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Memória 09 - Lâmina maldita

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 09 - Lâmina maldita

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

O caminho de volta para a vila foi muito demorado, parecia até que estávamos cruzando o Império. Não só porque havíamos entrado muito na floresta, mas porque caminhávamos lentamente, uns apoiados nos outros. Kuni Karasu trazia, ajudado por Hiruma Seta, tão pálido quanto o shugenja, Hida Hiato desmaiado. O bushi sozinho já tinha um peso monstruoso, agora adicione o peso de suas armas e de sua armadura. Akodo Ryu já tinha se oferecido várias vezes para trocar com um deles, mas ambos recusaram.

Você pode ficar surpreso por saber que Kuni Karasu conseguisse ajudar na carga, mas como eu já tinha dito quando introduzi-o nessas Memórias, o Kuni era um homem corpulento. Não tanto quanto os outros dois caranguejos, porém, mais do que eu. Eles, mesmo fracos, conseguiram levar a montanha por todo o caminho, mesmo com alguma dificuldade, mas não reclamaram em nenhum momento.

Quanto a mim, fui ajudado por Akodo Ryu boa parte do caminho até que ambos entramos em acordo que já conseguia andar sozinho sem desmaiar. Hiruma Seta havia encontrado todos os pedaços da espada e tirou das coisas um lenço, que agora eu usava como trouxa, carregando daquela forma os pedaços. Eu tinha uma sensação ruim enquanto carregava aqueles fragmentos, mas associei aquilo ao mau estar de ter tantos ferimentos espalhados pelo corpo.

De volta a vila de Wachimazu, passamos pela fenda sob os olhares intimidadores e preocupados dos guardas para com Hida Hiato. Pareceu-me que a maioria dos Caranguejos se conhecia. Fazia sentido, já que uma história que me contaram há alguns anos foi que todos os Filhos do Kami Hida sempre serviam às muralhas de alguma forma. Perceba que todos do Clã têm obrigação com a muralha. É o Dever deles proteger o Império das forças do Jigoku, que atacam periodicamente as muralhas.

Preciso falar mais sobre os Caranguejos para vocês? Pela sua cara, parece que sim. Por onde devo começar? O clã foi fundado pelo Kami Hida no amanhecer do Império e assim como a maioria dos Clãs Maiores, são todos fundados por Kamis, com a exceção do Clã Louva-deus. Faça um favor a si mesmo e nunca faça uma piada ou comentário ofensivo para um deles em relação a isso. Aos Caranguejos, foi dado a missão de defender a fronteira do Império contra o Jigoku, mas a muralha não existiu desde sempre, falarei mais sobre ela quando chegar a hora.

Cada Família tem a sua função, falarei apenas das que lembro até o momento e creio que são todas. Se estiver esquecendo alguma delas falarei quando lembrar e pedirei desculpas antecipadamente por isto. Os Hidas, que receberam o nome do próprio Kami, são a “Muralha” do Clã. Eles são muito grandes e musculosos. Já ouvi piadas que os Hida já nascem daquele tamanho; mera piada é claro, mas quem sabe? Os Hida compõem o que você pode chamar de Milícia do Clã, a linha de frente na Muralha do Carpinteiro. Estão lá para servir e lutar corpo a corpo contra as ameaças das Terras Sombrias.

Os Kuni, o que eu deveria falar além de que são loucos? Bem, a maioria é, mas talvez seja só meu preconceito falando, sinto muito. Eles são extremamente cuidadosos quando o assunto é Mácula ou as Terras sombrias. Também são muito instruídos no combate contra os Mahotsukai ou Feiticeiros de sangue. Tais feiticeiros usam o sangue para deturpar a Ordem Celestial. Jogar Maldições, erguer cadáveres ou manchar a terra é como respirar para esses abomináveis feiticeiros. Para um Kuni todo cuidado é pouco quando um problema envolve um desses três, e quem poderia culpá-los? O primeiro Kuni, o homem que deu esses nomes à Família, foi consumido pela mácula e levado à loucura pelo Jigoku. Então, quando um Kuni lhe der boas vindas com um Raio de Jade, vocês não vão ficar tão surpresos.

Já os Hiruma são os olhos e ouvidos do Clã dentro das Terras Sombrias. Eles não são os únicos loucos o bastante para aventurar-se dentro daquelas terras, muitos outros Clãs, como os Fênix, fazem isso, mas são os únicos desequilibrados o bastante para levantar um posto avançado naquele lugar. Os Caranguejos já estão tão acostumados com as criaturas que o Jigoku cospe que para eles, Medo já não é mais um problema. Então, eu posso entender o ponto de vista deles. Qual o melhor lugar para estar senão junto à garganta do inimigo com uma faca apertando-lhe ali?

Fomos guiados por Hiruma Seta, que conhecia bem aquela Vila, à “enfermaria”. Notei algo que talvez não seja de seu interesse, mas falarei apenas por curiosidade. Os guardas foram trocados, provavelmente o que havia dormido em serviço foi mandado de encontro a Hida Samano, e talvez agora estivesse sendo punido pelo que Kuni Karasu o acusou. Como eu disse, era algo apenas curioso, nada demais.

A enfermaria era apenas uma barraca lotada de pessoas feridas devido a batalha de mais cedo. O lugar era apenas um amplo “salão” com macas espalhadas pelo chão, e não havia uma divisão notória entre Samurais e Heimins. Os Samurais que ali se encontravam tinham apenas feridas superficiais, afinal uma luta contra as criaturas das terras sombrias não era uma novidade nas terras dos Caranguejos, porém, os heimins eram um caso totalmente diferente. Eles não estavam acostumados a lutar, além de nenhum deles jamais ter a mesma proficiência que um Samurai teria, eles não tinham a coragem necessária para enfrentar tais criaturas, resultando, obviamente, em muitos feridos gravemente ou até mesmo mortos.

Ao chegarmos fiquei surpreso com a quantidade de pessoas ali. Haviam pelo menos umas 30, não achava que tanta gente havia se ferido. A Vila, de alguma forma, deve ter sido pega de surpresa com aquele ataque, o que inicialmente me pareceu impossível. Para, no entanto, tantas pessoas serem feridas por um grupo tão “pequeno” de goblins não havia para mim outra explicação. Teríamos que esperar um bom tempo antes de sermos atendidos se não fosse Kuni Karasu. Ele conseguiu convencer alguém, não vi quem foi, e precisávamos partir imediatamente, pois Hida Samano esperava por nós. Tínhamos uma informação importantíssima e, conhecendo Hida Samano, esperar não era o seu forte. Não sei se eu ficava mais surpreso por ter tanta gente ferida ou porque Kuni Karasu conseguiu convencer alguém de alguma coisa. Ele não era muito bom com as palavras.

Um homem começou a nos tratar, prestando os primeiros socorros, limpando as feridas e colocando algumas ataduras. Ele parou quando uma velha senhora entrou, no entanto. Ela era uma mulher de idade avançada, em torno de seus 80 anos. O homem ali curvou-se respeitosamente para ela. Aquela era uma curandeira que trabalhava diretamente para Hida Samano e mesmo senil, ela era a melhor curandeira daquela Vila.

Uma velha senhora veio para tratar de nossas feridas e, diferente dos outros que usavam instrumentos, ela usava apenas suas preces aos espíritos. Ela tinha ido até ali a pedido do Senhor da vila, pois ouviu sobre o nosso retorno e o estado o qual chegamos ali. Ela era uma velha senhora curvada sobre si mesma, aparentava ter seus incríveis 80 anos, mas mesmo senil, ela ainda era uma das melhores curandeiras da vila. Trabalhou por incontáveis anos sob a bandeira Caranguejo e assim ficaria até o fim de seus dias.

Um a um, aquela senhora foi restaurando nossas forças. Demorando mais tempo em alguns de nós que estávamos mais feridos. Hida Hiato foi o que lhe deu mais problemas, ele tinha feridas profundas em todo o corpo e foi uma sorte enorme não ter morrido. Quanto a mim, aquela bruxa quase se negou ao tratamento. Como viveu muito tempo ela era uma mulher que vinha desde o inicio da Guerra dos Clãs e seu ódio contra os Escorpiões foi o maior que encontrei até hoje.

Ela por fim acabou cedendo, mas eu tenho certeza que ela fez aquilo doer de propósito, apenas para ver um Escorpião sofrer em suas mãos mumificadas. Depois de ser curado, eu descansei um pouco mais antes de fazer o que precisava. Troquei de roupa, jogando aquelas no lixo, tomei cuidado para tirar todas as minhas coisas antes disso, é claro. Ainda deveria pedir auxílio ao ferreiro daquela vila para concertar a katana de Doji Haruki antes de encarrar mais uma vez Hida Samano. Kuni Karasu me seguiu, ele jamais confiaria em um Escorpião andando sozinho nas terras de seu Clã. Ninguém seria louco a esse ponto.

Nós dois fomos seguindo pela cidade nos informando para onde ficava o ferreiro e, depois de andar um pouco, fomos seguindo o som das incessantes marteladas. Na enfermaria, Akodo Ryu pediu permissão ao médico chefe para ajudar já que tinha treinamento militar e sabia prestar os primeiros socorros. Depois de provar suas habilidades, o Akodo foi permitido a tratar livremente os casos que ele jugasse apropriados para suas habilidades. Os médicos ali era samurais altamente qualificados e seus dois heimins assistentes. Os heimins deveriam cuidar de seus semelhantes sem supervisão, mas só ajudariam os samurais a cuidar de outros samurais. Talvez se um dia provassem suas habilidades, eles tivessem a honra de cuidar eles mesmo de samurais.

Akodo Ryu lavava as mãos em uma bacia de água limpa depois que ajudou os médicos a cuidar de todos os pacientes, e suspirou satisfeito com o próprio trabalho. Ele resolveu ajudar para melhorar suas habilidades, seu conhecimento ainda era básico, mas aprendeu muitas coisas interessantes com os médicos Caranguejos. Hida Hiato dormia sentando em uma cadeira escorada em um dos pilares de sustentação da barraca com o machado em suas pernas.

Continuamos a seguir os sons do martelo e não demorou muito para encontrarmos a oficina do ferreiro. O homem se chama Kaiu Tensin, se eu não me engano, um homem corpulento e bastante simpático; o seu trabalho era mais frequentemente requisitado para pequenos reparos pela cidade, mas hoje ele estava com um trabalho diferente. Os equipamentos dos guardas foram danificados durante a batalha e ele parecia muito ocupado enquanto reparava-os.

― Vocês precisam de alguma coisa? – ele perguntou sem desviar seus olhos da arma que tinha nas mãos.

― Gostaríamos de seus serviços para concertar essa espada, nobre Kaiu – Karasu levantou o saco onde estava a lâmina quebrada.

O ferreiro olhou para o saco e sua expressão foi de tristeza, como um ferreiro, ver armas naquele estado era uma visão terrível. Ele olhou para todo o trabalho que ainda tinha que fazer e suspirou balançando a cabeça. O Kaiu gostaria de poder ajudar, eu vi isso em seus olhos, mas o trabalho que tinha o impedia de fazer. Karasu pareceu desapontado e virou-se para sair, mas eu toquei em seu ombro e olhei para o ferreiro.

― Nós entendemos Tensin-san, nós falamos para Samano-dono que não queríamos incomoda- -lo – eu fiz uma expressão de tristeza enquanto o olhava – mas ele insistiu que deveríamos vir vê-lo e talvez conseguir sua ajuda.

O homem ficou tenso por um momento enquanto me olhava, não conseguindo acreditar no que eu tinha lhe dito. Hida Samano não era um homem que pedia, ele simplesmente ordenava a execução e esperava que seus subordinados já tivessem executado a tarefa. O ferreiro olhou para a espada larga sobre sua bigorna, para a nossa sorte ele já estava concluindo aquela espada e passaria para a outra assim que terminasse. Demorou apenas alguns minutos e ele pediu para ver o estado da espada. Kuni Karasu entregou-lhe o pacote e ele abriu com cuidado. Olhou para a lâmina e seus olhos se apertaram, olhou para nós e depois para a espada novamente.

― Mas esse não é um trabalho Caranguejo – o homem ergueu uma sobrancelha – isto é uma lâmina Garça.

Sim, é claro que um ferreiro tão bom quando tinha ouvido falar que era notaria a diferença das técnicas empregadas em cada trabalho. Kuni Karasu ficou pálido, de alguma forma, ao meu lado. Eu achava impossível que ele conseguisse ficar ainda mais branco que aquilo, mas aconteceu bem na minha frente. Revirei os olhos te tentei, em vão, acalmar Karasu com um olhar. Coloquei-me entre o ferreiro e ele para evitar que o homem visse o shugenja nervoso e aproxime-me mais de Tensin. Toquei o cabo da katana em suas mãos e fingi emoção. Uma lágrima escorreu por minha bochecha. O ferreiro ficou tenso, sem entender e Karasu ficou surpreso; muito mais do que deveria eu deveria dizer.

― Você não acha bonito esse ato de Samano-dono? – eu olhei para o homem com um sorriso.

― Que ato? – ele perguntou olhando para as lâminas.

― Mesmo essa espada sendo claramente de seu inimigo jurado – eu falei quase em um sussurro – ele pediu para que a concertássemos e entregássemos à Haruki-dono a fim de acabar com a intriga entre eles.

O ferreiro ficou tão surpreso que chegou a tremer. Ele olhou para mim incrédulo e seu queixo caiu. Ele tentou fizer alguma coisa, mas ficou preso na garganta e assim como ele Kuni Karasu ficou em choque. O shugenja já estava quase saindo do lugar, tentando sorrateiramente sair dali para não ter nenhum envolvimento com tudo aquilo. Depois de me ouvir, no entanto, ele congelou à beira da saída. Raízes, providas de seu nervosismo, pareciam ter brotado dos pés e lhe deixado sem movimento.

O ferreiro ainda tremia e levou uma das mãos sujas aos olhos tentando conter a emoção. Como todo bom cidadão daquela cidade, do império na verdade. Ele acreditava profundamente no coração bondoso do seu senhor. Sim você pode dizer-me que nem todo mundo acredita. Eu concordo com você, mas algumas pessoas negam-se até o final de ver a maldade mesmo quando ela está bem debaixo de seu nariz. Tensin acreditava que Hida Samano era um homem bom e justo que nem mesmo o ódio podia corrompe-lo.

Ali, em suas mãos estava a prova do que ele acreditava ser verdade. Como ele poderia duvidar por um segundo de alguém, mesmo que fosse um Escorpião, que tudo aquilo era mentira? Eu posso dizer que eu duvidaria, mas você já pode ter entendido que eu consigo ser bastante persuasivo quando a situação pede por isso, não? Quando alguém entende o seu ponto fraco, você tornar-se apenas uma marionete em suas mãos, cuidado em quem você confia.

Tensin segurou as lágrimas e olhou para mim com o espirito revigorado. Quando entramos ali ele parecia cansado, já fazia horas que estava trabalhando na forja para reparar as armas dos Samurais que lutaram na invasão dos goblins. Como ele não ficaria? Se o seu senhor foi capaz de jogar fora o ódio para ajudar um inimigo então ele também podia jogar fora a sua fadiga para ajudar seu senhor.

― Meu senhor realmente é um homem muito justo e bom – ele falou com a voz trêmula.

― Sim, ele é. – Eu lhe toquei o ombro e olhei para o Shuguenja – Ele não é, Karasu-san?

― Eu penso que ele seja um homem maravilhoso.

Eu pude ver um fio brilhoso de suor passando pela face do Shugenja. Kaiu Tensin começou os preparativos para concertar a espada quebrada. Demoraria um pouco já que o fogo da forja precisava ser esquentado. Quase uma hora depois, o homem levou os dois pedaços da espada para a forja e começou a esquentar. Ele olhava estranho para a lâmina e comentou que a espada parecia atormentada por alguma coisa. O metal quase falava com ele, pedindo por ajuda, ele se desculpou conosco, mas ele faria o que seu sentimento estava mandando. Demoraria um pouco mais do que ele achava que demoraria, mas a espada ficaria ainda melhor que antes e talvez nunca mais quebrasse. Ele pediu pela Wakizashi, e começou a trabalhar. As lâminas foram restauradas para um estado que nunca vimos antes. Para mim que já tinha visto aquela arma antes, foi uma surpresa ainda maior. Os ferreiros kaiu faziam jus ao seu nome. Era quase como se a própria Amaterasu tivesse forjado aquelas espadas.

Horas depois, o Ferreiro colocou a Wakizashi de lado já quase pronta. Aproximamos-nos para conferir o trabalho e esqueci como era respirar por um momento. Perguntando ao ferreiro, ele falou que sua habilidade tinha ajudado muito, mas a espada parecia querer mudar por conta própria, ela parecia até viva. A katana demorou ainda mais, suas marteladas iam ficando mais intensas, fagulhas voavam e o calor ali parecia ficar ainda maior. O Kaiu estava encharcado de suor, ele poderia encher dois baldes d’água se juntássemos todo o suor que ele tinha. Respirando fundo, ele colocou a lâmina da katana dentro d’água para esfriar e o chiado foi enorme. Ele ergueu o trabalho orgulhoso e mostrou para nós.

― Eu não sei o que fizeram com essa espada – ele disse – mas ela foi reforjada pelo menos 17 vezes.

― Espere, eu não entendo tanto de forja – eu o interrompi – mas essa espada não seria inútil, se esse fosse o caso?

― Se ela foi quebrada tantas vezes não seria estranho se ela não prestasse nem para ser jogada fora – ele respondeu balançando a cabeça – mas essa espada é diferente, ela estava frágil, mas ainda tão durável quanto qualquer espada.

O Ferreiro levantou-se e começou a afiar as lâminas e depois de algum tempo ele suspirou satisfeito. Ele disse que acharia difícil essas espadas perderem o fio novamente, mas recomendou para que o dono tivesse um cuidado maior com elas. Ele arrumou os punhos delas e ao guardar novamente nas bainhas, arregalou os olhos. Eu achei estranho e olhei para Kuni Karasu que balançou a cabeça dizendo não saber o que estava acontecendo. O homem pareceu perder um pouco de peso, seus olhos viraram nas órbitas e brilharam em um verde bem leve, e caiu ao chão.

Um guincho ensurdecedor partiu do corpo do ferreiro caído, o berro foi tão intenso que quase podia rasgar o véu da realidade. O Ferreiro abriu a boca e dela uma fumaça pestilenta foi sendo expelida. A fumaça foi girando, acumulando-se em um ponto e formando um tipo de disco. Um cheiro foi tomando conta do lugar. Para imaginar melhor como aquilo cheirava, imagine um lugar que passou pelo menos 100 anos trancado e um pequeno exército estivesse apodrecendo dentro. Isso é o mais próximo que posso descrever aquele cheiro.

Aquilo era um portal para o Gaki-do, o reino dos mortos famintos. Envergonha-me dizer isso para vocês, mas o medo tomou conta de mim naquele momento. Eu podia ouvir o frágil vidro da realidade trincando e outro guincho ainda pior surgindo de dentro daquele portal. Uma mão fantasmagórica passou por dentro daquilo e segurou-se à borda. A mão parecia uma massa deformada de piche que ia tomando a forma de uma mão humana. Assim que passou pelo portal totalmente, foi assumindo uma forma cadavérica, quase podre.

A mão avançou em nossa direção, tentando nos pegar. O corpo da criatura foi saindo de dentro do portal vestindo uma armadura completa, carcomida pelo tempo. A única coisa que podia ser reconhecida era o símbolo da garça. O espectro não tinha uma forma muito bem definida, uma hora parecia uma mulher outra hora parecia um homem. Ela ficou nos olhando por um tempo e a imagem de seu rosto tremia junto com sua cabeça e ia mudando de face várias vezes. A armadura variava exatamente como a aparência daquela coisa, uma hora parecia apenas uma ashigaru como a que eu usava, mas muito mais antiga, e outra hora parecia com as armaduras que os Garças usavam mais recentemente.

― O que é essa coisa...? – eu falei com os lábios trêmulos.

― Isso é um Gaki – Kuni Karasu disse apertando e pegando um bastão de ferro de uma das caixas de armas – Mas é diferente de tudo que já ouvi falar, parece um aglomerado de várias pessoas.

O Gaki apontou na minha direção, enquanto dava outro de seus aterradores guinchos e sua face mudou de calma para raiva. Era tudo o que eu precisava naquele momento; um espírito cheio de ódio voltado contra mim. Eu não tinha uma arma comigo naquele momento, olhei para o chão e vi a espada reconstruída que Kaiu Tensin. Olhei para o Gaki que também olhava para a espada e o ódio cresceu em seu rosto, mas ele apontou para a espada e depois para mim.

― Você quer eu que pegue a espada? – eu perguntei atordoado.

O espírito confirmou com a cabeça e olhei para Kuni Karasu por cima do ombro. Ele deu de ombros e eu resolvi fazer o que o Gaki mandava. Peguei as espadas e as levei para minha cintura. A criatura abriu um sorriso largo e predatório, como se tivesse sussurrado para mim “Agora eu posso te matar”. Foi nesse momento que o sentimento de medo preso em meu peito explodiu e tornou-se ainda maior, minhas pernas tremeram e por um momento eu pensei em fugir dali. Apenas uma coisa me impediu de correr, a imagem de minha mãe apareceu em minha cabeça, foi com ela e com seu duro treinamento Matsu que aprendi o que eu sabia sobre kenjutsu, havia apenas uma coisa que minha mãe nunca perdoaria se eu fizesse... correr com medo. “Virar as costas para um inimigo armado será a última besteira que você fará em sua vida”, ela dizia com seu amável tom severo.

Meu sangue ferveu e puxei a katana para fora da bainha. Eu nunca vi quem diria ter enfrentado um Gaki. Havia escapado da morte para morrer nas mãos de um espírito. Suspirei sentindo meu rosto esquentar e olhei para a espada. A lâmina parecia emitir um fraco brilho, parecia querer me acalmar. Agradecendo-a em pensamento, eu respirei fundo e me preparei para a luta.

Olhei novamente para o Gaki, mas ele havia sumido. Será que tudo aquilo foi apenas uma ilusão? Olhei para Kuni Karasu e percebi que estava enganado, ele estava murmurando alguma coisa tentando forçar a própria mente, e logo começou a balbuciar palavras estranhas. Passei os olhos pela sala e tudo que via eram várias armas penduradas nas prateleiras. Um calafrio veio em minha espinha e saltei para frente, mas algo fez um corte em minhas roupas. Mais uma roupa para jogar fora quando tudo terminasse. Virei para ver o espírito segurando uma versão fantasmagórica da espada que eu empunhava. Balancei a espada contra ele, mas ele tornou-se fumaça novamente.

Olhei para o shugenja para buscar algum auxílio, mas ele estava concentrado em suas preces e não me deu muita atenção. Encostei minhas costas contra uma parede e fiquei esperando o próximo ataque que veio pela esquerda. Virei meu corpo e balancei a espada para ganhar mais velocidade e minha espada chocou-se com a do fantasma. O golpe fez meus braços tremerem, aquela coisa era muito forte. Ela sorriu olhando para mim e continuou o golpe, me jogando contra algumas prateleiras. Cai por cima de algumas armas e senti suas lâminas gastas rasgando minha pele, e gemi de dor. Tentei levantar-me, mas o espírito apareceu em cima de mim atacando novamente e eu mal tive tempo de colocar a katana entre nós dois.

O golpe me afundou mais nas armas e eu podia sentir as lâminas entrarem mais em minha pele. Gemi de dor enquanto ouvia o barulho da madeira quebrando-se embaixo de mim. Ele forçava a lâmina a se aproximar mais de mim e já estava próxima ao meu pescoço quando um forte impacto jogou a criatura para longe. Kuni Karasu tinha chamas dançando ainda em seus dedos e a criatura estava envolvida por chamas avermelhadas.

Levantei-me em um pulo, sentindo o sangue escorrer por minhas costas, e mordia os lábios com força para me forçar a esquecer daquela dor. O espírito tentava ainda se livrar das chamas quando eu saltei sobre ele e desferi um golpe contra sua garganta. A lâmina atravessou seu corpo transparente, eu achei que não tinha servido de nada tanto esforço, e foi quando ouvi um guincho de dor. A imagem do fantasma tremeu e seu rosto transformou-se, um corte foi lentamente se formando onde eu tinha passado com o fio da espada. Era como ver meu ataque dez vezes mais lento cortando a criatura. Uma gosma foi escorrendo da ferida, como sangue, e ele desapareceu outra vez.

Eu me preparei para outro ataque, mas foi tarde desta vez. O espírito estava mais rápido, aparecendo quase no mesmo momento que desapareceu. Desviei seu golpe com a espada, mas era isso que ele queria. Sua mão livre veio na direção do meu peito e perfurou através de mim. A dor demorou um segundo para chegar e veio muito mais intensa. Eu sentia seu braço atravessado meu coração que batia enfraquecido.

― Merda! – eu senti meu corpo pulsar por um momento e fiquei zonzo.


Obs.: Devo fazer um profundo agradecimento pelo belo trabalho que meu companheiro Liam fez ao reestruturar a capa desta obra, agradeço a ele profundamente por isto e peço aos Leitores quem deem a ele uma força sendo sua obra , "O Mestiço". 

Por Yamimura | 02/09/18 às 19:43 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror