CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 3.3 - Trevas no coração

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 3.3 - Trevas no coração

Autor: Francélia Pereira

A noite cai rápido. Quando Artemísia chega ao local indicado no mapa, vê uma bela imagem, um templo, que parece refletir o brilho das estrelas.

A construção é fantástica e se destaca em meio ao vazio e à escuridão que há no deserto à noite. Artemísia desce da phantom e fica apreciando o templo, depois respira fundo e olha para o céu.

— Não recrimino os antigos por imaginarem que o Céu estrelado fosse uma divindade... Tamanha beleza inspira cada célula em nosso corpo, cada canto em nossa alma... E o vazio entre as estrelas nos lembra o quanto somos frágeis e o quanto nossas vidas são inúteis. — O artefato dentro da espada treme. Um homem põe a mão sobre o ombro esquerdo da venusiana.

— Minha bela Artemísia, não esperava vê-la tão cedo...

— Andyrá! Então esse é o seu templo?

— Sim, faz alguns ciclos que ficou pronto, mas ainda não sinto que é hora de me mudar definitivamente. Algo aqui parece não me querer por perto.

— E o que seria?

— Ainda não sei. Mas venha... Vou lhe mostrar como ficou por dentro.

No interior da construção, toda a decoração faz referência à Noite, tendo a Lua como destaque.

— O tema para a decoração... foi inspiração de alguma divindade?

— Sim. Tudo começou com a localização, que me foi indicada em sonho.

— Estranho...

— O que é estranho?

— Acredito que não preciso lhe contar, você sempre está um passo à minha frente. — Artemísia sorri.

— Não dessa vez. Algo em você está bem diferente. Não consigo mais te ler. Nem mesmo pude pressentir sua aproximação. Foi uma grande surpresa vê-la na porta do templo, ainda há pouco...

— Algumas coisas... enfim... passei por muita coisa nesses últimos meses. Tudo isso me trouxe até aqui.

— Tive notícias suas enquanto esteve aos cuidados de Itá. Depois não consegui mais te sentir.

— Acho que perdi minha alma. — Artemísia diz em tom de brincadeira.

— Não. As almas não se perdem, mas os corações podem se tornar escuros e vazios. — Artemísia fica calada. — Veja! Há tempos não via uma estátua como essa em um templo. Esculpi-la foi uma verdadeira compulsão para mim. Era como se a deusa me escravizasse. — Andyrá e a venusiana olham para uma estátua gigante, de uma deusa sentada em um trono, que está no fundo do templo.

— E quem é ela?

— Essa é Nut. A noite personificada. Deusa da Lua, mãe de tudo que existe... — A relíquia treme novamente na espada. Artemísia fica intrigada.— O que você tem aí?

— Uma relíquia, que Itá me pediu pra encontrar. Ainda não sei pra que serve.

— Deixe-me ver... — Artemísia retira a relíquia da base da espada. Andyrá logo a reconhece e sorri, olhando para o objeto em sua mão.

— Itá... — O sábio olha para Artemísia. — Bem, se Itá lhe indicou esta peça é porque acredita que você é muito especial. Muito mais do que eu havia imaginado... — Andyrá devolve o objeto para Artemísia. — Guarde-a sempre com você. — Artemísia guarda a relíquia novamente.

— E pra que serve?

— De posse desse amuleto, todas as divindades femininas estarão sempre a postos para lhe defender. — Artemísia se lembra do que aconteceu a Arûara. Ela não tinha consciência de tê-lo matado, foi Maya quem contou tudo a ela.

— E como seria essa defesa?

— Algumas vezes elas lhe atenderão pessoalmente em outras dimensões. Sua consciência poderá interagir com elas, assim como estamos fazendo neste exato momento. — Artemísia se lembra de Ártemis, na Lua. — Outras vezes, elas poderão usar seu corpo como avatar e assim tirar qualquer obstáculo do seu caminho. — Artemísia fica feliz.

— Gostei!

— E o que te trouxe até aqui? — Artemísia faz um breve resumo sobre a história que a colocou na busca pelo Muiraquitã Original e mostra o mapa das Icamiabas para Andyrá.

— Este mapa é inútil para mim, assim como seria inútil para qualquer homem. A deusa jamais revelaria seus segredos a um macho e somente as descendentes das Icamiabas poderiam compreender a forma correta de traduzir essa linguagem contida nele. Seu amado a traiu em vão, pois jamais encontraria o Muiraquitã.

— É o que tem ficado claro pra mim. Mas o mapa me trouxe exatamente onde está o seu templo... deveria haver alguma pista aqui.

— Minha jovem, você é uma Icamiaba. Está no deserto de Nut, dentro do templo que a própria deusa me inspirou a construir... — Artemísia olha para a estátua, Andyrá continua falando enquanto vai se afastando. — Use a relíquia e esclareça suas dúvidas com Nut.

— Mas como aciono a relíquia? — Andyrá já está distante

— Feche os olhos e chame pela deusa com sinceridade. Peça sua ajuda com humildade e ela lhe atenderá. — O mestre fala ao longe.

Artemísia fecha os olhos e faz como o sábio lhe disse. Quando seus olhos se abrem, tudo está mais brilhante. No lugar da estátua, a guerreira vê Nut sentada, extremamente bela. A deusa aparece na forma de uma mulher jovem, da raça vermelha, seus cabelos negros, longos, fazem com que seus olhos da cor da noite se destaquem ainda mais.

— Se aproxime, guerreira! — Artemísia vai ao encontro da deusa. Quando está bem perto, Nut, delicadamente, toca o queixo dela e analisa seu rosto, em seguida olha profundamente dentro de seus olhos. — Vejo que as trevas já começam a tomar conta do seu coração. O seu caminho não será fácil, mas acredito no seu potencial. Ao fim dessa busca, você conhecerá Îasy, uma outra face minha, e é ela quem avaliará suas intenções e lhe dirá se é digna de receber a pedra sagrada. Mas tome cuidado ao utilizar os dons com os quais Ártemis lhe presenteou. — Artemísia ouve com atenção. — Cuidado com as almas que rouba, pois elas farão parte de você e isso deixará seu coração mais escuro ainda... Por enquanto, vou lhe indicar o próximo passo e lhe abençoar para que tenha êxito em sua jornada.

Nut toca a cabeça de Artemísia. Uma luz clara e suave envolve o corpo da guerreira. Ela se sente protegida e confortada. Quando a luz desaparece, Artemísia pode ver a estátua novamente. A deusa deixou mais uma pista; dessa vez, uma chave dourada. A venusiana pega a chave e a guarda.

Quando sai do templo, Artemísia vê Andyrá meditando, levitando sobre a areia vermelha do deserto de Nut.

— E então? — Andyrá pergunta. Artemísia termina de descer as escadas e se aproxima dele.

— Obrigada! — Andyrá continua levitando e olha para Artemísia sorrindo.

— Agora sei porque construí este templo. Ele ainda não é o meu templo, mas ficará aqui, em homenagem à deusa e servirá de morada para as guerreiras que precisam atravessar o deserto de Nut. Fique o quanto precisar.

— Mais uma vez, obrigada! E...sem querer abusar, mas... Você conhece esta chave? — Andyrá olha para a chave na mão de Artemísia.

— Há um compartimento secreto atrás da estátua, também foi indicação da deusa construí-lo. A chave deve encaixar ali. — Andyrá sorri serenamente. Artemísia sorri de volta.

— É estranho...

— O quê?

— Você é um homem, mas não consigo te odiar.

— Não são os homens o que você realmente odeia... o que você odeia é apenas uma ideia, um padrão, e esse padrão pode ser reconhecido em qualquer ser humano, seja homem ou mulher, mas seu Clã lhe ensinou a reconhecer esse padrão nas figuras masculinas... — Artemísia fica pensativa. — Continue a sua busca, ela é necessária para você. Ao fim dela, encontrará o que precisa. — Andyrá se afasta, levitando.

— Boa noite, Mestre!

— Boa noite, linda Artemísia. — Andyrá segue, levitando, rumo a um portal de energia que começa a se formar a certa distância, à sua frente.

Por FranHDC | 10/02/18 às 11:11 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino