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Capítulo 4.6 - O outro lado da história

Habitantes do Cosmos (HDC)

Capítulo 4.6 - O outro lado da história

Autor: Francélia Pereira

O caos em Europa intensifica a loucura humana. Os soldados em batalha já não sabem por que lutam, simplesmente seguem um instinto que parece querer destruir a humanidade de vez. As ordens dos comandantes são ignoradas e não há mais aliados em campo; é cada um por si, a morte e a destruição.

Os olhos de Artemísia faíscam de ódio, a esperança que ela insistia em manter, quanto à humanidade, deixa de existir.

— JÁ QUE É A MORTE QUE PROCURAM, ACREDITO QUE POSSO AJUDÁ-LOS... — Artemísia grita e segue matando com sua espada.

Boadiceia deixou a batalha desde que suas ordens não foram mais atendidas; ela decidiu ir até a sede do governo, em Titã, para discutir a situação com os conselheiros. A ordem precisa ser reestabelecida, ou será o fim de Europa.

A venusiana luta com cinco soldados, um arqueiro atira uma flecha em sua direção, Hikari a desvia com um leve movimento com a mão direita e, com a esquerda, à distância, estrangula o atirador. Quando se aproxima de Artemísia, ela mata os cinco oponentes de uma só vez. O sangue esguicha, deixando Artemísia mais suja ainda; um pouco do sangue suja o rosto de Hikari.

— Não entendo porque você ainda utiliza esses métodos primitivos... — Hikari limpa o rosto com seu manto.

— É porque ainda sou primitiva, mestre! Motivo pelo qual você desistiu de mim... — Artemísia responde ironicamente.

— Não foi esse o motivo.

— Então qual foi? — Hikari olha nos olhos de Artemísia.

— Eu... — Artemísia lança sua espada na cabeça de um soldado que tentava atacar Hikari pelas costas.

— Cuidado. Agora estamos no inferno. — Artemísia fala, impaciente, e vai tirar sua espada da cabeça do corpo caído no chão.

As batalhas duram um ciclo inteiro. Mesmo cansados e famintos, os soldados não demonstram interesse em dar uma trégua; todos parecem desejar a morte. Artemísia segue com sua carnificina, enquanto Hikari utiliza métodos mais elaborados para conter os ataques. Após horas intermináveis de luta, os mortos podem ser contados.

— Não há drones suficientes pra carregar os corpos dessa vez... — Artemísia observa o campo de batalha.

— Uma cena lamentável. — Hikari diz, com pesar.

— Talvez não. Uma raça que se presta a esse tipo de desrespeito com a vida... Talvez seja mesmo melhor que todos morram.

— Você não diz isso com sinceridade, Artemísia.

— Claro que digo.

— Não. Você teme pelo futuro da humanidade. Você ainda espera conhecer o lado bom da nossa espécie. — Artemísia olha nos olhos de Hikari, enquanto vai se aproximando dele, então fica um instante olhando em seus olhos, bem de perto, e coloca o dedo indicador entre os olhos do Mestre.

— Siga o meu dedo com os olhos... — Artemísia faz movimentos lentos com o dedo, para a esquerda e para a direita. Hikari pega sua mão com força.

— Não usei nenhum entorpecente... E pare de fugir do assunto.

— Não há o que ser discutido sobre isso... Basta olhar ao redor. Veja o futuro desta humanidade. Deixaremos este Sistema para os nossos sucessores; os humanoides. E, aliás, o Sistema estará em mãos muito melhores que as nossas. — Artemísia solta sua mão da de Hikari e sai. Ele espera um pouco, então a paralisa, já a certa distância.

— Há algo que precisa ver... — O mestre diz.

Antes que Artemísia consiga se mover novamente, Hikari aparece em sua frente, pega a Espada Ancestral e a atravessa no corpo da guerreira. Ela grita e seus olhos brilham. Europa deixa de existir, o cenário agora é a antiga cidade do Clã, em Vênus.

A mercenária anda pelos corredores da casa de Jove. Uma criada passa por ela, atravessando seu corpo, como se a guerreira fosse um fantasma; ela percebe que ninguém ali pode vê-la. Há muita movimentação na direção do quarto de sua mãe, então, se ouve um choro de bebê. Artemísia segue até o quarto e, ao se aproximar da porta, Jove passa por ela. Ele entra e vê o bebê, já enrolado em uma manta, segurado pela mãe.

— Veja. Ela é linda! — A mãe diz, olhando para a recém-nascida.

— Artemísia. — Jove diz, sorrindo, olhando para a bebê.

— Artemísia? Que tipo de nome é esse? — A mãe pergunta.

— Ela se chamará Artemísia. — Jove fala rudemente. Ele escolhe o nome da filha e sai do quarto, como se estivesse indiferente. A mãe fica triste. Artemísia segue o pai.

— Não foi dessa vez, meu filho. Mas não se preocupe; em breve você terá um filho para ser seu herdeiro. — O pai de Jove diz. Ele tenta consolar o filho ao perceber que uma menina havia nascido, e não um menino. Jove abraça o pai e segue para a sala sagrada. Artemísia o acompanha.

Na sala, Jove chora enquanto olha para a Espada Ancestral.

— Malditas tradições! Minha filha acaba de nascer; traz em seus olhos o olhar de um guerreiro destemido, mas jamais poderá tocar nas armas de nossa família. — Artemísia chora junto com o pai. Ela se aproxima e toca em seu ombro, mesmo sabendo que ele não pode senti-la.

Quando todos estão dormindo, Jove vai ver a filha. Ele a pega do berço e a leva para a sala sagrada. Na sala, o filho do Clã liga um bloqueador de sinal por um instante, isso lhe garante alguns segundos de privacidade. Perto da Espada, ele olha nos olhos da filha, cheio de amor.

— Lhe dei o nome de uma guerreira, mesmo sabendo que jamais poderá expressar sua essência. Me desculpe, minha filha; jamais poderei demonstrar o amor que você inspira em mim, mas te protegerei do meu jeito, enquanto viver. — O general abraça o bebê com muito carinho. Artemísia ajoelha no chão e chora intensamente.

Jove decide não ter mais filhos; diz a todos que teme ter outra menina, mas a verdade é que ele não quer dividir o amor que sente por Artemísia com outro filho e sabe que mesmo que tenha um menino, jamais poderá amá-lo como a ama. Sendo filha única, ela seria sua única herdeira, tendo um irmão, a menina perderia toda a herança e teria que se casar para não levar uma vida de servidão.

Artemísia assiste a vários momentos em sua vida, em que o pai demonstrava falta de amor e até certo desrespeito, mas ela compreende que tudo não passava de encenação perante a sociedade do Clã. Jove era um homem respeitado em seu meio, se rompesse com as tradições causaria muitos problemas para o Conselho. Além disso, o condicionamento do Clã era muito forte; a mente de Jove lutava contra as tradições, mas elas ainda ditavam as regras. O amor pela filha aquecia seu coração, e isso já lhe bastava. Ele não precisava ser correspondido; cuidar dela no anonimato e garantir um futuro seguro para sua herdeira já lhe confortava.

Ao longo dos anos, sem que Artemísia percebesse, seu pai a observava de longe; sempre com muita admiração e orgulho. Sabia que naquela criança existia uma alma forte, digna, especial...

A cena muda. A guerreira agora pode ver a si mesma, aos dez anos, olhando admirada a Espada Ancestral. Jove entra furioso e Artemísia revive os momentos que definiram sua vida, mas agora ela observa tudo sob a visão de Jove.

A fúria do pai, na verdade, foi causada pela dor; pois sabia que a filha seria condenada à morte. As salas sagradas, de todas as famílias, eram monitoradas pelo Conselho, os velhos não queriam correr o risco de um pai amoroso qualquer quebrar as tradições e deixar que mulheres se interessassem por armas. Eles temiam uma rebelião feminina e utilizavam as tradições para manter a ordem social.

No caminho para a sede do Conselho, Jove entra em contato com um grupo de mercenários de sua confiança. Ele combina todo o esquema do sequestro da esposa e da filha. Após o sequestro, Jove chama sua serva de confiança, a mesma senhora que entregou a espada para Artemísia, na casa de Yuki. Ele pede à serva que deixe a cidade do Clã e vá cuidar da filha do outro lado da fronteira; mas quando a mulher chega ao local combinado, uma confusão faz com que sua identidade seja descoberta e um membro do Clã, que estava passando por ali, leva a serva de volta para a casa de Jove. O general alega ter dado uma missão secreta para a serva e solicita segredo do homem, dizendo se tratar de algo do conhecimento e do interesse do Conselho. O homem aceita a história por ter sido contada por Jove, mas a mulher passa a ter uma vigilância maior sobre ela, ou seja, não poderia mais ir ao encontro de Artemísia do outro lado da fronteira. Jove vai pessoalmente à procura dos mercenários, mas alguns desencontros o impedem de chegar até eles.

Com o passar dos ciclos, a mãe de Artemísia não se adapta à vida fora do Clã. Isso leva ao momento trágico, em que a menina encontra a mãe enforcada no banheiro. Mais um trauma. Sozinha, ela acaba nas mãos de um grupo de jovens ladras de rua, todas órfãs que formavam uma espécie de família alternativa. Com elas, Artemísia aprendeu a não ter um lar.

Jove passa anos procurando pela filha, mas só teve notícias dela quando sua fama de mercenária começou a correr pelo Sistema. Uma vez ele a viu em uma batalha, com os olhos cheios de lágrimas reconheceu que não há nada mais forte que o destino.

Quando soube do fim que Vênus teria, Jove pediu à sua serva, já idosa, que levasse a Espada até Artemísia. Encontrar o paradeiro da filha já não era difícil, pois agora sua fama a precedia.

Artemísia assiste Vênus ardendo em chamas. Jove está sozinho na sala sagrada, agora sem a Espada. Em seus últimos momentos, ele observa um holograma de uma gravação que fez da filha brincando, aos sete anos. O filho do Clã sorri feliz, enquanto a casa toda desmorona com os terremotos.

Hikari puxa a Espada. Artemísia volta para Europa. Ela suspira, o brilho em seus olhos se apaga e a ferida se fecha. Meio atordoada, a guerreira anda um pouco, para e vomita. Hikari se aproxima dela e põe a mão em seu ombro esquerdo. Ela limpa a boca, olha para o chão, então começa a chorar. O mestre a abraça.

Por FranHDC | 19/02/18 às 10:04 | Brasileira, Ação, Aventura, Fantasia, Protagonismo Feminino