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Memória 05 - Tigres de Fogo

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 05 - Tigres de Fogo

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

O Leão abriu a porta com uma puxada violenta para o lado, e houve um estalo estranho. O heimin deu um grito falho, horrorizado pela cena, mas não ousou praguejar. Estalando a língua, ele guardou a espada na bainha e adentrou o quarto, procurando por qualquer pista que nos levasse até a mulher. Revirou o quarto inteiro até encontrar uma bandagem com sangue ainda fresco sob as cobertas. A mulher deve ter fugido quando o ataque dos goblins começou, aproveitando-se da distração dos guardas ou descobrindo, de alguma forma, que sabíamos de sua presença na vila, fugindo dos seus perseguidores quando relaxamos com nosso dever.

Ouvindo sobre as bandagens e sabendo que provavelmente ela ainda deveria estar muito ferida, Hiruma Seta baixou os olhos para a terra. Eu acompanhei junto a ele, mas não consegui ver o que ele encontrou. Haviam muitas pegadas espalhadas pela terra solta e parca luz não ajudou muito, mas para um rastreador aquilo era completamente diferente. Seus olhos pareciam ser guiados para os lugares corretos e não demorou muito para ele achar um pouco de areia avermelhada com sangue. Eram apenas algumas gotas, mas o suficiente para saber que tinha encontrado o rastro. Junto às espaçadas gotículas de sangue fresco, pegadas apreçadas levavam à uma fenda no meio das muralhas ao redor da Vila.

Ali, guarnecendo aquela falha enorme, haviam dois guardas. A fenda tinha dois metros de altura e 3 de largura. Pela forma como era feita não parecia prover da ação do tempo, mas como se alguma coisa tivesse aberto artificialmente. Aquela fenda tinha sido aberta há alguns meses, quando um exército, pouco maior que aquele o qual atacou a vila há poucas horas, investiu violentamente contra a vila, e dois ogros, que aparentemente lideravam esse exército inteligentemente, o que parece um pouco estranho, pois eram ogros. Aproveitaram a distração e abriram aquela fissura, atacando tudo dentro da vila. As baixas foram enormes naquele dia e até agora a vila ainda estava se recuperando.

Olhando atentamente pelas ruelas estreitas da vila, haviam paredes totalmente derrubadas e casas desabitadas, porque poderiam desabar a qualquer momento. Hiruma Seta continuou seguindo a passos largos em direção aquela fenda e os dois homens nos olhavam desconfiados. Óbvio, havia um Escorpião ali. Os guardas nos mandaram parar uma distância relativamente segura de onde eles estavam, cerda de 9 metros, e perguntaram o que fazíamos naquele lugar tão tarde da noite. Eu suspirei e respondi com uma pergunta:

― Boa noite senhores, há quanto tempo vocês estão tomando conta dessa fenda?

Os guardas se entreolharam intrigados. Eles estavam vestindo uma armadura completa, assim como a armadura que Hida Hiato usava. No peito da proteção do dorso havia o mon do Caranguejo e ambos portavam um machado de batalha. Um deles pigarreou alto e deu de ombros, como se aquilo realmente não importasse.

― Eu estou aqui faz apenas alguns minutos, mas meu amigo aqui já tem quase dois dias – um deles disse com uma cara mais satisfeita que o outro.

O outro homem realmente estava com olheiras profundas, seu aspecto cansado me deixava um pouco admirado dele estar ali a tanto tempo e não ter dormido ainda. Ele parecia um pouco magro, mesmo com aquele tamanho, e se não fosse dispensado logo daquele serviço, substituído por outro, ele cairia exausto. Provavelmente ainda não havia ninguém. Dos poucos guardas que já vi nessa vila, aqueles eram os que estavam em melhor estado. Os outros tinham ataduras pelo corpo todo e manchas de sangue seco na armadura, e durante o ataque dos ogros muitos soltados podem ter morrido. Caranguejos são especialistas em lutar contra as criaturas das Terras Sombrias, mas de fato eles não são imortais.

― Essa droga de fenda! Desde aquele ataque essa merda está aqui. Onde estão os malditos Kaiu que iriam concertar isso? – o outro cuspiu ao chão claramente aborrecido.

― Que trabalho duro. – eu disse mostrando simpatia – Nós estamos procurando uma mulher que, provavelmente, passou por dentro da fenda, e, provavelmente, estava carregando um pacote cumprido nos braços.

O guarda que estava ali a mais tempo, falou que não tinha visto mulher nenhuma, até porque ninguém tinha permissão de passar por ali sem ordens de Hida Samano. Eu desconfiava daquilo, aquele homem estava muito cansado para ter ficado com os olhos abertos o tempo todo. Dois dias é muito tempo para se ficar de vigia, é um trabalho desgastante, mesmo para um Caranguejo há um limite. O homem pareceu irritado por não parecer que eu estivesse acreditando nele, mas ele não tinha forças nem mesmo para discutir, sorte a minha. Ao meu ver, a mulher pode ter esperado aquele homem se distrair ou dormir e passou pela fenda sem ser notada.

Resolvi deixar esse pensamento de lado um pouco, não haviam motivos para pressionar um homem que não tinha culpa do que tinha acontecido. Olhei para a muralha interessado em encontrar outra forma de transpô-la. Com certa dificuldade eu a encontrei. Haviam alguns espaços, quase invisíveis, onde alguém ágil poderia usar para escalar. Pela forma que estava vestido, eu provavelmente conseguiria, mas levaria algum tempo e eu não achava que aquela mulher fosse melhor que eu naquilo. Com os materiais certos, escapar não seria um problema, mas alguém usando equipamentos de escalada seria bem notório naquele lugar. Então, só me restava a mesma indagação. Aquele guarda havia dormido, e a mulher passado pela fenda?

Nada poderia ser feito naquele momento. Akodo Ryu era aquele com os documentos de viagem, então tivemos que esperar um pouco. Quando os outros chegaram, explicamos rapidamente o que deveria ser a situação e Kuni Karasu ajoelhou-se na terra. A areia estava úmida e o shugenja pediu o auxílio dos espíritos da água. Os olhos dele brilharam em um azul intenso, enquanto ele mergulhava na própria consciência. As imagens que vieram a seguir, mostraram a mulher esperando pacientemente de tocaia distante do guarda, e a outra, o mesmo guarda dormindo com a boca tão aberta que um cavalo poderia se esconder ali dentro, enquanto a mulher passava furtivamente pela fenda. Depois de piscar algumas vezes, ele levantou-se mantendo a mão longe do corpo, eu suspirei e dei a ele água para limpar as mãos. Logo depois dele suspirar aliviado ele virou-se para o outro guarda, apontou o dedo tão rápido que consegui ouvir o chicotar de suas roupas no ar, e os pingos d’água voando na direção do rosto do guarda.

― Você! – ele disse apontando o dedo pálido para o outro guarda – Este homem precisa ser punido, pois ele dorme em serviço.

Depois de plantar a discórdia, o shugenja passou pela fenda e seguimos atrás dele. Atrás, os dois guardas ficaram discutindo e nós continuamos o caminho pela floresta densa. Hiruma Seta puxou sua bengala e ascendemos uma tocha para auxiliar a encontrar o rastro, poucos minutos depois já estávamos novamente no encalço da ladra, mas o mais estranho era que o Hiruma encontrou o rastro de mais várias outras pessoas junto a ela. Os rastros indicavam que os ladrões se encontraram ali perto e passaram algum tempo conversando, logo seguindo viagem se separando.

Nós seguimos caminho até uma parte mais densa. Estava muito escuro para seguirmos caminho sem a luz da tocha, nosso rastreador perderia o rastro se eu apagasse a tocha, então fiquei com ela acessa. O Leão passou o tempo todo em que estávamos seguindo os rastros, olhando para os lados, ele estava certo de que estávamos sendo seguidos. Uma floresta escura era um ótimo lugar para uma emboscada. Nós caminhamos por cerca de duas horas floresta adentro, até que Akodo Ryu ergue a cabeça com os olhos passando pela floresta rapidamente.

― Emboscada! – O Leão gritou.

Segundos depois, uma saraivada de flechas cruzou a floresta. Os outros tiraram suas armas das bainhas e eu saltei para dentro de alguns arbustos próximos. De dentro da floresta, vários homens apareceram, eles usavam roupas surradas e armas podres, um grupo de bandidos que, apenas algumas horas depois, fiquei sabendo se tratar de um grupo chamado Tigres de Fogo, eles não eram uma organização nem nada do tipo, eram apenas malfeitores que rondavam essa região. Como os Caranguejos eram uma força que estava além de suas capacidades, eles costumavam roubar viajantes na estrada. O grupo inimigo se compunha de 30 homens, 10 deles armados com arcos e os outros portando um Tetsubo mal-feito. Os arqueiros já estavam começando a preparar-se para atacar novamente, enquanto os outros corriam para cima dos meus companheiros.

Akodo Ryu olhou para trás me procurando, ficou aborrecido quando não me viu, achando que eu tinha fugido com medo de tantos inimigos. Ele correu para frente, desviando de uma flecha com a espada, um bandido ficou entre o Leão e o arqueiro, pagando caro por isso. Com um movimento, o Leão separou sua cabeça do corpo e nem esperou o defunto cair ao chão, continuou correndo para o arqueiro. Uma flecha fincou-se em seu ombro e logo outra veio contra sua perna, ele ajoelhou-se e viu quando dois arqueiros estavam lado a lado, preparando novos disparos; sua mão foi contra o cabo da wakizashi e como uma flecha, ele a disparou contra a garganta de um deles. O outro se assustou e sua distração foi tempo o bastante para o raivoso Leão fechar a distância entre eles, seu golpe foi certeiro, atingindo o topo da cabeça do arqueiro; a lâmina foi entrando até o meio do peito dele e o sangue espirrou para todo o lado.

Kuni Karasu começou a clamar aos espíritos do fogo e algumas fagulhas foram se juntando na palma de sua mão, as chamas brilhantes e alaranjadas giravam em sua mão, as chamas foram caminhando até próximo ao seu pulso e cresceram quase do tamanho de uma fogueira. Dois homens vinham em sua direção, enquanto ele continuava a dizer sua prece aos espíritos, levantaram suas armas e o Shugenja teve que saltar para trás, quase não conseguindo desviar, estendeu a mão para eles e dois dardos de chamas foram disparados, atingindo suas cabeças. Os gritos de dor e o cheiro de carne queimada subirão às narinas de Kuni Karasu, e com seu bastão, ele bateu nas cabeças dos dois homens que desmaiaram pelo acúmulo de dor. As chamas foram abraçando seus corpos e continuaram a consumi-los até sobrar apenas as cinzas.

Dois homens atacaram Hida Hiato, que defendeu-se com o cabo do machado segurando os dois tetsubos, rindo, ele foi empurrando os dois para trás e acabou os derrubando ao chão. O Caranguejo pisou no peito de um deles e brandiu o machado, partindo um deles no meio, o outro ficou assustado e tentou escapar da pisada da pequena montanha. Hida Hiato levantou o machado manchado de sangue, mas foi impedido de o matar por um golpe que o atingiu no braço, o Caranguejo deu dois passos para o lado e olhou para o atacante com raiva. Para uma pessoa normal, seu braço seria quebrado pelo golpe do Tetsubo, mas para um Caranguejo, um golpe como aquele mau o faria sangrar. Ele estendeu a mão pegando-o pelo tetsubo, ele cortou um pouco a palma da mão, mas nem ligou, puxou o homem e lhe deu uma cabeçada. O golpe foi tão forte que o homem quase voou, virou os olhos e caiu desmaiado. Sentindo uma fisgada na perna, o Hida olhou para baixo e viu que o bandido lhe enfiou uma faca na panturrilha, levantou a perna fazendo a faca sair pela força bruta, o corte abriu um pouco mais, mas o Hida estava furioso demais para pensar.

Pisou uma, depois duas então três, a cada pisada que o homem dava, seu pé perdia o ar e seus ossos iam estalando, ele cuspiu sangue, mas o Hida continuou pisando até que vendo que o homem já não escaparia vivo, chutou-lhe no meio das costelas. O chute quebrou alguns ossos e o corpo do bandido rolou como uma boneca de pano, ele não conseguia gritar de dor, mas gemia alto, contorcendo-se em seus últimos segundos de vida.

Hiruma Seta puxou seu arco, rolou para frente esquivando de algumas fechas que passaram onde antes estava sua cabeça e apanhou uma das flechas em sua aljava. Disparou entre os olhos de um dos bandidos que corriam em sua direção, que irônico, uma seta usando outra. Ele puxou um segundo projétil da aljava, o bandido continuou correndo sem ligar para o companheiro que foi morto ao seu lado, percorrendo o curto espaço entre ele e Seta em poucos segundos. O rastreador girou a flecha entre os dedos, desviou do ataque e usou a flecha como uma arma, furando as costelas do atacante; o homem gritou de dor e virou-se, mas o Hiruma já estava distante, apontando duas flechas para ele, os dois projéteis atingiram seu rosto e furaram seus olhos. Ouviu um farfalhar de folhas secas ao chão e virou-se, vendo um tetsubo vir na direção de sua cabeça, ele colocou o arco entre si e a arma, saltando para trás o arco partiu-se pela força do golpe, mas por pouco não foi sua cabeça.

Hiruma Seta puxou para fora sua espada, uma lâmina forjada pelos Kaiu, os maiores artesãos dos Caranguejos, senão de todo Império. O bandido deu-lhe outro ataque, mas dessa vez o samurai defendeu atacando, o choque entre as duas armas teria feito qualquer espada comum estraçalhar-se, mas não aquela lâmina, essas armas eram conhecidas por serem inquebráveis. Desviando do ataque, Hiruma deixou o peito do homem aberto e atravessou-lhe o coração com a espada, esse arregalou os olhos e lentamente, as chamas da vida foram extinguindo-se de seus olhos.

Demorou algum tempo para chegar onde eu queria, mas ninguém notou enquanto eu passava por entre os arbustos, como eu tinha desaparecido antes mesmo da batalha começar, pareceu que nunca estive ali. Por entre as folhas, eu podia ver três arqueiros disparando continuamente suas flechas, no entanto, raramente eles acertavam alguém, pois não pareciam muito bem treinados e pareciam um pouco jovens; pobres crianças, um fim tão trágico. Minhas lâminas pularam fora da bainha sem nenhum barulho, já que esse era o objetivo delas, serem retas. Pulei dos arbustos e com um movimento único e cruel, os dois jovens caíram mortos, sem ao menos verem o rosto de seu assassino. Não houve grito de dor, apenas o som pesado de seus corpos despencando ao chão. O terceiro arqueiro saltou quando ouviu o som, seu rosto ficou pálido, abriu a boca para gritar, mas nenhum som veio, pois minha Nigatô já trespassara sua garganta.

― Não se torne um bandido na próxima vida, criança – disse, o olhando nos olhos.

Apenas o medo existia em seus olhos enquanto ele me olhava, um sentimento que eu constantemente encontrava naqueles que mandava de volta para seus ancestrais. O gosto amargo de sua vida curta e sem sentido ficaria preso em minha língua até meu próximo copo de saquê. Lágrimas foram juntando-se em seus olhos e ele esticou o braço para tentar tocar em minhas roupas. Seu rosto parecia arrependido de como levou a vida até aquele momento. Sorri para ele e em seus últimos momentos pareceu ficar em paz, eu não tenho certeza do que ele viu, mas se isso lhe deu conforto para entrar novamente na roda da vida e começar uma vida nova, para mim aquilo o que viu não importava.

Ouvindo passos apressados em minha direção, eu flexionei meus joelhos e deitei meu dorso no ar, senti o violento vento de um ataque passando por meu nariz. Cinco bandidos tinham finalmente me visto matando os outros três e começaram a me atacar. Levantei os braços acima da cabeça e impulsionei com os pés, dando um mortal. O mundo girou por um momento e vi todos os que me atacavam errando os golpes; um não atingiu minha cabeça por pouco quando fiquei de pé novamente. Cinco contra um numa luta muito justa para mim.

Akodo Ryu retirou a espada da cabeça do bandido já morto, e notou um arqueiro próximo a ele, cerca de 6 metros, apontando contra Hida Hiato. O guerreiro correu atacando com sua espada na altura do ombro e a lâmina entrou cortando seu braço fora. O Leão avançou para o lado do arqueiro e desferiu outro golpe que entrou por suas costelas, no entanto, o golpe bateu na coluna do bandido e lhe faltou força para cortá-la. Akodo caiu com as mãos ao chão quando sentiu uma forte pancada em suas costas, ele cerrou os dentes e pode sentir a armadura trincar. Ele olhou por cima do ombro e viu outro bandido, virou-se e perfurou a perna dele com a katana. O bandido caiu ao chão e Akodo Ryu montou-se nele. O Leão, deixando a espada cravada na coxa do homem, deixou sua raiva vazar pelos punhos, logo esmurrando o rosto do criminoso até ficar irreconhecível.

A armadura de Hida Hiato apenas vibrava contra os inúteis ataques dos bandidos. O caranguejo levantou seu machado para defender um golpe, assim defletindo a arma inimiga e lhe abrindo a guarda. Ele levantou o machado, girando e golpeando com o pomo a boca do bandido, quebrando-lhe os dentes. Sentiu uma leve dor quando uma flecha se cravou em seu ombro e viu um arqueiro. Olhou para o machado e sorriu, jogando-o contra aquele homem. Um machado não foi feito para ser uma arma de arremesso, pois era demasiadamente pesado para alguém o fazer.

Para um Caranguejo isso não pareceu tão difícil quanto deveria ser. A arma passou facilmente por seu tórax, como o faria em madeira podre, e fincou-se ao chão. Os outros dois bandidos ficaram atordoados e deram tempo, inconscientemente, para que Hida Hiato pegasse o tetsubo que o bandido morto deixou cair. Os dois bandidos atacaram ao mesmo tempo, mas um deles logo foi derrubado por um golpe na cabeça dado pelo Hida e o outro aproveitou-se dessa chance. Com toda a sua força, o homem atacou dando um golpe no peito aberto do Caranguejo. Dando um passo para trás, o Hida levou a mão ao peito, sentindo o sangue quente escorrendo por entre os dedos enormes. Apertando os pois punhos na empunhadura do tetsubo, o Caranguejo levantou os braços e com um movimento que fez o ar deslocar-se violentamente, ele golpeou a cabeça do bandido. A força do golpe produziu um som grotesco. A arma explodiu e junto com ela, a cabeça do homem reduziu-se a migalhas.

Kuni Karasu entoava suas preces aos espíritos do fogo, que ia juntando-se em sua mão novamente, mas desta vez, a violência do turbilhão de chamas estava muito maior. Ele abriu os olhos, um brilho rubro saia deles e tudo que ele via era em tons vermelhos. O fogo sempre foi cruel, mas ele ainda o permitia diferenciar amigo de inimigo. Duas silhuetas amareladas corriam na direção de uma azul que estava esmurrando alguém. Apertando os olhos o Kuni notou tratar-se de Akodo Ryu. Os dois homens prepararam seus golpes contra o Leão que estava entregue à fúria e não os notou, mas foram impedidos por uma dor paralisante no peito. Olhando para a origem da dor, eles arregalaram os olhos e gritaram ao ver uma lança de chamas atravessando seus corpos. O grito despertou o Leão de seu transe e ele saltou para sua espada.

― Estaca carmesim... – Kuni Karasu sussurrou ao ver, e estalou os dedos.

As estacas vibraram, diminuindo de tamanho, como se acumulassem energia, e explodiram. Um dos homens explodiu, deixando nada mais que uma chuva de sangue e o Leão saltou para desviar dos pingos da chuva sangrenta. O outro teve o corpo incinerado pelas chamas, que jorravam por todos os seus orifícios, seus órgãos cozinhados pelas chamas. Akodo Ryu tirou sua vida, impedindo que sofresse mais do que deveria, antes de morrer lentamente devorado pela dor das feridas.

Hiruma Seta corria na direção de três arqueiros que disparavam continuamente contra ele. O rastreador desviava dos projéteis sem parar de correr para suas presas e parou quando uma foi impossível de desviar. Ele colocou sua katana entre si e a flecha, defendendo o ataque, mas os outros dois perfuraram seus braços. O samurai gemeu de dor e arrancou-as dos braços, desviando de mais alguns disparos no último segundo. Uma explosão chamou a atenção dos arqueiros, eles ficaram atordoados quando uma chuva de sangue ocorreu há alguns metros deles e essa foi a oportunidade que Hiruma estava esperando.

Ele avançou o mais rápido que pode, atacou um deles ainda distraído e seu grito de dor fez os outros dois perceberem que ainda havia outra coisa para se preocupar. A coisa era um homem baixo e musculoso que pareceu mover-se como um raio. Em um momento ele estava muito longe, mas no outro ele já estava cortando o peito de um deles. Um deles fugiu, mas o outro estava próximo demais para tentar. A espada do Caranguejo arrancou-lhe a cabeça dos ombros. Hiruma Seta pegou o arco de defunto, disparou uma flecha que atingiu a perna do bandido em fuga. Puxou outra e mirou com mais cuidado, acertando a flecha na base da nuca do bandido.

Quanto a mim, estava tendo problemas em lutar contra cinco homens de uma só vez, seus ataques não me davam muito tempo para contra-atacar. A oportunidade veio quando um deles escorregou na poça de sangue de um dos arqueiros mortos, e eu, é claro, a aproveitei. Avançando contra o homem, lhe cortei a garganta e continuei correndo para cima de outro, ele deu um passo para trás. Passando por trás do homem, eu desviei de dois ataques e o terceiro veio no momento certo. Segurando nas roupas do bandido a minha frente, eu o coloquei um pouco para o lado e o empurrei. O homem recebeu aquele golpe na cabeça e caiu ao chão desmaiado. Seu companheiro ficou horrorizado quando viu o que tinha acontecido, e olhou para mim enraivecido.

O bandido avançou com raiva, erguendo o tetsubo acima da cabeça, mas foi parado quando enfiei minhas espadas em suas axilas, o forçando a soltar a arma. Seus companheiros tentaram salvá-lo de mim, mas eu pulei para trás cortando a garganta dele com um movimento limpo. Os últimos dois correram para cima de mim. O primeiro atacou na horizontal e eu passei deslizando por baixo do golpe, fazendo um corte em sua coxa, no processo. O segundo deu um golpe que eu não poderia desviar, então cruzei as espadas na frente do corpo e defendi. O impacto me forçou contra o chão com violência e o ar deixou meus pulmões.

Eles aproveitaram para dar um novo ataque, se aquilo tivesse pegado em mim, hoje eu não estaria aqui contando essa história. Rolei para o lado, desviando dos dois ataques e levei a mão para dentro de meu quimono, tirei uma pequena bola de um bolso oculto e estourei-a na mão. Levantei-me com dificuldade e os dois vieram para cima com os olhos vermelhos de raiva. Abrindo a palma da mão e segurando a espada com o polegar, soprei um pó acinzentado, lembrava bastante areia, nos olhos de um deles e saltei para trás. O homem gritou de dor, soltou sua arma e levou as mãos aos olhos. O outro parou, cobrindo os olhos para impedir que eu jogasse aquilo neles e eu sorri. Perfurei o dorso de sua mão, atravessando até furar através de sua cabeça; suas pernas perderam a força depois de sua morte e eu me virei para o outro cortando-lhe a cabeça.

Com o canto dos olhos eu vi um movimento e olhei rapidamente para uma árvore vários metros à frente; os outros que já tinham chegado perto também viram, e Karasu a identificou no mesmo instante.

― A ladra! – o shugenja apontou para a mulher.

Todos se viraram na direção que o Kuni apontou e vimos uma silhueta. O Leão notou um brilho sobre uma pedra e viu uma lâmina ali. Uma sensação ruim passou por suas entranhas quando ele viu a mulher puxar um machado.

― Alguém a impeça! – Akodo gritou – Ela está tentando quebrar as espadas!

Para a nossa sorte, Hiruma Seta ainda não tinha largado o arco. Ele puxou uma flecha, apontou o arco e disparou. Eu corri o mais rápido que pude na direção da pedra. Ouvi um grito acima de mim e olhando vi a mulher despencando das árvores, continuei correndo até que puxei as duas espadas. Quando as segurei em minhas mãos, senti uma sensação estranha, senti como se alguém estivesse me olhando. Olhei para os lados e senti quando uma flecha me atingiu o ombro. Apertei os lábios para conter a dor e pulei para trás, duas outras flechas cravaram-se ao chão onde estava um segundo atrás.

Ao nosso redor algumas pessoas foram saindo por trás das árvores. Notei uma mulher ajudando outra a levantar-se e meu coração parou por um momento. Ali estava Seppun Ayumi, filha de Ayumu; ela olhou para mim e deu um sorriso. Depois seus olhos foram percorrendo pelos outros rapidamente.

― Boa noite, nobres samurais – ela disse gentilmente.

Por Yamimura | 05/08/18 às 11:33 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror