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Capítulo 70 - Uma Máscara Falsa Perante uma Lembrança Quase Esquecida

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 70 - Uma Máscara Falsa Perante uma Lembrança Quase Esquecida

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

O calor da manhã de verão contrastava com a noite fria de inverno do dia anterior, a sensação de um saco de dormir foi substituída por uma cama de feno e tecido.

Olhando ao seu redor, os olhos negros e vermelhos reconheceram o local a sua volta pela luz fraca que vinha das falhas na madeira que as atravessavam como lanças douradas de luz, iluminando em meio a escuridão.

O estabelecimento era simples, modesto e básico, no canto contrário ao que ele estava havia uma mesa de jantar, no centro da casa, uma lareira com um baú ao lado e claro, a cama a onde ele estava.

Ele tentou rastejar lentamente pela cama, se puxando para o lado para fazer menos barulho e movimento, mas quando conseguiu chegar em certa região da cama, ele sentiu seu braço sendo puxado por um corpo quente vivido e de pele talhada.

Forçando vagamente enquanto ainda tentava manter a furtividade, seu corpo esguiou-se para o chão, pisando com seus pés frios e nus pelo piso de tábuas. Quando olhou para seu corpo, sentiu as roupas as rasparem em sua pele, roupas humildes e surradas, algo que mais parecia um saco de batatas, mas mais descentes e costuradas – um pijama comum sem mangas.

Sem pensar sequer uma segunda vez, seu corpo se moveu para abrir o baú no centro da casa. A peça de madeira era rústica e com detalhes de ferro – meio enferrujado – e trancas barulhentas.

Abrindo a tranca da forma mais silenciosa possível, a visão de uma armadura de cota de malha misturada com um escudo de madeira e uma espada surrada – tudo com aparência desgastada e velha, sem nem ao menos marca de um ferreiro ou que remetesse a um grupo.

Aquelas vestes de anéis minúsculos esfriavam suas mãos enquanto raspavam nas mesmas, levemente nostálgico e extremamente assustado, ele revirou mais ainda o baú ao ponto de acordar o ser que estava na cama.

Ela murmurou sons e se destacou vagamente – sua silhueta possuía as mesmas roupas de Edward, só que em uma versão feminina. O pouco que sua pele escapou, de sua cor era de pinheiro escuro, mas bem talhado e moldado, uma elfa de Fhorre bem cuidada, apesar de sua classe social.

– Bom dia, querido... – Ela murmurou sem virar o rosto para o paladino, enquanto se dirigia ao guarda roupas ao lado da cama.

Aquelas palavras percorreram os ouvidos do paladino como uma Mamba-Negra esgueirando seu interior, lambendo seu cérebro e mordendo seus pensamentos, causando um disparo de pânico em seus pensamentos confusos, os transformando em completo caos e desespero. Matheus Freitas: Credo! Que coisa horrível! Ouso dizer que é uma das piores comparações que já li, de onde tiraste isso?

Porém, o paladino não expressou palavras, apenas respiros vagos junto de seu corpo que começou a tremer. A mulher se trocou em sua frente, apenas deixando o veneno mental mais e mais efetivo, quando a mesma se virou, dois fenômenos aconteceram simultaneamente.

A face do paladino reconheceu a da mulher, lhe dando um gatilho para que sua defesa mental baseada em sua fé fosse afetada pelos feitiços inimigos, resultando em um grito traumático de dor mental.

Ao mesmo tempo, a mulher notou o braço direito de Edward.

O braço que havia explodido em energia santa em Harenae, que foi socorrido pelos curandeiros locais, em seguida, tratado por Voltten e depois por Sansa.

As diversas elevações, retrações, coagulações que aquele braço possuía ainda eram extremamente nojentos e desconfortantes de ver. Ao terminar de ver aquilo no corpo de Edward, os dois já estavam gritando em sincronia, um de trauma e a outra de medo.

Aqueles gritos se expandiram para longe, bem para os arredores da casa, mas a pessoa mais afetada foi a criança que residia numa cama menor aos pés da do casal.

Nas próprias palavras do paladino, Crist era idêntica a sua filha, ignorando o fato da mesma ser uma humana.

Porém, ele também mencionou em suas conversas com Parysas os exatos dizeres “Mesmo com o trauma da morte de minha filha e esposa, devo seguir em frente”.

O passado para ele, deveria ficar enterrado em um cemitério religioso, homenageando quem já fora importante para ele com o digníssimo respeito. Mas aquilo era uma real tortura psicológica, certamente fruto de um demônio ou mago do mal.

Aos poucos, a criança levantou, revelando sua face para Edward que gritou, sofrendo mais do que nunca.

– Querido! O seu braço! – A mulher gritou tão alto que sua garganta ficou rouca.

– Pai! – A criança gritou correndo em direção ao paladino, conseguindo agarrar seu braço ferido e o abraçando com medo.

Ouvir ambas as vozes pioraram o estado mental de Edward, que não tinha parado de gritar.

Em suma, os três estavam em pânico e sem se mexer pelo choque.

– Abram! Abram! – Batidas na porta chamaram a atenção dos elfos, principalmente da mulher que, em meio ao descontrole, tirou o bloqueio de madeira rapidamente, dando passagem para dois guardas entrarem. – O que aconteceu?

– O braço! O braço de Edward! – Um guarda afirmou, apontando para o paladino que havia sessado seu grito naquele ponto, ficando em um estado zonzo devido ao stress mental. – Precisamos levá-lo para o padre!

Rapidamente, um guarda puxou Edward pra cima e o carregou pelo ombro enquanto o companheiro afastou a criança do pai e se despediu de forma preocupada e conturbada.

As pessoas alheias ficaram horrorizadas com o que viram pela rua. Aquele elfo que já foi um Ás na época que atuava na Guerra dos Povos, um ídolo além de sua idade. Todos conheciam a lenda que Edward era para aquele lugar.

Vê-lo quase desmaiado e com seu braço queimado com sequelas bizarras e estranhas era um grande golpe nas esperanças daquela pequena vila sem nome. Somando o evento repentino, era apontado sinais de demônios.

Carregado com cuidado pelos companheiros soldados até a igreja local, Edward viu aquilo sem nem conseguir mudar o ângulo de sua vista. Os mosaicos de Tac Nyan decoravam o interior mundano e úmido do local era peculiar no mínimo, algo nostálgico que aranhava as memórias.

– Padre! – O soldado que carregava Edward gritou ao colocar os pés na igreja. – Temos um soldado ferido!

De uma porta após os inúmeros bancos de madeira e do lado de um balcão, uma porta negra se abriu, revelando um homem velho de roupas negras requintadas – uma roupa de clérigo bem-feita, sem dúvida. Carregando consigo um bastão de metal quase que do seu tamanho e com uma ponta dourada em seu final.

– Padre! É Edward! – O soldado gritou, se aproximando do padre, colocando seu companheiro elfo no banco de madeira mais próximo. – O seu braço, ele está queimado, com sequelas estranhas...

– Acalme-se... – A voz idosa do velho o cortou enquanto visualizava o ferimento do paladino. – Eu cuidarei dele, pode voltar para seu posto.

O soldado fez uma reverência e logo os deixou.

O padre olhou para o corpo de Edward enquanto o mesmo voltou a ter o controle. Com pressão instável e com a garganta completamente rasgada pelo seu grito, ele se recuperou aos poucos.

– Consegue me ouvir? – O padre perguntou para o paladino enquanto se aproximava, estendendo a mão para sentir a pele queimada do elfo. – Isso dói?

A mente do paladino ficou em mil dúvidas perante o que responder para ele, afinal, aquele mundo demoníaco poderia estar brincando com ele apenas por comodidade.

Ao avaliar aos poucos as opções, ele apenas entrou em um teatro falso para não levantar suspeitas e tentar combater essa magia.

– Sim, dói um pouco... – Afirmou de forma rouca e sofrida.

– Sabe o que ocasionou isso? – O padre perguntou enquanto afastava sua mão.

– Não, eu acho que apenas acordei com isso. – Disse de forma cômica, mas sempre mantendo a posição de coitado.

– Isso é um pouco vago... – Ele aproximou o seu cajado do ferimento. – Vou aplicar uma magia de cura, mas não sei direito o que fazer perante um ferimento tão grave.

– Certo... – Disse com um sorriso falho e humilde, colocando suas esperanças na mão do padre, claro que só de fachada.

O paladino sentiu as energias divinas sendo canalizadas na parte dourada do cajado do padre de forma lenta, era se como aquele cajado fosse uma obra fraca e ultrapassada.

Ele aparentava possuir anos de sabedoria em suas costas, e de fato ele tinha, mas aquela energia acumulada não chegava nem perto da energia que o próprio paladino acumulava normalmente com o anel mágico.

De fato, a diferença de encantamentos de um item comum e mundano como aquele cajado era tamanha, se comparado a um simples anel dourado feito pela maga real de Civitas.

Edward até mesmo tentou orar silenciosamente para testar o acúmulo de energia.

Após sentir sua aura entrar em sincronia com a do padre, ele pode comprovar que era de fato a energia divina de Tac Nyan, uma energia que supostamente não deveria existir dentro de uma magia que construíra aquele mundo.

– Acho que mais do que isso eu não conseguirei fazer. – O padre afirmou cabisbaixo, afastando o cajado de Edward.

– Acho que está tudo bem. – O paladino se levantou de forma precária, como se realmente estivesse ferido. – Não está tão mal quanto parece.

– Triste que perdemos um dos nossos melhores soldados em plena preparação de ataque. – Afirmou com extremamo pesar.

Edward, antes com o olhar desviado, fitou completamente suas íris no padre de forma fria.

– “Preparação”? – Ele questionou vagamente.

– Ah, sim, sua mente ainda deve estar meio confusa. – Respondeu o encarando. – Recebemos uma denúncia da atual sede da Interfectores Del Amine, aceitamos o serviço para conseguir mais renda para a cidade e simpatizar com esse reino sem nome que estamos formando.

– “Interfectores Del Amine” ... – Edward sussurrou para si mesmo, enquanto lembrava dos acontecimentos desse ataque.

Os corpos de centenas, senão milhares, espalhados pelo lugar – e entre eles os frios e macabros cadáveres de sua esposa e filha em suas mãos. A dor do trauma voltou à tona, destruindo a máscara falsa que ele tinha construído.

Edward tentou caminhar até a porta, cambaleando enquanto tentava focar seu olhar turvo e morto. Seus pés frios pisaram no chão de terra batido da vila onde alguns cidadãos e guardas o esperavam assustados.

– Edward, o que aconteceu com você?

– Está bem?

– Como conseguiu o ferimento?

– Você precisa de ajuda para andar?

– Precisa de dinheiro para medicamentos?

– Nossa família tem ervas medicinais...

– A nossa pode oferecer uma comida melhor...

– Edward nós podemos...

– Nós podemos...

– Podemos...

As palavras da multidão eram como sussurros no vazio negro da alma do paladino. Edward mordia os lábios ao ponto de rasgá-los vagamente com seus dentes, enquanto caminhava sem rumo aparente.

A multidão abriu caminho, não sabendo o que fazer perante o paladino que aparentava estar mais morto do que vivo, com motivação nula para estar vivo. Apenas um ser andando sem rumo, um soldado que teve suas cicatrizes abertas novamente da pior forma possível.

Apenas quando se converteu a Tac Nyan e abandonou seu povo para ser um viajante devoto ao gato esmeralda ele sentiu tal dor, mas, perante ao que acreditava já ter superado, que a dor da felicidade que já se foi voltou e da pior forma possível.

– Querido! – A mulher de Edward abriu espaço na multidão e o abraçou, segundos antes do mesmo desmaiar.

A última coisa que ela ouviu foi uma oração silenciosa e calma, implorando por misericórdia e salvação. Logo em seguida, o corpo parou de resistir a impulsos e vontades, simplesmente caiu duro no chão enquanto seus olhos fechavam lentamente.

Por Tisso | 17/11/20 às 16:43 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia