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Capítulo 1.4 - O mestre

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 1.4 - O mestre

Autor: Francélia Pereira

Artemísia atravessa o grande salão de embarque de um porto em uma cidade flutuante na Terra, ela carrega uma pequena bagagem nas costas. A guerreira observa as pessoas ao redor e fica admirada ao ver de perto que, no antigo lar dos humanos, os humanoides são maioria. Reconhecê-los é fácil, pois se destacam com seus trajes no estilo dos terráqueos do século XXI, da Era Comum.

A venusiana desce as escadas do prédio portuário, ainda sem saber ao certo para onde ir. Artemísia olha para o alto e vê, através da cúpula transparente, o céu com nuvens nervosas, trazendo mais um dia de chuva ácida para a região.

Nuvens negras... Adoro esses bons presságios. — Artemísia sorri, enche os pulmões com o ar artificial da cidade e segue seu caminho, ainda sem rumo.

Enquanto anda pela cidade, uma cena chama a atenção da guerreira. Do outro lado da rua, em uma praça, uma garotinha brinca de mercenária com outras crianças. A pequena mercenária ergue uma espada de brinquedo e com atitude selvagem acaba machucando três crianças, dois meninos e uma menina. As outras duas crianças, uma menina e um menino, estão no time dela. Os perdedores saem chorando. Artemísia observa a brincadeira até o fim.

— Cenas impossíveis de se ver na Cidade do Clã! — Artemísia suspira e sente uma mistura de nostalgia e alívio, devido às lembranças de sua terra natal, em Vênus.

De longe, um garoto observa a venusiana. Ao constatar que a moça está distraída, ele controla um pequeno drone que rouba a bagagem dela. Artemísia se assusta, mas pega, instintivamente, o triendy, preso ao cinto, arma o arco e derruba o drone com uma flecha certeira, depois se aproxima, se abaixa e pega seus pertences. O garotinho aparece e fica irritado ao ver o drone destruído no chão. 

— Por que você fez isso? Esse drone foi um presente da minha avó. — Artemísia olha curiosa para o menino.

— Então ele não devia estar por aí roubando as coisas dos outros. Teve o que mereceu. — A mercenária fala em tom descontraído. Ela ri da situação e segue em frente.

— Moça! Ainda não terminei. Não vire as costas pra mim. — Artemísia para, pensa em dar uma lição ao garoto insolente, mas só balança a cabeça, sorrindo, e continua seguindo em frente. O garoto corre e fica parado na frente dela.

— Quero outro drone. — Artemísia olha irritada para o menino, mas uma mulher se aproxima e defende o dono do drone.

— Por favor, desculpe o atrevimento desse rapazinho. — A mulher olha com reprovação para o garoto. — Já tentamos de tudo, mas ainda não conseguimos consertar um bug em sua programação. — Artemísia entende que o menino é um humanoide.

— Ele é seu?

— Sim. Já está na família há três gerações. Foi construído por meu bisavô, por isso temos muito apreço por ele. Mas o velho não era bom programador. — A mulher sorri. — Sou Yuki. — Ela estende a mão.

— Artemísia. — Artemísia hesita um pouco, mas acaba pegando na mão de Yuki.

— O que te traz à Terra, Artemísia?

— Ainda não sei.

— Você tem para onde ir?

— Talvez. — A guerreira coça a nuca.

— Está na hora do chá, uma tradição antiga na minha família... se quiser nos fazer companhia, sinta-se bem-vinda!

— Acho que um chá me faria bem, no momento. — Artemísia sorri e segue Yuki e o garotinho marrento.

Na casa de Yuki, todos estão sentados à mesa. Eles são uma família muito unida e alegre. Após o chá, algumas pessoas recolhem os talheres. A venusiana observa o jardim através de uma porta dupla, transparente.

— Fique à vontade, Artemísia. Vi que você se interessou por nosso jardim, pode explorá-lo como quiser. — Yuki diz amavelmente. A mercenária agradece a gentileza e atravessa a porta.

É muito comum as casas construídas nas cidades flutuantes manterem seus jardins particulares. A flora no planeta parece alienígena para os antigos terráqueos e muitas das plantas que ali existem são tóxicas para eles, mas a humanidade conseguiu preservar a flora dos tempos em que a Terra ainda os acolhia como filhos e os jardins se tornaram um recanto sagrado, não só nas cidades flutuantes de seu lar primitivo, mas em cada canto do Sistema Apolo, onde os humanos insistem em sobreviver.

Caminhando pelo jardim, Artemísia percebe, ao longe, uma mulher fazendo leves movimentos, como se fosse uma espécie de dança em câmera lenta. A venusiana chega um pouco mais perto e assiste a bela mulher em seu ritual.

Após mais alguns movimentos, a mulher olha para a guerreira e sorri, lhe dando boas-vindas. Artemísia se aproxima. Quando já está bem perto, a mulher para, com o corpo reto, junta as mãos e faz um sinal de reverência ao Sol, depois sua atenção se volta para a venusiana.

— Bem-vinda, nobre guerreira! Estava esperando por você. — Artemísia sorri.

— Andyrá...

— Sim, ele me veio em um sonho e me avisou que você estava a caminho. — Artemísia observa a bela mulher, um pouco constrangida.

— Me desculpe, mas não posso ser sua discípula. — A mulher olha para a venusiana como se estivesse lendo cada célula em seu corpo.

— Percebo que a decepcionei. Parece que não esperava encontrar uma figura feminina como mestre.

— Peço desculpas, mas não confio em mulheres, pois os exemplos que tive em minha infância foram execráveis. Seres submissos, fúteis, fracos e extremamente infelizes. Conheci mulheres diferentes, longe do meu povo, mas as referências da infância ainda se sobressaem.

— Hum... já ouvi histórias sobre o Clã. Mulheres submissas e homens nobres e admiráveis... — A mestra fala de forma debochada. Artemísia sorri.

— Há quem admire os homens do Clã por aí... mas só quem nasceu naquela cidade maldita sabe quem são eles de verdade. No Clã as mulheres são fracas e os homens... bem, eles representam força, coragem, determinação... deveriam ser referências positivas, mas são extremamente sexistas. Assim, ao mesmo tempo que o machismo lhes garante uma nobreza aparente, também os impede de superar os seus defeitos, lhes condenando a uma existência presa à ignorância, esse é o preço que pagam por perpetuar uma ilusão patética, que todo o Sistema já superou há milênios... Sem a couraça do machismo, aqueles homens não passam de meninos inseguros, bebês chorões... e as mulheres do Clã nunca se esforçaram muito pra mudar isso, são cúmplices da ignorância e das fraquezas do meu povo, aceitando uma existência humilhante.

— Compreendo. — A mestra fala enquanto caminha lentamente. Artemísia a observa por alguns instantes.

— Isso também é um teste, certo? — A mulher sorri.

— Você é nossa convidada... fique o quanto precisar. — Artemísia agradece. A mulher continua andando. Após alguns passos ela para e, sem virar o corpo, olha para trás. — A propósito, sou Itá. Acredito que a pequena queda d’água lhe ajudará a clarear seus pensamentos. — Itá segue rumo à porta que dá acesso ao jardim.

Artemísia fica pensativa, o fato de seu novo mestre ser uma mulher lhe tirou totalmente a motivação para ficar na Terra. Ela pensa em desistir e ir embora dali mesmo, mas algo a impede.

— A viagem foi longa, acho que um mergulho me faria bem. — Artemísia pensa alto, enquanto segue para a cachoeira.

A pequena queda d’água vem de uma pedra grande e alimenta um lago de tamanho médio, uma espécie de piscina. Artemísia se despe e pula na água. Em seu mergulho, percebe algo dourado ao pé da pedra grande. Ela nada até o objeto e vê que se trata de uma inscrição em ouro. O idioma é uma língua extinta, mas não muito antiga. Artemísia a conhece e consegue traduzir: “Empurre”.

Artemísia empurra a inscrição e uma porta se abre. Ela nada para dentro, a porta se fecha atrás da mercenária e ela segue até um local onde consegue emergir. Ao sair da água, a venusiana encontra um pequeno pátio, dentro de uma caverna iluminada por luzes artificiais. Logo em frente há um portal, todo enfeitado com imagens, que parecem uma espécie de escrita, com caracteres totalmente desconhecidos para a guerreira. Ela atravessa o portal e chega até uma bela sala, com o chão coberto por piso de pedra branca, lisa, e paredes cheias de desenhos em alto relevo, quadros e outros objetos de arte.

Artemísia anda pela sala e quando olha à sua esquerda vê, ao fundo, um objeto suspenso sobre uma pequena estátua de mulher, segurando um vaso do qual cai água, como uma fonte. O objeto chama a atenção de Artemísia, que segue até ele.

Na estátua também há uma inscrição, na mesma língua encontrada no lado de fora, ao pé da pedra da cachoeira. Artemísia traduz: “Nossa história”.

O objeto suspenso sobre a estátua parece um amuleto, mas é um projetor de hologramas. Artemísia o pega e aciona o equipamento, que cai no chão e projeta uma história, contada através de imagens e de uma narração.

No início, não havia homem ou mulher, somente a humanidade, sem distinção de gênero. Um dia isso mudou e o que era um só se torna dois. Mulher e Homem agora precisavam conviver e perpetuar a raça que habitava a Terra.

Mas a humanidade, que já havia se corrompido há um tempo, não sabia lidar muito bem com as diferenças. As mulheres entenderam que por manterem em seus corpos o dom da reprodução, seriam superiores aos homens.

Os homens sentiram-se traídos pela Natureza, pois seus corpos estavam incompletos, tornando-os totalmente dependentes da mulher para gerar seus descendentes. Nesse tempo, ambos possuíam a mesma força, os mesmos costumes, a mesma essência... mas a mulher se impôs, aproveitando o complexo de inferioridade e dependência no qual o homem foi jogado. Assim, os homens foram subjugados por séculos, sendo obrigados a viver sob o sistema rígido do matriarcado, que transformava as fêmeas humanas em verdadeiras divindades.

Mas a Terra tremeu, sacudiu e jogou pelo chão toda a organização artificial humana. Muitos morreram, sobrando uma humanidade atormentada pelo medo e pela fome. As orações antigas já não eram atendidas, nem mesmo os antigos sacrifícios eram aceitos pelos deuses. Sozinha, em meio à escassez, a humanidade precisava sobreviver, então uma nova forma de organização social começou a surgir.

O corpo da mulher, que já era considerado sagrado, tornou-se mais importante ainda, pois dele dependia a perpetuação da espécie. Mas exatamente por ser tão importante, o útero tomou o lugar da mulher, já que somente ele importava.

Por não carregar em seus corpos o útero, aos homens foram dadas as tarefas mais duras. Eles deviam lutar pela sobrevivência do grupo. Assim, os homens caçavam, enfrentavam perigos extremos, atravessando ambientes hostis atrás de alimentos, e ainda precisavam defender as mulheres dos ataques de outros homens, pois quanto maior o número de fêmeas em um clã, mais descendentes estavam garantidos; isso implicava em mais guerreiros, caçadores e coletores, e era isso que tornava um clã forte.

A princípio, homens e mulheres aceitaram essa nova organização social, pois a sobrevivência do grupo dependia disso; nesse contexto, somente mulheres que não geravam filhos podiam executar tarefas perigosas, as outras deviam permanecer em seus acampamentos, gerando e cuidando dos descendentes do Clã.

Com o tempo, essa forma de vida deixou as mulheres mais fracas, pois se dedicavam somente a trabalhos leves, não exercitavam seus corpos correndo de perigos e nem condicionavam suas mentes para enfrentar os riscos impostos pela sobrevivência. As mulheres se tornaram dependentes dos homens, pois ao permanecerem nos acampamentos, sendo vigiadas e protegidas por eles, o medo encontrou um lugar seguro em seus corações, desde então a mulher deixa de ser uma divindade e os papéis sociais são invertidos; mas agora, a mulher perde até mesmo a sua dignidade como ser humano, se tornando um animal procriador sem outra razão para existir. Assim surge o patriarcado.

Os olhos de Artemísia se enchem de lágrimas e ela não consegue ver mais. Desliga o equipamento, senta-se no chão e, encolhida, chora sem parar; como uma criança que acabou de perder a mãe.

Por Jhinn | 29/01/18 às 22:48 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino