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Capítulo 3.1 - Îasy

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 3.1 - Îasy

Autor: Francélia Pereira

Antes de deixar o templo de Arûara, Artemísia conversa com Maya, que lhe conta como os velhos haviam conseguido o mapa que levava ao Muiraquitã Original.

Há gerações, os discípulos do templo do Sol tentavam roubar o mapa, que era guardado pelas verdadeiras guardiãs do conhecimento sagrado de Îasy.  Os seguidores de Guaracy queriam encontrar o Muiraquitã para se tornarem eternos. Um dia, eles invadiram o templo da Lua e usaram todo tipo de trapaça para destruir as descendentes das Icamiabas. Todas foram assassinadas e foi assim que tomaram posse de tudo que era delas, incluindo o mapa.

Mas após séculos tentando encontrar o Muiraquitã Original, os adoradores do Sol desistiram da busca e julgaram que a pedra fosse somente uma lenda, pois mesmo de posse do mapa e seguindo suas instruções, eles jamais encontraram sequer uma pista.

Maya acreditava na verdade por trás do mito e, após fazer pesquisas sobre o tema, chegou à conclusão de que somente uma descendente das Icamiabas conseguiria encontrar o Muiraquitã Original. Arûara também acreditava que o Muiraquitã era real, mas não concordava com a teoria de Maya, ele sentia que poderia encontrá-lo sem a ajuda de uma Icamiaba, e que os seguidores de Guaracy sempre falharam por serem ignorantes demais.

Maya ainda tem convicção de que sua teoria está correta e por isso decide entregar o mapa para Artemísia, dizendo que após ter dizimado a seita dos velhos, e ter se vingado de Arûara, o mapa seria dela, por direito. Na verdade, para Maya o mapa é inútil, e ela sabe disso, mas ela também sabe que Artemísia poderia encontrar o Muiraquitã Original e, assim, a irmã do mestre teria a chance de roubá-lo, após se vingar da morte do seu irmão.

De posse do mapa, Artemísia se despede de Maya, que se torna a guardiã do templo, até que outro mestre apareça.

— Não se acostume, maninha... mesmo tendo merecido a morte que recebeu, Arûara era meu irmão. Quando passar o tempo do luto, me empenharei em encontrar outro mestre pra este templo, e quando isso acontecer... nos encontraremos outra vez. — Maya fala com sua expressão debochada de sempre.

— E será um prazer revê-la. — Artemísia diz com ironia e sai pela porta principal do templo, sem olhar para trás.

 

Encontrar o Muiraquitã Original passa a ser prioridade para Artemísia. Ela sente que, de alguma forma, a busca pela pedra de Îasy está em seu destino e, se a encontrar e for presenteada com a imortalidade, talvez um dia possa curar as feridas abertas em seu peito. No fundo, Artemísia não quer perder a fé na humanidade, mas seu destino a jogou em um caminho de ódio e desprezo por sua espécie. Alcançando a eternidade, talvez a venusiana teria a chance de encontrar outra forma de experimentar a existência.

 

— O ar está horrível hoje... — Um homem comenta, enquanto caminha próximo à Artemísia.

— Estamos na Lua, tudo aqui é horrível. — O homem percebe a frieza que vem junto com a voz da venusiana, então apressa o passo.

Desde que a humanidade conseguiu desenvolver uma atmosfera na Lua, nunca foi possível encontrar uma forma de se produzir ar de qualidade ali, mesmo porque, isso nunca foi prioridade para nenhum governante. Desde que a humanidade deixou a Terra, a Lua havia se tornado uma base sem importância e as vidas humanas dali também não tinham muito valor aos olhos dos demais. Agora, na Lua só há mercados clandestinos e muita sujeira, que parece tomar conta das almas de seus habitantes.

Artemísia para, estica o pescoço e abre o mapa. Ela olha para a direção indicada nele, depois o guarda e segue em frente.

— Moça! Pra onde está indo? — Um jovem pergunta, Artemísia o ignora totalmente. — Moça! Não tem nada aí. É só escuridão, frio e o pior oxigênio da Lua. — Artemísia continua seguindo rumo ao lado esquecido do velho satélite natural, uma região hostil, desde que algumas experiências malsucedidas foram postas em prática por lá. O lugar acabou se tornando um deserto.

A venusiana anda por horas, mesmo sentindo muita dificuldade em respirar. O lugar não é iluminado, não há vegetação, somente uma terra escura e rochas, que mal podem ser vistas. Uma neblina sinistra completa a cena. Após longa caminhada, a intuição de Artemísia lhe pede para parar. Ela pega um pequeno bastão e o dobra, gerando uma luz suave, então olha novamente o mapa e confere, no alto, a posição das estrelas.

— É aqui. — A venusiana fecha os olhos e se concentra. Após alguns instantes, um templo em ruínas surge do chão.

Artemísia entra no templo. No centro da sala principal ela vê, em meio a poeira, a imagem da Lua, que é iluminada pela maior estrela que está no céu. A guerreira se aproxima da imagem e quando se posiciona sobre ela, seu corpo é envolvido pela luz da estrela, que se torna mais intensa. A venusiana fica paralisada. Sua consciência viaja para outra dimensão.

— Artemísia... Sempre soube que um dia você chegaria aqui. — Uma mulher, com voz firme, diz. O templo parece novo. O mármore branco reflete um brilho celestial.

Artemísia vê a deusa sentada em um trono muito grande, no alto de uma escadaria. A guerreira se aproxima; a deusa se levanta e desce as escadas, indo ao seu encontro.

— Sou Ártemis, deusa da caça e personificação da Lua. Sou conhecida por vários nomes, mas, no momento, essa é a minha face que se dirige a você. O que busca aqui? — Artemísia deixa que seu coração fale por ela.

— Busco uma forma de diminuir meu sofrimento. Uma forma de congelar o meu coração, pra que ele nunca mais sofra as decepções que encontrou na vida. — A deusa sorri.

— E o que faria em troca disso? — Artemísia não hesita em responder.

— Qualquer coisa.

— Em mim você sempre encontrará conforto e a força que precisa para seguir em frente, mas deve me entregar seu coração. Nunca mais conhecerá o amor, seu caminho será seguro, mas sempre solitário. — Artemísia sorri de forma sinistra.

— É exatamente o que quero.

— Pois bem! Você é sincera... te conheço desde o seu nascimento. Vi todas as batalhas que teve que vencer na vida e estive presente quando sofreu suas decepções. Você é mais que digna de receber os dons que agora lhe dou. — A deusa toca com a ponta do dedo indicador o meio da testa de Artemísia. Ela fecha os olhos e sente um arrepio por todo o corpo. Ártemis retira o dedo, observa a guerreira e se afasta. Artemísia abre os olhos.

— Nobre guerreira, siga o seu caminho. — Ártemis está novamente sentada em seu trono. — Quando estiver pronta, poderá se encontrar comigo novamente, mas não aqui. Outra face minha irá lhe guiar e, se ela gostar de você, talvez lhe dê alguma dica sobre como encontrar a pedra de Îasy...

— Pensei que o Muiraquitã estivesse aqui, na Lua...

— Vocês, humanos, nunca compreendem a linguagem dos deuses... Muitos já tentaram encontrar o Muiraquitã Original, por aquilo que a lenda oferece, ou seja, eternidade... mas ninguém nunca o encontrou.

— Então, o Muiraquitã Original não passa de uma lenda? — Artemísia se entristece ao imaginar que Arûara a traiu por nada.

— Vocês nem mesmo compreendem as lendas, que são criadas por humanos, e mesmo assim pretendem abraçar a eternidade. Lendas falam sobre coisas reais, mas para vencer a ilusão que encobre a verdade é necessário ter uma mente limpa e um coração sincero. — Artemísia olha para o chão. — Vejo muito potencial em você, mas primeiro terá que descobrir o que é o Muiraquitã Original, pois só então será digna de encontrá-lo. — Artemísia pensa em dizer algo. — Agora vá. — Uma luz forte cega a guerreira. Ela acorda sobre a imagem da Lua, no templo em ruínas que começa a tremer.

A venusiana, ainda meio zonza, olha para a frente e vê, em meio à escuridão, uma enorme estátua da deusa. Artemísia se levanta e corre. Do lado de fora, ela observa o templo se afundar na terra. Um pequeno cristal brilhante fica em seu lugar, a guerreira o pega.

— Vejo que muitos enigmas ainda estão por vir... — Artemísia aprecia a pista deixada pela deusa e percebe que já não sente dificuldade em respirar. Algo nela mudou.

 

Já na cidade, Artemísia segue para o porto.

— Veja, é Artemísia. — Uma mercenária reconhece a venusiana e se aproxima com mais três homens.

— Artemísia! — A mulher chama pela guerreira e ela para. — Estamos precisando dos seus serviços. Há uma missão grande que nos foi dada, o pagamento é muito bom, mas precisamos de alguém como você pra garantir o sucesso dela. — Artemísia pensa um pouco, se lembra do prazer que sentia quando seu sangue fervia nas batalhas.

— Vocês já estão prontos? — Os mercenários comemoram, a venusiana sorri. O grupo segue rumo à nave.

— E a propósito! Não temos notícias suas desde a última missão aqui na Lua. Onde esteve todo esse tempo? — Sem parar de andar, Artemísia põe o capuz na cabeça.

— De férias.

Por FranHDC | 08/02/18 às 12:08 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino