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Capítulo 2.1 - O Espelho

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 2.1 - O Espelho

Autor: Francélia Pereira

A lua está clara no céu. Coisa rara de se ver da Terra, desde que a humanidade ofuscou o brilho da deusa branca com suas construções e sua exploração irresponsável. Deitada sobre a grama do jardim, sob a cúpula transparente da cidade, Artemísia admira o astro que, em tempos imemoriais, personificava divindades de várias culturas diferentes, sendo as divindades femininas as mais associadas ao satélite solitário da Terra.

— Entendo sua solidão... — Artemísia suspira, olhando para a lua brilhante.

Um drone pequeno se aproxima e deixa uma caixinha, enfeitada com caracteres antigos. Artemísia se senta, pega o objeto e utiliza o decodificador em seu punho para ler os caracteres. Decifra-me e serei seu, é a frase em destaque no objeto cúbico. O outro texto, um enigma em grego do período helenístico, é a chave para abrir a caixa.



Represento a pureza e sou deusa das feras.

Não há homem que conquiste meu coração.

Não há ser que não tema o meu poder.

Abençoo o nascimento,

mas não hesito em levar a morte

para aquele que ouse me desobedecer.



— Fácil. — Artemísia sorri. Em um dos lados do cubo, ela aperta as respectivas letras do nome da deusa.



Άρτεμις



A caixa se abre e projeta um holograma com uma mensagem de um homem jovem e muito belo.

Parabéns, bela guerreira. Agora que decifrou o enigma, sou seu, como havia prometido na frase em destaque. Na loja de antiguidades você encontrará a minha localização. Venha pegar o seu prêmio.

— Como se eu tivesse tempo pra esse tipo de idiotice... — Artemísia fala irritada, quase joga a caixa longe, mas percebe um símbolo em um dos lados do cubo. É o símbolo antigo dos sábios formados no templo em que Hikari se graduou mestre. A mercenária se levanta e vai até a loja de antiguidades.

 

— Boa noite, minha jovem. Em que posso ajudá-la?

— Procuro pelo dono dessa caixa. — Artemísia coloca a caixinha sobre o balcão. O balconista olha para o objeto, vai até uma pequena sala e volta com um anel.

— Um rapaz veio pela manhã e comprou essa caixinha. Ele disse que uma jovem a traria de volta, então deixou esse anel e pediu que o entregasse a ela. — O anel é posto sobre o balcão e empurrado para Artemísia, que o pega e o analisa.

— Ele deixou algum tipo de instrução?

— Sim! Ele disse que a senhorita deveria “olhar para a lua através da pedra”.

— Obrigada.

Fora da loja, Artemísia eleva o anel e faz como o balconista lhe instruiu. Olhando através da pedra, ela vê umas coordenadas.

— Isso já tá me irritando... — A venusiana guarda o anel e segue na direção indicada.

Após uma boa caminhada, a guerreira chega a uma residência estranha, aparentemente abandonada. Não há portão. Na frente, onde provavelmente já existiu um gramado, há somente terra escura e algumas pedras jogadas de forma aleatória. Um caminho de pedra lisa leva até a entrada, inspirada na arquitetura dórica. Artemísia observa o lugar e segue em direção à porta, quando ela chega, olha para o alto e vê mais uma inscrição em grego: “Deve-se temer mais o amor de uma mulher do que o ódio de um homem”1.

— Hum! Começo a me sentir em casa... — Artemísia fica incomodada, a frase na porta desperta várias lembranças de sua infância em Vênus. Por um instante ela se sente fraca, insegura, mas logo volta ao normal e derruba a porta com um chute e entra. — Sábio ou não, você é um homem corajoso. Agora que já atrapalhou minha meditação no jardim, fale logo o que quer. — Artemísia está no centro da sala de entrada, o homem aparece como uma sombra por trás da guerreira.

— Você desvendou o enigma da caixa, veio buscar o seu prêmio, logo, é você quem deve dizer o que quer, bela guerreira. — A voz firme e envolvente do sábio age como um poder sobrenatural sobre os ouvidos de Artemísia, que parece lutar contra o encantamento.

— Guarde sua sedução pra quem a aprecia. Vim por causa deste símbolo. — A venusiana mostra o lado da caixinha onde está o símbolo. — Vim, pois imaginei que fosse algo ligado a Hikari.

— Hikari! O mais antigo dos sábios... — O homem anda lentamente, com as mãos para trás, e se posiciona de frente para Artemísia. — Besteira, estivemos juntos na mesma turma de neófitos. Ele é um traidor, isso sim. Deveria ser conhecido como Hikari, O mais farsante dos sábios.

— Não o conheço, jovem sedutor, mas posso afirmar que meu mestre Hikari não é nem de longe um farsante. — O sábio sorri de forma sarcástica.

— Pois bem, sou Arûara; um espelho ao seu dispor.

Artemísia entende que esse será o seu novo mestre, mas algo no homem não a agrada. Talvez seu jeito de conquistador tenha mexido com seus instintos primitivos, talvez sua intuição tenha percebido algo perigoso no sábio. Mesmo desconfiada e insegura quanto às intenções de Arûara, Artemísia aceita se tornar sua discípula, levando em consideração a escola na qual ele se tornou um mestre.

 Mas teria mesmo esse homem se tornado um mestre? Seja por curiosidade, respeito por Hikari ou pela voz hipnotizante do jovem, o certo é que Artemísia sente que seu destino, de alguma forma, está ligado ao de Arûara.

— Me desculpe. Não esperava encontrar um mestre tão cedo.

— Fique tranquila. O andar de baixo está um pouco malcuidado, mas se sentirá confortável em um dos quartos no andar de cima. Escolha o quarto que quiser e sinta-se em casa, minha querida Artemísia. — A venusiana observa o homem se afastando, em direção a uma porta à esquerda, então sobe as escadas que levam até o segundo andar.

Artemísia chega a um pequeno corredor e, no final dele, um ambiente totalmente diferente daquele encontrado em baixo se mostra à sua frente. Uma enorme sala, muito bem decorada e bem cuidada, dá acesso a vários cômodos; a guerreira escolhe o mais simples, que de longe é o quarto mais luxuoso em que já dormiu na vida. Nem na casa de seu pai havia um quarto tão ostentador.

— Uma moça humilde... — Arûara chega sem que a guerreira pudesse perceber.

— Vou buscar minhas coisas. Este quarto está bom pra mim. — O mestre sorri, enquanto observa Artemísia saindo pela porta.

 

A venusiana vai até a casa de Yuki e explica a situação. Deixa o endereço do templo de Arûara com Yama e pede que informem a Itá sobre o seu novo mestre.

De volta ao templo, no quarto, Artemísia deixa suas armas sobre uma pequena mesa, próxima da cama, depois se deita, mas não consegue dormir. Seu instinto ainda a deixa em alerta quanto ao misterioso mestre, seu novo espelho.

 

Amanhece, e Artemísia ainda não dormiu. Alguém bate à porta.

— Entre. — Uma jovem arrogante entra e se senta na cama em que Artemísia está deitada.

— Bom dia, novata! Vim dar as boas-vindas e perguntar como gosta do seu café da manhã...

— Bom dia... Como é mesmo o seu nome? — Artemísia se levanta.

— Peço desculpa por minha indelicadeza, nobre Artemísia. Sou Maya, irmã e discípula de Arûara. Imagine só o que é ter um irmão como mestre? — Maya ri sozinha de sua piada.

— Posso preparar meu café sozinha; não se preocupe comigo. Se não se incomoda, vou tomar um banho antes de descer.

— Tudo bem, guerreira. — Maya olha para as armas de Artemísia na mesa, duas espadas e um triendy. A venusiana vai para perto delas.

— Nem pense em cobiçar minhas armas. Se tocar em alguma delas, considere-se morta.

— Calma, maninha... Somos uma família agora. Jamais pegaria algo seu sem sua permissão. — Maya se levanta e sai do quarto, lentamente, sem tirar o olhar de Artemísia, que a olha de volta.

— Isso só piora! — A guerreira pensa alto, após a moça desaparecer, e vai tomar o banho.

No andar de baixo, Maya conversa com seu irmão.

— E então, o que achou? — Arûara pergunta.

— A guerreira faz jus à sua fama. É uma mulher rara, jamais encontrará outra igual.

— Então escolhi direito?

— Acertou em cheio, meu irmão. — Maya morde uma fruta e sai da cozinha.

Artemísia desce as escadas. Sua intenção era sair e procurar por uma taberna próxima, mas a venusiana é surpreendida pela presença de Arûara.

— Bom dia, bela guerreira! Acabei de preparar o café da manhã.

— Agradeço, mas preciso sair.

— Sua companhia é fundamental nesta manhã. — Julgando ser um teste, Artemísia cede e segue Arûara até a copa. Em uma mesa grande, alguns discípulos do mestre já terminavam sua refeição, entre eles, Maya.

— Meninos e meninas, esta é a mais nova irmã de nosso templo. Sejam educados e cumprimentem Artemísia. — Maya se levanta para apresentar a venusiana. Todos dão as boas-vindas à nova discípula, que agradece com um semblante sério.

— Escolha uma cadeira e nos faça companhia, maninha. — Artemísia olha desconfiada para Maya, mas escolhe um assento. Arûara observa e sai da copa.

Artemísia não entende a atitude do mestre, que até há pouco parecia tão interessado em sua presença e agora demonstra indiferença. Ela come um pedaço de pão, mas antes que alguém comece uma conversa a guerreira se levanta e sai. Maya, que não deixou de observar a mercenária, espera um pouco, depois a segue.

A venusiana anda pelo setor comercial da cidade, à procura de uma relíquia indicada por Itá. Desde que saiu do templo, Artemísia já havia percebido que era seguida por Maya. Após entrar em algumas lojas, incomodada com a sombra que a seguia, a guerreira se esconde atrás de um muro, em uma esquina, e surpreende a irmã do mestre. A mercenária pega Maya pelo pescoço e a pressiona contra o muro.

— Por que está me seguindo?

— Meu irmão confia em você, mas eu não. Não tenho medo de suas ameaças, guerreira. — Maya desaparece da mão de Artemísia e aparece atrás dela. A guerreira não se meche. Maya chega bem perto do ouvido da venusiana. — Ainda não sou mestre, mas aprendi alguns truques por aí. Se eu fosse você, mocinha, andaria na linha e não decepcionaria meu irmão.

Artemísia se vira, mas Maya já havia desaparecido com o vento.

Por FranHDC | 01/02/18 às 12:07 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino