigável. – Mais alguém com sangue de demônio não vai ser discriminado.

James para seu pensamento por um momento.

Aquela simples combinação de palavras haviam lhe acionado um gatilho interno. O calor sentido se modificou para uma série de cortes internos semelhantes a uma dama de ferro.

Questionando a si mesmo sobre o que ouvira, ele virara para Phineas já fraquejando.

– Sangue de demônio? – o arqueiro questionou sem expressão.

– Hum? – Phineas se intriga com a reação de James, ficando preocupado. – Sim, seu sangue?

– Não, só pode ser um engano... – afirmou delirando, mas mantendo a postura por insistência. – O meu sangue não é misto, é de uma única família, não de demônio.

– Nossas previsões não falham, e um sangue de demônio é extremamente notório na classificação divina.

James toma um pouco de fôlego, ficando vagamente desestabilizado mentalmente enquanto sua pele ficava pálida.

– Eu sou Jameson Frankenstein... Filho de Victor e Elizabeth Frankenstein, ambos eram irmãos... Quando a mãe me pariu eu quase morri devido a ser uma cria de incesto, mas os alquimistas e magos locais transmutaram meu corpo para me transformar em um humano homúnculo. – Ele afirmou desequilibrado enquanto seu corpo cambaleava, logo ele caiu para o lado. Phines se despôs a lhe ajudar. – Eu fui deserdado quando descobriram minha origem... vaguei por décadas para tentar me aceitar e agora você afirma que um de meus pais era um demônio e compartilhou de seu sangue comigo?

Era como se o arqueiro fosse morrer a qualquer momento, mesmo que houvesse ajuda médica próxima.

– Tudo faz sentido... – James começa a suplicar para si mesmo. – Eu sempre senti quando forças demoníacas por perto, sentia desconforto com ligações mágicas, tudo sempre fez sentido e eu não percebi.

Começou a rir enquanto perdia o fôlego.

– Hum? – Phineas questionou percebendo com clareza o arqueiro desmaiando. – A previsão não erra, principalmente possuindo poucos resultados de corpos corrompidos, mas você é além de seu corpo, Jameson.

Phineas se levanta e segue para a entrada da cabana, saindo e surpreendendo até os guardas que protegiam a entrada.

– Mestre!? – os dois questionam simultaneamente.

– Tragam alguém para carregar ele e uma ajuda médica, eu confiro os detalhes da maldição com os outros dois eu mesmo.

– Certo!

Por Tisso | 13/10/20 às 17:12 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia