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Capítulo 2.2 - Filhos do deus Marte

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 2.2 - Filhos do deus Marte

Autor: Francélia Pereira

Alguns dias se passam e Artemísia ainda está confusa quanto às intenções do seu novo mestre, que continua com seu jogo de seduzir e ignorar. Mesmo mantendo sempre um sorriso amável, como a maioria dos sábios, algumas atitudes de Arûara não combinam com alguém que segue o caminho da sabedoria; muitas vezes Artemísia duvida se ele é de fato um mestre.

No templo de Arûara, os discípulos não inspiram a paz que há no templo de Andyrá. Eles não são serenos, calmos e nem fraternos. O templo de Arûara parece um covil de lobos, que tentam, insistentemente, lutar contra sua verdadeira natureza.

Artemísia observa os discípulos no pátio, treinando artes marciais, sob a instrução e o olhar ameaçador de Maya.

— Por que não se junta a eles? — Arûara chega sorrateiramente, como sempre.

— Eu desisti desse caminho. Não é a guerra que busco; não mais.

— Entendo... mas os ensinamentos deste templo incluem a arte de se defender. Nisso, Maya poderia lhe ajudar muito.

— Sei me defender. Não preciso do que Maya tem pra ensinar.

— E se for exatamente o que Maya tem a ensinar que seu coração veio buscar aqui? — Arûara fala enquanto vai se afastando. As palavras do mestre criam raízes no coração da guerreira.

— Droga! Ele tem razão. — Artemísia atravessa o pátio e se aproxima de Maya.

— Vejam só quem veio para as lições da manhã.... — Artemísia fica indiferente à ironia da irmã do mestre.

— Onde eu fico?

— Junte-se a Alcmeão; ele é o mais adiantado da turma. Vai te ajudar com as lições. — Maya sorri sarcasticamente.

Alcmeão é um homem alto e muito forte. Também é um mercenário, mas, assim como Artemísia, um dia sentiu que deveria seguir outro caminho. Mesmo sem ter ainda um objetivo definido, o guerreiro se sente confortável no templo, pois é uma estrada diferente da que seguia antes. Alcmeão é um homem rude e muito impaciente com mulheres. Ter Maya como mestra, justo na disciplina de artes marciais, quase o fez abandonar o templo de Arûara, mas o mestre sabe convencer seus discípulos e Alcmeão decidiu ficar.

Artemísia cumprimenta seu colega.

— Fique sabendo que não tenho muita paciência, novata. Não faça muitas perguntas; simplesmente observe e aprenda.

Um fogo intenso corre pelo corpo da venusiana. Se a guerreira não tivesse aprendido a controlar um pouco seus instintos, no tempo em que Hikari foi seu mestre, naquele momento Alcmeão poderia encontrar sua morte. Mas Artemísia se contém, afinal, estar ali foi uma escolha dela; as lições precisam ser aprendidas. A venusiana respira fundo.

— Tudo bem. Vamos começar logo.

Os guerreiros continuam com o treinamento no pátio. Maya observa cada um deles. Arûara vê tudo de longe, do alto de uma sacada. A irmã do mestre olha para ele com um sorriso sarcástico, Arûara olha de volta, com semblante preocupado.

Após as lições no pátio, os discípulos vão tomar banho, depois seguem para a sala de meditação. Artemísia vai para o quarto dela.

Na biblioteca, Maya e Arûara conversam.

— E então; o que você achou? — Maya pergunta.

— Ela ainda está se contendo, mas vi um grande potencial na minha escolhida. Artemísia estará sob seus cuidados por uma semana, depois... eu mesmo a instruirei. — Maya se assusta.

— Você não pode instruí-la. Embora seja uma amadora ainda, há muita energia naquela mulher. Com suas instruções ela se tornaria...

— Sim, eu sei. Mas preciso que ela se solte um pouco mais. É necessário, pois do contrário não será capaz de me ajudar a seguir o meu caminho.

— Tome cuidado, meu irmão. O coração de uma mulher magoada guarda trevas profundas demais. Cuidado para não se perder nelas.

— Fique tranquila, minha irmã. Sei o que estou fazendo.

— Espero que sim. — Maya sai da biblioteca. Arûara mantém uma expressão preocupada.

 

Depois do almoço, Artemísia sai novamente para procurar pela relíquia indicada por Itá.

— Sinto muito, moça. Não posso te ajudar. — Um vendedor conclui, após analisar o holograma da peça. Ninguém na cidade parece ter conhecimento sobre a tal relíquia. Artemísia sai da loja.

— Ei, moça! — Uma ginoide chama pela guerreira, mas ela não escuta. — Ei, eu sei onde você pode encontrar o que procura. Conheço a peça que você mostrou para o vendedor. — A ginoide fala mais alto, quase gritando, Artemísia para e olha para trás. Um pouco distante, a ginoide vem ao seu encontro, a guerreira a espera.

— Vi o holograma na loja. Conheço a peça.

— Sabe onde posso encontrá-la?

— Sim. Venha e lhe mostro. — Artemísia segue a ginoide. Elas atravessam o centro da cidade e vão até um canto esquecido na periferia.

— Nunca imaginei que um lugar assim pudesse existir em uma cidade da Terra. — Artemísia se intriga ao ver uma região miserável em uma cidade flutuante. — Tão poucos vivem aqui; e todos têm um propósito cientifico em permanecer nessas cidades.

— Você é humana, não deveria se assustar com isso. O egoísmo e a indiferença fazem parte da natureza de vocês. — As duas entram em uma moradia precária.

Em um pequeno quarto, sem móveis, um velho parece meditar, enquanto três esferas giram no ar em frente à sua fronte.

— Um artista... — Artemísia se encanta com a cena.

— Não. Talvez tenha sido um dia; mas não mais. Este é Epîakara. Sente-se e aguarde um pouco. — A ginoide sai do quarto. Artemísia se senta no chão. Enquanto aguarda, ela medita.

Após alguns instantes, a guerreira sente uma presença bem próxima, então abre os olhos e vê as três esferas girando ao redor de sua cabeça.

— O que busca, minha jovem? — O ancião pergunta.

— Procuro por uma relíquia. — Artemísia responde, observando as esferas girando.

— E o que fará quando encontrar a relíquia?

— Ainda não sei.

— O que busca, minha jovem? — O ancião pergunta novamente. A guerreira se lembra da conversa com Andyrá, no jardim. Ela fecha os olhos e procura uma resposta.

— Busco descobrir quem realmente sou. — Duas esferas voltam para perto de Epîakara. A terceira esfera para em frente aos olhos de Artemísia e se abre, revelando a relíquia dentro dela.

— Pode levar. Ela ajudará você a encontrar o que procura. — Artemísia pega a relíquia e se levanta. As três esferas estão, novamente, levitando em frente ao velho.

— Obrigada! — O ancião fica indiferente.

Artemísia sai, pensativa, da casa de Epîakara e segue para o centro da cidade. Já no centro, quando a guerreira atravessa uma rua é observada por Alcmeão, que estava à procura de um conhecido. O guerreiro vai atrás da venusiana.

— O que procura, novata? — Alcmeão pergunta ao se aproximar de Artemísia.

— Embora não seja da sua conta, já encontrei. Obrigada pela preocupação. — Alcmeão fica irritado.

— Mulheres... — Artemísia logo percebe que o mercenário é um filho do Clã. A antipatia em relação ao colega só aumenta. — Te vejo no pátio amanhã... novata. — Os dois trocam olhares pouco amigáveis.

O coração de Artemísia fica apertado. Sua intuição prevê muito perigo vindo do templo de Arûara, mas alguma coisa a prende àquele lugar. Talvez as lições que estão por vir sejam duras, perigosas, mas extremamente necessárias.

Por FranHDC | 02/02/18 às 21:14 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino