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Capítulo 1.1 - Lembranças

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 1.1 - Lembranças

Autor: Francélia Pereira

Então em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta forjou, por desígnios do baritonante Zeus. Fala o arauto dos deuses aí pôs e a esta mulher chamou Pandora, porque todos os que têm Olímpia morada deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias; v.77-82


Sentada sobre uma rocha, Artemísia mantém seu olhar fixo no horizonte. O vento do deserto acaricia seus cabelos negros. Sua respiração é quase imperceptível. Ela fecha os olhos e se lembra de uma briga com seu pai, aos dez anos. 


Uma mulher anda lentamente em um salão, perto de um largo corredor, na companhia de suas damas. Um pequeno animal virtual passa por elas. A mulher se irrita.

— Artemísia, vá brincar no jardim. — A mulher fala, com semblante triste.

— Sim, mamãe. — A menina desliga o pequeno projetor, pendurado em um cordão em seu pescoço, e segue apressada pelo corredor, que dá acesso ao jardim e à sala sagrada da casa.

Artemísia chega às grandes colunas em estilo dórico, no fim do corredor, e segue para o jardim, mas ao olhar para o lado direito, onde fica a sala sagrada, um pequeno templo construído com arquitetura inspirada nos moldes da primitiva civilização grega, ela vê o pai saindo e percebe que a porta não se fechou totalmente. Quando o pai passa por ela, Artemísia pensa em avisá-lo, mas desiste. A menina dá um passo, na direção do jardim, e algo parece lhe chamar de dentro da sala. Quando o pai desaparece pelo corredor, ela corre e atravessa a porta.

O medo de ser pega quase paralisa a garotinha, que observa, admirada, tudo que há na sala. Bem ao centro está a bela Espada Ancestral, suspensa sobre um sol dourado cravado no chão; a menina caminha em direção a ela. Os olhos dela brilham, seu coração dispara e, quando está bem perto, a lâmina da espada parece refletir a luz de sua alma.

Como se estivesse em transe, Artemísia ignora as leis de seu povo, pega a espada e a ergue com as duas mãos. Distraída, não percebe o pai se aproximando e se assusta quando ele toma a espada de suas mãos, bruscamente. A menina nem tem tempo para se defender, seu pai bate em seu rosto e a pega com força pelos ombros. Segurando a menina com brutalidade, o homem diz palavras duras, aos berros. A garotinha fica em choque.

— Como ousa profanar o salão das armas com sua presença imunda? Você é uma mulher, jamais deve tocar nessas armas; você nunca poderá usar uma espada como essa... é a espada dos meus ancestrais. Você me desonrou com sua imprudência e sua desobediência. — O pai arrasta a menina para fora da sala, puxada pelos cabelos. Perto da porta, no corredor, alguns criados, a mãe e suas damas esperam pelos dois. O homem joga a menina aos pés da mãe. — Veja, mulher. Sua filha não recebeu a devida educação. A culpa é sua. — A mãe ouve tudo de cabeça baixa. — Por não ter educado direito essa menina, agora não terei mais a bênção de meus ancestrais. Esta família cairá em desgraça.

— Peço perdão, meu senhor. Cuidarei de castigá-la.

— Castigos agora seriam tardios demais. O mal já está feito. Tenho uma reunião com o Conselho, quando voltar decidirei o que será feito de vocês. — O homem olha furioso para os criados. — Que nenhum dos presentes comente o ocorrido com mais ninguém. Se essa história chega aos ouvidos do Conselho, a menina será sacrificada. Tal desonra é punida com a morte, como todos aqui bem sabem. — O pai olha com ódio para a menina. — Talvez, no seu caso, seria mais sensato entregá-la logo.

Após o pai sair, a mãe vai chorando para o quarto. A menina continua no chão, sozinha, com o olhar fixo, quase morto. Rangendo os dentes de ódio, ela fica ali por um tempo, com seu choro sem lágrimas. 

— Artemísia, o mestre a espera. — Um jovem discípulo diz. Artemísia abre os olhos e retorna sua atenção para o deserto. Seu olhar agora contempla o horizonte vermelho de Marte. Ela se levanta e segue em direção ao templo.

Por Jhinn | 29/01/18 às 22:39 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino