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Memória 06 - Negociação

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 06 - Negociação

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku, Gabriel Morais

Akodo Ryu olhou e observou, pelo menos, oito guerreiros Seppun. Como eu já tinha lhes contado, os Seppun eram nobres e essas pessoas faziam parte de sua guarda pessoal. Não era estranho que Ayumi trouxesse sua guarda pessoal, já que tinha vindo de tão longe. Passando meus olhos por entres eles, notei que haviam duas mulheres, e ambas estiveram disfarçadas de gueixas, na mansão de Doji Haruki. Mordi os lábios e puxei a flecha de meu ombro; senti o sangue quente escorrendo pelo meu braço, puxei uma cabaça de minhas coisas e tomei um gole dela. Senti a dor sendo aliviada e o ferimento esquentar, como se um espeto de ferro quente estivesse entrando no ferimento. Aquele era um presente que minha noiva tinha me dado no dia do nosso noivado. Aquela cabaça deveria me ajudar quando eu mais precisasse dela. Falarei dela outra hora.

― Nos entregue a daisho, Escorpião! – Um homem alto ordenou.

Virei-me para olhar aquele homem, pelas fortunas como ele me assustava. Ele mantinha o peito inchado e uma das mãos prontas para puxar sua katana ao menor sinal de resistência. Recuei um pouco e isso pareceu inchar ainda mais o seu ego, um pouco mais e ele explodiria em diversos pedaços e fagulhas. Eu tive que conter um riso, não havia necessidade nenhuma de começar uma confusão, naquele instante, por destruir toda a masculinidade daquele pobre homem.

― Ora, sinto muito. – respondi passando o dorso da mão nos lábios, tirando dali algumas gotas d’água – Esta Daisho foi roubada e o dono a qual pertence não é nenhum dos senhores e senhoritas.

Eu notei uma veia saltando na testa daquele homem com a minha resposta. Era bem óbvio que ele sabia sobre o roubo, ele estava envolvido afinal, mas não dava a mínima para o que lhe falava. Passei meus olhos por todos os outros, analisando cada um deles. Eles se vestiam de forma bem elegante e que, notoriamente, os classificavam como membros do Clã Seppun, pois elas chamavam atenção mesmo naquele escuro pela cor verde-limão. Olhei atentamente para suas armas e notei a tensão em seus corpos e sorri.

Tampei a cabaça e a guardei cuidadosamente em minhas roupas, sem tirar os olhos de nenhum deles e o homem ao qual havia dirigido a minha resposta também não tirava os olhos de mim. Ele era o mais agitado de todos, esperando que eu corresse com as espadas a qualquer momento. Aquele era um homem esperto, para um Escorpião comum completar a missão era o mais importante de tudo, mas infelizmente para ele eu não sou um Escorpião comum. Nesse meio tempo, meus companheiros aproximaram-se fechando uma roda em minha volta, dei um sorriso provocativo para o homem e sua raiva aumentou. Sua espada começou a sair um pouco da bainha, mas nenhum deles recuou. Pelo contrário, o Leão apertou o punho da katana e seu semblante ficou sério, estava pronto para atacar se fosse preciso.

― Estas espadas pertencem à Seppun Ayumu! – Outro homem rosnou – Devolvam ou encontrem a sua morte, ladrões!

Meus olhos riscaram o ar na direção do homem, seu espírito de luta ganhou força ao notar minha atenção. Olhei profundamente nos olhos dele o avaliando, mas ele logo os desviou, pois, uma gota de suor escorria por seu rosto, demonstrando nervosismo. Aquele homem não estava seguro do que falava. Baixei lentamente os olhos para suas roupas vendo as indicações que precisava, logo olhei para a sua arma, descendo pela bainha da espada e meu sorriso tornou-se mais largo.

Karasu estava tenso o tempo todo, eu diria mais tenso que até os próprios Seppun. Ele queria resolver tudo de forma pacífica e mesmo não sendo muito bom em ler as entrelinhas das emoções que circulavam em uma discussão, ele sabia que a situação não estava a nosso favor ali. Ele olhava nervoso para os homens e, num estalo, olhou para mim. Ele tremeu um pouco com a lembrança e suspirou aborrecido. Já havia visto-me sorrir daquela forma triunfante e achou que a situação estava ainda pior agora.

― Isso é engraçado, meu caro – eu olhei para o outro homem e apontei para o símbolo na arma – Eu não sou nenhum estudioso da heráldica, mas esse não me parece o mon dos Seppun. Parece-me o mon da Garça, você pode confirmar para mim, nobre Leão?

Assim como todos os outros, Akodo Ryu foi pego de surpresa, seus ombros tremeram e ele olhou para mim por cima deles.  Seu olhar era de “Por que você está me puxando para dentro disso? ” e eu apenas sorri sussurrando, “Apenas me siga”. Ele suspirou e virou-se para olhar bem para o homem, olhou para as roupas dele e para a sua arma. Seus olhos também passaram por todos os companheiros do Seppun e confirmou o que eu estava falando. Virou-se então para olhar a espada que estávamos recuperando e rapidamente reconheceu os símbolos que permeavam o cabo.

― O símbolo dessa espada é bem diferente do que está em seu peito, homem – o Leão disse firme, forçando o homem a dar um passo para trás – Além disso, eu posso reconhecer o símbolo pessoal de Doji Haruki nessas espadas.

― Agora... – eu sorri colocando o indicador contra meu nariz – quem será o real ladrão dessas espadas, meu caro senhor?

A expressão de raiva foi tomando a expressão de muitos deles em efeito dominó. Eles olhavam para mim já decidindo quem seria o primeiro a morrer. Pobres coitados, eles acham que é fácil tocar em mim. O homem que iniciou toda essa discussão sacou sua espada, mas as correntes invisíveis e poderosas da autoridade esmagaram ele quando Ayumi calmamente ergueu a delicada mão e deu um passo a frente.

― Sinto muito por meu servo não ter colocado isso de forma mais clara – ela disse suave e cheia de ternura – De fato, essa espada pertence à Doji Haruki, porém, circunstâncias extraordinárias exigem que esta espada retorne ao meu pai.

Os guardas de Ayumi agora ficaram cheios de si quando sua senhora tomou a frente das “negociações”. Ela era da alta nobreza do Império, uma princesa dentro dos próprios Seppun, seu Status era muito maior que de qualquer um dali. Para nós, suas palavras eram lei e deveríamos segui-las por uma questão de etiqueta, afinal, a hierarquia deve ser seguida no Império ou viramos anarquia. Nenhum de nós moveu-se para atender seu “pedido”, porém, e mesmo que quiséssemos, não poderíamos.

Demos nossa palavra à Doji Haruki que traríamos sua Daisho de volta a sua pose e levaríamos a Ladra à justiça. A primeira parte poderia até ser complicada, mas a segunda era impossível. Apenas alguém tão honrado que nem mesmo quando os céus fossem abalados com a desgraça voltaria atrás, acusando abertamente alguém com maior Status de cometer um crime tão vil e, mesmo assim, provavelmente não adiantaria de nada. Como eu já havia lhe contado no início dessas Memórias, nem mesmo a palavra de mil pessoas teria o mesmo peso de alguém de Status superior.

Teoricamente falando, alguém que tenha uma honra tão alta quanto o céu poderia acusar livremente alguém superior, pois presumisse que alguém com tanta honra jamais acusaria injustamente outrem. Honra, no entanto, é algo muito pessoal, o que para alguém pode ser muito honrado para outro não é, logo, alguém esperto pode utilizar desse meio para anular uma acusação, até mesmo do bravo Akodo, o fundador do Clã Leão. Foi por esse motivo que apenas alguém extremamente honrado seria louco o bastante para tentar acusar alguém de Status maior.

― A senhorita fala da maldição? – Kuni Karasu perguntou.

A pergunta do Shugenja espantou todos eles, suas expressões tornaram-se frias e agressivas um momento depois e alguns deles até sacaram as armas. Mesmo Seppun Ayumi que estava complacente o tempo inteiro, ficou inquieta e assustada pela pergunta de Karasu. Sua respiração ficou alterada enquanto ela decidia o que deveria fazer, acalmou-se e ergueu a mão fazendo os que já estavam prontos para brigar acalmarem-se.

― Então, o Mestre Kuni já está sabendo sobre a maldição... – ela baixou os olhos com uma expressão triste – Infelizmente, eu devo seguir as ordens de meu pai.

― Você diz sobre matar qualquer um que sabe sobre a maldição? – eu perguntei com um sorriso.

Todos se viraram para mim naquele momento, e meus companheiros me olhavam com os olhos arregalados e cheios de dúvidas. Eu conseguia ver raiva neles, mas não era meio óbvio que essa ordem havia sido dada? Seppun Ayumu era um homem importante e mesmo que não pudéssemos acusá-lo abertamente sobre o roubo, trar-lhe-ia vergonha que ele ordenou roubarem o presente que ele deu para alguém, mesmo que fosse um presente amaldiçoado. Ser um presente amaldiçoado era ainda pior para a sua reputação, pois demonstraria que não havia nenhum cuidado de sua parte antes de dar um presente.

Eu posso entender que a forma como perguntei pode ter deixado a desejar sobre qual lado eu estava nessa história. Para mim, no entanto, aquela história fazia tanto sentido que chegava até a doer toda aquela desconfiança por parte de meus companheiros. Ora, eu estava com eles o tempo todo, entendo o preconceito de qualquer um, afinal o meu Clã deseja isso, mas dai eles desconfiarem que estou envolvido já era demais para mim.

― Vejam a situação como um todo. – eu disse suspirando e comecei a apontar – Aqueles dois homens estão nervosos demais, e olham para os companheiros o tempo todo. Aquelas duas já decidiram a ordem que vão atacar. Aqueles três já decidiram que mataram Seta primeiro, por ter ousado disparar contra Ayumi-sama e o último está apenas esperando ordens dela. Ayumi-sama tentando resolver a situação pacificamente sem causar derramamento de sangue desnecessário, mas agora que a maldição foi descoberta ela não pode simplesmente nos deixar ir embora. Deu para notar isso pela expressão que ela fez quando Karasu deu com a língua nos dentes sobre a maldição.

Os guardas ficaram bem inquietos quando revelei tudo aquilo. Eles já tinham ouvido falar que Escorpiões tinham habilidades “mágicas” para lerem as pessoas. Não acreditavam nessas histórias, mas agora que viram com os próprios olhos, eles estavam espantados. Essa habilidade não tinha nada de mística, era apenas resultado de um árduo treinamento, pois quando aprende a mentir e detectar mentiras, um Escorpião aprende a observar atentamente.

Depois de tudo aquilo, agora com meus companheiros calmos e não duvidando mais de qual lado eu estava, eles viraram para encarar o inimigo novamente. Eles estavam balançados com as minhas palavras, no entanto, o silêncio pairava no ar. Ninguém queria fazer o primeiro movimento e tomar para si a culpa de ter assassinado pessoas que estavam ali apenas para cumprir o seu dever. Uma das mulheres resolveu tomar a frente, apontou uma flecha em minha direção me ameaçando.

― Já que vocês entendem a situação, nos devolvam essa coisa – a mulher disse autoritária.

Eu imediatamente baixei meu corpo tencionando meus músculos, mesmo que fosse uma flecha ainda era possível desviar. Meus olhos ficaram fixos nos braços dela e acabei ficando surpreso quando tive a visão bloqueada por uma grande massa. Pisquei até que notei Akodo Ryu entre mim e aquela mulher. Seu polegar soltava a katana de sua saya enquanto ele estendia a mão para me impedir de fazer qualquer movimento precipitado. Passei os olhos para todos ali e vi Hiruma Seta com o arco tensionado apontado para aquela mulher e uma flecha perigosamente apontada para sua cabeça. Kuni Karasu puxava de sua bolsa de feitiços um pergaminho com as bordas pintadas de vermelho em formato de chamas, e Hiato me olhava fixamente. Seu olhar era acusatório, ele claramente pensava que toda aquela situação era culpa minha talvez, só talvez, ele não estivesse muito longe da verdade.

― Infelizmente, Ayumi-sama, essa daisho terá de voltar para o seu dono – Akodo disse firme – o roubo que cometeram será relatado, mas creio que infelizmente não teremos muito o que fazer sobre isso.

― Como você ousa acusar senhorita Ayumi de roubo? – um homem disse furioso – Que provas você tem?!

Eu sorri e puxei um pedaço de tecido de um bolso, e do outro eu puxei uma pequena trouxa, abrindo mostrei uma atadura manchada de sangue. De onde eu tirei essas coisas? Do meu bolso, eu acabei de disser isso. Ah, você quer saber como ela chegaram ali. Bem, eu irei suprimir a resposta óbvia. O tecido eu peguei depois que Kuni Karasu me contou sobre a mulher, ainda na mansão de Doji Haruki, e a atadura eu consegui no quarto que a arqueira tinha alugado em Wachimasu. Será que eu não tinha dito isso? Ora, essa história já é antiga, perdoem-me se não contei antes. Ao mostrar o pedaço do tecido, percebi o olhar daquela mulher vacilar e tentar afastar-se. Aquilo era claramente um pedaço da manga de seu quimono que estava rasgado e algumas ataduras ensanguentadas podiam ser vistas. Ela cobriu rapidamente o ferimento, mas já era tarde demais.

Kuni Karasu olhava com repulsa, vendo que eu segurava uma atadura ensanguentada. Eu até mesmo achei que ele iria dizer algumas palavras repulsivas naquele momento, mas ele ficou quieto. Eu devo contar depois a vocês o motivo de tanta repulsa, é uma história triste. Lembrem-me mais tarde, por hora vocês podem ficar na curiosidade.

― Isso não prova nada...! – a mulher gaguejou olhando com espanto.

― A senhorita não entende como funcionam as investigações no Império? – eu ri, dando um passo para frente - Isto é prova mais do que suficiente para acusá-la pelo roubo. Além disso, essa mulher é subordinada de Seppun Ayumi, seu crime é responsabilidade de seu Lorde.

 ― Ayumi-sama não perda seu tempo discutindo com esses tolos – a mulher ao lado de Ayumi falou – Nós temos ordens de vosso pai, esses homens devem morrer.

Meus companheiros levantaram suas armas e Akodo deu um passo para trás e sussurrou algo para mim. Arregalei meus olhos e puxei-o para perto de mim pela armadura, “Você está me mandando fugir? ”, eu respondi com um sussurro. “É o único jeito de termos uma chance, eles não são como aqueles bandidos”, ele respondeu desvencilhando-se de meu puxão. Olhei para cada um deles e suspirei, o Leão tinha razão. Separá-los era a melhor solução para nossa sobrevivência e, com sorte, talvez, apenas dois me seguissem. Puxei uma de minhas espadas e me preparei para o combate.

― Os senhores não desejam reconsiderar sua resposta? – Ayumi perguntou, puxando lentamente sua katana.

― Talvez a senhorita queira reconsiderar o tipo de vergonha que está fazendo os Seppun passarem – Akodo Ryu falou, ficando na minha frente.

― Agora isso já foi demais, Leão! – um dos homens gritou correndo em nossa direção.

Os outros guardas seguiram o exemplo do companheiro e partiram para cima, apenas uma ficou disparando de longe com suas flechas. Hida Hiato foi o primeiro a balançar seu machado, seu pesado golpe atingiu a armadura de um dos guardas e com um som estridente ele foi jogado para o chão. Aquele golpe deveria ter lhe quebrado algumas costelas, pois o homem urrou de dor, enquanto rolava pelo chão. Ele balançou o machado acima da cabeça para terminar o que tinha começado, mas uma lança atravessou seu ombro. O Hida sentiu quando a lâmina raspou em seu osso e quase lhe partiu em pedaços. Ele foi forçado, pela primeira vez em sua vida, a dar alguns passos para trás por um humano.  Cerrou os dentes para amenizar a dor e desferiu um golpe do machado na lança. A arma pesada partiu o cabo de madeira da lança. Ele urrou de dor quando puxou a lâmina de seu ombro e olhou para o inimigo cheio de ódio.

O guarda jogou o cabo da lança no chão e levou a mão ao cabo da katana, mas parou. Um fio de sangue escorreu lentamente por seu rosto e ele levou a mão para tocar o incômodo que tinha na testa. Seus olhos então giraram em órbita e ele caiu no chão morto com uma flecha entre as sobrancelhas. O Hida levantou o machado com uma mão e desferiu o golpe de misericórdia no guarda, que teve as costelas quebradas.

Akodo Ryu tinha levantado os braços para defender-se das flechas que vinham em sua direção, e os projéteis resvalavam em sua armadura metálica, produzindo faíscas. Dois homens partiram para cima dele atacando ferozmente. O Leão era um hábil lutador, não há nenhuma dúvida quanto a isso, porém, lutar contra dois sozinho pode ser demais, mesmo para um Leão, e Kuni Karasu pensou nisso. Quando o Leão foi atacado pelos dois, o shugenja usando seu bastão foi defletindo alguns ataques e atrapalhando um deles da melhor forma que podia.

Esta foi a minha deixa, com dois mortos e muitos já envolvidos demais com a batalha deu-me a oportunidade perfeita para fugir. Passei por trás do Hida que olhou para mim por cima do ombro e acenou com a cabeça. Saltei nos arbustos e continuei correndo por alguns segundos sozinho, até que ouvi alguém correndo atrás de mim. Olhei por cima do ombro e vi, alguns metros a frente de Seppun Ayumi, um homem segurando um machado que corria furioso. Olhei para frente com um sorriso e parei. Virei-me de frente para o homem que já estava a pouco menos de um metro de mim, e joguei a daisho para ele.

O homem piscou sem entender e estendeu os braços para pegar as espadas, esse foi o momento perfeito. Em sua distração, minha lâmina disparou entre o seu piscar de olhos e ele só notou quando foi tarde demais. Avancei em sua direção e a espada atravessou sua garganta cortando sua pele que não ofereceu nenhuma resistência. O homem arregalou os olhos assustado e seu corpo ficou tenso, sua morte já não demoraria e ele sabia disso, poderia pelo menos usar seus últimos segundos para ajudar sua senhora. Ele agarrou meu pulso com um aperto de ferro, para que eu não conseguisse fugir facilmente.

Ayumi viu tudo acontecer rápido demais, distante e impotente, tudo o que pôde fazer foi gritar desesperada quando seu guarda foi decapitado por mim. Chutei seu corpo enorme, o afastando, e ouvi os passos dela ficando mais rápidos em minha direção. A expressão gentil que ela teve o tempo todo durante aquela noite fora substituída por raiva. Sua espada deixou, como um raio a bainha, e ela a ergueu acima da cabeça. Ela então desferiu um golpe poderoso em minha direção, dando um grito Kiai para puxar toda a sua força.

Cruzei minhas espadas acima da cabeça, pensando ser o suficiente para deter suas espadas, mas eu estava muito enganado. Eu tinha calculado errado o quão forte ela ficaria ao adicionar a raiva como fator e, apenas no último segundo, eu me dei conta desse erro. Aquelas frágeis espadas não seriam suficientes para deter sua fúria. Seu golpe acertou pesadamente minhas lâminas, que se partiram com gravetos. O balanço continuou, até que sua espada penetrou meu ombro, cortando profundamente até atingir o osso. Gemi de dor e abri as mãos para soltar os cabos de minhas espadas quebradas. Senti quando ela quis aprofundar ainda mais o corte e mesmo naquele momento eu pude sorrir.

Antes ela falava que não queria matar ninguém, pois desejava evitar um derramamento desnecessário de sangue, mas agora ela desejava a minha morte com todas as suas forças, e me partiria no meio se continuasse daquela forma. Levantei o braço acertando seus pulsos de baixo para cima, mesmo sentindo uma dor colossal no ombro, e ela afrouxou momentaneamente, dando-me uma oportunidade de fugir. Chutei-a na barriga e, ao mesmo tempo, dei alguns passos para trás sentindo a lâmina fria abrindo ainda mais o corte, deixando o sangue forrar por meu braço. Longe o bastante dela, puxei a cabaça de meu bolso, ela lembrava muito bem o que era aquilo, já tinha me visto usar poucos minutos atrás. Ela avançou novamente cortando o ar em minha direção.

Desviei por pouco daquele golpe que dessa vez eu tinha certeza que me cortaria ao meio. Olhei para ela e vi que logo iniciaria outro balanço com ainda mais força. Não teria como desviar daquele ângulo, mas seu flanco estava todo aberto para mim. Saltei girando meu corpo e então a chutei bem entre as costelas. Ela, no entanto, moveu um pouco o braço direito para amortecer o impacto. Sua defesa foi feita de mal jeito e ela gritou, afastando-se ao ter o braço levemente deslocado. Aproveitei essa chance e me afastei o suficiente para ter tempo de usar a água, enquanto ela recolocava o braço no lugar.

Abri a cabaça e tomei um gole fundo sem tirar meus olhos dela, deveria estar pronto para um novo ataque a qualquer momento; havia cometido um erro mais cedo e não iria cometer outro. A água desceu quente por minha garganta e ardeu, quase como saquê arderia. Senti meu corpo ir ficando quente e logo o calor foi acumulando-se onde havia a profunda ferida. Ela foi fechando, pude sentir os músculos reagindo e movendo-se para se juntarem, fechando assim a ferida. Olhei para meu ombro e nem mesmo havia uma marca daquele corte, suspirei aliviado.

Eu estava agora desarmado, minhas espadas estavam em pedaços e não poderia lutar contra uma mulher tão hábil daquela sem ter como me defender. Ela olhava para mim de forma ameaçadora, deixando a espada entre mim e ela, parecia avaliar-me. Tampei a cabaça com os poucos segundos que tive e a guardei em meu bolso. Olhei para ela de cima a baixo sem encontrar nenhuma brecha em sua postura. Como diria minha mãe, se você não consegue encontrar uma brecha, crie uma. Ela me mataria se soubesse o que eu fiz para criar minha brecha, mas eu apenas usei o conhecimento que ela me deu. Você acha que estou errado?

Ayumi fechou os olhos respirando fundo e calmamente. Ela concentrou-se momentaneamente para seu próximo ataque e aproveitei aquilo. Levei minha mão para o bolso para agarrar minha ferramenta e fiquei em posição esperando-a avançar, mas ela foi rápida demais para acompanhar. Em um piscar de olhos ela já estava na minha frente, pronta para dar-me um golpe fatal. Seus olhos brilhavam perigosamente com a suave luz prateada do Vazio. Se eu já não estivesse esperando um ataque daquele tipo, eu não teria conseguido me recuperar a tempo de reagir.

Minha mão saltou de dentro das roupas com um pó acinzentado acumulado à palma da mão. Acumulei um pouco de ar nos pulmões e meus lábios partiram-se. Ayumi arregalou os olhos quando viu aquele pó e interrompei seu ataque cobrindo o rosto com um braço. Virei, então meu corpo, dando um chute em seu estômago desprotegido. O golpe foi muito mais poderoso que o esperando, além de usar a força de meu chute, ainda teve adicionado a força do golpe dela. Minha perna tremeu e adormeceu com o forte impacto e a vi tossir uma golfada de saliva. Ayumi ficou branca e afastou-se vários passos. O ar lhe abandonou e fraca ela caiu de joelhos. Ela tossiu bastante antes de desesperadamente começar a puxar novamente o delicioso ar que faltava. Guardei o pó em uma bolsa de couro em minhas roupas e afastei-me alguns passos dela.

― Isso foi baixo, Escorpião – ela disse com dificuldade, tossindo algumas vezes.

― Eu apenas lhe mostrei aquilo – eu sorri - o que achou que eu iria fazer? Jogar em seus olhos?

Eu já esperava que ela soubesse o que faria com aquele pó. Ela deveria ter visto a luta contra os bandidos o tempo todo e eu apostei nisso. Para mim não fazia nenhuma diferença se ela tinha visto ou não, eu teria me ajustado conforme a situação pedisse. Ela deveria ter esperado nas sombras, o tempo todo esperando que os bandidos cuidassem de nós sem muitos problemas, eles estavam em maior número. Ela não deveria esperar que fossemos derrotados pelos bandidos, mas provavelmente esperava que saíssemos feridos demais para querer lutar contra ela depois se precisasse. Infelizmente, seu plano não saiu como esperado.

Ela levantou-se trêmula, enquanto me olhava enraivecida e não tirei a razão dela. Suas mãos tremiam mal conseguindo manter a espada entre nós dois para me deixar longe.  Eu havia acertado um local bem específico, um ponto de pressão como costumam dizer por aí. Aquele lugar a deixaria com a respiração desregulada por alguns instantes. Deixaria o alvo incapacitado tempo o bastante para tirar sua vida. Impiedoso e cruel de minha parte, eu sei disso, não preciso que você fique me aborrecendo por esse motivo. Naquela luta, eu não podia perder; Eu estava enfrentando alguém muito mais forte, devo admitir isso, mas tendo a premissa que não podia perder, truques eram obrigatórios.

― Não tenha pressa – eu disse, olhando diretamente em seus olhos – Eu não irei fazer nada enquanto você não puder lutar apropriadamente. Diferente do seu companheiro morto, eu prefiro uma luta mais justa.

“Onde eu estou com a vantagem”, pensei. Ela foi respirando profundamente até que foi lentamente acalmando-se, mas ainda tinha problemas para manter-se de pé. Ela apertou as mãos trêmulas no cabo da espada e ficou olhando para mim séria. Ela estava já suada e eu podia notar o estrago que aquele golpe tinha provocado nela. Parecia com dificuldades para manter a própria consciência, além do visível incômodo em seu estômago.

― Eu agradeço sinceramente por ter esperado – ela disse estreitando os olhos – Agora, saque sua espada.

Eu suspirei olhando para os cabos das minhas espadas jogadas na grama e os fragmentos do metal ruim. Voltei a olhar para ela e mesmo que ela dissesse já estar pronta para outra luta, seu corpo não estava. Seus ombros tremiam e a ponta da espada ficava subindo e descendo em um esforço inútil de se manter em guarda. Talvez aquele golpe tenha mexido com ela muito mais do que eu esperava. Ela deveria ter esquecido que tinha me desarmado quando eu matei seu companheiro em um surto selvagem de raiva. Quase levando minha cabeça no processo. Olhei para ela com um sorriso e balancei a cabeça, enquanto apontava para os cabos jogados no chão.

― Minha senhora parece não se recordar que estou desarmado, no momento – eu disse voltando meus olhos para ela.

Ela franziu o cenho, visivelmente confusa com a minha resposta. Pisquei ainda mais confuso que ela quando a vi daquela forma. Então, apontei para as espadas que estavam no chão para ela. Ayumi olhou-as, mas continuou com a expressão confusa. Ela logo olhou para mim e depois desceu os olhos para minha cintura onde haviam outras duas armas apenas esperando para serem usadas. Eu arregalei meus olhos sem acreditar, aquela menina estava falando sério?

― Do que está falando, Escorpião? – Ela perguntou– Não há duas em sua cintura?

Eu passei os dedos sobre a espada em minha cintura, apenas para ter certeza. Aquela menina estava falando sobre as espadas de Doji Haruki. Ela estava ficando louca? Sua boca estava sendo controlada por uma pessoa totalmente diferente da Nobre Seppun Ayumi? Ela não conseguia ouvir as próprias palavras que estavam sendo vomitadas por sua boca? Usar as espadas de outro Samurai?

― Você perdeu completamente o senso do certo e do errado? – disse em um tom frio, enquanto a olhava e ela piscou ainda mais confusa, mas não porque ela não parecia saber o que estava falando, mas por causa de minha recusa – Usar a arma de outro Samurai sem sua permissão é considerado crime, mesmo em tempos de emergência. Você quer que a vergonha recaia sobre mim?

― O que fará, então? – ela sorriu ironicamente – Pretende esperar pacientemente por sua morte?

Ela estava certa, eu não tinha muitas opções. Eu apenas ri quando percebi que ela estava sendo lógica e eu não, mas ainda assim era impossível. O que ela estava achando que eu era? Um Escorpião? Espere... Eu sou um Escorpião. Balancei a cabeça, ela provavelmente deu esta opção porque sabia que um Escorpião seguiria qualquer caminho que levasse à sobrevivência e ela não estava enganada. De fato, um Escorpião agarrar-se-ia a qualquer coisa que mantivesse sua cabeça sobre os ombros, mas eu tinha minha própria forma de fazer aquilo. Meu sangue de Leão não permitiria escolher deliberadamente uma opção tão covarde. Suspirei fundo, lutar de mãos vazias contra uma Samurai-ko habilidosa como Ayumi estava fora de questão, eu iria simplesmente entregar meus braços para que ela os cortasse fora. Eu poderia fugir, mas na melhor das hipóteses todos aqueles que eu deixei para trás seriam mortos. Seus espíritos poderiam me amaldiçoar de alguma forma e a voz de minha mãe nunca me deixaria dormir novamente.

Respirando fundo, puxei duas adagas de dentro do Kimono. Essas armas se chamavam Sai, usadas principalmente pelos ninjas que se via muito pelo Império. Essas armas se assemelham muito ao objeto que o Unicórnio trouxe das terras Estrangeiras, o garfo, mas a lâmina central era maior que as outras duas. Sua finalidade era desarme e para passar por entre as brechas nas armaduras, girei-as entre os dedos e corri em direção a Ayumi.

Akodo Ryu estava encharcado de suor e sua armadura trincada em vários lugares. Ele sentia o corpo se recusando a mexer. Sua armadura agora atrapalhava ao invés de ajudar. Passou os dedos nas tiras de couro e sentiu um profundo alívio quando o peitoral de metal caiu ao chão fazendo um enorme barulho. Ele olhou para os outros e viu no momento que Hida Hiato caiu ao chão, em seu peito um corte nascido do ombro e percorrendo todo o dorso até a cintura. O Caranguejo cuspiu sangue e ainda tentou balançar o machado enquanto caía, mas a força deixou seu corpo gigante. Ele caiu com um enorme baque e morreria se alguém não o ajudasse logo. O Leão tinha ficado aliviado quando eu sumi, mas depois de ver Ayumi e outro guarda correndo atrás de mim, ele sentiu um calafrio percorrer a espinha. Mesmo que agora houvessem apenas 5 para lutar, eles ainda eram fortes o bastante para darem dor de cabeça.

Hiruma Seta lutava habilmente contra um espadachim, mas ainda estava muito fadigado da luta anterior. Não havia como negar que lidar contra trinta pessoas era demais e exigiu muito de todos nós. O Hiruma conseguiu a vantagem quando acertou um golpe de sorte no pulso do adversário e conseguiu algum tempo para recuperar o ritmo. A disparidade entre eles foi ficando cada vez maior e o rastreador deu-lhe um golpe abrindo seu estômago. No ultimo momento da chama de sua vida, o guarda perfurou a perna de Hiruma Seta e caiu ao chão com suas tripas espalhando-se pelas folhas secas. O Caranguejo bateu as costas contra uma árvore e o suor descia por seu rosto pálido. Ele tinha perdido muito sangue e sentia a cabeça ficar zonza, dando uma tapa no próprio rosto para manter-se acordado. Cair desmaiado agora seria desastroso.

Ele sentiu a katana escorregar por entre os dedos trêmulos e tentou pegá-la, mas a fraqueza acometeu suas pernas e ele acabou caindo de joelhos. Ao bater ao chão, ele sentiu uma dor excruciante em sua perna. Lembrou-se da espada que estava cravada em sua perna e gemeu levando as mãos para ela. Puxou uma vez, mas não tinha como tirá-la dali naquele momento. Ouvindo os sons das lutas que ainda continuavam. Levantando os olhos e viu que Kuni Karasu estava com problemas. Ele sentiu-se impotente quando se lembrou de ter perdido o próprio arco e olhou pelo chão. Ali jogado estava um arco bem ruim, mas já servia de alguma coisa. Mover-se era doloroso, mas a perda de um Irmão seria ainda maior.

Moveu-se lentamente, tentando evitar ferir ainda mais a própria perna, mas quando viu ser impossível ele passou a ignorar. Ele podia sentir a pele sendo aberta ainda mais, os músculos sendo rasgados e a lâmina fria roçando em seu osso, mas aquilo não importava agora. Eu sei, esse tipo de dor deveria ser impossível de ignorar, certo? Ele é o Caranguejo, esse tipo de dor não é nada comparado a que podem passar nas Terras Sombrias, então ele deveria aguentar como um bom Filho da Muralha. Pegando o arco, ele puxou uma flecha, ficando de pé com dificuldade. Puxando com força a corda do arco, o Hiruma sentia os músculos gritando em protesto, desesperados para ter algum descanso, mas o Samurai não os escutava, ele tinha algo mais importante para fazer do que descansar. Nada além de seu coração, que batia violentamente, podia ser ouvido. Ofegante, Hiruma Seta sentia a cabeça rodar e a visão falhar. O silêncio era enlouquecedor.

O caranguejo não sentia mais seu corpo. O arco não tinha mais peso em seus braços nem sentia a aflição de seus músculos. O sangue ainda escorria por suas feridas, mas já não havia mais calor. Parecia um espectador do próprio corpo. Não havia mais controle, não chegou a mirar, tentou impedir, mas a flecha disparou-se sozinha. Ele praguejou quando viu metade dela sair da flecha, mas não conseguiu ver o resto, mergulhando na escuridão da inconsciência.

Por Yamimura | 12/08/18 às 12:33 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror