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Capítulo 3.6 - O espelho da Lua

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 3.6 - O espelho da Lua

Autor: Francélia Pereira

A pista indicada por Hikari levou a outra pista, e assim se passaram os ciclos, Artemísia levada de uma pista a outra, sendo a busca pelo Muiraquitã interrompida nos momentos em que a presença da guerreira se fazia necessária nas missões.

Os anos se passam, Artemísia vai amadurecendo, de acordo com as lições aprendidas durante a sua busca pela eternidade. Agora, perto dos trinta anos, o ódio já não faz mais sentido em sua vida, a solidão ainda é sua companhia preferida e a guerreira aprende a perdoar a ignorância humana, pois percebe o tamanho da própria ignorância.

Sem se dar conta, Artemísia encontra novamente a estrada que a levará para o caminho dos Sábios.

 

— Sim. Reconheço essa imagem. Por favor, aguarde um instante. — O balconista de uma loja de antiguidades vai até o porão. Quando retorna, traz uma pequena caixa, feita de um material que lembra muito a boa e velha madeira das árvores da Terra. O homem abre a caixinha. — Acredito que seja isso que você procura. — Os olhos de Artemísia brilham. Ela pega o último cristal de sua jornada rumo ao Muiraquitã Original.

— Sim. É exatamente isso que procuro. Quanto quer por ele? — O homem olha para a espada que Artemísia carrega. Ela percebe.

— Nem pense nisso... Minhas armas não estão disponíveis.

— Vejo que é uma espada muito antiga. Posso estar enganado, mas parece ter sido forjada por meus ancestrais.

— Impossível. Ela pertence à minha família há gerações. Era praticamente cultuada como uma divindade na casa do meu pai. — O homem olha para Artemísia.

— Você é uma sobrevivente do Clã? — Artemísia pensa um pouco antes de responder.

— Sim. — O balconista fecha a caixa e a segura como se estivesse com receio de ser roubado.

— Qual o seu nome? — Artemísia começa a ficar impaciente.

— Sou Artemísia. — A guerreira responde irritada. O homem olha novamente para a espada.

— Impossível. Jove jamais deixaria uma mulher sequer tocar em sua espada ancestral.

— Você conheceu o meu pai?

— Algumas vezes ele trazia a espada para ser polida; assim como todos antes dele o fizeram. Essa espada foi feita por meus ancestrais, há séculos.

— Você descende de homens do Clã?

— Não. A tradição da minha família sempre foi confeccionar espadas especiais. Essa espada que você carrega tem sido motivo de orgulho entre nós por séculos. Ela é muito especial. Como você a conseguiu?

— Ela me foi dada por uma serva do meu pai, que sobreviveu ao desastre de Vênus. Segundo ela, fui a única sobrevivente da minha família.

Os olhos do homem se acendem e ele parece escanear os pensamentos de Artemísia.

— Você diz a verdade.

— Você é um humanoide?

— Sim.

— E fala de ancestrais como se fosse um humano?

— Fui construído por um humanoide, e não por uma Matriz... como a maioria da minha raça. Assim como o humanoide que me construiu, que gosto de chamar de pai, foi também construído por outro humanoide.

— Entendi. Um humanoide, há séculos, resolveu construir outro humanoide e vocês vêm fazendo isso por gerações.

— Sim. — Artemísia fica pensativa. — Pegue. Pode levar o cristal. Seu pai era um homem honrado.

Pela primeira vez, Artemísia tem uma imagem diferente de seu pai. As palavras do humanoide a fazem compreender que existiu um Jove que ela não conheceu, um homem que talvez fosse merecedor de seu respeito e admiração.

— Obrigada! 

De posse do cristal Artemísia segue até sua nave, deixada no porto daquela base perdida em Apolo.

 

Três ciclos se passam e o cristal ainda não deu sinal de que revelaria o último segredo do mapa.

— Essa busca parece não ter fim... — Artemísia pensa alto, enquanto observa o cristal em sua mão. Os controles da nave alertam para uma nuvem de meteoros. A rota é alterada. A intuição de Artemísia indica a direção que leva até a Terra.

— De volta para onde tudo começou? — Artemísia sorri e decide descansar um pouco, enquanto a nave segue o seu curso.

Enquanto Artemísia está dormindo, o cristal começa a brilhar. Dessa vez, ele não projeta um holograma; uma espécie de laser grava caracteres na parede da sala de controle da nave, depois o cristal se apaga novamente.

Na Terra, Itá estava meditando no momento em que o cristal foi acionado. Ela tem uma visão que a faz abrir os olhos. A sábia humanoide sorri, Andyrá tem a mesma visão em Marte. Os dois se comunicam telepaticamente.

— Ela está no caminho certo, irá conseguir...

Sim. Você a instruiu muito bem.

— Nós dois, Andyrá...

Os dois mestres sentem uma felicidade muito grande em seus corações e retornam à paz da meditação.

Os caracteres escritos pelo cristal não indicam a Terra, mas sim a Lua.

— Então, o velho satélite ainda guarda mais segredos... — Artemísia tira uma foto das inscrições na parede, com seu comunicador, e segue para o destino indicado.

Ao chegar na Lua, a venusiana deixa sua nave no porto principal. Ela segue o caminho que os caracteres indicaram no mapa, então chega até um prédio que parece ter sido construído recentemente.

— Droga! O local foi profanado... — Artemísia se preocupa. Ali deveria haver um templo antigo; provavelmente suas ruínas soterradas, como o encontrado na área abandonada, há anos. Mas o prédio construído no local dificultaria o acesso ao templo.

Um homem fica curioso ao ver a guerreira observando o prédio, com expressão indignada. Ele decide se aproximar.

— Te intriga ver uma construção nova neste velho satélite abandonado?

— Somente um contratempo. — Artemísia responde sem olhar para o homem. Ele não entende a resposta.

— Sou Huxley; se precisar de mim, estou à disposição. — Artemísia olha para o homem.

“Huxley”? Por que lhe deram o nome de um humanoide?

— Meu avô era meio místico e o humanoide Huxley parece ser uma espécie de lenda entre os místicos daqui. Ele quis fazer uma homenagem ao seu ídolo. Foi ele quem me criou, já que minha mãe morreu no parto e meu pai é um mercenário que jamais conheci. — Artemísia sorri.

— E que tipo de ajuda você poderia me oferecer, Huxley? — O homem coça a cabeça.

— Ainda não sei... mas senti que deveria lhe oferecer algum tipo de apoio. No momento, estou indo para casa; estou preparando o almoço. Se não se importar em experimentar comida caseira, será bem-vinda. — Artemísia sente que deve seguir o rapaz, ela aceita o convite.

O cenário na Lua é desolador. Ruas escuras e sujas abrigam construções também imundas. O ar tem péssima qualidade e a flora que existe no satélite é extremamente pobre. Grande parte das pessoas que ali vivem refletem, em suas existências, o mesmo cenário desolador. Huxley faz parte do pequeno grupo de humanos que contrastam com esse cenário; ele é belo, sábio e cheio de vida.

 

— Coma mais um pouco. — Huxley diz sorrindo, ao ver Artemísia terminando sua refeição.

— Não, muito obrigada.

Após o almoço, Huxley leva Artemísia para conhecer sua pequena sala de estudos, e a explica que a casa é herança de seu avô.

— Há muita coisa interessante aqui; seu avô deve ter sido um homem especial.

— Ele era sim. E me ensinou muito do que aprendeu. — Artemísia vê um retrato na parede.

— Quem é ela? — Huxley olha para o quadro.

— É minha mãe. Gostaria muito de tê-la conhecido. — Artemísia se aproxima do quadro.

— A que tipo de atividade ela se dedicava? — O homem sorri.

— Acredite ou não, minha mãe era uma mercenária.

A mãe de Huxley conheceu o pai dele em uma missão. Os dois lutaram do mesmo lado, e, durante a batalha, algo mudou em seus corações. A identificação foi imediata, o que lhes garantiu sucesso na missão; mas a admiração que os uniu abriu caminho para que o amor também criasse raízes em suas almas. Desde aquela batalha, os dois nunca mais foram os mesmos. Decidiram ter um filho e abandonar a vida mercenária. Experimentaram a mais perfeita felicidade por um tempo, mas um dia isso mudou.

Quando a felicidade alcançou seu clímax, o equilíbrio da existência teve que ser mantido, manifestando a realidade dos opostos que rege as vidas humanas. Complicações no parto tiraram a vida do corpo da mãe de Huxley. Seu pai não suportou perder a pessoa com quem dividia sua energia vital e um buraco imenso tomou conta de seu ser. Ele se afastou do filho, pois olhar para ele era reviver o momento em que conheceu, dramaticamente, a Luz e as Trevas ao mesmo tempo. O ex-mercenário foi até à Lua e deixou a criança aos cuidados do avô, um homem honrado que cuidaria muito bem do menino e lhe daria tudo que precisasse para se desenvolver com saúde e sabedoria. Depois disso, seu paradeiro era desconhecido.

Artemísia analisa a imagem, uma pintura com estilo antigo. Ela então olha com mais atenção para Huxley.

— Qual a sua idade?

— Estou com cinquenta anos terrestres. — Ele não parecia passar dos trinta.

— Esse quadro... Foi seu pai quem o pintou, certo? — O homem se surpreende.

— Sim. Como sabe disso?

Artemísia se lembra do quadro da guerreira no templo em Marte, obra de Andyrá. Era a mesma mulher, com trajes diferentes, mas o mesmo rosto, a mesma expressão, e a pintura tinha o mesmo estilo.

O Sábio Oculto... — Artemísia diz olhando para a pintura, sorrindo, como se tivesse acabado de desvendar um grande mistério.

— O que foi?

— Nada. Só umas lembranças... Você tem uma bela história. Fico feliz em ter te conhecido.

— Você também é uma mercenária, certo?

— Sim.

— Acredito que minha mãe lutaria ao seu lado, se estivesse aqui.

— Tenho certeza que sim. — Os dois se olham com admiração.

— Espere um pouco! — Huxley vai buscar um objeto em um compartimento secreto na parede. — Veja! Pertencia à minha mãe. — Ele entrega a Artemísia um amuleto feito de uma pedra verde.

— Um Muiraquitã! — Artemísia se sente emocionada ao pegar o amuleto em suas mãos. Huxley fica feliz.

— Como meu avô sempre dizia, “Nada é por acaso”.

— Ele é lindo! — Artemísia aprecia o pequeno amuleto como se fosse a joia mais rara que já encontrou na vida.

— Quero que fique com ele. — Artemísia olha para Huxley.

— Não posso. Pertenceu à sua mãe. É uma conexão que você tem com ela.

— É só um amuleto. A conexão que tenho com minha mãe ninguém pode tirar de mim. Ela está presente em cada célula do meu corpo, em cada canto da minha alma. — Artemísia reconhece a sabedoria de Andyrá em Huxley.

— Muito obrigada! — Os dois se abraçam.

— A propósito! O que fazia olhando para aquele prédio?

— Acredito que estava esperando por você. — Os dois sorriem.

— Deixe que eu coloque o Muiraquitã em você. — Huxley pega o amuleto e o coloca no pescoço de Artemísia. A relíquia na espada começa a vibrar. Artemísia entra em transe.

A guerreira abre os olhos. Ela está em um cenário paradisíaco. Artemísia anda por uma mata, com flora e fauna riquíssimas, que a deixam encantada. Após caminhar um pouco, ela vê um lago, um belo lago de águas cristalinas. A filha do Clã se aproxima, se abaixa em sua margem e vê sua imagem refletida no espelho d’água.

— Minha querida filha, há muito espero por você! — Uma voz, que inspira a mais profunda paz, diz.

Artemísia se levanta e vê, sobre umas pedras no meio do lago, uma mulher de beleza indescritível. A beleza encanta e transforma a venusiana. Ela já não está com suas roupas habituais, agora está vestida como as antigas guerreiras Icamiabas.

— Îasy! ...

— Sim... Aproxime-se! — A voz suave de Îasy é hipnotizante. Artemísia mergulha no lago e nada até as pedras que apoiam a deusa. — Vejo que o caminho até aqui foi longo e cheio de obstáculos. Há várias marcas em seu corpo, em seu coração e em sua alma. Mas, apesar de tudo, você não deixou que as trevas tomassem conta de sua essência e conseguiu manter acesa uma pequena chama que pode te incendiar novamente um dia. — Artemísia não se contém e as lágrimas escorrem por seu rosto. — Linda Artemísia, você é digna de todos os dons. O que busca está no fundo do lago; somente as guerreias mais dignas e mais corajosas podem receber o que estas águas guardam. Vá. Pegue a pedra e encontre o seu caminho novamente.

Uma brisa suave acaricia o rosto da Icamiaba, que fecha os olhos um instante para senti-la melhor. Quando abre os olhos, a deusa não está mais ali. Artemísia sorri, mergulha fundo no lago e procura pelo Muiraquitã Original.

Após nadar por um tempo, sem sentir necessidade de emergir para respirar, a venusiana vê uma pedra verde, brilhando no fundo do lago. Ela se aproxima e se encanta com a beleza da pedra, que muda de forma o tempo todo, representando animais da fauna do lugar. Quando toca a pedra, uma luz intensa toma conta de tudo; agora, o Muiraquitã Original brilha dentro do amuleto que Artemísia carrega no peito. A guerreira, filha de Îasy, recebe o dom da eternidade.

Por FranHDC | 13/02/18 às 11:39 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino