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Capítulo 1.7 - Vênus

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 1.7 - Vênus

Autor: Francélia Pereira

Após a ocupação de Marte, muitos acreditaram que Vênus poderia se tornar uma nova Terra e que seria a garantia da sobrevivência humana, depois que seu planeta natal se tornasse extremamente hostil; mas resolver a questão do efeito estufa, que mantinha a temperatura na superfície por volta dos 480 °C, ainda era um desafio que ninguém conseguia vencer. Nem mesmo os humanoides podiam visitar Vênus, sem que sofressem sérias avarias em seu sistema, e isso dificultava muito as pesquisas científicas.

Mas após a última grande catástrofe na Terra, o instinto de sobrevivência falou mais alto e grupos de engenheiros, arquitetos e cientistas se uniram para encontrar uma forma de tornar Vênus habitável. Enquanto desenvolviam suas pesquisas, eles viveram em naves que orbitavam o planeta. Um dia, as pesquisas começaram a dar bons frutos, e os gases da atmosfera foram mudando sua composição, até que a pressão e a temperatura se tornaram mais brandas, possibilitando visitas ao solo do planeta, por drones e humanoides.

Em pouco tempo, os humanoides conseguiram desenvolver uma flora em Vênus, muito parecida com a da Terra, e uma fauna microscópica começou a surgir. A temperatura estava próxima dos climas de regiões quentes, mas habitadas, da Terra dos tempos antigos, de antes das catástrofes, e animais terrestres puderam sobreviver por lá. Em poucos anos, a vida humana já podia prosperar na esfera de Afrodite; mas os recursos do planeta eram bem limitados, não havia possibilidade de abrigar um contingente muito grande e quando o grupo que curou Vênus se fixou por lá, as guerras contra os invasores se tornaram frequentes.

Após a aliança com o Clã houve um pouco de paz, mas Vênus sempre se mostrou instável; as transformações artificiais causadas pela humanidade pareciam, de alguma forma, fazer mal ao planeta. Era como se a essência de Vênus não aceitasse tais transformações e lutasse o tempo todo para prevalecer.

Humanos x Natureza; mesmo na Terra essa luta era frequente e, assim como na Terra, também em Vênus a Natureza ganhou essa disputa.

Enquanto Artemísia aprendia suas lições com Itá, seu planeta natal estava destruindo tudo aquilo que o impedia de ser ele mesmo. Uma série de vulcões entrou em erupção, destruindo praticamente todas as cidades construídas ali, que não eram muitas. Os gases expelidos pelos vulcões logo tomaram conta da atmosfera que, sem o controle humano, começou a voltar à sua composição original. Não demorou muito para que Vênus se tornasse novamente uma deusa intocada pela humanidade.

 

— Você é a única descendente viva de sua família; tome. — Uma mulher, já idosa, entrega a Artemísia a Espada Ancestral; estopim da tragédia que a levou, ainda menina, a ser condenada à morte pelo Conselho, motivo da maior mágoa que ela guarda no coração a respeito de seu pai.

— Jogue fora. — Artemísia diz, impaciente. A mulher se aproxima de vagar.

— Minha filha! Os costumes que esta espada representa já não existem mais... mas ela carrega uma história, a sua história. Sei que não lhe traz boas lembranças, mas é mais que um simples objeto. Um dia você compreenderá. — Artemísia fica pensativa, mas aceita a espada. — Poucos de nós sobreviveram. Carregue essa espada sempre com você, para que nunca se esqueça de onde veio. — A velha se vira e sai, amparada por Yuki.

Artemísia vai para o jardim. Ela senta sob a sombra de uma cerejeira e, com a espada do lado, começa a meditar.

— Quem era a velha, Yuki? — Yama, irmão mais novo de Yuki, pergunta.

— Uma antiga serva do pai de Artemísia, pelo que entendi. Parece que ela sobreviveu ao desastre de Vênus porque alguém na família a incumbiu de cuidar da espada e a colocou em uma das naves que deixaram Vênus, antes do colapso final.

— E porque o pai de Artemísia mesmo não fez isso?

— Ele tinha princípios de honra, ou sei lá... acredito que ele tinha esperança de que as coisas pudessem melhorar no planeta e ficou para proteger o Clã. Eu acho.

— Entendo.

— Vamos, o mercado já vai fechar. — Yuki sai apressada.

— Espere! — Yama segue a irmã, que está saindo pela porta.

Desde que se despediu de Itá, na montanha, Artemísia ficou na casa de Yuki. Ela precisava aprender as lições gravadas nos arquivos que a mestra deixou atrás da pedra da queda d’água. Em algumas ocasiões, Itá ia visitá-la e elas conversavam sobre os temas estudados pela venusiana. Eram conversas tranquilas, agradáveis, bem naturais; sempre no jardim.

Aos poucos, as mágoas de Artemísia estavam diminuindo e já não pesavam tanto em seu peito. O fim trágico do Clã foi levando para longe tudo de ruim que ela viu em sua infância; que já parecia uma outra vida.

 

— Nem Hikari conseguiu fazer por mim o que você tem feito, Itá. — A mercenária conversa com sua mestra no jardim da casa de Yuki.

— Você ainda não estava preparada para os ensinamentos de Hikari, minha querida, por isso ele não podia fazer muito por você. Somente nós podemos curar nossas feridas, mas há casos em que não conseguimos encontrar a cura sozinhos, por isso a vida nos coloca diante de pessoas ou situações que nos ajudam a enxergar essa cura.

— A vida é estranha.

— Por que você diz isso?

— O Clã. Parecia eterno. E hoje não resta nem o pó de suas construções.

— Sim. Mas algumas sementes resistiram.

— Sementes?

— Há sobreviventes do Clã espalhados por Apolo. São poucos, mas são suficientes para que suas ideologias ganhem forma novamente. — Artemísia olha para o chão.

— Há coisas que não morrem nunca, certo? — Itá sorri.

— Na verdade... a morte não existe. — As duas se olham. Artemísia está séria e pensativa. Itá está sorrindo, docemente, com uma das mãos sobre o ombro de Artemísia. Yuki se aproxima.

— Venham. É hora do chá.

O clima de amor e fraternidade que há naquela casa toca fundo no coração da venusiana. Foi a única vez, até então, que Artemísia pôde experimentar a doçura da convivência em família. O fim do Clã também contribuiu para amolecer seu coração; agora, somente lembranças opacas ligam Artemísia ao seu passado, cheio de dor, abandono e sofrimento.

Yama, o irmão mais novo de Yuki, também é um bom engenheiro. Está sempre em seu laboratório, trabalhando em seus projetos. Como vários em sua família, ele também tentou resolver o problema do bug no garoto humanoide; mas esse é um desafio que ninguém ali conseguia vencer, então, Yama decidiu desenvolver um humanoide que pudesse consertar o garoto.

A venusiana passa pelo corredor e vê Yama dentro do laboratório. A curiosidade faz com que ela o observe da porta.

— Aproxime-se, Artemísia.

— Não. Só estou observando. Não quero atrapalhar.

— Você nunca atrapalha. Venha! — Artemísia se aproxima do projeto, que está sobre uma mesa.

— Que belo humanoide você está desenvolvendo! Será uma ginoide ou um androide?

— Ainda não sei. Talvez seja um andrógeno. A tecnologia humanoide é uma só; o gênero não tem importância alguma. É um detalhe herdado da humanidade antiga; do tempo que ainda havia discussões ideológicas ferrenhas sobre as questões que envolvem essas diferenças tão simplórias. — Artemísia fica pensativa. — Me desculpe, Artemísia. Às vezes me esqueço que você recebeu uma educação com princípios muito antigos.

— Não se desculpe. Meu Clã era um pedaço do passado que insistia em existir, apesar de tudo ao redor lhe indicar um caminho diferente.

— Talvez porque fossem necessários ainda.

— Talvez...

— Bem, quanto aos humanoides, no tempo em que sua tecnologia foi desenvolvida, as características de gênero eram muito importantes para a humanidade, por isso criaram ginoides e androides; isso os confortava, devido às suas crenças da época. Mas hoje, é uma simples questão de estética, pois, para nós, as diferenças, os detalhes, têm outro significado; não os vemos como razão de exclusão, mas como algo que define e expressa a essência do ser; e são raros os humanoides que atingem essas características que muitos consideram exclusivas da humanidade.

— Assim como Itá, certo?

— Sim, Itá é um exemplo disso. Sua essência esbanja o princípio feminino da Natureza; não haveria problema se fosse um androide, ainda assim, esse princípio seria o mesmo nela, pois ele não está associado ao gênero e sim a características da Natureza que se expressam através da passividade, do acolhimento, da receptividade... Enfim, é o princípio que sustenta tudo, que sustenta a ação.

— No Clã, muitos sábios associavam as características do princípio feminino da Natureza às mulheres... e usavam isso para justificar sua superioridade, dizendo que as mulheres deviam sempre ser passivas e aceitarem sua natureza.

— No passado, muitos foram os sábios que entenderam dessa forma e muita confusão e sofrimento reinou nesse tempo. Sendo o princípio masculino o ativo e o princípio feminino o passivo, relacionar essas Forças aos conceitos de macho e fêmea leva a erros absurdos, já que tais princípios existem em tudo no universo. — Artemísia vê, em uma tela holográfica, os códigos nos quais Yama trabalha.

— Condicionamento.

— Como?

— Estou vendo os códigos que você está escrevendo para o humanoide. Com esses códigos você pode definir que tipo de personalidade ele irá desenvolver. Pode definir se ele terá características de uma ginoide, um androide ou um neutro.

— Sim.

— Isso me fez lembrar do quanto foi difícil me adaptar aos costumes fora do Clã. Homens e mulheres convivendo como iguais, como neutros; agora me veio a resposta. Tudo questão de condicionamento social. São as Culturas que definem as diferenças no comportamento humano.

— A maior parte do tempo, sim. — Os dois olham para o humanoide sobre a mesa. — Eles foram feitos à nossa imagem e semelhança... e sempre têm algo a nos ensinar. — Yama sorri. Artemísia se lembra de Andyrá e pensa alto.

— Os espelhos...

Por FranHDC | 31/01/18 às 11:31 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino