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Capítulo 2.3 - O amuleto de jade

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 2.3 - O amuleto de jade

Autor: Francélia Pereira

— Não é assim. — Alcmeão empurra Artemísia, irritado.

— Fiz exatamente como você mostrou, idiota.

— Já chega. Não suporto mais isso. Mulheres nunca deveriam se misturar com homens. Vocês são seres inferiores. — Alcmeão cospe no chão e dá as costas para Artemísia. Maya observa sem se intrometer. Os demais discípulos seguem com seus exercícios, indiferentes à discussão entre Artemísia e seu colega venusiano.

— Desgraçado! — Artemísia dá uma rasteira em Alcmeão. O guerreiro cai, mas se levanta rapidamente.

— Enlouqueceu, mulher? Já que deseja imitar um homem, agora irá apanhar como tal. — Alcmeão dá um soco no rosto de Artemísia. Ela cospe sangue e olha com ódio para o guerreiro. Com a boca sangrando, a venusiana abre um sorriso de satisfação.

Artemísia grita com raiva, enquanto quebra uma perna do guerreiro com um chute muito forte; ele grita de dor, mas tenta dar um soco na cabeça da venusiana; ela se esquiva do soco, se abaixando, e aproveita para dar uma joelhada no estômago de Alcmeão.

O grandalhão se encolhe por causa da dor e a guerreira o pega por trás; com o braço por volta de seu pescoço, ela o sufoca. Com dificuldade para respirar, e com a perna quebrada, o guerreiro fica fraco, vai se abaixando cada vez mais, Artemísia aproveita e pula sobre o venusiano, enche seu rosto de socos e começa a bater a cabeça do mercenário no chão. Arûara aparece e impede que a guerreira mate Alcmeão.

O que está acontecendo aqui? — A voz do mestre, sempre tão serena, agora parece um trovão. Todos param com suas atividades, exceto a venusiana, que continua batendo a cabeça de seu colega no chão furiosamente.

— ARTEMÍSIA! — O mestre fala alto, de forma firme. A guerreira respira fundo e deixa Alcmeão no chão.

Arûara anda lentamente pelo pátio, com as mãos para trás. Quando se aproxima de Artemísia, a olha nos olhos, como um pai repreendendo a filha que acabou de cometer um erro grave.

— Peguem Alcmeão e o levem para a enfermaria. — Arûara fala secamente, sem desviar os olhos da guerreira. Dois homens e uma mulher carregam o venusiano. Ao longe, Maya sorri com satisfação. — Algo assim nunca havia acontecido em meu templo.

— Subirei até o meu quarto e pegarei as minhas coisas. — Artemísia dá um passo à frente.

— Espere, não terminei ainda. — Artemísia fica parada e ouve um discurso de Arûara. Após o sermão ele chega ao ponto que interessa à guerreira. — ... assim, decidi que, de agora em diante, eu mesmo a instruirei. Você não receberá os ensinamentos de Maya junto dos outros. Nossas lições acontecerão neste mesmo pátio, durante a noite. — O mestre se vira e segue para fora do pátio. Artemísia fica confusa, mas sente certa satisfação na decisão de Arûara.

Embora não se sentisse confortável naquele templo, a guerreira não queria desistir antes que sua instrução terminasse; para ela, desistir era um ato de covardia, característica que a fazia se lembrar de sua mãe e de todas as mulheres submissas do Clã.

Maya se aproxima.

— Bravo, guerreira! Vejo que seu verdadeiro eu está se manifestando!

— Ele me provocou. — Artemísia limpa o sangue de sua boca.

— Entendo... Mas perdoe Alcmeão. Assim como em você, o Clã deixou naquele coração grandes mágoas e grandes traumas... e a presença de mulheres sempre o lembra de tudo que ele gostaria de esquecer.

— Qual é a história do venusiano idiota?

— Alcmeão nasceu em Vênus, em seu querido Clã. Aos 25 anos, em um ataque de fúria, matou a própria mãe, o que o deixou atormentado devido a alguns sentimentos contraditórios. Como você bem sabe, em seu Clã, um homem é ensinado desde criança a não alimentar nenhum tipo de sentimento por mulher alguma, nem mesmo pela própria mãe, pois, segundo suas crenças, nenhuma mulher é confiável. O que seu amado Clã não sabia é que nenhum ser humano é confiável e Alcmeão matou a mãe por uma intriga de seu melhor amigo, que se descobriu em pouco tempo ser uma mentira

— Parece que seu irmão, assim como Alcmeão, também não conhece nossa espécie, pois, segundo você, ele confia em mim.

— Hum... Não se preocupe, maninha, não é exatamente em você que ele confia... não precisa ter crises de consciência por isso. — Artemísia fica confusa. — Meu irmão é um sábio, ele confia no destino... e acredita que você faz parte do destino dele. É nisso que ele confia e é por isso que não tem medo de você. — Artemísia fica pensativa, Maya a observa de cima a embaixo, com expressão de desdém. — Seria bom você tomar um banho... O sangue de Alcmeão pode lhe fazer mal. — Maya deixa o pátio.

Após a briga entre Artemísia e Alcmeão, todas as noites Arûara instruía a venusiana nas artes marciais, os dois eram sempre observados pelo olhar atento de Maya. A venusiana aprendia rápido, o que preocupava a irmã do mestre, mas não eram só os ensinamentos sobre a arte da luta que estavam sendo assimilados pela guerreira. O contato diário com Arûara, tão próximo, estava mexendo com os instintos de Artemísia. Ela estava ficando confusa.

 

— Já chega por hoje. Pode descansar. — Arûara diz ao fim de mais uma lição.

— Vou treinar mais um pouco.

— Fique à vontade. — Arûara deixa o pátio. Maya o segue.

Enquanto Artemísia treina sozinha, ela percebe uma pequena porta, no lado esquerdo do pátio. Foi a primeira vez que notou aquela porta ali. A venusiana continua com os exercícios, mas a porta parece chamar por ela, que acaba cedendo e vai olhar de perto.

A porta é escura e nela há inscrições, indecifráveis para Artemísia, mas ela reconhece um símbolo, o sol e a lua, que a guerreira viu na sala de Huxley, entre as duas fontes de água. A imagem a intriga, a venusiana tenta abrir a porta e, para sua surpresa, ela não está trancada, então Artemísia a atravessa e chega a um pequeno corredor, que antecede uma sala escura. Ao fundo se vê uma luz verde, bem fraca. A venusiana segue até ela.

Ao chegar bem perto, Artemísia percebe que se trata de um pequeno amuleto, feito de uma pedra verde, com a forma de um animal desconhecido. Quando a guerreira se aproxima mais, para observar melhor os detalhes do objeto, as luzes da sala se acendem.

— Vejo que encontrou meu pequeno tesouro! — Artemísia se assusta com a voz de Arûara. A sensação de ser pega em flagrante lhe traz à memória os momentos de terror vividos na sala sagrada de sua família. — Me desculpe, não quis assustá-la. — Arûara se aproxima. A venusiana se acalma.

— Eu que peço desculpa, a porta tava aberta e...

— Calma, minha querida... não precisa se desculpar. — Arûara pega o amuleto e o coloca sobre a palma da mão. — Este é o meu Muiraquitã. Um amuleto tão antigo quanto a humanidade.

— Muiraquitã?

— Sim.

— Nunca ouvi falar.

— Poucos conhecem sua história. Na verdade, mesmo entre os sábios há quem nunca ouviu falar do Muiraquitã.

— É uma bela relíquia.

— Não é só uma bela relíquia, ele guarda uma história... — Arûara chega bem perto de Artemísia e sussurra em seu ouvido. — ... que pode levar à eternidade. — Arûara se afasta e coloca o Muiraquitã novamente em seu lugar. — Me desculpe por não poder lhe fazer companhia no momento. Preciso sair para encontrar um amigo. Mas fique à vontade. Sei que encontrará muita coisa de seu interesse nesta sala.

— Obrigada. — Arûara sai e fecha a porta.

Com as luzes acesas, Artemísia vê o que há na sala. Nisso, Arûara não é diferente dos outros sábios. Há muitos objetos de arte, muitas relíquias e muitas inscrições, em várias línguas antigas, espalhadas por todo o lugar. Mas a guerreira se interessa em saber mais sobre o Muiraquitã. No suporte do amuleto há um projetor de hologramas. Artemísia o aciona.

 

Onde hoje existe a Atlântida, havia, há muitas gerações, um continente vasto, com natureza exuberante, e nele vivia um povo sagrado. Esse povo era dividido em várias nações, várias etnias, e cada nação desenvolveu sua maneira particular de perceber o Todo. Uma dessas nações era formada somente por corajosas guerreiras, as Icamiabas, filhas de Îasy.

Nesse tempo, a deusa Îasy, a Lua, abençoou suas filhas com diversos dons, tornando-as especiais entre a humanidade.

Por serem muito evoluídas, não havia homens que pudessem gerar filhos com elas, pois não dispunham de energia Yang suficiente para interagir com a energia Yin das filhas de Îasy. Assim, a deusa entregou às Icamiabas uma pedra sagrada, o Muiraquitã Original, da qual as guerreiras podiam retirar pequenos pedaços e transformá-los em amuletos, com os quais elas presenteavam os homens escolhidos por elas para serem os pais de seus filhos.

A pedra de Îasy ficava em um lago sagrado, o Îasy Arugûá, ou, Espelho da Lua. Quando uma Icamiaba encontrava o seu par, ela mergulhava fundo no lago e retirava da pedra verde o seu Muiraquitã. Ao entregar o amuleto ao amado, o corpo dele recebia a energia necessária para que pudesse se unir à guerreira. Após alguns encontros de amor, o homem devia seguir seu caminho; mas levava consigo o presente da Icamiaba, que seria para ele, para sempre, proteção e fonte de força e felicidade.

— Muiraquitã... — Artemísia sorri enquanto olha para o amuleto à sua frente.

Por FranHDC | 03/02/18 às 10:49 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino