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Capítulo 1.6 - Neste peito ainda bate um coração

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 1.6 - Neste peito ainda bate um coração

Autor: Francélia Pereira

A caminhada no deserto é muito difícil. A distância, que não é pequena, parece triplicar graças ao traje pesado, aos ventos fortes e ao calor insuportável. Artemísia cai no chão, exausta.

— Preciso continuar. — A guerreira pensa alto, deitada no chão, olhando para o céu escuro, com nuvens turbulentas. Ela descansa um pouco, depois se levanta e segue em frente.

Na metade do caminho, o corpo da venusiana dá sinais de que não aguenta mais. Sua visão se torna turva, sua mente fica confusa e ela quase perde a razão. A loucura ou a morte parecem certas; mas antes que seu corpo se torne inútil, um alívio chega com uma rajada de vento. Em uma phantom, um humanoide aventureiro aparece.

— Moça, aceita uma carona? — O humanoide sorri, desce do veículo, carrega Artemísia e a prende em suas costas, através de uma espécie de cinto magnético, que se prende ao traje da venusiana. — Aponte a direção em que deseja seguir e te levo até lá. — Artemísia, com muita dificuldade, aponta para a montanha, que para a phantom não está muito distante.

Quando chegam à montanha, o humanoide, ainda no veículo, para e olha ao redor.

— Aqui não há nada, garota. Talvez você esteja delirando. — O coração da venusiana dispara, mas ela não consegue dizer nada. Artemísia teme que o humanoide a leve embora, na tentativa de salvá-la, mas Itá aparece antes que o jovem androide desse a partida com a phantom.

— Obrigada, meu bom rapaz. Deixe-a e pode seguir novamente o seu caminho. — O humanoide não questiona, faz como Itá disse e a phantom desaparece em meio ao vento e à poeira do deserto.

Pequenos drones rodeiam a venusiana e a levam, enquanto Itá segue à frente. Eles passam por uma larga fenda na montanha, que termina em um grande pátio onde fica a entrada do templo. Em uma sala, sobre uma grande pedra retangular, lisa na superfície e com caracteres antigos gravados nos lados, a mestra humanoide cuida de Artemísia, já sem os trajes pesados, depois a leva até um quarto.

— Agora que você já tomou um banho e está se sentindo melhor, descanse um pouco. Amanhã teremos um dia longo. — Itá olha para Artemísia, que está deitada sobre uma cama. A guerreira agradece com um sorriso e adormece.

O antigo mestre de Itá deixou o templo para ela. A construção foi feita dentro da montanha, há várias gerações. Muitas paredes são feitas de rocha, outras, assim como o chão, são cobertas com pedra lisa, mas rústica. O lugar lembra antigos templos da Terra, construídos dentro de montanhas, é uma construção que ao mesmo tempo inspira simplicidade e grandeza.

 Itá, assim como Hikari, não recebia senão um discípulo por vez, e a maioria era sempre indicada por outro sábio. Mesmo percebendo que Artemísia não seguiria o caminho dos sábios, tão cedo, a mestra sentiu que o coração da venusiana precisava bater forte novamente, pois disso dependia a libertação de sua alma, de sua verdadeira essência. As mágoas e o ódio funcionavam como uma grande muralha que impedia qualquer ensinamento de chegar até o ser mais profundo de Artemísia, a sábia ginoide era a única que poderia, naquele momento, enfraquecer essa muralha.

Quando a guerreira acorda, vê Itá em sua cerimônia de reverencia em direção ao nascer do Sol, em um pátio no meio do templo. Ela observa os leves movimentos da mestra, enquanto espera.

— Bom dia, minha querida. Como se sente hoje?

— Melhor, obrigada!

— Venha, você precisa se alimentar. — As duas seguem para a cozinha.

Enquanto Artemísia se alimenta, Itá lhe pergunta sobre sua experiência na caverna da queda d’água, no jardim de Yuki.

— Não consegui ver toda a história. Nem faço ideia a qual época o holograma se referia. Não consegui prosseguir; parei bem no momento em que surge o patriarcado.

— Então você não viu nada ainda. Essa é uma história muito longa. Mas você terá oportunidade de conhecê-la; não se preocupe, tudo tem seu momento certo. — Artemísia come um pedaço de pão. A mestra a observa. — Alguma vez você já se apaixonou, Artemísia? — A venusiana se engasga. Itá sorri.

— É claro que não. Conheci pessoas que conquistaram meu respeito, mas não consigo me imaginar apaixonada por um ser humano. Somos seres patéticos.

— Então seu coração nunca bateu mais forte por ninguém?

— Sim, já bateu. Quando meu pai me arrancou, aos berros, da sala sagrada da minha família, meu coração bateu forte de ódio.

— Você já conheceu o ódio, disso já sei; mas, e o amor?

— O amor... Me soa mais como uma lenda; um mito que alguém inventou pra que as pessoas suportassem umas às outras, em busca desse ideal inatingível. — Itá analisa Artemísia; sua pulsação, temperatura, expressões... Após escanear a guerreira, a ginoide chega a uma conclusão.

— Enfim encontrei algo que a guerreira teme.

— Do que está falando?

— Você conhece, há muito tempo, o ódio e as mágoas, mas jamais experimentou o amor. Embora anseie profundamente vivenciar tal sentimento, seu coração teme descobrir que ele existe, mas lhe foi negado durante toda a vida. Isso a faria sentir-se inferior aos demais, por isso prefere acreditar que ele não existe, nem para você, nem para ninguém. Imaginar que o amor é uma falácia, lhe conforta o coração. — Artemísia se levanta, furiosa, olha para Itá e pensa um pouco antes de falar.

— Com todo o respeito que lhe devo, mestra... irei para o meu quarto.

— Fique à vontade, minha querida. Estarei meditando na sala azul; se precisar de mim, pode me interromper. — As duas se despedem com um sinal positivo com a cabeça.

No quarto, deitada, a venusiana se lembra da cena que a fez procurar os ensinamentos do sábio Hikari.

Em uma das tantas batalhas mercenárias já travadas por Artemísia, na Lua, em sua região mais sombria e esquecida, onde a miséria humana se manifestava ferozmente, a guerreira viu, em meio aos cadáveres, um homem chorando como se tivessem arrancado dele a única razão para existir. Ele estava debruçado sobre o corpo de uma mulher e carregava um bebê nas costas. As lágrimas do homem molhavam o rosto da mulher, enquanto ele dizia o quanto a amava e o quanto sentiria sua falta. Aquela cena mexeu com a mercenária.

Enquanto olhava para o homem, um soldado feriu Artemísia no braço; ela o matou instintivamente com a espada e voltou sua atenção para o casal novamente. A guerreira sentiu algo que nunca havia sentido antes; inveja. Se aquele sentimento existia, o amor, por que então ela ainda não o havia experimentado? O que havia de errado em sua alma que a deixava excluída de tal conexão? E se ele fosse mesmo algo tão raro, o que ela faria caso um dia pudesse experimentá-lo? Viver sem encontrar o amor já era confortável para ela, mas como seria sua vida se um dia o encontrasse?

Naquele ciclo, Artemísia desistiu de seu pagamento e foi para uma taberna beber. Um mal-estar havia tomado conta de todo o seu ser, e ela já não se reconhecia mais. No ciclo seguinte, procurou por Hikari, O mais antigo dos Sábios; a vida de mercenária já não servia para a venusiana.

 

— Itá. — Artemísia chama pela mestra. Itá desperta de sua meditação. — Sim. Eu tenho medo. É um medo que me consome; que me leva para os cantos mais escuros da minha alma. É um medo que me afasta de tudo e de todos, pois não posso correr o risco de me conectar a alguém e um dia perder essa conexão. Amei meus pais... e o que recebi deles? Nessa época eu ainda era uma criança, embora a dor tenha sido intensa, eu ainda não compreendia muito bem as coisas da vida; mas não posso correr o risco de amar novamente e ver tudo se repetindo. Meu caminho é com a solidão, somente nela posso confiar; somente a ela me sinto confortável em me conectar. — Itá sorri.

— Minha querida... já não tenho mais lições para você. Volte para a casa de Yuki, lá encontrará tudo que precisa agora.

— Você se refere às lições dos documentos guardados dentro da pedra da queda d’água no jardim?

— Também. — Artemísia fica pensativa.

— Quanto estrago Vênus causou em mim... — A guerreira diz com pesar.

— Não precisa mais se preocupar com Vênus; o que viveu lá faz parte de você, mas não pode definir quem você é hoje.

— Sim; mas Vênus ainda me dói. Tanto que evito aquele lugar há anos. Maldito Clã.

— Não carregue tanto ódio em seu coração; mesmo porque, neste exato momento, a vida em sua terra natal está desaparecendo.

— Desaparecendo?

— Sim. A última nação patriarcal do nosso Sistema deixa de existir hoje. O planeta entrou em colapso. Parece que a antiga deusa não quer mais a humanidade em sua esfera.

Uma tragédia põe fim à ocupação humana em Vênus.

Por FranHDC | 30/01/18 às 12:05 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino