CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 2.4 - Um tropeço

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 2.4 - Um tropeço

Autor: Francélia Pereira

Artemísia está sentada, com as pernas cruzadas, sobre uma bancada perto da janela de seu quarto. A guerreira observa, intrigada, a relíquia que lhe foi dada por Epîakara. Ela levanta a peça e a olha contra a luz que vem da janela.

— Onde você me levará? — Maya entra no quarto.

— O que é isso, guerreira? — Artemísia abaixa a peça e faz uma expressão desanimada.

— Quantas vezes já te pedi pra bater antes de entrar... — Maya tenta pegar a relíquia, mas Artemísia a esconde dentro da mão fechada.

— Hum! Suas tralhas não me importam. Arûara a espera; desça logo. — Maya sai do quarto. O sangue de Artemísia ferve.

A relíquia é uma pequena peça de metal, em formato cilíndrico, com figuras e caracteres gravados por todos os lados. A venusiana guarda o pequeno objeto em um compartimento na base de sua espada, que está no coldre sobre a mesa, do lado da cama, depois desce para o pátio, onde Arûara a espera. Quando a guerreira se aproxima do mestre, Maya observa os dois, como sempre.

— Hoje o treinamento será mais cedo. Tenho um compromisso à noite. — Arûara fala, enquanto a guerreira chega mais perto dele.

— Com outro mestre? — Maya sorri, ao perceber uma ponta de ciúmes na pergunta de Artemísia.

— Talvez. Mas venha... vamos começar.

Artemísia é uma das melhores guerreiras de Apolo, conhece muito da arte da luta, principalmente com espadas, mas precisa aprender a controlar seus impulsos nos confrontos, para que o ódio não a cegue, pois, impulsionada pelo instinto, em algum momento pode tomar decisões erradas que a levariam à morte. Com seu novo mestre, Artemísia aprendeu a controlar sua energia vital, aumentando consideravelmente a força de seus golpes. Se ainda fosse uma mercenária, seria praticamente invencível agora.

— Entendi. — Artemísia diz, após Arûara lhe mostrar mais um golpe.

— Me mostre. — Quando Artemísia se prepara para dar o golpe, Maya se concentra e faz a guerreira tropeçar, caindo nos braços de Arûara. Mestre e discípula se olham nos olhos. O olhar dele penetra fundo na alma da guerreira. Artemísia sente um frio na espinha, seu coração dispara e seu corpo todo reage.

— Me desculpe. — A guerreira se afasta, assustada. Arûara sente um fogo consumindo o seu ser. Ele também se assusta, mas tenta disfarçar.

— Não se preocupe, está tudo bem. — Um clima de constrangimento toma conta dos dois. Maya tenta segurar as risadas. — Acredito que já basta por hoje. Amanhã daremos continuidade ao seu treinamento. — Artemísia consente com um sinal com a cabeça e sai do pátio, sem rumo. Maya se aproxima de Arûara.

— Como venho dizendo... cuidado, meu irmão. — Maya deixa o pátio. Arûara fica parado, pensativo.

Em um canto no templo, ofegante, Artemísia para e põe a mão na testa.

— O que está acontecendo comigo? — A guerreira sente uma mão sobre seu ombro e se assusta.

— Tava te procurando. — Um dos discípulos diz. — Alcmeão quer conversar com você. — Artemísia tenta respirar no ritmo normal novamente.

— Nada do que saia da boca daquele idiota me interessa. — A venusiana começa a se afastar.

— Depois daquela luta, alguma coisa mudou naquele mercenário. Talvez foram as pancadas na cabeça. — O homem ri. Artemísia para e decide dar atenção ao venusiano, ela sente um pouco de remorso por ter batido tanto nele.

Alcmeão espera por Artemísia em seu quarto. Desde o dia da luta, ele havia se tornado mais recluso; a princípio por vergonha, depois se tornou mais pensativo.

— Entre, por favor! — Alcmeão diz ao ver Artemísia na porta. A guerreira se aproxima. — Sente-se. — Ela puxa uma cadeira. — Desde pequeno, fui condicionado a acreditar que as mulheres são seres inferiores, cheias de defeitos, fracas, medrosas, submissas, falsas... Enfim, sempre fui ensinado a desprezar o gênero feminino e a exaltar o meu próprio gênero. Meu pai, e todos do Conselho, sempre reforçaram a ideia de que mulher alguma, nem mesmo nossa própria mãe, merecia qualquer sentimento nosso, e que o homem que ousasse desenvolver sentimentos nobres por uma mulher seria castigado com a traição dela.

Artemísia ouve o discurso de Alcmeão com atenção, mas sem muita esperança de que a conversa fosse chegar a um ponto que lhe interessasse.

— Mas amei a minha mãe. Eu a amava profundamente, e mais, eu a admirava. Ela era linda, inteligente, e tinha uma força diferente dentro dela; não era a força de um bravo guerreiro, era uma força que parecia vir de sua alma. Ela suportava coisas terríveis, atitudes muitas vezes insanas, vindas do meu pai, e mesmo assim nunca demonstrou tristeza, desânimo ou revolta por isso; ela não aceitava, mas respeitava os costumes do Clã, e muitas foram as vezes em que ela me protegeu dos exageros desses costumes. Minha mãe era o meu porto seguro, e meu pai percebeu isso... Então, desde pequeno ele tentou arrancar do meu peito o amor que eu sentia por ela... o amor de um filho por sua mãe.

Os olhos de Artemísia começam a lacrimejar.

— Eu tentava protegê-la, disfarçadamente, pois não queria parecer fraco diante dos outros homens do Clã. Mas os ensinamentos do Clã batiam de frente com meus sentimentos... isso me deixava confuso e irritado. Não fui um bom filho, não amei minha mãe como ela merecia, tudo em nome de uma ideologia que eu nem compreendia direito. Quando o meu melhor amigo, a pessoa em quem eu mais confiava, me contou sobre a suposta traição dela, enlouqueci. Imaginei que estava sendo castigado por não ter sido forte o suficiente pra fugir dos encantos de uma mulher; e não hesitei em tirar a vida dela. Chorei muito sobre seu corpo inerte no chão.

— E qual teria sido a traição de sua mãe?

— O Conselho estava preocupado com a possibilidade de haver um traidor entre nós. Um grupo concorrente de mercenários estava recebendo informações sigilosas sobre o Clã. Estávamos nos tornando vulneráveis por isso. Meu amigo me garantiu que minha mãe era esse traidor. Segundo ele, ela havia encontrado uma forma de descobrir informações secretas e as estava passando para o inimigo sob a condição de que eles a libertassem do Clã. Minha mãe sempre sonhou em viver longe das nossas fronteiras; eu via isso em sua arte. Suas pinturas sempre revelavam uma alma que queria se libertar. Mas meu amigo mentiu. A verdade é que minha mãe, uma vez, o viu passando as informações através de um comunicador. Ele estava no jardim da minha casa e quando a viu a ameaçou, dizendo que me mataria se ela o entregasse; mas ele não quis arriscar, fez a intriga pra garantir que ninguém descobrisse a verdade.

— E como você descobriu a verdade?

— Ele não aguentou a culpa e me confessou tudo, antes de tirar a própria vida.

— Maldito Clã. — Artemísia balança a cabeça para que as lágrimas não caiam.

— Sim. Depois disso, eu abandonei o Clã e me tornei um mercenário autônomo. Mas as dúvidas quanto às mulheres sempre persistiram, por isso não quis lutar em nenhuma guilda, você sabe, nas guildas há muitas mulheres... — Os dois riem. — Os ensinamentos do Clã, o condicionamento ao qual fomos submetidos desde o nascimento, ainda tem suas raízes em minha mente, e muitas vezes me confunde ter que reconhecer que minha vida foi construída sobre mentiras. Você me humilhou na luta, mas me fez perceber que nossa cultura foi baseada em interesses, talvez interesses que fossem da necessidade de todos a princípio, mas que se tornaram interesses egoístas ao longo das gerações. — Alcmeão se aproxima de Artemísia e a olha nos olhos. — Gostaria de me desculpar pelas idiotices que tenho lhe dito desde que nos conhecemos. Na verdade, sua presença me incomodava porque jogava por terra, definitivamente, toda a imagem sobre o gênero feminino que o Clã construiu em minha mente. Você é forte, destemida, tem honra, é inteligente, é livre... Enfim, você é tudo que os homens do Clã sempre sonharam em ser, mas nunca conseguiram. Me sinto honrado em ter te conhecido.

Ouvir tudo isso de um filho do Clã faz as lágrimas jorrarem através dos olhos da venusiana. Artemísia não consegue mais se conter, chora como criança; Alcmeão chora também e os dois se abraçam como irmãos.

— Seu venusiano idiota. Você foi o único que conseguiu me tirar lágrimas até hoje.

— Não se preocupe, esse será nosso segredo. — Os dois riem.

 

Quando chega a noite, Artemísia decide ir até à casa de Epîakara, para fazer perguntas sobre a relíquia. No caminho, ela vê Arûara conversando com três homens vestidos de preto, cobertos por um manto com capuz. A guerreira os observa de longe e os vê entrando em um prédio estranho, aparentemente um templo erguido para uma divindade antiga. Sob a porta do lugar há a figura dourada de um Sol. Artemísia desiste de procurar Epîakara e decide vigiar o mestre.

Quando Arûara sai do templo do Sol, Artemísia pensa em segui-lo, mas é surpreendida por Maya, que aparece em sua frente.

— O que pensa que está fazendo, guerreira? — A venusiana olha com ódio nos olhos da irmã do mestre.

— Me seguindo novamente, Maya?

— Te seguindo? Não... estou protegendo o meu irmão. Qual sua intenção em vigiá-lo?

— Não te interessa. Com licença. — Artemísia começa a se afastar, mas Maya a paralisa, pressionando alguns pontos em seu pescoço. A venusiana não consegue nem falar.

— Ouça com atenção, Artemísia... Há coisas sobre o meu irmão que ele só irá compartilhar com você se você se mostrar digna de tal confiança. Nunca mais o siga por aí. Não se esqueça, jamais, que sempre estarei um passo à sua frente. — Maya vai se afastando. — Ah! E não se preocupe. Em alguns segundos seus movimentos voltarão ao normal. Nos vemos no templo, maninha... — O sangue queima no corpo da guerreira.

Quando Artemísia chega ao templo, Arûara já está lá. Ele a cumprimenta com doçura e com um belo sorriso, ela devolve o cumprimento da mesma forma e sobe as escadas, rumo ao seu quarto.

No quarto, Artemísia surpreende Maya segurando e observando uma de suas espadas, a espada ancestral. Maya olha para Artemísia e sorri sarcasticamente. A venusiana se aproxima com pressa e dá um soco no rosto da irmã do mestre, enquanto toma a espada de suas mãos.

— Você já passou dos limites, Maya. Saia do meu quarto agora.

— Você que passou dos limites. — Maya devolve o soco no rosto de Artemísia. As duas começam uma briga. Do andar de baixo, Arûara e alguns discípulos escutam o barulho e os berros que vêm de cima.

— Parece que Artemísia e Maya estão brigando. — Uma mulher comenta.

— Fiquem todos aqui, eu resolvo isso. — Arûara vai até o quarto da guerreira. Quando chega, ele fecha os olhos e se concentra. As duas ficam paralisadas.

— Vou falar somente uma vez e não quero ouvir a opinião de vocês. — Arûara se aproxima das duas. — Maya, deixe Artemísia em paz; não preciso de babá. Você vai sair deste quarto e nunca mais a importunará. Se algum dia houver algum problema entre Artemísia e eu, cabe a nós resolvermos isso. Não se intrometa mais. — Maya fica furiosa. — E você, Artemísia... — Arûara olha nos olhos da venusiana. — Sempre que quiser saber algo sobre mim, me pergunte; não fique por aí me seguindo, como uma sombra. — As duas recuperam seus movimentos.

— Não se preocupe, meu irmão, não importa o que aconteça... a guerreira agora é um problema só seu. — Maya sai furiosa do quarto. Arûara ri.

— Desculpe a minha irmã. Ela é superprotetora, só isso.

— Eu sei... e peço desculpas por ter te vigiado.

— Tudo bem. — Os dois se olham com afeto e sorriem.

— Arûara... há uma coisa que me intriga.

— O quê?

— Quando recebi a caixinha com o enigma, percebi que vinha de alguém que já me conhecia, mas não me lembro de ter visto você antes.

— É porque você não me viu mesmo.

— Então, como soube da minha existência?

— Bem, bastaria dizer que sua fama a precede, pois você é, me desculpe, foi, uma mercenária muito requisitada no Sistema. Mas a verdade é que te conheci enquanto ainda era discípula de Hikari.

— Na cabana?

— Sim. Uma vez fui visitá-lo... então a vi, ao longe, treinando com seu arco de energia. Naquele momento percebi o quanto você era especial. Eu senti a sua alma. — Arûara se aproxima de Artemísia. Ela fica apreensiva. — Mas ainda não conhecia a real dimensão da sua importância na minha vida. — Arûara passa, carinhosamente, a mão pelos cabelos de Artemísia.

A guerreira olha para o mestre com desejo e não consegue mais resistir, ela o pega pela nuca e o beija com muita paixão. Arûara se entrega, deixando seu corpo demonstrar todo o desejo que também sente pela venusiana. Artemísia o joga sobre a cama e rasga o traje dele, o mestre sorri.

— O que fará com o seu prêmio, guerreira? — Artemísia tira a blusa.

— Não se preocupe... sempre cuido muito bem do que é meu. — A guerreira sorri e deixa que a paixão tome conta dela. 

Por FranHDC | 04/02/18 às 13:19 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino