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Capítulo 2.7 - Nêmesis

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 2.7 - Nêmesis

Autor: Francélia Pereira

Maya chega ao templo de Arûara. Os discípulos estão treinando no pátio.

— Onde está meu irmão?

— Ele chegou apressado, entrou na sala das relíquias e depois saiu mais apressado ainda. Não falou nada. — Uma das discípulas diz. Maya se vira e sai.

Quando chega à sala de entrada, a irmã do mestre vê Artemísia subindo as escadas.

— Não perca seu tempo. Nesse exato momento, meu irmão está indo para o porto. Provavelmente tentará encontrar mercenários que o levem à Lua. — Artemísia para um instante, depois continua subindo as escadas.

A venusiana vai até seu quarto, pega suas armas e sai. Maya a segue, mas a guerreira já não se importa com mais nada.

No caminho para o porto, Artemísia vê Arûara conversando com duas mercenárias, em uma praça muito grande, com piso de pedra lisa. O mestre sente a presença da guerreira e seu corpo esfria. Ele se cala e teme olhar para trás.

Artemísia se aproxima, com o capuz na cabeça, o corpo e o rosto cheios de sangue, uma espada na mão direita e o olhar sombrio. A cena assusta as mercenárias, que decidem deixar Arûara sozinho.

— Por quê? — Artemísia pergunta.

— Eu poderia dizer que nem tudo tem um porquê, mas sei que essa resposta não a satisfaria. — O mestre responde sem olhar para trás.

— Responda logo, então.

— Essa é a minha natureza. Fui sincero quanto aos meus sentimentos por você, mas meus interesses sempre vêm em primeiro lugar. Desde que escolhi o caminho que sigo, eu soube que ele seria solitário, e, sinceramente, isso foi um conforto pra mim. Essa jornada é só minha, e ter alguém do meu lado só me faria fraquejar; só me afastaria dos meus objetivos. — Os olhos de Artemísia faíscam de ódio.

— Você conquistou o meu coração, entregaria a minha vida a você sem pensar duas vezes, se essa fosse a sua vontade. Mas você preferiu mentir; me enganar, me humilhar... Você me fez acreditar que eu estive errada a minha vida inteira; me fez crer que poderia existir alguém em quem pudesse confiar, alguém que eu pudesse amar...

— Pare. — Arûara se vira e encara Artemísia. — Não me venha com dramas... Nós dois sabemos muito bem que seu coração jamais poderá amar. Há muitas sombras e muitas trevas ainda em sua alma; assim como existem na minha, e nós dois sabemos que o amor não sobrevive em tal ambiente. — Todo o corpo de Artemísia treme. — A única diferença entre nós é que eu me entreguei totalmente às trevas, pois sei que é nelas que encontro conforto, delas surgiu a minha essência. Eu aceito isso e sigo o meu caminho... mas você se nega a reconhecer quem realmente é; vive lutando contra isso, alimentando ilusões tolas que só a levarão a situações como esta, em que você está agora. — Artemísia fica sem expressão.

— Então você realmente não é um mestre. Você é o farsante que sempre imaginei ser...

— Sim, sou um mestre; mas não do tipo que você tem costume em conviver. Como te disse, o meu caminho é o das trevas.

— Você não se graduou com Hikari.

— Não. Fui expulso daquele grupo patético do qual Hikari se destaca.

— O que fazia na cabana quando me viu pela primeira vez?

— Aquela não foi a primeira vez que a vi; já te seguia há um tempo. Quando percebi que poderia ser mesmo uma descendente das Icamiabas, você já estava sob os cuidados do idiota do Hikari, então tentei negociar, fiz uma oferta por você; mas é claro que ele recusou sem ao menos pensar um pouco. — Arûara olha nos olhos de Artemísia. — Não leve para o lado pessoal. Veja como tudo aconteceu. Eu tenho o mapa e você não se tornou um sacrifício para aqueles velhos loucos. No final, tudo acabou bem. E se um dia você quiser se entregar à sua verdadeira natureza e seguir o lado sombrio... poderemos ser bons amigos. — Arûara sorri. Artemísia dá um soco fortíssimo no queixo dele, se não fosse tão evoluído, certamente teria morrido.

Arûara se recompõe e olha com raiva para a venusiana.

— Não tenho tempo para lhe matar agora. Preciso seguir o meu caminho. Preciso encontrar o Muiraquitã Original. — O mestre vira as costas e se afasta. Artemísia eleva a mão direita e o paralisa.

— Me solte, MULHER... — Artemísia se esforça para manter o sábio preso, mas ele é mais poderoso e consegue se soltar.

Arûara eleva a mão direita e um brilho forte surge nela. Um golpe de energia pega em cheio o peito de Artemísia, que cai no chão, meio tonta. A guerreira se levanta com muito ódio, ergue a espada e corre em direção ao mestre.

— Desgraçado! — A guerreira tenta dar um golpe com a espada, mas o aço se choca com um pequeno campo de energia, gerado pela mão de Arûara. — Covarde!

— Covarde? Eu diria... — Enquanto sustenta o campo de energia com a mão esquerda erguida, com a mão direita Arûara empurra o ar à sua frente e a guerreira é jogada longe. — ... poderoso. — O mestre sorri. Artemísia se levanta rápido. Arûara cria uma bola de energia com as duas mãos e ataca, mas dessa vez a guerreira desvia o golpe com sua espada, enquanto corre em direção ao mestre.

Antes que seu oponente ataque novamente, Artemísia joga a espada na direção da cabeça dele. Distraído, se desviando da espada, Arûara não vê quando a guerreira pega o triendy no coldre e atira uma flecha de energia, que acerta sua perna direita. O mestre se irrita com o ferimento e movimenta a mão direita, jogando o triendy de Artemísia longe; a guerreira, já bem perto, saca a espada ancestral, o golpe atravessa o campo de proteção, gerado por Arûara às pressas, e faz um corte no rosto dele, mas antes que a espada corte seu pescoço, o mestre se teletrasporta para longe da guerreira.

— Até lutando você é um verme...

— E mesmo assim, até na cama sou melhor que você. — Artemísia olha para Arûara, ofegante de ódio, segurando a espada. — Não se preocupe, não sou de guardar mágoas... ainda posso te dar muito prazer. — Arûara sorri, enquanto cura o ferimento de sua perna, com uma das mãos estendida sobre ele. Artemísia analisa seu oponente.

— Concordo... você ainda pode me dar muito prazer... — O ferimento de Arûara está quase curado. Artemísia fecha os olhos e o mestre começa a sentir dor. A guerreira abre os olhos e vê a ferida se abrindo, Arûara grita. — ... enquanto acabo com a sua vida. — Artemísia sorri e anda em direção ao mestre.

— O que você fez, sua maldita? — Arûara se assusta com o poder de Artemísia. Ao longe, de trás de uma coluna em um pequeno templo construído em uma elevação, que antecede a praça, Maya assiste tudo, com um semblante sério.

— Eu avisei. — Maya comenta, com raiva, observando a venusiana se aproximando de seu irmão.

Artemísia guarda a espada no coldre. Arûara ataca com golpes de energia, mas a guerreira se desvia. Quando está chegando bem perto, ela sorri e corre para atacar o mestre.

— Você é meu... se lembra? — Arûara tenta se teletransportar, mas Artemísia é mais rápida e quebra a concentração dele com um golpe de energia, que o acerta no peito. O corpo do mestre assimila a energia e ele consegue fechar o ferimento na perna.

— Obrigado! — De pé, Arûara dá um soco no rosto da venusiana, em seguida, um soco no estômago e com uma rasteira ele a derruba no chão. Artemísia fica deitada, ofegante, com o maxilar deslocado. O mestre se abaixa.

— Como disse... sou um verme melhor que você. — Artemísia surpreende Arûara, segurando seu pescoço; enquanto se levanta, ela o aperta com mais força. Sem conseguir respirar direito, o mestre não consegue se concentrar para atacar ou fugir, a guerreira puxa a espada do coldre, olhando com ódio nos olhos de Arûara. De longe, Maya fecha os olhos.

Artemísia encosta a espada na barriga de seu oponente, mas a guerreira se assusta, pois, assim como Arûara, ela também sente dificuldade para respirar. A venusiana diminui a força com que aperta o pescoço do mestre e sente um alívio em seu pescoço, depois aperta mais forte novamente e sente seu pescoço sendo estrangulado. Ela tenta enfiar a espada nele, mas não consegue, então o joga para longe. Arûara cai fraco e ofegante no chão, Artemísia se afasta e olha ao redor, mas não vê ninguém. Maya abre os olhos.

O mestre e a venusiana estão exaustos e ofegantes. Arûara se levanta e olha para a guerreira.

— Entenda de uma vez, Artemísia... todos nós, seres humanos, somos egoístas; não fazemos nada sem interesse pessoal, nem mesmo o amor foge disso.

As lembranças de todo o processo em que Arûara seduz Artemísia vêm na memória dela, de uma só vez. Seu coração está em pedaços, mas está em situação muito melhor que o seu orgulho. Ela sente que traiu a si mesma, quando resolveu confiar em Arûara, e reconhece que a culpa foi dela e não dele, pois a guerreira quis acreditar em algo que sabia ser uma farsa, desde o início.

Mas isso não a fez odiá-lo menos e, para livrar o universo daquela existência medíocre, Artemísia deixa que um desejo de vingança a domine. Nesse momento, os olhos dela se iluminam, como dois sóis, e o artefato brilha dentro da Espada Ancestral. Arûara se assusta.

A venusiana se cura de suas feridas, seu maxilar volta ao normal e ela encarna a antiga deusa Nêmesis.

— Idiota, pensa que pode receber o dom da imortalidade? — A deusa anda em direção ao mestre. — Somente aos deuses isso é permitido. Você traiu seu coração em vão; devia ter aceito sua real condição, a de humano, e ter compreendido que o amor que surge em seus corações é a única forma de vocês experimentarem a eternidade, em suas frágeis existências. — A deusa fala, enquanto aponta a mão para o peito de Arûara. Da mão dela sai uma espécie de fumaça sinistra, que é absorvida pelo corpo do mestre. Nêmeses faz com que um remorso insuportável tome conta do coração dele.

— O que fez comigo? — Arûara começa a se desesperar. — Há um buraco profundo no meu peito, que parece sugar toda a minha energia vital. Pare... a dor é insuportável. — Arûara chora intensamente. A deusa não se move. Maya continua observando, ao longe. Uma lágrima rola no rosto dela.

Arûara entra em desespero, quando percebe que a deusa não vai tirar as trevas de seu peito e nem matá-lo. Ele atravessa a praça, sem rumo, procurando uma forma de acabar com a própria vida.

Fora da praça, Arûara chega a um mercado. O sábio rouba uma espada e a atravessa em seu corpo, mas o sangue não escorre. Ele tenta novamente, mas nada acontece. Desesperado, o mestre empurra um soldado do Governo sobre uma barraca, mas mesmo com a confusão, ninguém se move contra ele, todos ficam olhando seu desespero, com indiferença.

Arûara corre até um forno, utilizado para pulverizar o lixo, se joga nele, mas, novamente, nada acontece e ele sai do forno ileso. A deusa o segue.

— Você é a encarnação da crueldade. Por favor, me deixe morrer... — Arûara chora, desesperadamente. 

— Essa é a sua vontade?

— SIM. POR FAVOR, ACABE LOGO COM ISSO.

A deusa, encarnada em Artemísia, levanta Arûara, o segurando pelo pescoço com a mão esquerda. Ela olha profundamente em seus olhos. O mestre assiste, através dos olhos dela, todo sofrimento que seus atos já causaram aos outros, em seus trezentos anos de existência.

Todas as mágoas, todo o medo e todo o ódio que já espalhou são sentidos por Arûara e ele chora intensamente, por causa das dores que são muito maiores do que seu coração pode suportar. O mestre sente a morte se aproximando, mas antes de seu suspiro final, ele consegue compreender que a estrada que escolheu seguir parecia ser a mais fácil, não por ser a mais correta, mas por ter sido uma estrada cheia de ilusões, pois as trevas, que nela existiam, não o deixam ver o que estava pelo caminho.

Após a revelação, o semblante de Arûara muda e ele encontra paz em seu interior.

— Obrigado! — O mestre olha para a deusa. Nêmesis sorri amavelmente e aperta o pescoço de Arûara. Maya se aproxima, mas não diz nada. A deusa carrega o corpo do mestre e o leva até o templo. Maya a segue.

No templo, o corpo de Arûara é levado por Nêmesis até o quarto de Artemísia; Maya observa, da porta, a deusa o colocando sobre a cama.

— Entre. Cuide de seu irmão. — A deusa fala, olhando para Arûara. Maya obedece. Nêmesis deixa o corpo de Artemísia e ele cai.

Maya olha para a guerreira, inconsciente no chão, mas continua dando atenção ao corpo do irmão. Quando abre a camisa de Arûara, a irmã do mestre vê um pequeno texto deixado pela deusa, tatuado no peito dele.

 

“Tudo que se eleva acima da sua condição, tanto no bem quanto no mal, expõe-se a represálias dos deuses. Tende, com efeito, a subverter a ordem do mundo, a pôr em perigo o equilíbrio universal e, por isso, tem de ser castigado, se se pretende que o universo se mantenha como é”2.

Por FranHDC | 07/02/18 às 11:42 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino