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Memória 07 - O Beijo do Aço.

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 07 - O Beijo do Aço.

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Kuni Karasu defendia-se dos ataques incessantes daquela mulher com dificuldade. Seus braços tremiam a cada impacto, mesmo que o shugenja tenha treinado bastante, ele ainda não estava acostumado a lutar daquela forma. O bastão de madeira do Kuni estava completamente marcado com talhos profundos feitos pelos ataques da mulher. Para a sua sorte, aquele bastão era feito de uma madeira muito resistente que existia nas terras do Caranguejo ou ele já estaria defendendo-se com a própria pele. Karasu pensou em invocar o favor dos espíritos várias vezes, mas a mulher não lhe dava brecha. Seus ataques eram rápidos demais para permiti-lo tirar uma ofuda da bolsa de feitiços e entoar a prece. Karasu em um momento de desespero defendeu-se com o bastão acima da cabeça e conseguiu desarmar a mulher. Ela praguejou e desfiando de um golpe na cabeça afastou-se para pegar a espada no chão.

Aquele era o momento perfeito, mas o shugenja não achava que teria tempo. Com o canto do olho ele viu Hiruma Seta lutando contra a própria fadiga, e apontando uma flecha para aquela mulher. Era ariscado, mas ele teria que apostar. Afastou-se alguns passos, levando a mão para a bolsa com seus pergaminhos e trazendo um para fora, começou a invocar o beijo das chamas. Karasu precisava que Hiruma Seta acertasse aquela flecha ou o invocador estaria apenas entregando sua vida.

Afastou esses pensamentos nefastos e concentrou-se em sua prece. O mundo parecia estar cinza aos olhos daquele homem, enquanto apenas as sílabas dançavam como fogo sobre o papel quando ele lia-as. As chamas iam reunindo-se em sua mão lentamente, formando a esfera bruxuleante. Com a espada de volta em suas mãos, a mulher abriu um largo e pervertido sorriso. Aquele shugenja deveria estar louco, como poderia pensar em invocar um feitiço quando tudo que ela tinha que fazer era esticar o braço e lhe cortar ao meio? Ela avançou com o sabor da vitória em sua boca, mas logo chegou à distância de sentir a respiração do Caranguejo. Uma dor lancinante penetrou através de sua pele tirando sua concentração de seu alvo por um segundo. Ela viu uma flecha cravada entre suas costelas. Ouvindo um bague surdo, ela virou-se em tempo de ver uma pequena nuvem de poeira erguer-se quando Hiruma Seta caiu desmaiado e, nenhum outro som. Ela arregalou os olhos quando notou não ouvir mais nada.

Ao olhar, a mulher viu apenas um clarão. Uma gigante bola de chamas a dois dedos de seu nariz. A esfera tinha duas vezes o tamanho da cabeça dela. As chamas engolfaram-na completamente e o chiado de sua carne sendo devorada pelas chamas avermelhadas podia ser escutado ao longe, no silêncio daquela floresta. Os gritos dela cortariam meu coração se eu estivesse ali para escutá-la, mas Karasu manteve-se firme. Aquela mulher era uma inimiga que tentou matá-lo desde o início, não havia espaço para se sentir culpado. Ele virou-se para os outros, mas pagou caro por aquilo. Mesmo que a morte já estivesse ali para busca-la, a mulher teria certeza de dar um brinde junto com sua vida. Ela pulou contra o shugenja talhando suas costas. O corte foi extenso, do ombro até a cintura. Karasu gritou de dor, tombando para frente e apoiou-se em seu bastão. Ele virou-se, mas a mulher já tinha caído morta. O sorriso daquele cadáver tostado por suas chamas atormentou seus pesadelos até pouco tempo atrás.

Ele respirou fundo apertando os dedos no bastão para não cair e voltou sua atenção para o Leão, que estava tendo uma batalha difícil. Ele estava sem armadura e com feridas profundas por todo o corpo, mas mesmo sob tantas feridas, aquele homem não se abalava. Sua espada ainda estava tão firme quanto estivera no início da batalha, e seus olhos ardiam com uma determinação flamejante. Mesmo ofegante e lutando contra dois homens, o Leão mostrava porquê fazia parte do Clã mais bélico do Império. Defendendo os ataques e mesmo sob a chuva de golpes achava oportunidades para atacar.

O Kuni fechou os olhos e puxou outro pergaminho. Seus olhos brilharam em um azul gentil, enquanto ele estendia a mão para o companheiro Leão. O Akodo sentiu as forças voltando para o corpo e parecia até mais leve. Olhando do canto do olho, notou que o shugenja estava o ajudando e ficou grato por aquilo, mas assim como ele, aqueles dois também perceberam. Um deles precipitou-se para atacar o Kuni, mas foi impedido quando Ryu chutou sua perna. O homem tentou equilibrar-se, mas falhou e acabou de joelhos. Em um instante, o Leão fez dois cortes profundos em seus braços, forçando-o a soltar sua arma e, com uma poderosa coronhada, deixou-o inconsciente.

Impressionado com o próprio feito, inspecionou-se rapidamente. Seu corpo ainda estava coberto de feridas graves, mas ele não estava sentindo-as mais naquele momento, e sua pele tinha um fraquíssimo brilho azulado.  Não havia tempo para ficar impressionado com a magia de Karasu. Akodo apertou o punho da katana e avançou contra o outro homem. Os dois digladiaram-se violentamente, enquanto feridas ainda mais profundas abriam-se em seus corpos. O sangue espirrava a cada balanço da espada e a grama já estava completamente encharcada com o fluido carmesim. O guarda lutava bravamente, porém, não tinha o auxílio de mais ninguém ali e, logo foi ficando mais fraco até que seus braços mal conseguiam empunhar propriamente a katana. Respirando junto, ele emitiu uma aura prateada pelos olhos e atacou Akodo Ryu. O golpe abriu uma ferida em sua perna colocando-o de joelhos e o Leão sentiu todo o enfado daquelas lutas sobre o corpo.

Karasu estava ofegante e apoiavasse com as mãos nos joelhos, enquanto seu rosto estava pingando de suor. O guarda Seppun estava completamente acabado, mas seu dever falava mais forte. Ele conhecia algumas coisas sobre feitiçaria e sabia que deixar um shugenja poderia curar. O brilho prateado veio mais uma vez a seu olhar quando ele correu na direção de Karasu. Ele precisaria eliminar aquele homem ou ele poderia curar os outros e partirem atrás de sua senhora. Era uma pena matar alguém que poderia se comunicar com os espíritos. Mesmo sendo possível, apenas uma criança em mil nascia com esse dom. Um shugenja morto era uma grande perda para um Clã, mas tinha de ser feito. A vida de sua senhora era muito mais importante que daquele homem. Karasu colocou o bastão entre eles dois, acima da cabeça, defendendo o ataque, mas aquele homem era forte demais.

O shugenja foi forçado a ficar de joelhos quando recebeu o golpe contendo todo o peso do inimigo e sentiu os músculos falharem, enquanto era forçado a recuar o bastão e ter a lâmina da morte mais próxima de seu pescoço. O inimigo relaxou a pressão por um segundo, levantando a espada e desferindo outro golpe. Dessa vez, o bastão de Karasu não tinha mais condições de suportar aquela força. O bastão foi cortado em dois e a lâmina pousou no ombro do shugenja, espirrando bastante sangue. Ele gritou de dor, sentindo o sangue quente escorrer pelo peito e encharcando seu quimono já completamente rasgado com os ataques anteriores. A visão do shugenaja estava embaçada e uma parte dela pintada de vermelho pelo próprio sangue que havia espirrado em seu rosto. Ele já não tinha forças para fazer nada, seu bastão destruído e seus braços negando-se levantar.

O algoz de Karasu já tinha os olhos brancos. Aquele homem já não estava mais consciente. Apenas seu Dever o mantinha atacando. Quanto a lâmina atingiu o ápice, o invocador fechou os olhos esperando a excruciante dor final recair sobre seu corpo moribundo. Ele lembrou-se de sua promessa depois que foi amaldiçoado e ficou com raiva de si mesmo por não conseguir cumprir sua palavra, mas não havia nada que pudesse ser feito. Seu corpo já não o obedecia e mesmo tentando com tudo o que ainda lhe restava, apenas um ou dois dedos se moviam. Como ele pararia uma lâmina afiada com frágeis dedos? Ele teve vontade de rir, mas não podia. Restava-lhe apenas esperar, esperar para que os espíritos o levassem para suas terras ancestrais, onde ele poderia se culpar por seu fracasso e esperar que o destino o agraciasse com uma nova vida. A dor da morte nunca veio, no entanto.

Ouvindo um som estranho seguido de uma sensação quente em seu rosto, Karasu despertou de seus desvaneios. Ele piscou, levando a mão ao rosto e viu que estava coberto de sangue. O nojo veio a seus pensamentos, mas foi interrompido pelo som grotesco de carne sendo cortada. Um baque violento seguido por um gemido de dor desviou sua atenção. Seu carrasco estava caído por cima de alguma coisa e essa coisa gritou por ajuda.

― Karasu! – O Akodo tossiu – Me ajude aqui!

Ryu debatia-se sob o corpo do homem morto tentando se livrar daquilo. Pegar em carne morta era um tabu nas Terras Imperais, pois a religião tratava como algo impuro e profano. Nenhum Samurai ousaria fazer aquilo, mas aquela era uma situação extraordinária. Karasu catou os pedaços de seu bastão e empurrou o corpo para longe do Leão, mas acabou caindo por cima dele.

― Era suposto que você me ajudasse – O Leão suspirou cansado.

― E quem vai me ajudar? – O Kuni ofegou, levantando-se com dificuldade.

O shugenja rolou para o lado tão cansado que esqueceu até mesmo de sua aversão à sujeira. Ambos ficaram em silêncio por um tempo, olhando para a imensidão negra do céu noturno e ouviam o mar das folhas que eram balançadas pela brisa gelada. Karasu limpou a garganta, engolindo um pouco de saliva e suspirou cansado, sua voz era quase falha quando ele comentou:

― Espero que aquele Escorpião tenha conseguido salvar a daisho ou tudo isso foi em vão.

― Mmmm... – O Akodo apenas gemeu – Nós devemos verificar os outros, eles irão morrer sem nossa ajuda.

― Nós vamos morrer sem ajuda... – Karasu disse gemendo.

De fato, eles iriam. A luta contra Ayumi tinha se arrastado por bastante tempo e eu já sentia meus braços dormentes por tantos ataques aparados. Eu prendia sua espada em minha Sai e tentava desarmá-la, mas Ayumi reagia mais rápido que o esperado. Girou a katana puxando para trás, quase tirando meu equilíbrio e então, estocou na direção de meu rosto. Desviei com a arma da outra e fagulhas eram geradas da fricção. Aproveitei o movimento e estoquei com a ponta contra a garganta dela, mas Ayumi puxou a espada rapidamente e defendeu-se com o punho da katana. Ela preparou outro ataque, mas usando sua perna como apoio eu pulei dando uma pirueta no ar.

Ouvi o ar assobiando acima de minha cabeça, levei minhas mãos ao chão e girei mais uma vez, enquanto me afastava ouvindo outro assobio no ar. Por duas vezes ela errou seu ataque e por duas vezes eu ouvi sua língua estalar. Ao levantar os olhos, vi Ayumi avançando para um novo ataque. Dobrando os joelhos, alinhei meu tronco com o chão e desviei por pouco, quase perdendo o nariz no processo. Sim, você já deve ter percebido que eu pareço um macaco quando estou desviando, eu tento imitar alguns Samurais de um Clã menor, quase extinto nos dias atuais, mas é difícil me comparar a eles. Talvez eu devesse tentar roubar suas técnicas, mas agora estou impossibilitado, certo?

Senti as costas batendo no chão e tive que agir rápido. Ainda prostrado, chutei-a na perna, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio momentaneamente. Ela reagiu rapido mais uma vez, pulando ela pisou em meu estômago, fazendo-me cuspir todo o ar. Juro para você que eu sei que ela queria atingiu algo mais embaixo, porém eu, graças aos kamis, reagi no instante que percebi suas intenções maliciosas. Ela ergueu a katana apontando-a para mim e estocou contra meu peito, porém, consegui reagir e desviei de seu ataque, mas ainda senti a lâmina penetrar em meu ombro. Ignorando a dor, eu segurei seu calcanhar e finquei a Sai em sua panturrilha.

Ayumi afastou-se com um grito de dor, levando a mão para a perna ela retirou o metal dali, jogando-o entre os arbustos. Aquilo foi desnecessário a meu ver. Ela sabe quanto aquilo me custou? Eu teria a pele arrancada quando retornasse ao meu Clã reportando todas essas perdas. Ela tentou encurtar nossa distância, mas eu joguei a outra Sai em sua perna pivô, durante a corrida e a fiz parar por um momento.

Aproveitei aquela oportunidade e puxei alguns instrumentos; em uma mão aquele mesmo pó de antes e na outra, duas esferas. Esperei ela aproximar-se novamente atacando e joguei o pó no ar. Ayumi ficou surpresa e protegeu o rosto, cobrindo com a manga do quimono. Joguei as esferas em seus pés e para disfarçar soquei-a no estômago. Ela sentiu o impacto e afastou-se um passo, e atacou sem olhar cortando apenas ar. Ela procurou-me e quando deu por si, eu já estava longe correndo dela. A menina praguejou e correu atrás de mim. Ela gritava coisas que não tenho ideia do que eram. Eu estava ocupado demais analisando coisas. Pode parecer que eu estou mentindo, mas haviam motivos por trás de minhas ações.

Eu não corria na minha velocidade total ou poderia facilmente fugir de suas vistas, lembre-se que ela estava com a panturrilha ferida de meu ataque. Ela não custou muito a me alcançar e desferir um golpe. O talho cortou apenas meu quimono, mas isso já indicava que eu estava no perigoso alcance de sua espada. Continuei correndo na direção de uma árvore. Coloquei o pé na árvore e comecei a subir, correndo em seu tronco, não ache que isso é coisa demais, eu não cheguei até a copa da árvore, eu não sou uma aranha.  Corri o bastante para saltar por cima da cabeça dela e desviar do seu ataque.

Quando saltei, balancei minhas mãos e por entre meus dedos, quatro agulhas metálicas saltaram. Olhei para Ayumi de cabeça para baixo, joguei as agulhas em suas costas. Ayumi virou-se rapidamente, arregalou os olhos quando viu aquelas agulhas indo em sua direção, mas sem piscar, ela desviou a maioria com a espada, no entanto, duas perfuraram seu ombro. Eu sorri, mas aquilo durou poucos segundos, foi quando notei uma adaga vindo em minha direção. Arregalei os olhos e segurei a lâmina com meus dedos, sentindo o corte e o sangue gotejar.

Eu assobiei espantado quando ela o fez. Aquela foi uma jogada difícil, não tenho certeza se eu conseguiria fazer algo como aquilo, mas nunca tentei, então não vamos tirar conclusões precipitadas. Talvez eu consiga se eu tentar. Por que não fazemos um teste agora? Não? Tem certeza? Por mim, tudo bem. Onde eu estava?

Quando pousei no chão, joguei a adaga nele e olhei para ela. Balancei minhas mãos novamente e mais seis agulhas saltaram para minhas mãos. Não tive muito tempo para pensar, apenas para reagir. Saltei para trás desviando do golpe dela e lhe joguei minhas agulhas. Ayumi usou sua espada para tentar defender-se, mas as agulhas voaram no ar muito rápido. Perfuraram sua pele branca como marfim, como uma pedra furaria água. Eu olhei fixamente para as agulhas, conferindo onde haviam acertado e fiquei satisfeito, sabendo que erraram por pouco meu alvo. Balancei mais uma vez e mais agulhas apareceram entre meus dedos e o sangue gotejava por elas.

― De onde tira tantas armas, Escorpião?! – ela disse com raiva - Você não parece desarmado para mim.

Eu ri com seu comentário e balancei novamente as mãos, fazendo as agulhas desaparecerem. Ela piscou confusa e deu um passo para trás novamente. Ela parecia achar que eu estava fazendo algum tipo de feitiçaria profana, pois a menina me olhava um pouco assustada. Sorri para ela enquanto a olhava tirar as agulhas travadas em seu corpo. Não havia mais diferença, o que estava feio estava feio, já era tarde demais para ela agora. Ela me olhava mantendo a guarda alta, mas suspirou aliviada porque a permiti ter tempo para tirar as agulhas.

― Mas eu estou desarmado. – eu disse dando um passo a frente– Ou será que essas pobres agulhas se comparam a essa espada em suas mãos?os Ayumi-hime -asso para trásença em alguns minutosca tentei então não vamo snpela pronasss com ra

― Você usa truques sujos para lutar...! – ela apertou os olhos e levantou a ponta da espada – Você deveria ter vergonha.

― Assim a senhorita me ofende. – eu sorri para ela.

A princesa dos Seppun avançou contra mim, desferindo uma série de ataques. Enquanto desviava por um fio de cabelo, as agulhas apareciam por entre meus dedos. Ela estava mais atenta a isso e continuou atacando para não me dar espaço de jogar minhas armas pontiagudas. Eu os desviava com maestria, ao contrário do meu corpo hoje, e este tipo de coisa não era muito agradável para um Ator. Aproveitando a brecha, quando ela tomou fôlego, depois de tantos ataques, afastei-me alguns passos. Ayumi tentou fechar a distância mais uma vez, mas sua reação foi muito lenta e me viu disparando quatro agulhas contra ela. A princesa sabia que não conseguiria alterar o curso delas, mas poderia em lugares críticos.

Ela cruzou os braços na altura do rosto e esperou por um ataque, que pareceu levar horas para acontecer. Ouviu os barulhos das agulhas acertando o chão e olhou para mim confusa. Um sorriso apareceu nos olhos dela. Eu estaria ficando cansado que começara a errar os ataques? Esse deveria ser o pensamento dela, mas seu sorriso não durou um segundo a mais. Ela tentou correr em minha direção, mas uma força misteriosa parecia prender firmemente seus pés no chão. Ela quase caiu, mas usou a katana para se apoiar e evitar a queda. Seu rosto ficou pálido e encheu-se de horror quando olhou para os próprios pés e não viu nada. Levou os olhos lentamente pelo caminho que levou até as agulhas que tinha errado cravadas no chão em sua sombra. Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas ficou presa em sua garganta. Virando-se para mim assustada, eu notei quando o arrepio correu por sua espinha ao ver meu sorriso.

Ela, assim como muitas outras pessoas por todo o Império de Esmeralda, ouviu muitas histórias assustadoras sobre pessoas dentro de meu Clã que podiam manipular sombras livremente. Pela sua reação ela nunca tinha encontrado alguém assim até hoje, e achava que tais histórias eram apenas folclore. Ela tremia de medo daquilo que não entendia e seus olhos claros estavam marejados, parecendo uma garota ainda mais jovem do que já aparentava.

Ela tentou puxar o corpo mais uma vez, mas foi em vão. Ayumi sentia o corpo tremer pelo medo do desconhecido, enquanto olhava para mim eu lhe devolvia o olhar com um sorriso cínico.

― O que é você, Escorpião? – ela disse com a voz trémula.

Meu sorriso parecia mexer com a sua cabeça e ela tentava afastar-se, mas era impossível sair de onde estava. Suas feridas continuavam sangrando e seu corpo ia ficando pálido à medida que pedia sangue. Contar o que eu fiz? Claro que não, isso não é importante para o seguimento desse relato. Tudo o que você quer é satisfazer essa curiosidade crescente sobre a minha “manipulação das sombras”. Junte as peças você mesmo, talvez você consiga descobrir. Se você conseguir, isso aumentará as suas chances de sair vivo de uma emboscada. Admito que tudo o que fiz não passa de um truque barato. Uma ilusão com propósitos obscuros. Mexer com a cabeça de alguém durante um embate fazendo-a perder totalmente o desejo de lutar e afundar no medo. Medo, a mais poderosa das armas.

Ayumi ficou encarando o meu sorriso e o horror começou a ganhar espaço em seu rosto delicado. Com dificuldade, ela conseguiu se por de pé, apoiando-se na katana. Suas pernas, fracas, tremiam e um descuido derrubá-la-ia ao chão. Ela ergueu trémula a espada tentando nos separar. Suas reações estavam muito mais lentas, enquanto o medo enevoava seus pensamentos. Cobri a distância entre nós com um movimento rápido. Minhas mãos agarraram seu quimono e puxei-a contra mim, enquanto virava de costas para ela. Com um movimento rápido eu a joguei ao chão e ouvi um estalado estranho. Ela contorceu-se de dor e vi um pouco de sangue escorrer de suas costas, olhando melhor vi que havia a jogado contra as agulhas que estavam espalhadas por ali. Peguei uma delas e ergui para terminar com toda a sua dor, mas por um instante, apenas por uma mísera fração de segundos eu hesitei.

Olhei para aqueles olhos cheios de medo, vendo as lágrimas correndo por suas bochechas suplicando por misericórdia. Ela não queria morrer, ainda era tão jovem. Tanta coisa ainda poderia realizar. Amores viriam, filhos e quem sabe netos. Maldito sangue de Leão, quando você menos precisa que ele ruga, lá está ele estragando suas ações. Meu sangue vibrou dentro de mim e uma sensação terrível de injustiça revirou meu estômago. Eu afastei aqueles pensamentos, mas quando percebi, senti apenas a dor afligir meu rosto. Minha cabeça tombou para trás com o impacto e cai sentado. Levei a mão ao rosto e ouvindo-a tentar levantar-se rapidamente, enquanto se afastava de mim. Limpei o sangue que escorria pelo canto da boca e me coloquei de pé, limpando a areia de minhas roupas.

Ayumi estava de pé, enquanto mantinha-se totalmente concentrada. Sua espada estava bem à frente de seu corpo, segurando-a com ambas as mãos. Uma perna mais a frente e outra mais a trás, completamente enraizada naquele espaço. Sua respiração se acalmou e uma fina aura prateada banhava seu corpo. Concentrando-se, ela puxou de dentro a força para superar aquilo que eu tinha lhe imposto. Avancei contra ela, precisava fazer dessa vez. Não havia espaço para dúvidas. Meu sangue ainda lutava contra mim, porém. Joguei a agulha contra ela e levei minhas mãos para frente.

Precisava fazer sua morte ser rápida. Seria um tipo de misericórdia e alívio para mim. Demorar demais era pedir para ser dominado por aqueles sentimentos mais uma vez e a próxima falha poderia ser a minha última. Depois que a agulha atingisse sua mão, eu aproveitaria a brecha e tiraria sua espada, para matá-la, um pensamento simples.

A agulha atingiu seu pulso, penetrando quase inteira, mas a menina não se moveu. Ela abriu os olhos. Pisquei e, no segundo que abri os olhos novamente, eu vi sangue. O sangue espirrou violentamente para cima. Droga, eu tinha falhado em lhe dar uma morte rápida. Praguejei e senti meu peito esquentar. O quente suor escorria por meu peito e fiquei triste por não poder ajudá-la, mas algo parecia estranho. A expressão dela não era de dor, ela continuava concentrada e não sentia nada em minhas mãos. Eu não tinha lhe tomado à espada? Então, de quem era aquele sangue todo? Olhei para o tronco dela e não vi nenhuma ferida nova, descendo mais um pouco vi a espada ainda em suas mãos e a lâmina suja com sangue, que escorria em sua direção. Um arrepio tomou conta de minha espinha. Meu corpo ia ficando frio e a visão falhava. Minhas pernas tremiam, não podendo mais suportar meu próprio peso.

Então eu vi. O sangue vinha de mim. A ponta de sua katana estava enterrada em minha barriga lentamente fazendo o corte. Tudo parecia mais lento. Seu movimento e até mesmo seus cabelos que balançaram junto ao balanço largo de sua espada. Minha pele ardeu e sentia meu coração ir parando de bater. Respirar estava difícil. Manter os olhos abertos ainda mais. Não importava o que tentasse fazer, tudo parecia em vão. Minha perna foi para trás uma vez e depois a outra. Cambaleante, tentava me manter de pé, mas meus joelhos dobraram-se contra a minha vontade. Erguendo a cabeça, via o arco que ela fez levando a espada acima da cabeça para um golpe.

Eu já não via a jovem que tiraria minha vida. Apenas uma sombra erguendo um objeto luminoso. O vendo bateu em meu corpo e senti a ardência em minhas feridas. Mesmo que ela não me matasse agora, eu não conseguiria sair vivo dali. Respirei fundo, mesmo sentindo a dor varar meu peito e cuspi sangue aos pés dela. Praguejei, mesmo sabendo que era inútil e abri os braços aceitando que tudo ali já estava perdido. Aquilo pareceu uma eternidade. O que um homem deveria fazer para ter uma morte mais rápida? Rezar aos deuses? Chorar? Shinsei uma vez disse que as fortunas favorecem os homens mortais. Onde está o favorecimento agora que a fortuna da morte estava ali para me buscar? Não demore tanto minhas caras fortunas ou não haverá um premio ao final.

Finalmente depois de uma longa espera eu ouvi um longínquo grito kiai e o assobio do vendo sendo cortado pelo ar. Depois disso eu ouvi apenas o silêncio, senti meu sangue esquentar e escorrer por meu corpo. Meu corpo ia lentamente tornando-se frio enquanto meu coração parecia acalmar-se da excitação daquela batalha. Eu não sei explicar o que eu estava sentindo propriamente, mas posso dizer que para mim parecia o abraço frio das Fortunas.

Por Yamimura | 19/08/18 às 13:01 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror