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Memória 02 - Terra, Água e Sangue?

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 02 - Terra, Água e Sangue?

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

A noite estava muito fria e a maior parte dos habitantes haviam se recolhido em suas casas. Apenas alguns samurais, da patrulha noturna, estavam caminhando por entre as casas, despreocupadamente. Nós já estávamos um pouco afastados da casa do daimiô quando, em meio aos seus muitos pensamentos, Akodo Ryu me parou puxando por meu ombro. Olhei-o por cima do ombro, primeiro para a sua mão e depois para o seu rosto, ele estava muito sério e nem tinha reparado que tinha sido inconveniente. Leões, só porque todos os acham símbolos da honra, eles acham que podem faltar com o respeito algumas vezes. Abri um sorriso e virei-me de lado para ele; em seus olhos eu via enormes interrogações, e pude adivinhar a pergunta que vinha lentamente se formando em sua mente:

― O que você quer dizer com interessante? – ele falava com um leve tom de raiva – Tudo o que está acontecendo aqui é uma grande conspiração contra Doji Haruki.

Sorrindo, fiquei alguns segundos processando o que deveria responder. Akodo Ryu estava bem incomodado com meu comentário de mais cedo e qualquer coisa dita, que não o agradasse, resultaria em um problema para mim.

― O que eu posso achar interessante, o Senhor pode claramente achar um total absurdo – eu o respondi finalmente - A meu ver, a traição dos guardas é intrigante. Se eles realmente ajudaram o ladrão, Doji Haruki anda confiando nas pessoas erradas.

O Leão parou de súbito, notando, apenas agora, que eu tinha falado que aquilo realmente era uma traição, talvez um segundo atrás ele estivesse tão focado no furto que não notou quando o heimin lhe falou sobre os guardas. Vi seu rosto tremer um pouco e as chamas da fúria brotaram em seu peito com tanta força que eu quase tive que fechar os olhos para não ficar cego. Seu dever como um samurai honrado era punir esses homens pelo ato vil e impensável de traírem seu próprio mestre. Sua mão foi como um raio para a katana, mas eu consegui colocar a palma da mão sobre o pomo de sua lâmina a tempo. Sua raiva foi momentaneamente transferida dos guardas para mim.

— O que está fazendo, Escorpião? – ele cuspiu olhando para mim, furioso.

― Acalme-se um pouco, Leão! Nós ainda não conhecemos a verdade –  suspirei tirando a mão de sua espada antes que ele me mordesse – Nós não podemos acusar samurais com base nas histórias de um servo, talvez você esteja esquecendo isso por conta da raiva.

O samurai respirou fundo e assentiu. Para fazer uma acusação dessas contra um samurai, era necessário que outro samurai tivesse visto no momento do ocorrido. Mesmo que mil pessoas de uma casta social inferior tenham presenciado o crime, elas ainda seriam inferiores e a palavra de uma casta superior tinha muito mais valor. Vendo meu companheiro um pouco mais calmo, sorri e continuei nossa calma caminhada. Haviam poucos estabelecimentos abertos em Tsuchigi, a casa de chá fechava ao pôr do sol e apenas a casa de saquê ficava aberta até o começo da madrugada. Um vendedor ambulante praguejava com um dos guardas sobre uma mulher que passou correndo por ali e derrubou suas mercadorias. Não demos muita atenção àquele homem, mas hoje eu reconheço o erro. Aquele homem teria me entregado uma informação muito valiosa, e talvez não tivéssemos perdido tanto tempo naquela noite.

Agora mais calmo, Akodo e eu seguimos até o posto dos guardas, onde havia apenas um vigia encostado ao lado da porta do posto dos vigias. Ele fumava um cachimbo, olhando distraído pela noite. Um homem com seus 30 anos, cabelos curtos e barba por fazer. Ele vestia um quimono branco com detalhes azuis e em sua cintura ele tinha uma katana. Seu trabalho era bastante óbvio, mas isso não o tornava melhor. Vigiar era um trabalho que poucas pessoas queriam, mas necessário. Ele pareceu sair de um transe quando nos ouviu chegar mais próximo, e virou o rosto. Seria normal um vigia levar rapidamente a mão à espada quando ouvisse passos se aproximando, mas aquela era uma região pacífica. Tirando os problemas com a vila vizinha, não havia nenhum tipo de perigo real. O homem apenas olhou em nossa direção e nos reconheceu como os convidados do senhor da vila e nos cumprimentou com um aceno de cabeça.

― Boa noite senhores, como vai a sua estádia nas terras de nosso senhor? – o guarda perguntou com um sorriso, mas apenas com suas “boas vindas”, sua expressão era diferente. Ele nos olhava desconfiado e ouvindo aquele tom, outro guarda saiu do posto. O outro era mais jovem, talvez tivesse seus 20 anos. Seu cabelo era longo, preso em um rabo de cavalo. Seu rosto estava um pouco sujo de arroz e recebeu uma tapa na cabeça do vigia mais velho. O garoto reclamou e ficou envergonhado quando o outro mandou limpar-se e nos cumprimentou com uma reverência. Suas roupas eram bem mais novas que as do outro guarda, e dado seu entusiasmo com o trabalho, ele deveria ter começado há poucos dias.

― Ótima – Eu disse, olhando para o chão e observando algumas marcas de casco de cavalo. O mais velho dos guardas ficou tenso, por um momento, e seus lábios tremeram. Olhei para cima, vendo que tinha conseguido alguma coisa daquele homem e sorri para ele - Doji Haruki realmente sabe como proporcionar algum entretenimento.

― Algum problema, senhores? – O jovem perguntou sem entender o motivo de olhar para o chão. Ele tinha ficado dentro da cabana o tempo todo, então não parecia ter visto o que tinha acontecido alguns minutos atrás ou pelo menos não parecia.

― Oh sim... – eu disse distraído – quase esqueci o motivo de termos vindo até aqui.

Abri um sorriso um pouco mais largo, notando algumas gotas de suor na testa do guarda que estava atrás do garoto. Seus olhos tremiam um pouco e sua boca parecia seca. Pobre homem, nem havia começado a brincar com a sua mente ainda. Fiquei pensando um pouco no que deveria dizer para ele e notei quando ele desviou a atenção de mim para o Leão ao meu lado, mas parecia haver um imã entre nossos olhos. Sua cabeça foi virando-se lentamente para mim, até que nossos olhos se cruzaram novamente. “Meus segredos estão expostos, preciso fugir daqui”, era o que ele parecia pensar, quando pensei em algo para dizer um pigarro quebrou a ligação entre mim e aquele sujeito, e ouvi o Leão começar a falar. Por um momento, pensei que tudo havia se perdido quando o som começou a vir daquele ao meu lado, mas eu estava errado.

― Nós estamos procurando uma moça que saiu apressada da casa de Doji-sama. – Akodo Ryu começou e o final de sua história me surpreendeu – Pobre garota, esqueceu seu estojo de maquiagem.

O guarda mais velho ficou paralisado. Seus olhos se arregalaram e ele tentou dizer algo, mas estava surpreso demais para juntar as sílabas para falar. Pelos céus, eu estava surpreso com tamanha mentira. Quem na vida iria pensar que um honrado Leão mentiria tão descaradamente. Olhei por cima do ombro para ver que tipo de cara aquele homem estaria fazendo e pisquei algumas vezes em choque. Seus olhos estavam vazios e sua expressão parecia de uma boneca, sem vida. Para mim, estava na cara que aquele homem não sabia nada da arte de contar uma mentira, mas para aqueles dois era diferente. Como eu tinha bagunçado a mente daquele homem, uma mentira tão óbvia pareceu verdade para ele.

Se você encontrasse uma dupla como a nossa, um Leão e um Escorpião, esperaria uma mentira do Escorpião e não do outro, mas eu admito que dessa maneira funcionava muito bem, e devo fazer uma anotação mental, abre nota: “Se você tem fama de ardiloso e enganado, deixe que outro minta no seu lugar. Assim, a guarda estará muito alta em sua direção e quando outro mentir, ela irá se despedaçar”, fecha nota. Bem, isso era o básico dos ensinamentos passado em meu Clã, mas eu não esperava que funcionasse tão bem.

― Ah aquela moça... Bem, ela realmente saiu daqui muito apressada, talvez tenha ido para a outra cidade. – o mais jovem disse – Hoen-san, que falou com ela, saiu agora há pouco.

Juro para vocês, os olhos do mais velho conseguiram se arregalar ainda mais, um pouco mais e seus olhos voariam. Ele cutucou sutilmente o rapaz que o olhou rapidamente, mas o estrago já estava feito. Ele já tinha contado tudo o que precisávamos saber. Quando olhei para o outro, sua expressão agora era de desafio. Ele parecia querer crescer e pude notar sua mão direita querendo ir à direção da espada, mas se conteve. Para ele, um simples visitante não poderia ameaçar sua posição. Quando se deu conta disso, ele deu um passo para frente e acima de sua cabeça eu podia quase ver seus pensamentos flutuando; “Você sabe, mas e dai?”.

― É a sua palavra contra a minha! – o guarda avançou mais um pouco, e por um momento achei que ele me empurraria.

―Sim, você tem toda a razão... – dei um passo para trás, mostrando estar com medo dele – Que respaldo as palavras de um visitante teriam?

O guarda estufou o peito, ainda mais, mostrando sua superioridade. Um mero Escorpião querendo assustar um pomposo Garça em sua casa, que ousadia. Ele sorria triunfante, enquanto eu recuava para trás, e acabei tocando o braço do Leão. O Akodo olhou para mim, erguendo a sobrancelha e suspirou. A ilusão daquele homem chegava a ser hilária e não conseguia mais conter uma risada. Meu riso foi perdendo a potência conforme adentrava a noite e destruía a falsa felicidade do Garça. Me virei na direção da mansão de Doji Haruki, mas olhei por cima do ombro para o guarda que ainda me olhava. Em seu rosto, havia um misto de confusão e horror. Ele parece ter se dado conta que um Escorpião não fazia ameaças vazias. Sussurrei, mas vendo seu rosto brando e o suor escorrer em seu rosto, sabia que ele tinha me escutado claramente.

― Ah meu amigo, posso garantir que a sua palavra terá pouquíssimo valor desta vez.

Fomos voltando lentamente na direção da mansão de Doji Haruki, quando nos deparamos com os dois Caranguejos que cruzavam a rua apressados. O Kuni tinha pânico no olhar, e sua expressão era de repulsa, enquanto olhava para a própria mão. Aquela noite estava um pouco escura, então era difícil dizer o que ele tinha nas mãos. O Shugenja mantinha-a separada do corpo com medo que aquilo que sujava sua mão respingasse em suas roupas. Imediatamente, pensei em sangue. Poderia ser que alguma coisa de grave tivesse acontecido enquanto tínhamos nos separado?

Não conseguimos alcança-los antes que eles se emprenhassem por entre as ruelas da vila, mas seguindo os rastros na areia, conseguimos encontra-los. Kuni Karasu limpava a mão com afinco e Hida Hiato estava atrás dele, inexpressivo, na verdade, um pouco incomodado. Pisquei sem entender; por que aquele Hida estaria completamente impassível se algo grave tinha acontecido? Hida Hiato escutou-nos chegar e balançou a cabeça nos dando as boas-vindas.

― O que aconteceu? – o Leão perguntou, olhando para o Kuni que ainda estava distraído lavando a mão–  Ele está ferido?

Hida Hiato suspirou profundamente quando olhou para o Kuni, e foi contando o que tinha acontecido.

Enquanto nós estávamos procurando do lado de fora da casa, Kuni Karasu havia ficado para trás fazendo perguntas à Doji Haruki. Pelo ato honroso, o Senhor da vila estava muito prestativo com o Shugenja, mas o homem estava se mostrando tão útil quanto um bebê. Ele esteve conosco o tempo todo, então não tinha visto nada de importante. Quando entrou no quarto ficou mudo por um tempo, como se não conseguisse acreditar no que estava vendo, só então, depois de alguns minutos, quando a ficha caiu, ele gritou desesperado. Hida Hiato veio ter com o Irmão e rapidamente Karasu colocando-o a par de tudo o que estava acontecendo. Virou-se para Doji Haruki, expressando seu desejo de invocar os espíritos dos elementos e fazer-lhes perguntas. O shugenja não sabia como explicar, mas desde que havia entrado naquela sala, uma sensação ruim tomava conta de seu coração, um aperto incessante.

O daimiô não iria impedir que o shugenja investigasse da maneira que lhe fosse mais conveniente, porém, como era de conhecimento público, entre os Samurais o que um espirito falasse não teria influência alguma em uma investigação. Vocês podem ficar um pouco surpresos, dado que não devem ser invocadores de espíritos, mas para alguém realmente poderoso, influenciar as palavras de um espirito, manipulando-o para dizer algo que realmente não aconteceu, não era muito difícil. Então, um imperador há muitas décadas decretou que as palavras de um espirito não teriam nenhuma influência em investigações.

Depois de receber a aprovação do anfitrião, Kuni Karasu começou a invocar por meio de suas preces um kami da terra, mas as palavras pareciam ficar presas em sua garganta. Algo realmente não estava certo naquela sala. Respirando fundo, ele se concentrou por alguns segundos, precisaria acalmar o próprio “eu” para, então, sincronizar-se com a terra e trazer sua Voz para a superfície. Mesmo depois de concentrar-se ao ponto daquela sensação passar, o shugenja ainda tinha a sensação que um pó ia caindo por sua pele. Afastando estes pensamentos, ele tentou mais uma vez, implorou com mais fervor aos espíritos e ouviu alguém atendendo seu pedido.

Os olhos de Karasu começaram a brilhar e uma luz verde intensa emanou de seus olhos. O que Kuni Karasu chamou não possuía forma, então explicar o que realmente era seria muito difícil. Tratava-se mais de uma sensação que uma coisa. Ele podia ouvir a própria voz respondendo às perguntas, mas era como se sua voz viesse ecoando por uma caverna, mais grave e mais distante.

O Shugenja passou por muitas coisas que o fizeram desistir de falar com outras pessoas, mas aprendeu a falar com aqueles espíritos e tinha se tornado bom naquilo. Ele sabia tudo o que precisava sobre o humor de um kami e notou, durante a apresentação, seu incomodo de estar ali. A Voz perguntou o motivo de estar sendo chamada a um lugar tão impuro e cheio de ódio, mas o próprio invocador não sabia o que responder, então fez sua primeira pergunta: “O que amaldiçoa este lugar? ”. E a terra o respondeu: “Uma das duas lâminas tinha 1.2 kg. Foram forjadas nas terras da Garça muitas eras antes desta, quando os próprios deuses ainda andavam entre os mortais”. Kuni Karasu ficou abismado com aquela resposta. Se esse era o caso, não fazia sentido uma espada ancestral estar nas mãos de um simples senhor de uma pequena vila, como Tochigui. Estas espadas deveriam estar nas mãos de alguém muito mais importante, então fez sua última pergunta: “O que é esse mal, então? ”. A voz respondeu depois de algum tempo: “A lamina foi usada por muitos e destruída por outros, reforjada tantas vezes quanto há grãos de areia, até que o espirito adormecido enlouqueceu”.

Depois de responder à pergunta, o invocador sentiu a terra tremer levemente sob si, sentindo que a presença havia deixado aquele lugar. A luz esverdeada que saia de seus olhos foi esvaindo-se lentamente até que piscou, notando estar de volta na sala com os outros dois. Doji Haruki o olhava apreensivo, mesmo que a informação dada pelos elementos fosse invalida, ele gostaria de qualquer informação que o ajudasse a encontrar o ladrão.

O Kuni não sabia como o daimiô iria reagir ao ouvir sobre a maldição, mas lhe contou o que tinha descoberto. O homem escutou atentamente até o final, mas havia descrença em seus olhos. O daimiô bateu com a mão contra o tatame, recusando-se a acreditar, negando prontamente todas as tentativas rústicas de ser convencido pelo shugenja. Negou até que revelou suas suspeitas. Ele achava que tudo isso era obra do daimiô da cidade vizinha, Hida Samano. O conflito entre aqueles dois homens era muito conhecido naquela região, brigando por qualquer coisa e troca de insultos não era algo incomum quando se encontravam. Hoje, as brigas estavam tão violentas que eles evitavam se encontrar para não começarem uma “guerra”.

― Se alguém é amaldiçoado, certamente é aquele Hida Samano – ele disse cheio de raiva – Aquele maldito! Ele deve ter um dedo nessa história toda.

Acusar alguém no Império sempre foi algo ruim, ainda mais se a acusação era sem nenhum fundamento, mas os dois Caranguejos relevaram. Inimigos sempre vão acusar uns aos outros pelos desastres que acontecem em suas vidas. Depois de alguns momentos de insultos, Doji Haruki recompôs a postura e os dois samurais pediram a licença dele para investigar ao redor da casa. Hida Hiato levou seu Irmão de Clã para o lado de fora, onde havia encontrado as pegadas. As marcas encontradas pelo Hida levavam até a janela do escritório de Doji Haruki, Kuni Karasu abaixou-se, pegando um punhado de terra úmida e seus olhos brilharam em azul, clamando mais uma vez pelos kamis.

Desta vez, a invocação aconteceu muito mais naturalmente, ele não precisou se concentrar muito para que sentisse a presença do espirito da água ali. O shugenja se sentia mergulhado em um rio e, ao abrir os olhos, encontrou-se realmente mergulhado em água cristalina. Um gigantesco par de olhos brilhantes o fitava. Karasu fez uma longa reverência ao espírito e pediu para que o ser o mostrasse o ocorrido naquele lugar. Os grandes olhos piscaram e do meio deles um redemoinho apareceu, ficando maior até estar do tamanho do mago e um espelho d’água ganhou forma. Pelo espelho, Kuni Karasu podia ver uma mulher, vestida com um quimono azul e em seus braços um pacote, o pano era grosso e o impedia de ver o que era. Tentou reconhecer aquela mulher, mas nada lhe vinha à cabeça, ela tinha um rosto bonito e fino, mas nada que indicasse onde tinha a encontrado antes.

Depois de confirmar a imagem, ela começou a se deformar em uma segunda imagem, que parecia ter ocorrido alguns segundos depois. A mesma garota passou correndo pelo corredor e cortou o braço em um pedaço de madeira pontudo. A imagem mostrava o pacote ao chão, derrubado pela dor do ferimento e agora o Kuni podia ver que se tratava das duas espadas. A imagem durou mais alguns segundos e logo os dois grandes olhos voltaram, e agradecido ao espírito, o mago curvou-se.

Saindo do transe, ele explicou para Hida Hiato o que viu. Imediatamente ele olhou para o chão, procurando pelo sangue, e encontrou um pouco na janela, confirmando o que viu. Além disso, algumas gotas de sangue levavam até o portão junto com as pegadas.

― Nós devemos seguir este sangue. – o Hida disse – Talvez ela não esteja muito longe daqui.

― Há algo mais importante para se fazer nesse momento. – o shugenja disse – Venha!

O invocador olhou para a própria mão com nojo, sentindo como se pequenas criaturas rastejassem por debaixo de sua carne empalidecida. Em sua visão, aquela areia era grotesca e pegajosa. Ele precisaria limpar-se ou não iria conseguir se concentra em nada que estaria fazendo daqui para frente. Hiato ficou sem entender e seguiu o Irmão até que encontraram um poço, para que shugenja lavasse a mão. Ele parecia ir ficando mais aliviado enquanto aquilo acontecia. Hiato apenas ficou calado até aparecermos.

Depois de ouvirmos aquela história, viramo-nos para o invocador que ainda estava completamente ausente da realidade enquanto lavava a própria mão. Senti meu corpo queimar, abaixei-me para pegar um punhado de terra, mas fui parado pelos outros dois. Eles suspiraram balançando a cabeça e disseram em uníssono; “Não vale a pena”. Olhei para Karasu, meu rosto ainda queimava de raiva por ter ficado preocupado à toa, porém respirei fundo para acalmar-me. Uma briga naquele momento apenas nos atrasaria, logo não era uma coisa sensata a se fazer.

― Isso nós também descobrimos, além disso, descobrimos que os guardas estão cobrindo o roubo – Akodo falava calmamente, mas em seu rosto era visível a raiva –, pelo menos um dos guardas.

― O guarda, em questão, não está mais no posto de vigia, pois, provavelmente ele saiu atrás dela para cobrir os rastros – eu deduzi e Akodo-san concordou com a cabeça.

― Mas isto é um absurdo! – Karasu já tinha saído de seu transe de lavar as mãos – Como eles podem trair o próprio senhor?

Depois de alguns segundos com aquele clima tenso, nós notamos uma mulher que vinha caminhando lentamente pela rua em nossa direção. Iriamos sacar nossas espadas devido àquela aparição repentina, mas Akodo Ryu reconheceu-a como a mulher que havia o levado até à presença de Doji Haruki mais cedo. Ela vestia um quimono azul escuro e seus cabelos brancos eram presos em um coque por uma presilha simples. Ela colocou ambas as mãos a frente do ventre, juntas, uma por cima da outra, e curvou-se profundamente para nós.

― Honoráveis Samurais, Haruki-sama pede por vossa presença – ela falava delicadamente, enquanto mantinha-se curvada para nós, olhado para o chão.

Ela ficou esperando por uma resposta, mas nossos pensamentos estavam em outro lugar. Ainda haviam muitas dúvidas a serem solucionadas em relação aos guardas. Por que eles estavam acobertando a ladra? Poderia eles terem sido subornados ou até mesmo ameaçados? Não era difícil fazer, pois todos têm as suas fraquezas e alguém esperto poderia usá-las para tirar proveito da situação. Ryu olhou para mim procurando saber se já havia chegado à resposta, mas simplesmente dei de ombros. Karasu virou-se para a mulher e foi o primeiro a quebrar o silêncio:

― Nós deveríamos avisar a Doji-dono o que está acontecendo aqui – Ele falava enquanto ia passando por nós em direção à mansão.

― Acho válido, já que nós não temos autoridade para força-los a dizer o que estão escondendo, mas o senhor deles tem. – Akodo-san saiu atrás e mulher seguiu na frente deles. Realmente, autoridade não tínhamos, mas nem só a autoridade arrancava respostas, haviam muitos métodos para tal propósito. Fiquei parado, analisando a situação, distraído aos meus arredores, e quando voltei a mim, percebi que os outros já estavam um pouco distantes. Apenas Hida Hiato havia ficado para trás.

Ele parecia se recusar a seguir a mulher antes de mim. Seu olhar de desconfiança chegava a doer, mas minha resposta foi sorrir. Passei ao seu lado e fiz um gesto para acompanharmos os outros. “Vamos? ”, perguntei e segui atrás deles com o Hida vindo atrás. Que tipo que histórias mirabolantes sobre os Escorpiões, os Caranguejos deveriam falar na Muralha do Carpinteiro? A mim restava apenas supor.

Nota do Autor:

Aos queridos leitores que receberam com tanto carinho aquelas linhas que dediquei algum tempo escrevendo meus mais sinceros agradecimentos. Aos meus queridos amigos que leram minha história também deixo aqui esta nota para agradecer ao tempo que retiraram para ler esta história.

Agora farei alguns esclarecimentos que espero iluminar o caminho certo para alguns. Sim a história em questão tem Artes Marciais como um de seus Gêneros, haverá sim lutas e existe sim uma força que serve para dar poder aos golpes. Darei um nome e uma explicação para esta energia em capítulos futuros, contudo o foco desta história não se trata apenas de sangue e violência. Poderes sobrenaturais à nossa realidade existem no cenário apresentado, porém nada cheio de exagerada pirotecnia, isto, meu caro leitor, você pode encontrar em muitas outras obras o que quero aqui é algo diferente e talvez seja isso que você também quer, já que está lendo este segundo capitulo. Eu ficarei triste se por uma desventura algum de vocês pararem de acompanhá-la, para mim cada um de vocês são importantes.

Um jovem, em um dos comentários pareceu conhecer o Cenário o qual falei antes. De fato, está obra é baseada em um RPG de mesa que no Brasil recebe o nome de “A Lenda dos 5 anéis”, um excelente RPG o qual sou apaixonado. Vale a pena conferir, este foi o intuito de apresentar o sistema e quem sabe jogarem. Apesar de que eu adaptei para melhor se enquadrar na minha história, haverá personagens oficiais e outros de minha própria autoria e os que meus amigos criaram.

Quanto a outras perguntas darei respostas mais rápidas. Não a história não terá apenas um capitulo. Se forem esperar vários capítulos para lerem eu desaconselho, será apenas um capitulo por semana por uma limitação pessoal. Haverá de fato estratégia, mas conspirações serão muito mais frequentes. Sobre a forma como a história está sendo apresentada, em primeira pessoa, dá-se apenas porque gosto e a forma vem de Drácula de Bram Stoker. Ter lido esse livro não me deixa mais culto nem melhor que nenhum de vocês, apenas me interessei e o li, assim como vocês tem a minha recomendação se quiserem ler.


Por Yamimura | 15/07/18 às 13:30 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror