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Capítulo 2.6 - Metamorfose

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 2.6 - Metamorfose

Autor: Francélia Pereira

Amanhece. Artemísia se levanta e sai, antes que Arûara acorde. Ela segue em direção à casa de Yuki.

 

— Bom dia, Artemísia, sente-se e tome café com a gente!

— Obrigada, Yuki, mas vou para o jardim.

— Você veio ver Itá?

— Ela está aqui?

— Sim. Está no jardim. — Artemísia segue para o jardim e lá se aproxima de Itá, que conclui seu ritual da manhã.

— Você já me esperava, certo?

— Sim. — Itá responde com um sorriso sereno.

— Então já deve conhecer as minhas dúvidas.

— Conheço sim... mas é necessário que você me diga, para que tenha consciência delas. Somente assim você encontrará as respostas que busca.

Artemísia conta sua história com Arûara. Fala também sobre a seita do templo do Sol e sobre o Muiraquitã Original. Ela tem dificuldade em se expressar sobre suas dúvidas quanto às intenções do mestre, mas conta tudo para Itá.

— Minha querida... compreendo suas dúvidas, mas o que tenho a lhe dizer é que você deve confiar no Dharma e sempre se guiar por sua intuição. Assim como tenho a minha jornada e somente eu posso segui-la, você também tem a sua e só cabe a você decidir qual caminho deve seguir.

— E quanto à relíquia...

— Você já a encontrou, agora deixe que ela encontre você. — Itá segura as mãos de Artemísia e a olha profundamente nos olhos, depois se despede com um aceno com a cabeça e vai embora. Artemísia decide meditar um pouco antes de tomar uma decisão.

 

No templo de Arûara, Maya está no pátio com os discípulos em treinamento.

— Onde está Artemísia?

— Você é o mestre aqui, é você quem tem todas as respostas. — Maya responde com ironia. Arûara sente a venusiana se aproximando, então olha para trás.

Artemísia aparece na entrada do pátio. O mestre espera enquanto ela se aproxima. Quando a guerreira fica de frente para ele, o sábio a olha desconfiado.

— Quando iremos para o templo do Sol? — Artemísia pergunta. Arûara sorri com felicidade.

— Quando se sentir pronta, minha linda!

— Estou pronta. — Arûara abraça Artemísia, depois os dois saem de mãos dadas. Maya suspira e olha para o chão.

 

Quando chegam ao templo do Sol, todos os anciãos já esperavam pelo casal. Todos usam o mesmo manto com capuz.

— Venham, O Mestre espera por vocês na sala sagrada.

— Sala sagrada... — Artemísia sacode a cabeça para afastar lembranças ruins.

Na sala sagrada, quando o casal se aproxima, o mestre ignora Arûara e observa cada detalhe de Artemísia. O velho dá voltas ao redor da venusiana, sempre a analisando, depois para em sua frente e a olha nos olhos.

— Mesmo sendo uma descendente das Icamiabas, ainda há um teste pelo qual você precisa passar, antes que possamos lhe entregar nosso conhecimento.

— E que teste seria esse? — O velho segue em direção ao altar, uma pedra suspensa, com tecnologia antigravidade; sobre ela há um dispositivo que é acionado com a voz do velho mestre. Ele diz algumas palavras e, na parede, atrás do altar, se abre uma porta.

— Venha. — O velho diz. Artemísia e Arûara se movem em direção à porta. — Você não; somente a Icamiaba. — Arûara abraça Artemísia.

— Fique tranquila. Estarei sempre ao seu lado. — Artemísia sorri.

A porta se fecha depois que Artemísia a atravessa. O velho segue à frente, com uma espécie de lanterna. O lugar está muito escuro e sombrio.

Sem olhar para trás, o ancião vai dando orientações à Artemísia.

— Deixe que sua alma a guie, do contrário... morrerá.

Artemísia não teme a morte, na verdade, ela sempre a buscou. Mas a ideia de ficar longe de Arûara a incomoda, agora, e a guerreira passa a dar mais valor à sua vida.

Os dois chegam ao final do que parecia um corredor. O velho coloca a lanterna sobre um pequeno suporte. Ele se concentra e uma luz fraca surge em sua mão direita. O ancião coloca a mão sobre um filete de um líquido que cai de uma pedra. O líquido se inflama e a luz segue, formando um grande círculo ao redor de uma chama que se acende no meio da sala. Ao fundo, uma imagem do Sol começa a se iluminar. Artemísia observa tudo, sem ter a menor ideia do que estaria por vir.

— Icamiaba. Você deve entrar na chama. — A guerreira se assusta.

— Mas irei me queimar!

— Se seu coração for sincero, nenhum mal a atingirá.

Artemísia hesita, reflete um pouco, então pede ao velho que lhe deixe meditar antes de entrar na chama; ele permite.

Após acalmar sua mente e seu coração, a venusiana segue em direção à chama que arde no centro da sala. A chama é intensa e alcança alturas maiores que o corpo da guerreira, diante dela, Artemísia sente o calor do fogo, começa a suar, mas se entrega de corpo e alma.

Por um instante a mercenária sente seu corpo se queimando, mas não grita, suporta a dor serenamente, mesmo imaginando que a morte seria certa; então algo acontece.

A chama vai diminuindo, enquanto parece ser absorvida pelo corpo da guerreira. Ela sente uma força intensa preenchendo o seu ser. O brilho em seus olhos vai aumentando e Artemísia grita, em meio ao êxtase de ser tomada por toda aquela energia. Os olhos do velho brilham de felicidade e ele sorri enquanto aprecia a cena.

Do lado de fora, Arûara espera, apreensivo.

— O que acontece se ela não passar no teste?

— Ela morrerá, e teremos que encontrar outra Icamiaba. — Um dos velhos responde. O coração de Arûara fica apertado.

 

Após algumas horas, a porta atrás do altar se abre. O velho sai sozinho, Arûara vai ao encontro dele, cheio de ansiedade.

— E então. Onde está Artemísia?

A venusiana sai pela porta, com um vestido de tecido leve, que o velho mestre do templo a entregou no lugar das roupas que haviam sido consumidas pela chama. Arûara sorri ao ver a guerreira, pois era a confirmação de que ela havia passado no teste.

O velho tira um antigo mapa de dentro de um bolso no manto.

— Tome. Ele é seu. — Arûara hesita em pegar o mapa. Ele olha para o velho. — Eu te avisei que seria um caminho sem volta. Pegue; o mapa é seu. — Arûara pega o mapa e sai sem olhar para trás.

Artemísia sente algo estranho. Quando ela tenta seguir Arûara, o velho mestre levanta a mão direita e a paralisa.

— O que está acontecendo? — A guerreira pergunta. Arûara para, mas não consegue olhar para trás e sai da sala.

Artemísia tem a confirmação daquilo que sua intuição estava tentando lhe avisar. A traição de Arûara já era esperada, mas algo dentro dela queria alimentar a esperança de que se tratava apenas de um mal-entendido. Os olhos da venusiana se enchem de lágrimas, sua mente fica confusa, o chão parece não existir mais. Ela sente náuseas e uma pressão forte na cabeça. O velho mestre se aproxima.

— Houve um tempo em que as mulheres governavam os destinos da humanidade. Esse foi um tempo de caos. Então, Guaracy, o deus Sol, enviou seu filho Jurupari, o legislador, para reestabelecer a ordem das coisas. Por gerações, a ordem foi reestabelecida, mas a humanidade se perdeu novamente e os homens passaram a dividir o poder de governar com as mulheres. Nós somos guardiões da sabedoria antiga, que prestava homenagens ao Deus Sol, por sua força e sabedoria. Somos filhos de Jurupari e, para que sua força jamais abandone a humanidade, devemos, a cada geração, oferecer a força vital de uma Icamiaba ao deus que é a fonte de toda a energia Yang, a energia masculina, a energia que garante a ordem no universo.

As palavras do velho não são bem assimiladas por Artemísia. A traição covarde de Arûara ainda lhe paralisava o sangue no corpo. O velho continua falando.

— Mas é o próprio Sol que escolhe o sacrifício. Somente uma guerreira digna, com um coração sincero e corajoso pode servir de vítima. — O velho olha nos olhos de Artemísia. — E você parece agradar muito à nossa divindade. Podem prepará-la. A cerimônia já vai começar. — O velho sai da sala para se preparar para a cerimônia do sacrifício.

Do lado de fora do templo, Arûara olha para o mapa. Uma ponta de remorso surge em seu coração.

— Parabéns, maninho. Achei que, quando chegasse o momento, você não teria coragem de entregar sua namorada aos velhos... — Maya diz. Ela está encostada em uma parede perto da entrada do templo.

— Não tive escolha. Você sabe.

— O que sei... — Maya se afasta da parede e se aproxima de Arûara — é que você traiu a guerreira e já havia dispensado os meus cuidados de babá...

— Não há com o que se preocupar. Os velhos a sacrificarão para o Sol, hoje mesmo. — Arûara se afasta. Maya fica apreensiva e olha para a figura do Sol sobre a porta do templo.

— Hum! Bando de velhos malucos... — Maya comenta com desprezo.

Um dos anciãos entra na sala sagrada, segurando um belo vestido dourado. Outros estão organizando o altar. Artemísia ainda está paralisada. Em sua memória, tudo volta e se repete várias vezes; ela tem dificuldade em acreditar que realmente foi traída.

Quando um ancião se aproxima com o vestido, Artemísia olha, incrédula. Ele tenta despir a venusiana, mas seu corpo recupera os movimentos e ela arranca a orelha direita do velho com os dentes.

O velho grita de dor, Artemísia cospe a orelha nojenta no chão. Os outros anciãos se aproximam para ajudar; um deles, que estava entrando na sala, percebe o perigo e vai chamar toda a seita.

Vários homens chegam à sala, o mestre do templo está à frente deles. O grupo vê Artemísia enlouquecida, como se fosse um animal feroz. Cinco corpos dilacerados estão sangrando no chão. A guerreira está toda suja de sangue e lança seu olhar selvagem para os anciãos que estão na entrada da sala, observando, perplexos, a cena que profana o lugar mais sagrado do templo.

— Mulher insana. Agora seu corpo não serve mais como sacrifício. Mas você morrerá, pelo ato de blasfêmia cometido em nosso templo. — O mestre ancião diz.

Todos entram de uma vez e seguem furiosos em direção à Artemísia. O corpo dela começa a brilhar forte; em seus olhos se vê o mais puro ódio. Os homens temem a figura da morte que veem na venusiana e recuam assustados.

— VENHAM! SE É A MINHA MORTE QUE QUEREM, TERÃO QUE LUTAR POR ELA... — Artemísia provoca os velhos com voz ameaçadora.

Do lado de fora do templo, Maya escuta os gritos desesperados dos anciãos. Ela sorri.

— Os velhos tiveram o que mereceram. Espero estar por perto, quando a guerreira se encontrar novamente com seu amado... — Maya segue para o templo de Arûara.

Após matar todos os homens da seita, Artemísia vai até o corpo do velho mestre, o olha com desprezo e pega o seu manto, que tem no fundo um Sol dourado.

— Não se preocupem. — Artemísia veste o manto. — Vocês jamais serão esquecidos. 

Por FranHDC | 06/02/18 às 08:37 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino