CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 3.4 - Outro caminho

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 3.4 - Outro caminho

Autor: Francélia Pereira

No compartimento atrás da estátua de Nut havia outro cristal, mas dessa vez o holograma foi projetado imediatamente, indicando o próximo passo no mapa. No ciclo seguinte, Artemísia segue rumo à Base Espacial Ceres, o centro de estudos mais antigo de Apolo.

A venusiana anda pelo salão da recepção, cheio de hologramas espalhados por toda parte. Um dos recepcionistas percebe que a bela jovem está andando sem rumo, observando tudo de forma aleatória. O rapaz vai até a filha do Clã.

— Bem-vinda! O que procura em Ceres? — Artemísia não tem uma resposta.

— Ela procura por mim. — diz um homem muito belo, com olhar firme e postura que lembra antigas divindades hindus.

— Sim, senhor. Já estou liberando a entrada dela. — O recepcionista aciona um pequeno holograma em seu braço. Artemísia levanta o braço direito para que sua identificação seja escaneada pelo rapaz, que se assusta ao constatar que está diante da guerreira lendária de Apolo.

Mesmo sem olhar para trás, Artemísia reconhece a voz de seu antigo mestre, Hikari.

— Pensei que não nos encontraríamos mais. — Artemísia fica feliz.

— Mestre e discípulo não se desconectam até que os ensinamentos tenham chegado ao fim. — Hikari pisca quando Artemísia se vira e olha para ele.

— Tudo certo! — O recepcionista abaixa a cabeça ao passar por Artemísia e segue para o seu posto. A guerreira e seu antigo mestre riem do constrangimento do rapaz.

— Isso que dá, cortar cabeças por aí... 

— Você faz coisas muito piores e não vejo as pessoas reagindo assim quando descobrem quem é você.

— Talvez porque eu seja mais bonito... — Hikari sorri de forma sedutora e vai em direção à portaria, Artemísia balança a cabeça e segue o mestre. A porta principal se abre e eles passam pelo corredor que dá acesso à cidade universitária.

— O que faz aqui? — Os dois caminham por um corredor.

— No momento não há discípulos que necessitem da minha orientação. Também não há aventuras que precisem de mim. Para passar o tempo, às vezes venho aqui e leciono. O conhecimento deve ser compartilhado, mesmo que em doses bem pequenas. Mas, e você... o que busca em Ceres?

— Não sabia até te ver... — Os dois sorriem.

Enquanto atravessam uma enorme praça, Artemísia conta tudo que lhe aconteceu desde que saiu da Cabana, na base agrícola. Hikari lamenta pelo fim trágico de Arûara e diz que mantinha esperança de que um dia ele conseguisse abrir os olhos e pudesse seguir um caminho diferente. Ele também lamenta pelo fato de Artemísia está se fechando a cada dia mais; de certa forma, o sábio reconhece nela um padrão que ele mesmo vem seguindo há tempos.

O jovem mestre já contava mais de quatrocentos anos. É um sábio muito antigo, e muito poderoso. Antes dos trinta, Hikari já havia decidido o caminho que queria seguir, ele sabia que iria adquirir muito conhecimento, mas o preço seria a solidão. Assim como Artemísia, ele teve suas razões para acolher a solidão de braços abertos e lhe pareceu justo o preço que pagou para se tornar um dos maiores sábios do Sistema.

— Pelo que entendi, você busca uma forma de experimentar a solidão para sempre...

— O que busco é uma forma de me livrar do peso que trago no peito. Se for necessário viver eternamente pra isso... que seja. — Hikari fica pensativo.

— Não posso contrariar os desígnios de uma divindade... mas, como seu antigo mestre, sinto que você está seguindo um caminho sem volta.

— Não estou lhe culpando, mas quando me recusou como discípula, esse foi o caminho que se mostrou à minha frente.

— Não era isso que eu tinha em mente quando lhe indiquei Andyrá. Mas vejo que sua alma é muito mais forte do que imaginava. — Hikari olha para alguns alunos que passam e o cumprimentam. — Tenho que atender algumas turmas agora, fique à vontade e ao fim do ciclo terminamos essa conversa. — O mestre segue para o setor das salas de aula. Artemísia procura pelas salas de meditação.

— Ei, Mestre! — Uma adolescente chama por Artemísia, que a ignora, pois imagina que não é por ela que a jovem chama. A moça entra na frente da guerreira. — Mestre, por favor, preciso de uns conselhos... — Artemísia tira o capuz.

— Não sou mestre, sou visitante aqui. — A moça fica confusa.

— Me desculpe, mas sua aura é parecida com as auras dos Mestres.

— Não há porque se desculpar. — A moça segue triste por um corredor. Artemísia sente que deve ajudá-la, mas desiste. — Não é problema meu. — Artemísia coloca novamente o capuz.

Após caminhar alguns minutos pelos corredores, a guerreira encontra o local destinado às salas de meditação. Ela entra em uma delas e tenta acalmar sua mente.

Poucos minutos se passam, então um barulho intenso sacode o prédio. Parece uma forte explosão. Artemísia abre os olhos, tenta sentir o lugar, depois volta à sua meditação.

No pátio central do setor há muita correria e muitos gritos.

— Ela enlouqueceu! — Uma mulher diz. Um dos mestres se aproxima.

— Katira... Droga! — O mestre observa sua aluna levitando no meio do pátio. Os olhos dela brilham intensamente. Seus cabelos compridos ondulam como chamas e seu rosto apresenta uma expressão psicopata. Ela sorri, mas seu sorriso é de pura maldade. Uma mulher se aproxima do mestre.

— O que aconteceu?

— Eu falhei com ela, foi isso que aconteceu...

Katira nasceu superdotada. Todos os mestres que ficaram responsáveis por sua educação sentiam uma preocupação muito grande com o destino dela. Desde que nasceu, suas vibrações eram muito fortes, e os pais de Katira decidiram entregar a menina aos cuidados dos sábios, desde bebê. Ela viveu a maior parte de sua vida em Europa, mas aos doze anos recebeu permissão para estudar em Ceres. Agora, aos quatorze, Katira estava vivendo um grande dilema, pois forças opostas dominavam seu coração e ela não sabia a qual delas ceder. Quando se encontrou com Artemísia no corredor, sentiu que aquela seria sua última chance de fazer uma escolha consciente.

Artemísia, venha... Há algo que precisa ver. — Hikari chama por Artemísia através da telepatia, ela se levanta e sai da sala.

Artemísia chega ao pátio e olha para a moça que está suspensa no ar.

— Esta é Katira. — Hikari diz, ao chegar sem que Artemísia percebesse.

— Ainda há pouco nos encontramos em um corredor...

— Vocês conversaram?

— Um pouco. Ela me confundiu com um Mestre.

— Ela tem uma percepção excelente. — Artemísia olha para Hikari sem entender.

— Não sou um Mestre. — Hikari não comenta. Katira olha para Artemísia.

— Guerreira... Sou grata a você por ter me indicado um caminho. — Todos olham para Artemísia. Ela sente algo estranho.

— Não fiz nada.

— Exatamente. Não fez; não se envolveu, embora pudesse ter feito. Esse é um padrão humano muito comum, a indiferença. Veja! — Katira olha para um rapaz. Ela aponta a mão direita para ele e o faz levitar. Todos se assustam.

— O que ela vai fazer?

— O que você faria se estivesse no lugar dela? — Hikari pergunta.

Artemísia sabe que Katira irá matar o rapaz, simplesmente para mostrar a todos que ela pode fazer isso. A venusiana olha para Hikari, ele a olha de volta e faz um movimento com a cabeça, aprovando o que Artemísia tem em mente.

Como um raio, a guerreira corre, dá um salto e salva o rapaz, enquanto acerta o peito de Katira com uma bola de energia, saída de sua mão esquerda. Katira sente o golpe no peito e cai no chão do pátio. Artemísia rapidamente deixa o rapaz no chão e vai até a adolescente, que está quase inconsciente. A mercenária aproveita e imobiliza a moça, pressionando alguns pontos em seu corpo.

— Não consigo me mover. — Katira olha para Artemísia.

— O que você está fazendo, garota?

— Agora o que tenho a dizer te interessa?

— Que droga, Katira... Você fez tudo isso pra ter atenção? Quanto egoísmo! — Katira solta uma gargalhada.

— Veja só quem recrimina o meu egoísmo... — Artemísia perde a paciência.

— Sei muito pouco sobre você, mas o que sei já não me agrada. Você é só uma menina mimada, que busca ser adorada como uma deusa. Mas saiba, não importa os poderes que possa desenvolver; não importa o quanto você se torne especial; ainda assim, você não passará de uma menina carente e assustada, buscando um pouco de amor e atenção. Você nunca conheceu o descaso e a solidão; nunca viu a face monstruosa da humanidade e mesmo assim pretende encarnar tudo de ruim que existe em nós. Você é um fracasso; não importa a quantos tire a vida; não importa quanto mal consiga espalhar pelo universo; você sempre se sentirá frágil por dentro, e toda vez que se olhar em um espelho, reconhecerá o tamanho da farsa que se tornou. Siga outro caminho; este que você escolheu não te levará a lugar algum. — Katira olha profundamente nos olhos da venusiana.

— Muito tarde pra me dar conselhos, não acha? — Artemísia se irrita. — E essas palavras foram ditas pra mim, mas vejo que elas também servem pra você. — Antes que a guerreira dê uma resposta, Katira desaparece na frente de todos. Artemísia sente um aperto no peito.

— Quanta gente maluca... — A venusiana pensa alto. Hikari se aproxima e põe a mão sobre o ombro de Artemísia.

— Não se sinta culpada. Katira fez a escolha dela.

— Nós duas ainda nos encontraremos, certo?

— Sim. Mas venha... precisamos terminar a nossa conversa.

No quarto de Hikari, ele está procurando algo em meio às estantes na parede. Artemísia espera sentada, olhando para sua espada.

— Mestre... — Artemísia balança a cabeça. — Me desculpe... Hikari. Por que você interrompeu o meu treinamento? — Hikari para um pouco; ele não esperava por essa pergunta e parece não querer dar uma resposta.

— Foi necessário.

— Tá; mas... Por quê? — Hikari se senta do lado da venusiana.

— Há coisas que são difíceis de serem explicadas, Artemísia...

— Eu sei; mas tente... — Hikari pensa antes de falar.

— Você estava evoluindo muito em seu treinamento; algo dentro de você parecia estar despertando, e era algo bom. — Artemísia fica mais atenta.

— E...

— Bem... — Hikari olha dentro dos olhos de Artemísia.

— Mas também algo muito ruim estava despertando junto... eu não me sentia preparado para lidar com isso. — A pupila de Artemísia dilata. Hikari começa a se sentir hipnotizado por ela. Ele fecha os olhos e se levanta de uma vez. Artemísia sente algo estranho. Uma energia diferente toma conta do quarto.

Hikari está de costas para a venusiana, de olhos fechados; ela o observa como se aquela fosse a primeira vez que o via. Artemísia se levanta, se aproxima de Hikari e põe a mão sobre o ombro direito dele. O sábio continua de olhos fechados.

— Me desculpe, Mestre... Mas não posso seguir outro caminho.

Por FranHDC | 11/02/18 às 21:54 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino