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Capítulo 1.3 - Mudanças

Habitantes do Cosmos - Nova Atlântida (HDCNA)

Capítulo 1.3 - Mudanças

Uiara está deitada em sua cama, no quarto que divide com mais três colegas. Ela observa o cristal azulado, que encontrou na caverna há três anos. Olhar para o cristal antes de dormir se tornou um ritual para a jovem militar, talvez para não se esquecer do dia em que seu destino mudou radicalmente. Marcos observa a amiga, agora sua única família.

— Ei! Não acho que isso te faça bem... — Marcos comenta. Uiara está deitada, com a cabeça apoiada em um dos braços, girando o cristal em sua frente.

— Se esse cristal não existisse, eu teria morrido com meus pais... — Marcos se levanta da cama e se aproxima da soldado.

— Já conversamos sobre isso... Foi uma fatalidade, você não teve culpa! — Uiara olha para o soldado.

— Nem você! Não se preocupe, Marcos, não culpo ninguém. Pode dormir em paz! — Marcos dá um beijo na testa da amiga e vai dormir. Uiara guarda o cristal, mas continua pensativa. Os outros colegas, com quem os dois dividem o quarto, dormem profundamente; o treinamento militar é muito pesado para todos e o cansaço faz com que o antigo deus Hipnos¹ tenha seu poder fortalecido à noite.

 

Amanhece, todos vão para o pátio, como de costume.

— AQUI NÃO É A TERRA E EU NÃO SOU BABÁ DE VOCÊS... DEIXEM DE MOLEZA E TREINEM PESADO, O DESTINO DA HUMANIDADE DEPENDE DE NÓS. — Os gritos do comandante parecem trovões, ainda mais nessa hora, em que os primeiros raios do Sol começam a iluminar o planeta vermelho.

Com o tempo, os corações de Marcos e Uiara foram se endurecendo. Do amor e do carinho que conheceram de suas famílias, agora só sobram lembranças que vão se desfazendo como fumaça, pois a certeza de que nunca mais poderão experimentar a doçura de um lar torna as lembranças amargas e sofridas demais. Uiara se contenta em existir e cumprir as ordens do dia, sem questionar; Marcos mantém uma inquietação que não o deixa em paz, como se o destino o chamasse para outro lugar.

Um garoto fardado se aproxima do comandante e diz algo em seu ouvido.

— UIARA! — O comandante grita. A soldado dá um passo à frente e faz continência. — Assuma a tropa. Não demoro. — Uiara é a aluna que mais se destaca nos treinos, desde que decidiu não chorar mais e nunca mais se lamentar por seu destino. Na verdade, ela aprendeu a transformar sua tristeza em ações e, assim, a jovem soldado expressa tudo que sente através do treinamento no exército. Agora, aos 15 anos, ela já demonstra ser uma militar de confiança, que tem as características necessárias para fazer a diferença no processo de colonização no planeta vermelho.

As primeiras cidades marcianas começam a ser povoadas por civis, seres humanos que perderam muito nos desastres ocorridos na Terra. Os novos habitantes dessas primeiras cidades são membros das elites mundiais terráqueas, são os primeiros a testar o potencial do planeta vermelho em se tornar um segundo lar para a humanidade. Para atender as necessidades dessa nova classe, os primeiros grupos de comerciantes também se estabelecem em Marte.

Na Terra, muitas transformações ocorreram. Da antiga América, somente o sul resistiu, mesmo assim, com muitas perdas de território, restando grande parte do Peru, do Brasil e algumas terras das outras Nações que faziam fronteira com esse país, que teve seu antigo litoral engolido pelas águas do Oceano.

Na Europa, o Reino Unido desapareceu, muitas cidades litorâneas também ficaram debaixo d’água, o território europeu ficou um pouco reduzido, mas o velho continente ainda resiste.

A África e a Ásia sofreram alterações significativas somente nas regiões litorâneas. Na Oceania surgiram novas ilhas, enquanto as mais antigas desapareceram totalmente. Sem as geleiras, a Antártida, que já abrigou cidades de cientistas, se tornou mais um território a ser ocupado. Aos poucos, as geleiras começam a se concentrar em novos polos do planeta, mas a comunidade científica ainda está perdida, há algumas previsões e teorias sobre as mudanças que estariam por vir, mas tudo é muito incerto e a insegurança reina em todos os setores da sociedade.

O Governo luta para manter a ordem, mas diante dos traumas e da falta do básico para que as cidades se mantenham, caos é o que se vê em toda parte na Terra, diferente de Marte, onde a ordem reina e o progresso parece certo.

 

Após o almoço, quando deixa o refeitório, Uiara vê Marcos, ao longe, conversando com um senhor desconhecido. Ela espera a conversa terminar e, quando o homem se despede de Marcos, Uiara se aproxima.

— Quem é ele? — Marcos olha para trás.

— Um comerciante.

— Vai começar a comprar tralhas da Terra, agora? — Uiara brinca, mas Marcos não ri. — O que foi?

— Nada. É que... — Marcos fica parado, olhando para Uiara.

— Diga, Marcos!

— Não... Não é nada. Não se preocupe. Vou almoçar. Nos falamos no alojamento. — Marcos vai para o refeitório. Uiara o observa se afastar e fica preocupada, depois decide ir atrás do homem com quem seu amigo conversava.

Uiara chega a um mercado, que começa a se desenvolver em uma região que é um ponto em comum entre as primeiras cidades ocupadas, a soldado se aproxima de uma barraca de ervas.

— Com essas características, só pode ser o Sr. Akira. — O comerciante diz, após a jovem descrever o homem misterioso. — Você vai encontrá-lo em seu escritório. Siga em frente até a barraca de peixes e vire à esquerda, você verá uma porta amarela bem ao fundo, basta se identificar e ele a receberá. — O homem que Uiara procura é muito conhecido e respeitado entre os comerciantes.

 — Obrigada!

Andando pelos corredores entre as barracas, Uiara se lembra dos mercados na Amazônia, no Brasil. Algumas lembranças doces que ela gostaria de apagar da memória, para sempre. Quando vira à esquerda, como indicado pelo comerciante na barraca, Uiara vê um enorme galpão, com uma porta amarela. A soldado segue até a porta e um holograma aparece no lado esquerdo, com a logomarca de Akira. Uiara se identifica.

Entre! — Uma voz responde no holograma e a porta amarela se abre.

Ao entrar, Uiara vê um salão enorme, cheio de caixas; em um canto, ao fundo, há uma pequena sala, feita com divisórias removíveis, a soldado segue para lá. Da entrada da sala, Uiara vê Akira, que a recebe sorrindo.

— Fique à vontade! — Uiara entra. — O que a traz aqui, não seriam problemas com minha documentação, certo?

— Não se preocupe. O assunto é particular.

— Muito bem. Sente-se. — O homem aponta para uma cadeira em frente à sua mesa.

— Não precisa. Serei breve.

— Como quiser.

— Há pouco o vi conversando com um colega do exército. Do que se tratava?

— Hum! Você deve ser namorada do Marcos, certo?

— Somos irmãos. — O homem olha desconfiado para Uiara, mas responde mesmo assim.

— Bem... Seu irmão me pediu um favor, e será um prazer atendê-lo.

— E que favor seria esse?

— Se ele não te contou, não serei eu a contar. — Uiara fica séria. — Me desculpe, mas é coisa dele; não tenho o direito de me intrometer. — Uiara olha firme para Akira e ele fica irritado com a arrogância da jovem soldado, que só foi recebida para evitar complicações com o Exército, mas ser ameaçado pelo olhar de uma adolescente é algo que o ego do velho comerciante não suportaria por muito tempo. Para não criar confusão com uma militar, o homem quebra o gelo da situação com humor. — A mocinha tem olhos lindos, mas ainda são muito jovens para seduzir o velho Akira. Procure seu irmão, tenho certeza que ele dividirá seus segredos com você. Agora, todos nós temos muito a fazer. Boa tarde! — Sorrindo, Akira estende o braço com delicadeza e aponta para a porta.

— Boa tarde. — Uiara agradece secamente e sai.

 

À tarde, Marcos não apareceu no pátio para o treinamento. A noite chega e Uiara segue para o alojamento, no quarto ela vê a cama do amigo intocada.

— Cadê o Marcos? — A soldado pergunta a um colega.

— Não o vejo desde o almoço. — A intuição de Uiara a faz seguir até o porto.

Uiara não entra na fila para o estacionamento, ela deixa seu veículo na entrada do prédio portuário. A jovem soldado sobe as escadas e atravessa a grande porta de entrada com o coração disparado, então segue para o balcão de informações. Quando começa a ser atendida, ela vê Marcos, com mochilas, seguindo Akira, que vai em direção ao pátio das naves. Uiara corre até eles.

— Marcos! — Uiara para e chama pelo amigo. Marcos conversa com Akira, o velho segue em frente e ele vai até Uiara. — O que está acontecendo?

— Vou embora. Viver em Marte já não faz o menor sentido pra mim.

— Você iria embora sem se despedir de mim?

— Você é CDF, me entregaria aos superiores... — Marcos sorri e dá um leve soco no ombro de Uiara, que também sorri.

— Você me conhece... — Os dois se abraçam.

— Ande logo, a nave não pode esperar mais... — Ao longe, Akira apressa Marcos.

— Adeus, Uiara. — O ex-soldado corre em direção a Akira.

— Adeus, Marcos. — Uiara observa o amigo se aproximando de uma nave e a espera desaparecer no espaço, então vai embora. Na metade do caminho até a base, Uiara reporta aos superiores a deserção de Marcos.

Por FranHDC | 01/05/19 às 10:53 | Ação, Aventura, Fantasia, Brasileira, Distopia, Inteligência Artificial, Colonização de Marte