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Capítulo 63 - Conversa com o Passado, Quero ser O Melhor

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 63 - Conversa com o Passado, Quero ser O Melhor

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

– Aquiles Hyden; Dezoito anos; Sessenta quilos; Cento e setenta centímetros de altura; Nenhuma marca de ferimento no corpo; Nenhum histórico de missões. – Santana falava calmamente, tendo metade de seu rosto tampado pela ficha que relatava os detalhes citados pela mesma.

O elfo ruivo estava a cinco metros da mesa da cabine do capitão. Nela, ele percebeu diversos objetos para navegação, entre eles um mapa da costa de Artrit marcado.

– Os dados conferem? – Santana perguntou abaixando a folha e se focando nas íris de Aquiles friamente.

– Vinte e cinco anos; Nem lembro de meu peso; Cento e setenta e quatro centímetros de altura; Uma cicatriz gigante reside em meu peito; Quanto a missões nem consigo citar quantas eu já fiz, mas boa parte sozinho. – Aquiles respondeu com confiança, se aproximando lentamente da mesa da capitã.

– Os dados mencionados por você conferem mais do que essa fixa. – Disse Santana, se levantando e sacando sua espada, a apontando para o peito do cavaleiro. – Essa ficha foi feita para todos os membros da tripulação, é o documento mais completo que temos sobre Aquiles Hyden.

– Está insinuando algo?

– Seu papel de se infiltrar aqui foi frustrado, apesar da aparência de seus rostos serem idênticas, as especificações não batem. – Dava para ver o seu corpo se movendo para dar um golpe contra Aquiles. – Alguma ressalva?

– Eu posso falar minhas explicações, mas não acho que você as aceitará. – Afirmou Aquiles, receoso e mesmo não entendendo se aquilo era um sonho ou transe, os golpes anteriores realmente doeram, o corte de uma espada seria no mínimo, igualmente forte ao de uma espada normal.

– Vá em frente, faça o meu dia. – Caçoou circulando a mesa, deixando um espaço livre entre ela e Aquiles.

– Você prefere que eu fale o que? Segredos dos Cavaleiros Negros? O que eu me recordo antes de estar aqui? O que eu me recordo quando estive aqui?

– Só porque é filho de Kaplar, não quer dizer que você sabe de tudo sobre os Cavaleiros Negros. – Santana afirmou confiante. – O próprio ressalta isso com frequência e cada palavra é guardada a sete chaves, não tem como você afirmar algum segredo.

– Quer que eu liste a formação dos Cães Demoníacos? – Aquiles perguntou friamente. – Ou prefere que eu fale como eles se formaram?

Santana recuou para trás rapidamente e perdeu vagamente a postura.

– Como diabos sabe sobre a existência deles?!

– Eu não sei dizer se tudo isso é uma ilusão para conseguir essas informações, mas elas caíram nas mãos de Pur, chuto que sua existência não seria um segredo.

– “Pur”? – Santana buscou em sua mente uma explicação para aquilo. – Como Harenae conseguiu tais informações?

– Não sei. – Deu os ombros para a pergunta. – Não chegamos a perguntar diretamente como isso foi acontecer, quando questionei isso com Ortros, ele ficou eufórico, exigindo para mantermos aquilo entre nós.

– “Ortros”, “nós”? Que histórias são essas sem sentido?

– Acho que eu devo afirmar só importante já que não sei sua índole ou origem. – Aquiles falou com confiança. – Em meados de mil duzentos e quarenta e nove eu parti para uma expedição marítima com o Quarto Esquadrão com o objetivo de reconhecimento das áreas ao nosso redor, passamos a virada de ano e uns meses em alto mar. Não sei como ou o porquê, mas todos da embarcação morreram com a minha exceção.

– Quer que eu acredite nessas histórias idiotas...

– Cérebros ressaltou a todos os outros presentes dos Cavaleiros Negros que eu não era o culpado. – Se virou rapidamente. – Então se quer acreditar em mim ou não, isso não importa, vamos todos morrer aqui e eu não vou estar incluso. “Meus braços estão abertos para sua crença em minhas palavras e também para lhe contra-atacar a qualquer momento”.

Com essas palavras, Aquiles deixou Santana na cabine do capitão sem ter o que dizer.

– O lema dos líderes dos Cavaleiros Negros... – Ela sussurrava para si mesma enquanto arrumava a postura. – Cérebros, Otros, talvez ele saiba sobre Gastor, Sansa e Parysas...

Voltando para sua cadeira, ela apertou os olhos e conferiu os mapas que possuía.

– “Todos da embarcação morreram com a minha exceção”. – Era a citação que ficou em segundo lugar em sua mente, não podendo parar de pensar naquilo independente do que fizesse, até mesmo a bebida não resolveu.

Invejavelmente, Aquiles tomou seus próprios partidos no navio, ignorando as ordens de seus superiores ou recomendações. Quando estava carregando uma caixa pesada, ele colocava outra de mesmo peso.

“Supere seus limites” era o que sua mente repetia de forma violenta e irritada.

Quando acabou de fazer todos os trabalhos do dia, o cavaleiro pegou uma área limpa e não movimentada do navio e começou uma série de exercícios em plena luz do sol.

Ele estendeu isso até algumas horas depois do sol se pôr, chamando a atenção de alguns dos tripulantes.

– Esse é mesmo Aquiles?

– Na minha mente ele era mais magro.

– Como ele ficou tão forte em tão pouco tempo?

Os comentários eram diversos sobre seu condicionamento.

Em meio a uma serie de flexões, ele foi surpreso com duas botas que entraram em sua linha de visão. Eram de Santana, junto daquilo um cheiro de peixe veio à tona.

– Levante-se, é uma ordem. – Ela comandou. – Você não iria comer se não lhe trouxessem algo, não é mesmo?

– O que você tem a discutir? – Aquiles se levantou, vendo o peixe grelhado em um palito que ela trouxera, logo em seguida o pegou.

– Hum, como pode assumir que eu vim aqui conversar com você?

– Eu não conhecia muito sobre você, mas pelos relatos que existiam na biblioteca de Monssolus, eu posso pelo menos supor que você nunca iria apenas entregar comida para um soldado espontaneamente.

– Você é um maldito que sabe demais. – Santana afirmou vagamente irritada.

– O meu conhecimento é puramente militar, passei quase que cinco anos apenas treinando estratégias, mobilidade em combate e me aprofundando na história dos Cavaleiros Negos.

– A troco de que?

– “A troco”. – Aquiles riu de forma ameaçadora, mordendo um pouco de seu peixe. – A troco de ser O Melhor.

– O melhor Cavaleiro Negro?

– Não, simplesmente O Melhor.

– O conceito de “Melhor” é amplo de mais para você dizer que quer apenas ser “O Melhor”.

– Eu não dou a mínima. – Ele cortou com um breve suspiro. – Não ligo para o que eu vou ter que percorrer para isso, mas eu vou ser O Melhor, eu devo isso de certo modo.

– Não tendo um parâmetro, você coloca um objetivo surreal. – Santana começou a refletir de forma debochada. – Mesmo sabendo da existência de Cérebros e Ortros, você diz que quer ser mais forte que eles...

– Eu não disse que eu quero ser mais forte que eles. – Aquiles a interrompeu rapidamente. – Eu quero ser melhor que eles. Quero ser “O Melhor”, quero ser aquele que fará as coisas acontecerem, aquele que exaltara poder até mesmo casualmente, alguém digno de assumir o trono de meu pai.

– Todos os seus desejos são apenas para suprir a existência do velho Kaplar?

– Não sei como é aqui, mas no mundo “real”, Kaplar está próximo de seus sessenta, em pouco tempo as magias cristãs não serão o suficiente para mantê-lo vivo. – Aquiles falou de forma fria enquanto olhava a lua de prata. – Os Cavaleiros Negros precisam de alguém a altura, alguém que unirá tantos povos quanto Kaplar uniu, alguém que conquistará tanto espaço nesse mundo como Kaplar conquistou, alguém digno de ser o líder dos Cavaleiros Negros... O Melhor.

– Ainda parece idiota para mim, visto de certo modo.

– Eu já falei, sua visão não me importa, afinal você nem está viva no mundo real.

– O que você chamaria de “real”? – Santana questionou curiosa.

– O tempo que eu estava anteriormente, não sei dizer o que é esse mundo, mas tenho certeza que ele é falso e que em algum momento irá ruir. – Aquiles comeu o que restava de seu peixe em apenas uma mordida. – Algo me trouxe aqui e esse mesmo algo vai me tirar, quer ele queira ou não.

– Você quer dizer que eu e todos da tripulação somos falsos?

– Eu diria que em parte, ousaria dizer que vocês são apenas um reflexo do que um dia foram. Não seria egoísmo falar que nesse mundo apenas eu sou o real.

– Entendo... – Santana tentou assimilar as palavras do cavaleiro, mesmo não acreditando nelas. – Você mencionou algo sobre “Todos da embarcação morreram com a minha exceção”, poderia explicar isso?

– Quem dera eu pudesse. – Ele suspirou. – Cérebros me explicou que quando alguém passa por uma experiência traumática, diversas coisas podem acontecer. No meu caso, minhas memorias foram apagadas cerca de um mês, a última recordação que conseguiram tirar foi um dia normal de trabalho.

– Amnésia... – Santana murmurou.

– Basicamente...

Aquiles jogou seu palito no chão e voltou a fazer exercícios.

– Qual o seu plano então? – Questionou Santana, olhando o elfo se exercitando.

– Eu provavelmente vou ter que esperar até que algo aconteça, até lá, eu quero estar o mais preparado possível.

– Você diz o que atacou o navio?

– Talvez seja isso, talvez seja outra coisa. Independe do que for, eu tenho que estar pronto.

– Acha que alguém vai comprar sua ideia de ameaça se aproximando?

– Eu estou acostumado a não ter ninguém que confia em mim. – Aquiles parou por um breve momento, lembrando de seu grupo que estava lhe acompanhando por alguns meses. – Apesar de algumas exceções.

– Hum?

– Após sobreviver ao naufrágio, eu virei o líder do Quarto Esquadrão, mas somado com o fato de que eu era filho de bandidos e que todo o grupo morreu em um ataque, todos começaram a me evitar. – O suor de Aquiles começou a se misturar com poucas lagrimas camufladas. – No meu mundo, eu sou o único no Quarto Esquadrão.

– Isso é meio irônico sabia? – Santana riu vagamente. – Em alguns lugares de Ortren o número quatro significa azar.

– Alguma razão em especifico por isso?

– Dizem que é porque, nas línguas de algumas áreas, a palavra “quatro” tem o mesmo som de “morte” ou algo assim. – Santana acabou por se sentar ao lado de Aquiles, se escorando na borda do navio. – Acontecia algumas coisas parecidas durante a Guerra dos Povos. Algumas religiões tinham medo de tal coisa.

– Já ouvi lendas sobre, embora de onde eu venha não existem muitas religiões, na realidade, acho que o mundo mudou pouco em nove ou dez anos. – Aquiles parou de fazer flexões. – Acho que por hoje chega.

– Fez quantas?

– Oitocentas nas últimas horas. Matheus Freitas: CA-RA-LHO!

– Como!? – Santana ficou surpresa.

– Preciso me manter ativo, não faço ideia quando o ataque vai começar, tenho que começar aos poucos.

– “Aos poucos”? Você quebrou o recorde de todas as pessoas no barco em um dia!

– Esse não chegou nem perto do meu recorde. – Aquiles se deitou de barriga para cima e se pôs a admirar as estrelas de forma relaxada. – Um dia eu tirei apenas para fazer flexões e pedi para um sacerdote em treinamento contar e me ajudar caso eu desmaiasse. Ele contou dez mil e caiu no sono, eu fiz mais quinhentas depois disso. CA-RA-LHO!!!²

– Você compartilha uma segunda raça? Nunca vi um elfo que conseguisse fazer isso.

– Eu não compartilho raças, sou um puro elfo de Fhorre, mas consegui competir com o draconiano mais forte que existe. – Afirmou rindo.

– Draconiano? Eles não estavam extintos?

– Não... – Aquiles riu enquanto se levantava. – Você ia se surpreender com o mundo daqui dez anos.

– O fato de que eu não vou sobreviver não anima muito suas frases. – Santana afirmar se levantando.

– Você decidiu acreditar nas minhas histórias então? – Caçou.

Santana desviou o olhar.

– Não que eu acredite, mas talvez não seja tudo mentira. – Ela tentou se defender e disfarçar.

– De qualquer forma, eu preciso comer mais, meu corpo precisa de proteína ou algo para se alimentar, para que eu não fique com problemas de falta de energia.

– Hum?

– Nutricionismo. – Aquiles afirmou brevemente. – Preciso de carne branca, mesmo a de peixe sendo ruim é mais nutritiva no momento, eu também vou precisar de água e de vegetais. Matheus Freitas: Poxa Aquiles, tava indo bem, mas aí tu dá uma mancada dessa? Carne branca é a melhor carne que tem.

– Eu já ouvi Ortros falando disso quando treinava soldados, comidas para músculo. – Santana o seguiu. – Você ficou seguindo eles à risca?

– “O Melhor” não é algo que eu possa alcançar sem trabalhar nos mínimos detalhes.

– Certo...

A lua de prata os banhava com seus raios, enquanto o cheiro do mar complementava o cenário da noite. Depois de um tempo, o cavaleiro finalmente se retirou para dormir.

Por Tisso | 22/10/20 às 17:27 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia