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Capítulo 1.3 - Alma Guerreira

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 1.3 - Alma Guerreira

Autor: Francélia Pereira

Artemísia segue o jovem discípulo até o portão que leva ao jardim principal do templo. Andyrá está sentado sob a sombra de uma bela árvore, contemplando os gansos se movendo lentamente sobre o lago. Com um semblante sereno, quase preguiçoso, ele faz sinal para que Artemísia se sente ao seu lado.

— Então, você tem trinta anos e nasceu na Terra, certo? — Andyrá pergunta, em tom de brincadeira.

— Não brinque comigo... Sei que se há alguém em Apolo que conhece minha verdadeira história, esse alguém é você.

— Sim... conheço a sua história. Sei mais do que imagina e mais do que você mesma sabe.

— Sei o suficiente, e muitas vezes gostaria de não me lembrar de nada. — Andyrá olha dentro dos olhos de Artemísia.

— Agora compreendo porque Hikari lhe pediu que me procurasse.

— O mestre Hikari se arrependeu de me admitir como discípula. Falou que só seria meu mestre, novamente, se eu fosse admitida por você e recebesse a sua indicação para continuar meus estudos.

— Não se sinta rejeitada. O Mais Antigo dos Sábios nunca erra. — Artemísia tenta disfarçar sua frustração.

— Quando começam as provas?

— Elas começaram quando você saiu pela porta do templo de Hikari.

— Da cabana?

— Sim.

— E como vou saber se estou passando nos testes se nem mesmo sei o que é um teste?

— Desde que você nasceu está passando por testes todos os dias. O caminho que sua Alma decidiu trilhar está cheio deles, o tempo todo. Mesmo nas situações aparentemente insignificantes você é levada a fazer escolhas. Para saber se passou em um teste desse tipo, basta observar o seu caminho, o seu propósito na vida. Se você sente que está se aproximando do seu objetivo, então passou em um teste; mas se sente que está retrocedendo e se afastando do seu objetivo, saiba que foi reprovada em um teste e talvez tenha que começar tudo novamente.

— Nem ao menos sei o que a minha alma escolheu.

— Bela Artemísia, se você não soubesse, certamente não estaria aqui. Acalme a sua mente e o seu coração, somente assim terá consciência das respostas que tanto busca. — A venusiana respira fundo e se cala. Ela sente que suas palavras seriam impróprias naquele momento. — Veja este templo. Um belíssimo oásis neste vasto deserto. Foi construído pelo pai do meu mestre e deixado aos meus cuidados após sua morte. Toda essa beleza foi idealizada por um único homem, mas construída através do trabalho de vários seres humanos, homens e mulheres. Quando eu era apenas um discípulo, sentia que aqui era o meu lar, o meu lugar, mas desde que me tornei o mestre do templo, sinto que preciso construir o meu próprio templo. Agora me responda, como posso ter certeza de que o correto seria mesmo construir outro templo ao invés de cuidar do templo que meu mestre confiou a mim? — Temendo que se tratasse de um teste, Artemísia pensa bastante antes de responder.

— O correto não seria honrar a vontade de seu mestre?

— Isso foi uma pergunta?

— Não sei.

— Então só me responda quando tiver segurança suficiente para fazer uma afirmação.

— Me desculpe.

— Não se desculpe, me dê uma resposta; mas antes, pense mais um pouco, busque em seu coração uma resposta sincera. Não pense no que eu gostaria de ouvir de você, não imagine que se trate de um teste e que exista uma resposta correta. Simplesmente se coloque na situação que descrevi e me diga o que você faria se estivesse no meu lugar.

— Tudo bem. — Artemísia observa a brisa gerando ondas na superfície do lago. Ela consegue se ver na situação que Andyrá propôs e encontra uma resposta.

— O correto é você construir seu próprio templo. Este templo é uma extensão da Alma do pai do seu mestre, ele representa em cada detalhe tudo que ele pôde compreender neste mundo. Tudo aqui conta a história dele, assim, esse chamado que você ouve, indicando que um novo templo deve ser construído, é na verdade a sua Alma lhe dizendo que necessita contar a sua própria história. Não acredito que seu mestre se oporia a tal feito.

— Eis uma resposta digna de uma discípula de Hikari. — Artemísia sorri.

— Então, você vai construir um novo templo?

— Já estou construindo. Se tudo correr bem, um dia a levo para ver a obra.

— E este templo, o que será feito dele?

— Isso não cabe a mim decidir. Agora vou deixá-la aqui no jardim. Aprecie o pôr do sol. Sem testes no momento, você está livre para ir aonde quiser.

— Obrigada, Andyrá; mas isso também é um teste, certo? — Andyrá sorri, se levanta e segue rumo ao portão.

Artemísia observa a paisagem ao redor, mas não espera o pôr do sol. Ela decide conhecer melhor o templo, a extensão da alma do pai do mestre de Andyrá.

Andando pelo salão principal, Artemísia observa os quadros que informam o que cada sala representa. Ela segue primeiro para o salão que conta a história do templo. De frente para a grande porta do salão há um quadro com uma pintura em estilo antigo, suspenso com tecnologia antigravidade.

Mestre Ybytuura ... Então esse homem foi o idealizador do templo! — Artemísia aprecia o quadro que retrata o antigo mestre, depois busca nos arquivos digitais, na base da pintura, o holograma com o histórico dele.

A guerreira passa horas analisando a história e a filosofia do lugar. Depois se dedica a contemplar os outros quadros espalhados pelo salão, verdadeiros trabalhos artísticos executados pelos discípulos que por ali passaram. Um deles lhe prende a atenção. É uma bela mulher, com olhar firme e determinado, postura de guerreira destemida. Ela usa roupas escuras, aparentemente de couro, traje bem primitivo, que destaca ainda mais sua nobreza. Os olhos de Artemísia brilham, enquanto observam cada detalhe daquela mulher. Embaixo, em uma espécie de placa de metal, há algo escrito em caracteres antigos. Artemísia aciona seu comunicador, uma pulseira dourada que funciona como um potente computador.

— Identificar idioma e tradução. — Em uma projeção holográfica em seu braço, a mercenária lê as respostas: “GREGO DO PERÍODO HELENÍSTICO – TERRA. ARTEMÍSIA”.

Artemísia sorri e sente um calor percorrendo todo o seu corpo, é uma sensação nova, como se estivesse acabando de nascer. Nos olhos daquela mulher, a guerreira reconhece a si mesma.

— Vejo que você encontrou minha singela contribuição para a galeria do templo. — Andyrá se aproxima e percebe algo diferente na face da venusiana, quando seu olhar se volta para ele.

— Você é o autor dessa obra?

— Sim.

— Quem é ela?

— E isso importa?

— Talvez.

— Essa mulher viveu em uma época muito distante da nossa. Naquele tempo, o patriarcado dominava praticamente todas as culturas espalhadas pela Terra. Ela foi uma guerreira em todos os sentidos dessa palavra. Superou as dificuldades de ter nascido um ser humano do gênero feminino, em um momento em que a humanidade desprezava tal gênero e o submetia a todo tipo de humilhação que se possa imaginar. Mesmo nesse contexto, ela foi forte e vitoriosa. Liderou exércitos e conquistou a confiança e a admiração de um grande rei. Sua essência parece resistir ao tempo. — Artemísia volta seu olhar para o quadro. — No passado, provavelmente a chamariam de feminista.

— Olhando pra ela, não vejo uma feminista que venceu a opressão do machismo, seria uma interpretação medíocre.

— E o que você vê?

— Vejo um ser humano que superou seus limites.

— Hum... Então você compreendeu bem a mensagem que essa pintura carrega. O primeiro nome que pensei em dar à obra foi Superação, mas não quis limitar a interpretação do observador. Mas vamos... O jantar já está sendo servido.

Atravessando os corredores do templo, ao lado de Andyrá, Artemísia permanece calada. Os dois passam pelo portão que dá acesso ao jardim. Ela vê, ao longe, a árvore em que esteve há algumas horas, sentada junto de Andyrá, e se lembra da conversa. Artemísia para, de uma vez. Andyrá percebe que ela deseja lhe falar algo.

— O que foi?

— Andyrá... quando meu mestre Hikari me disse pra vir até o seu templo, falou que eu precisava aprender algumas lições com você, antes de retomar meus estudos com ele, na cabana. Sinto que tais lições já foram aprendidas.

— Seja mais objetiva. — Andyrá fala com um sorriso sereno.

— Sinto que o caminho da sabedoria não é o meu caminho. Acredito que é isso que Hikari queria que eu descobrisse.

— Você não precisaria vir até aqui para isso...

— Não... se ele me dissesse eu não aceitaria e duvido que descobriria de outra forma. Andando pelo templo, observando seus discípulos meditando, vi suas faces serenas e celestiais, senti que não há identificação por parte da minha alma com esses futuros mestres. Mas quando olhei o quadro que você pintou, senti meu sangue pulsando em minhas veias. — Os olhos de Artemísia brilham ao se lembrar do quadro.

— Hikari a descreve como uma joia rara...  e ele tem razão. Sua Alma tem um caminho longo a seguir, cheio de perigos, mas há muita força em você. E se engana quando diz que o caminho da sabedoria não é o seu. É exatamente o caminho da sabedoria que você busca, mas antes de segui-lo é necessário que aprenda a controlar todo esse ódio, essa mágoa e essa paixão que você traz em seu peito.

— Não preciso... Vou construir o meu próprio templo.

— Sim. Mas antes que ele fique pronto, você ainda encontrará outros mestres.

— Não seguirei mais mestre algum, só serei discípula de mim mesma.

— É o que todos nós somos, minha querida. Nossos mestres não passam de espelhos... E no momento, o espelho que você precisa encontrar está na Terra. — Artemísia olha firme para Andyrá. — Mas venha, vamos jantar. Quando se sentir pronta para partir, terá tudo que precisa levar. — A guerreira sente seu coração se acalmar e segue o mestre.

Por Jhinn | 29/01/18 às 22:45 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino