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Capítulo 62 - Uma Estranha Visita ao Período Maldito

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 62 - Uma Estranha Visita ao Período Maldito

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

A brisa do mar e o balançar do navio dava enjoo ao elfo ruivo que acordava lentamente.

Aquiles saiu de sua rede e pisou no chão de madeira do seu andar ainda um pouco grogue, mas no momento que viu o cenário a sua volta, o pânico tomou conta.

“Onde estou” foi a primeira pergunta que ele fez a si mesmo. Logo em seguida, ele saltou para trás, ficando contra a parede e deslizou a mão para a cintura para sacar rapidamente sua espada. “Mas que porra...!”

Quando tateou sua cintura, ele reparou nas suas vestes, uma simples e mundana calça de pano. Quando se arrepiou pela surpresa, ele sentiu seu corpo por completo e com isso a falta de sua armadura.

– Hum? – Ele murmurou, fitando os olhos para todos os lados possíveis.

O cenário que ele encarou foi um navio. Um rústico barco com diversas pessoas dormindo em redes, a pouca iluminação vinha de feixes de luz que eram providos pelas falhas na madeira e janelas malfeitas do local.

A mente do cavaleiro, que não era tão instável normalmente, entrou em pânico rapidamente.

Mesmo sem nenhuma ameaça, ele armou a defesa corpo-a-corpo enquanto traçava uma rota para correr.

Em segundos, ele localizou a escada que dava para o deque superior.

Sem nem pensar, o elfo estava correndo violentamente para a escada, fazendo um alto som a cada passo.

Aquiles continuou em sua pequena maratona até chegar no primeiro deque, se deparando com um horizonte de água salgada para todos os lados.

Sem ter o que fazer, Aquiles olhou ao redor o máximo que conseguia.

– Varis! Edward! James! Glans! Voltten! – Gritou o cavaleiro, ainda recoso perante o cenário estranho e inesperado em sua volta.

Como última ação antes de uma reação, Aquiles conferiu a vela daquele navio. Quando a identificou quase caiu de joelhos.

A vela era completamente negra, mas possuía em seu centro um brasão de cavalo, o mesmo brasão dos Cavaleiros Negros.

– Como? – Ele disse enquanto passava a mão em seu peito, sentindo a cicatriz que a foice do invasor de Cartan lhe proporcionara. – Como...?

– Que gritaria é essa!? – Uma voz feminina bruta chamou a atenção do cavaleiro. Se virando de costas, ele viu lentamente a porta da cabine do capitão abrir, dando a visão necessária para Aquiles.

A mulher era peculiar, parecia possuir em torno de seus trinta anos em aparência física, mas suas orelhas eram peculiares.

Ao contrário das orelhas de humanos, elas eram pontudas e esguias, mas, ao contrário das orelhas de elfos eram de tamanho menor e comuns.

O rosto da mulher era algo rústico e ao mesmo tempo delicado, com uma intercalação de emoção ela viajava entre os dois extremos, algo que ia de belo para ameaçador.

Seus cabelos enrolados eram grandes e destacavam sua face cor de pele quente e textura macia.

As vestes dela eram mundanas, afinal acabara de acordar, assim como Aquiles.

– O filho do Kaplar? – Ela perguntou, franzindo a testa e ameaçando Aquiles com sua expressão, algo que não teve efeito. – Gritar para os outros acordarem é o meu trabalho, não o seu!

– “Filho do Kaplar”? – Aquiles questionou estranhando a mulher, era como se já tivesse a visto em algum lugar, mas ele não lembrava aonde. – Onde estamos? E como eu vim parar aqui?

– Você não precisa saber nenhuma dessas informações. – A mulher afirmou, estufando o peito e continuando a ameaça. – Já que acordou mais cedo comesse os seus afazeres mais cedo.

Aquiles respirou fundo, ignorando o receio que sentia, e logo tomou uma postura ameaçadora. Contrariando a da mulher, Aquiles, além de flexionar os músculos a mostra, levantou o pescoço e assim o olhar, deixando sua presença mais imponente.

– Eu não vou mover um músculo a seu favor até que você me responda. – O elfo afirmou de forma seca e forte, algo muito mais ameaçador do que a mulher conseguiu fazer.

O silêncio dominou o lugar vagamente, a mulher olhou nos olhos de Aquiles, produzindo um atrito no meio dos dois. Aquiles tinha certeza que se garantiria contra ela, logo não recuou um passo.

– Bem que falaram que bandidos não mudam. – Ela ironizou, entrando em posição de combate. – Só porque você é o filho do Kaplar não quer dizer que você não pode ser disciplinado por outras pessoas.

– Disciplinado? – Aquiles questionou, prevendo um futuro ataque da mulher, logo entrando em posição de combate também.

– Não é nada pessoal, só temos que fazer você se acostumar a vida no Quarto Esquadrão.

– Quarto Esquadrão? – Aquela palavra ecoou na mente do elfo, aquela maldição que ele carregava por ser o último sobrevivente de sua primeira missão, logo em seguida sendo ridicularizado e depreciado como símbolo de má sorte, o que lhe fez ser o líder do quarto esquadrão ao mesmo tempo que ele era seu último membro.

A mulher partiu para Aquiles, que ainda estava em torpor. Quando ele notou a investida, logo aplicou um contra-ataque totalmente profissional e letal, não medindo esforços contra quem o atacava.

Segundos antes do soco da mulher lhe acertar, Aquiles conseguiu desviar para o lado, dando uma janela de possibilidades que foi preenchida com um forte e massivo soco direto no rosto da mulher.

A pancada fez um som perturbador e agoniante, junto disso a mulher foi projetada na diagonal uns dois ou três metros, caindo no chão do convés de forma dura e seca.

Quando tentou se levantar, sua boca começou a expelir sangue. Logo foi expelido uma grande maçaroca de sangue e saliva que revelou ter um dente junto.

– O Quarto Esquadrão... – Aquiles murmurou olhando para a mulher ainda pasmo. – Você... você é Santana Bon!?

– Você não reconhece a face da sua própria capitã? – Ela perguntou, se reerguendo ainda precariamente.

Em alguns segundos, dois homens musculosos subiram junto no convés.

– Capitã, o que aconteceu? – Um deles questionou indo em sua direção.

– O bandido! – O outro gritou.

– Eu sabia que ele não era confiável!

– Se acalmem, homens... – Santana afirmou, recompondo-se por completo em segundos. – Não posso negar que eu que comprei a briga, mas agora eu que devo colocar esse fedelho no lugar dele... – Sua forma marrenta e negligente apenas atiçou mais a briga.

A capitã girou a cabeça e estralou o pescoço, flexionando os músculos e engolindo o sangue em sua boca tentando colocar moral.

“Fedelho?” se questionou Aquiles. “Eu já tenho vinte e cinco anos, mesmo que seja pouco para um elfo eu estou na mesma faixa de idade que eles...”

Ele esperou a mulher fazer o próximo ataque, ficando completamente na defensiva.

À medida que o tempo passava, as pessoas foram acordando e os rodeando, esperando a resposta de algum deles.

– Você vai ficar só olhando ou vai tentar a sorte? – Santana atiçou calmamente. – Do bando de bandidos que você veio eles já sabiam alguma coisa de combate? Ou foi difícil de mais para você aprender sobre isso?

– Sabe, esses xingamentos já foram melhores. – Aquiles afirmou sem expressar nada.

Enquanto a encarava, ele via em seus pensamentos uma imagem fantasma do que já acontecera em seu passado, algo como um déjà vu enigmático seguido de inúmeras sombras falsas.

Com mais avanço rápido, Santana correra na direção de Aquiles.

Seus pensamentos acabaram por fazê-lo abaixar a guarda minimamente, mas sua especialidade corpo-a-corpo lhe disse rapidamente o que fazer.

A mulher socou suas costelas, mas o peitoral musculoso do elfo absorveu completamente o golpe.

Logo em seguida, Aquiles abriu sua mão direita e desferiu com toda velocidade possível um tapa de mão aberta tão forte e humilhante que a fez se recompor do golpe e logo em seguida tentar outro, mesmo que ainda estivesse um pouco debilitada.

Parando alguns centímetros do lado do cavaleiro após o tapa, Santana abaixou completamente a guarda e avançou num ataque rápido e feroz.

Aquiles não precisou de muito para entender as intenções da capitã e, milimetricamente, ele desviou. O rosto de Santana trocou um único olhar com o de Aquiles, a face calma e calculista do elfo mostrou para a capitã o fruto de seu erro.

Com o movimento de seu pé, Aquiles a desestabilizou em pleno ataque. Se movendo meio passo para o lado, Aquiles armou seu cotovelo e o desceu com tudo para o chão, levando consigo o corpo de Santana que fora prensado vagamente.

A mulher se debateu e tentou levantar, mas o elfo bloqueou a capacidade de cada uma das ações, a imobilizando com golpes marciais.

Após um minuto daquilo, Aquiles a abandonou, a mesma se levantou e tentou lhe dar um soco, mas ele havia pego sua mão pelo pulso e girou seu braço ainda judiado.

– Acho que não precisamos de tanta baixaria. – Aquiles afirmou, se afastando de Santana.

– O bandido ganhou da capitã! – Um dos homens que os rodeavam avançou para Aquiles.

– Esse maldito trapaceou! – Outro gritou, fazendo o mesmo.

– Confiram suas mãos e calças! Ele usou de algo para ganhar!

– Calem a boca! Malditos... – Santana gritou parando os dois. – Esse desgraçado pode ser um bandido no âmago de seu ser, mas ele lutou de mãos limpas nesse combate...

– Mas Capitã Santana, ele não é nem ao menos um de nós...

– Eu disse para vocês calarem a boca! – Respondeu com um grito, deixando vazar de sua boca um pouco de saliva e sangue.

Os homens que antes tentavam argumentar foram calados por completo pera a ira da capitã.

– Me levem para minha cabine e chamem o médico. – Santana afirmou, agarrando no ombro de uma das pessoas em volta e dando as costas para Aquiles. – Filho de Kaplar, após seus afazeres, venha a minha cabine... isso é uma ordem!

Aquiles ficou parado até que outra pessoa chamasse sua atenção e lhe obrigasse a lavar o convés com um esfregão, tarefa típica de quem só estava lá pra cumprir número.

Mesmo com um serviço inútil e trivial como aquele, ele realizou sem questionar, apenas refletindo sobre aquele lugar.

Santana Bom, mais conhecida como “Capitã Santana”, serviu trinta de seus cinquenta anos aos Cavaleiros Negros, sendo dez desses trinta como Capitã do Quarto Esquadrão.

Ela era uma mestiça entre um elfo de Fhorre com um humano normal que foi obrigada a seguir carreira militar após sua família se endividar com um monarca em plena Guerra dos Povos. Depois de certo tempo, ela conseguiu se afiliar aos Cavaleiros Negros e garantir a travessia de sua família para os solos de Artit.

Sua última missão coincidia não só como a primeira missão de Aquiles como também a missão que aniquilou todo o resto do quarto esquadrão dos Cavaleiros Negros – com a exceção do elfo ruivo.

Em outros apelidos, Santana Bom era conhecida como “Florete Nu” devido a seus socos que, por causa de suas mãos pequenas, tinham uma área de impacto menor, assim como o estocar de um florete.

Nenhum outro membro da família de Santana Bom se destacou em nenhuma área.

Uma passeata ao oeste de Artit foi feita junto com a construção de um monumento gigantesco, rodeado por um cemitério em homenagem a todos que faleceram no acidente com a embarcação, que tinha como foco uma patrulha mais aprofundada do oceano próximo a Artit.

Depois da perda de inúmeros homens, da sobrevivência única de Aquiles e das origens do cavaleiro, ele foi tachado de traidor, fato esse que fora desmentido por Cérbero dias após o resgate do elfo.

Aquiles lembrava dos detalhes sobre Santana Bom à medida que fazia seu trabalho, não sentindo queimaduras pela luz do sol nem exaustão.

Quando reparou em suas costelas, haviam marcas de socos feitas pelos punhos florete de Santana, mas elas não eram marcas grandes ou letais, era como se seu peitoral tivesse anulado aquilo facilmente, tal como a carapaça escamosa de Glans.

Aquiles se vangloriou mentalmente sobre isso.

Após algumas dezenas de minutos, ele viu um outro homem saindo da cabine do capitão, o mesmo olhou para Aquiles rapidamente.

– A Capitã Santana quer falar com você. – Ele falou, seguindo em direção as escadas para voltar ao interior do navio.

Aquiles largou o esfregão e engoliu a saliva lentamente enquanto caminhava na direção da porta.

Por Tisso | 20/10/20 às 16:37 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia