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Capítulo 1.2 - O Clã

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 1.2 - O Clã

Autor: Francélia Pereira

— Obrigada por me receber, mestre.

— Você é sempre bem-vinda em meu templo... E não me chame assim; por enquanto, para você, continuo sendo apenas Andyrá. Você sabe que para recebê-la como discípula há provas pelas quais precisa passar.

— Sim. Eu sei.

— Venha. Vou lhe mostrar o seu quarto. Descanse um pouco da viagem, depois conversamos.

Artemísia não se sente cansada, pretende passar logo pelas tais provas e ser admitida no templo de Andyrá, mas sabe que não adiantaria argumentar com um dos sábios mais respeitados de Apolo. Ela vai para o quarto e decide meditar até que sua presença seja solicitada novamente.

A candidata a discípula é uma guerreira, filha do Clã, um povo que preserva costumes tão antigos quanto o tempo.

Quando Artemísia nasceu, a humanidade já havia superado vários tipos de preconceitos, dentre eles, os preconceitos relacionados ao gênero e à expressão da sexualidade. A ciência já havia evoluído ao ponto de provar que a sexualidade humana varia em cada indivíduo, assim como a tonalidade da pele, a cor dos olhos, a textura dos cabelos... Por isso os seres humanos não se dividiam mais em grupos marcados pela sexualidade, etnia, ou qualquer tipo de característica biológica. Os dois gêneros, masculino e feminino, conviviam naturalmente, sem vantagens ou desvantagens sociais por se pertencer a um gênero específico, mesmo porque, àquela altura, o gênero de nascimento poderia ser alterado em qualquer fase da vida, se essa fosse a vontade do indivíduo.

As questões que envolvem o gênero e a expressão da sexualidade já haviam perdido o sentido há séculos para a população do sistema solar Apolo, exceto para o clã de Artemísia. O Clã Nômade, como ficou conhecido por séculos, insistia em preservar conceitos primitivos sobre a existência humana e com isso também preservavam costumes e uma organização social extremamente primitivos.

Quando a humanidade ainda habitava a Terra, o Clã tentou várias vezes constituir uma nação autônoma, mas o Governo Mundial nunca permitiu, pois considerava um retrocesso tal sociedade se desenvolver. Enquanto Nação reconhecida mundialmente, o Clã poderia influenciar sociedades menores, o que aumentaria o seu poder, os tornando uma ameaça ao Governo; isso seria um problema, pois geraria guerras e instabilidade. Assim, o Clã sobreviveu por séculos como um grupo mal visto pelos demais, tendo que migrar de tempos em tempos para que não sucumbisse ao desprezo de seus vizinhos, com os quais sempre entrava em conflito.

Após o grande desastre, que expulsou de vez a humanidade do planeta Terra, o Clã foi diminuído a um grupo de poucas centenas de indivíduos. Esse grupo, diante do desespero, se tornou mais fanático com suas crenças e seus costumes, pois entendeu que disso dependeria sua sobrevivência. Foi nessa época que definiram seu código sagrado de leis, costumes, e a pena de morte foi estabelecida para aqueles que descumprissem as principais regras.

Desesperados e determinados, os homens do Clã se tornaram guerreiros ainda mais temidos do que seus ancestrais. Extremamente impiedosos e primitivos, seu exército era sempre solicitado para resolver conflitos em todo o Sistema. O Clã Nômade se tornou um exército de mercenários, extremamente organizados e fiéis aos seus líderes, o que garantiu muita prosperidade ao grupo ao longo dos tempos, até que chegaram a Vênus, onde conseguiram, enfim, construir sua primeira cidade.

Os primeiros habitantes de Vênus pertenciam a um grupo formado por cientistas, engenheiros e arquitetos. Conseguiram, em pouco tempo, transformar o planeta hostil em um lar, após diversas tentativas fracassadas de seus ancestrais. Mas a humanidade nessa época estava desesperada. A Terra já não era mais uma opção de sobrevivência e encontrar corpos celestes que pudessem abrigar a vida humana era também razão para guerras pelo direito de ali viver.

Cansados de serem invadidos constantemente, e sem habilidades bélicas suficientes para se defender dos invasores, os venusianos contrataram os serviços do Clã, mas com uma oferta que seria irrecusável para eles.

Após uma decisão do Conselho venusiano, os líderes decidiram oferecer ao Clã metade do planeta, com a condição de que os guerreiros nômades cuidassem para sempre da segurança de Vênus. O Clã entendeu a oferta como um presente dos deuses e, como honravam sempre seus compromissos, nunca tentaram tomar o planeta para si.

Em Vênus o Clã prosperou mais do que nunca, pois ali seus membros criaram raízes e se isolaram do resto do sistema solar, preservando seu pensamento primitivo e suas ideias ultrapassadas. Na cidade do Clã, toda mulher era prisioneira e não tinha permissão para sair de sua Nação. Somente com uma autorização do Conselho, quase impossível de se conseguir, uma mulher poderia cruzar os portões da cidade, que dava acesso às cidades dos venusianos originais. A punição para quem descumprisse essa lei, é claro, era a morte.

 

Um dos discípulos de Andyrá bate à porta do quarto onde está Artemísia.

— O mestre a aguarda no jardim principal.

Por Jhinn | 29/01/18 às 22:44 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino