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Memória 10 - Presença Divina?

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 10 - Presença Divina?

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Sentia meu corpo ficar gelado e minhas entranhas revirando-se, enquanto o braço fantasmagórico me atravessava. Ao longo do braço eu pude ver gotas de sangue fluindo de mim para ele, e no meio do caminho tornando-se pontos brandos e esvaindo-se até desaparecer completamente no corpo dele. Meus olhos estavam pesados e eu lutava para deixá-los abertos. Eu tossi sangue quando senti os dedos do fantasma em volta do meu coração que pulsava quase parando, e ele abriu um sorriso largo, mostrando que poderia me matar se assim desejasse.

Levantei os braços, apertando firme o punho da espada. Sentia os braços tremerem violentamente apenas para deixá-los erguidos. Respirei fundo e meus olhos encontraram os da criatura que ria divertindo-se com meu sofrimento. Desci com força o golpe, mas foi indiferente. Eu não sei se porquê a criatura estava me tocando ou se foi sorte, mas eu sentia a lâmina cortando algo sólido. Um guincho de dor ainda maior ecoou. A espada atravessou o corpo da criatura,  sujando o chão com uma gosma negra mau cheirosa.

― Cuidado, essa gosma deve ser maculada! – o shugenja disse com repulsa.

Assenti com a cabeça e balancei a espada, jogando a gosma presa na lâmina ao chão. A gosma era viscosa e parecia meio ácida, fazendo um barulho baixo e estranho enquanto se espalhava pelo chão de terra batida. Levei a mão ao peito e não encontrei nenhuma ferida, mas eu evitaria que aquilo me pegasse novamente. Ouvi um assobio e levantei os olhos vendo uma lança vindo à minha direção. Pulei para o lado, olhando para o espírito que sorria malicioso e senti meus pelos corporais arrepiando. Chutei o cabo da lança quase no limite e a desviei de sua rota. Se ela tivesse continuado ela acertaria o meio do peito de Kuni Karasu que estava já fazendo uma prece para os espíritos. Ele não notou quando a lança passou raspando por seu ombro, abriu os olhos me vendo com uma expressão preocupada e ficou sem entender. Balançou a mão e uma bala de ar giratória formou-se ao longo do caminho até acertar o peito do fantasma, e explodiu jogando-o para trás com os braços abertos.

Eu vi uma nova chance de atacar nesse momento. Desferi um golpe na cintura dele, mas foi igual à primeira vez, pois o golpe passou sem acertar nada e um segundo depois o corte foi se formando lentamente na cintura transparente, e a gosma escorreu pelo corpo dele. O monstro guinchou de dor e desapareceu no ar. Hoje eu paro para pensar que tivemos muito azar naquele dia. Kaiu Tensin além de ferreiro era um armeiro que fazia flechas para a divisão Hiruma em Wachimasu. Várias flechas começaram a erguer-se no ar, levantadas por uma fina fumaça esverdeada. Eu não me recordo quantas foram, mas foi uma chuva quase interminável de flechas. Nós derrubamos algumas armas em cima de uma mesa e nos abrigamos debaixo dela. As flechas foram perfurando a madeira pesadamente, mas conseguiu resistir ao ataque.

Empurrei a mesa virando-a de cabeça para baixo, e pela quantidade de flechas pregadas na mesa, uma pequena rampa levava direto ao Gaki. Corri por cima, já evitando as pontas de flecha atravessando a madeira e pulei. Kuni Karasu conjurou algêmas feitas de puro jade que forçaram o Gaki a se solidificar e me deu oportunidade de desferir um golpe pesado contra o monstro. Puxei de dentro de mim a força do Vazio e senti-a correr para a lâmina, deixando ela com um brilho opaco. Cortei através a carne apodrecida do Gaki que parecia queimar enquanto a lâmina tocava sua pele. A lâmina ganhou um brilho prateado, parecendo absorver a essência do fantasma. Ao chão, eu olhei para a lâmina que tremeluzia mais intenso enquanto o Vazio em mim a alimentava junto a essência fantasmagórica.

O Kuni também não entendia o porquê daquilo, mas mandou que eu continuasse atacando aquilo, pois parecia estar levando o espírito para sua morte definitiva. Espíritos famintos do Gaki-dô não podem ser mortos por métodos comuns, pois se forem derrotados eles apenas retornam ao mundo deles e podem voltar para se vingar outra hora. Para evitar seu retorno, eles devem ser destruídos pela essência, assim eles podem voltar livres para seus ancestrais ou para o total esquecimento, em caso extremos.

Corri novamente contra a criatura, acertando um golpe em suas costas e atravessei-o, virando novamente para atacar. Girei o corpo aumentando a força do ataque e o brilho da espada ficou forte demais para continuar olhando para ela. Senti a espada cortar alguma coisa e um guincho de desespero surgiu na minha frente. Ouvi um barulho estranho como de vidro se partindo e uma força me puxava em sua direção. O brilho na espada ficou menor e eu pude ver o que me puxava. Onde havia um Gaki, momentos antes, agora tinha um portal enegrecido puxando tudo para dentro. Olhei em volta e vários objetos eram tragados por aquilo. Kuni Karasu se segurava em uma viga e o corpo desmaiado de Kaiu Tensin vinha sendo arrastado pela força. Em minha mão, a espada vibrava e de alguma forma eu sabia que era ela que aquela coisa queria, mas não conseguia soltá-la. Respirei fundo e olhei por cima do ombro para o Kuni. O vento era alto demais, quase não me deixando escutar nada, mas eu li nos lábios dele quando ele perguntou: “O que vai fazer, Escorpião? ”.

― Diga a Doji Haruki que sinto muito! – eu gritei o mais alto que pude.

Eu senti um puxão forte em meu centro e não consegui me manter mais segurando em seja lá o que estivesse me segurando naquele momento. Meu corpo foi arrastado para dentro daquilo e senti uma dor excruciante por todo o meu corpo. Eu provavelmente fui levado para o Gaki-dô, pois tudo que ouvia eram murmúrios cheios de ódio e desprezo e tudo o que conseguia ver eram expressões cheias de ódio vomitando aquelas vis palavras. Não dirigidos a mim, mas a muitas pessoas que nunca nem tinha ouvido falar o nome. Eu não conseguia ver nada, apenas ouvir. Parecia estar em queda livre, eu não sentia o vento passando por mim, mas eu sabia que estava caindo. Continuei descendo, pelo que me parecia a estrada para o Jigoku ou o inferno, como quisessem chamar. No meio das palavras de ódio, eu ouvi um choro que me guiou ao único ponto de luz branco naquele mar de escuridão.

Pela primeira vez, eu consegui mover meu corpo livremente e uma estrada de porcelana foi se formando em meus pés enquanto eu andava para aquele lugar. Quanto mais eu me aproximava maior ficava o som daquele choro. Senti meu corpo passar por uma espécie de barreira, como um fio d’água morna. Só naquele momento percebi que meu corpo estava quase congelando. Abracei meu corpo e comecei a tremer. Ajoelhei no chão sentindo o frio rasgar-me até a alma. O choro tinha parado e ouvi alguns passos na minha direção, mas o frio me impedia de pensar em outra coisa que não fosse em uma poça de lava para me jogar dentro. Até que senti um toque carinhoso em meu ombro e o calor foi voltando para mim.

Senti-me aliviado e fechei os olhos, aproveitando aquela sensação única que nunca mais senti em minha vida. Alguns segundos se passaram e abri os olhos, vendo-me em um belo jardim. Ao fundo dele, eu via um castelo que reconheci como uma propriedade do Clã Garça e só agora eu notei que aquele era o principal jardim do Clã.

Levantei os olhos e congelei. Eu tinha uma ideia de onde estava, aquele parecia o mundo Ancestral, onde todos nós, os Samurais, iríamos depois da nossa morte. Entenda que eu não tenho muita certeza, mas já tinha lido bastante sobre tal lugar em poemas e afins. Muitos disseram já ter pisado nessas terras, mas ninguém tem prova nenhuma disso. Aquela que eu via era minha noiva, como ela tinha morrido? Por quê? Meus olhos ficaram marejados e eu a puxei para mim, dando um abraço apertado e sentindo meu coração se partir em pedaços que não poderiam ser unidos novamente. Sim, eu te entendo; um Escorpião com coração? Parece verídico.

― Akatsuki, o que faz aqui? – eu disse com a voz falha – Como você pode ter morrido?

O espírito não disse nada, apenas me abraçou e passou suavemente a mão em minhas costas com ternura, mas em seguida afastou-se dando um sorriso divertido, enquanto olhava para mim. Ela abriu um leque negro que entrava em contraste com o seu cabelo branco e foi então que notei a diferença gritante que existia. O cabelo desta mulher era muito mais longo que de Doji Akatsuki, minha noiva. Tão liso e bem tratado que parecia seda. O rosto das duas era o mesmo, mas seus olhos eram púrpuras e os de minha Akatsuki eram verdes como Jade. Além disso, aquela mulher tinha uma delicadeza surreal e sua beleza deve ter sido motivo de guerras quando ela ainda caminhava entre os vivos. Uma verdadeira divindade estava parada na minha frente. Ela fechou o leque em um estalo e seus finos e belos lábios se partiram mostrando um sorriso brilhante. O som daquele leque trouxe-me novamente para a realidade.

Eu estava levemente envergonhado por ter confundido minha noiva com aquela mulher. Elas eram idênticas é claro, mas apenas serviu para mostrar-me que meu amor por Akatsuki era fraco. Eu jamais deveria confundi-la, mesmo que fosse uma cópia perfeita. Devo desculpar-me com ela assim que possível, mas o que eu diria? “Encontrei uma mulher idêntica a você e a abracei, sinto muito, confundi vocês duas”. Eu estaria morto se dissesse algo assim, melhor deixar esse assunto quieto.

― Eu nunca vi um Escorpião chorar pela perda de alguém – ela disse com um tom divertido – mas pela sua expressão, agora você deve saber que não sou quem você chama.

― Quem é você? – eu disse frio com os olhos apertados – Além disso, eu não lembro de ter chorado.

― Eu não esperava menos de alguém daquele Clã – ela gargalhou – Você mudou completamente em um piscar de olhos.

Estava claro que ela não queria dizer o nome, estranho não? Nunca conheci ninguém que fosse conhecido que não gritaria o nome aos quatro ventos, mas ali estava alguém que não queria, interessante. Olhei em volta, procurando algo que a reconhecesse, mas nada me chamava atenção no cenário, a única coisa que realmente me deixou curioso foram os cabelos brancos dela. Ela não tinha os cabelos pintados como a maioria dos membros do Clã Garça, seus cabelos eram naturalmente brancos. A mulher notou meu interesse em seus cabelos e sorriu.

― Encarando uma mulher com tanta intensidade – ela ria – que atrevido.

― Encontrar alguém e recusar dizer o próprio nome? – ele sorriu rebatendo – que grosseria.

Encaramo-nos um pouco mais. Seus olhos analisavam cada curva de meu rosto. Parecia tentar puxar na memória alguma semelhança com um ancestral, mas dado a expressão que fazia, ela deve ter falhado miseravelmente. Não culpo ela. Aquela mulher deve ter vivido muitas eras antes da minha, seu padrão de vestimenta e cores que usava não era algo muito recente. Nunca entendi muito de história, mas posso dizer que certamente ela deve ser alguém de 150 anos atrás, pelo menos.

― Eu não quero dizer meu nome - ela cobriu o rosto com o leque deixando-me olhar apenas para seus olhos – será aborrecedor se você me reconhecer. Diferente da minha Família, eu sou envergonhada.

Isso não parece verdade. Balancei a cabeça para afastar os pensamentos que vinham formando-se em minha mente. Aquela mulher não tinha nenhuma hostilidade apontada para mim, mas minha mente ativou-se sozinha para insultá-la com aquele comentário. Entenda que esse é um dos métodos dos Escorpiões, porém aquilo me pareceu errado. Primeiro, porque ela não tinha nenhuma hostilidade para mim, segundo, porque ela deveria ser uma ancestral do Clã Garça. Mesmo sendo alguém de algumas gerações atrás nunca foi muito sábio insultar alguém “mais velho”.

― Chama-me “Hime” – ela disse virando um pouco o rosto para esconder a vergonha.

― Uma escolha interessante de “nome” para alguém que se disse envergonhada, princesa – eu disse em deboche. É, eu sei, acabou escapulindo, sinto muito.

Aquela mulher mudou momentaneamente a forma como me olhava. Seus olhos tornaram-se afiados com uma espada e perfuraram através de mim, mas logo sua expressão voltou a normalidade e seu rosto inchou um pouco, irritada. Naquele instante, meus sentidos Escorpiônicos ativaram-se para me defender, mas quando sua expressão suavizou e notei suas bochechas levemente coradas e inchadas, eu não pude conter o riso. Aquilo lembrou-me ainda mais de minha noiva.

A mulher a minha frente era tão fácil de irritar quando Akatsuki, a semelhança agora era, para mim, assustadora. Ela pareceu ainda mais irritada enquanto eu ria, mas já não conseguia mais parar. Demorou um pouco para conseguir me conter e virei para a olhar. Hime já não olhava mais para mim, seu belo rosto estava virado para outro lado olhando para o vazio, ainda irritada comigo. Desculpei-me algumas vezes e a fitei um pouco.

Seja quem fosse aquela mulher, ela provavelmente era uma descendente direta de Lady Doji. Como eu poderia saber? Simples. A tradição de pintar os cabelos de branco veio desde o amanhecer do Império. Época a qual Lady Doji ainda era viva, ela tinha cabelos brancos naturais, e seus descendentes também nasceram com tal característica. Estas pessoas são muito raras atualmente, mas ainda existem. Os Garças, no entanto, tornaram uma tradição pintar seus cabelos de branco para se aproximarem ainda mais da fundadora de seu Clã. Você já deve ter notado, mas caso não, me deixe falar; os Doji, família principal do Clã Garça, recebe o nome de Lady Doji, pois ela foi a fundadora da Família.

― Brincadeiras a parte, o que eu faço nas terras ancestrais dos Doji? – eu disse olhando em volta – eu sou um Escorpião, eu deveria estar nas minhas terras ancestrais.

― Você não morreu, se é o que quer saber – ela disse olhando para mim – Como sabe que está nas terras dos Doji?

― Seu cabelo, ele não é tingido de branco – eu respondi olhando de canto – eles são verdadeiramente brancos, o que significa que você é uma descendente direta da própria fundadora do Garça, o que é uma grande honra para mim. Esse lugar bate com as descrições das terras ancestrais do Clã e eu também posso ver ao longe o Castelo Garça.

― Interessante ponto de vista, continue pensando assim – ela sorriu – Você veio para este lugar receber meu agradecimento.

― Eu não vejo motivos para isso, Princesa. – eu ergui a sobrancelha – O que um simples Samurai como eu teria feito para merecer sua gratidão?

― Você empunhou uma lâmina ancestral Garça com destreza, Escorpião – ela pousou as mãos sobre as coxas.

Ah me desculpem, acho que me esqueci de falar que nos sentamos. Não é fácil me concentrar em alguma coisa quando me lembro daquela mulher. Nós estávamos sentados sob um guarda--sol azul e um pouco de chá estava sendo fervido. Não me pergunte como isso é possível, porque quando me lembra daquela cena tudo que eu vejo é aquele sorriso e fica difícil sair do transe que fico quando isso acontece. Então não me force.

― Você ainda precisa ser polido, mas eu posso ver um futuro brilhante em você – ela disse servindo chá – Você deve ficar com essa espada.

Ela disse apontando para a katana ao meu lado. Ela estava pousada à minha direita, em paralelo com minhas pernas. O punho estava virado para trás apontando na mesma direção de minhas costas. Deixe-me explicar algo que talvez seja interessante para você saber. A maioria dos Samurais é destro, a mão direita é a dominante, sim, eu sei que pode ser meio bobo explicar-lhe o que é destro, mas nunca se sabe. Isso se dá principalmente por conta da escrita Rokugani e por um motivo cultural.

Muitos Samurais usam, portanto, a espada presa à esquerda do corpo, pois puxamos com a direita. Não interrompa o raciocínio, que falta de educação, menino. Droga, senti-me um velho sensei agora. Quando se coloca a espada à direita, no caso dos destros, isso faz com que seja mais difícil usar a espada no momento do combate, mas existe um sutil detalhe em tudo isso. Perceba, quando a espada é posta à direita, no meu caso que sou destro, e com o punho virado para trás; eu estou dizendo que terei uma conversa pacífica com aquela pessoa.

Isto quer dizer que eu não pretendo que essa conversa se transforme em algo sangrento, isto tranquiliza a outra pessoa. Já se eu colocar ao lado que favorece o meu saque, demonstro toda a minha hostilidade para aquela pessoa. Seja porque eu tenho raiva daquela pessoa ou porque eu espero algo hostil vindo dela. Entendeu? Para você, algo assim pode não ser interessante, mas para mim, esses pequenos detalhes são os que fazem as coisas mais interessantes.

― Perdoe-me a indelicadeza, Princesa – eu disse com um suspiro – se esta espada é uma arma ancestral Garça, ela deve voltar para o vosso Clã e para seu atual dono, Doji Haruki.

― Essa espada pertence a você, que a brandiu tão bem em muitos anos – ela balançou a cabeça – sua luta contra aquela Seppun foi estupenda. Acordei depois de muitos anos presa pela maldição.

― O que era a maldição dessa espada? – perguntei tomando um gole do chá.

― Eu a dei de presente para alguém muito importante para mim, mas essa pessoa morreu em combate, brutalmente assassinada, mesmo tendo alguém como aquele Homem a protegendo – ela disse triste – em minha morte, meu espírito fundiu-se com a lâmina, pois eu havia derramado minha essência nela quando a dei de presente. Eu queria dar boa sorte para ela, mas provou-se insuficiente. Durante séculos eu vi muitos morrerem empunhando essa espada, mortes horrendas.

― A maldição começou por você acreditar que trazia azar a quem empunhasse a espada, não é? – eu coloquei a porcelana ao chão e empurrei para ela devagar.

― Sim, e um sentimento estranho começou a crescer dentro de mim quando eles começaram a me chamar de lâmina maldita – sua voz carregava grande tristeza.

Hime parou de falar por um momento e uma lágrima começou a escorrer por seu rosto lentamente. Ela fechou os olhos parecendo lembrar-se de muitos momentos desagradáveis. Devem ter sido muitos anos de sofrimento, tendo que passar sozinha por tantos insultos e injustiças calada e sem forças para defender-se. Eu senti uma fisgada em meu peito. Reflexivamente meus dedos foram de encontro às bochechas dela. Sua pele era suave, quase como tocar em uma nuvem. Ela abriu os olhos assustada e olhou para mim nervosa. Eu continuei impassível e limpei a lágrima que riscava seu rosto, estragando aquela imaculada obra de arte criada pelas fortunas.

Ela continuou olhando para mim ainda em choque. Deveriam haver muitos motivos para aquilo. Talvez um deles seja porque foi tocada por um homem que não fosse o seu pretendente. Certo, eu já havia a abraçado antes, por isso eu disse talvez. Poderia ser então porque, como havia passado muitos anos sozinha, ela não esperava ser consolada da tristeza que estava sentindo. Ela olhou para mim mais calma e seus olhos pareceram agradecidos a mim mais uma vez.

― Minha mente voltou durante seu duelo contra a Seppun, mas a maldição foi quebrada apenas depois que a espada foi reforjada e o Gaki foi derrotado – ela sussurrou.

Hime fechou os olhos, enquanto eu roçava os dedos em sua bochecha dando a ela um afago. Eu não sei quantos séculos fazem desde que foi afagada, mas devo dizer que era quase como uma sensação nova para ela. Apenas depois que notamos o que estava sendo feito desvencilhamos o contato. Ela olhou para mim com os olhos fixos nos meus e eu tremi. Eu então desviei do olhar dela e limpei minha mente antes de voltar a olhar para ela. Aquilo estava ficando perigoso para a minha sanidade.

― Você viu tragédias demais enquanto presa dentro dessa espada – eu suspirei, olhando para ela – ninguém nunca conseguiu ouvir suas chamadas?

― Alguns, mas com o passar dos anos eles não conseguiam mais me escutar e começaram a me culpar por coisas ruins que aconteciam – ela olhou para o céu – mas você é o primeiro a chegar nesse reino.

― Por falar nisso, o que é esse lugar de fato? – eu disse olhando novamente ao redor. Aquele era um jardim imenso, estendendo-se até onde minha vista alcançava. Apenas flores podiam ser vistas e nenhuma forma de sair dali, sem destruir várias daquelas flores, parecia existir. Às costas de Hime, bem ao longe, era possível ver o Palácio Doji, era diferente daquele que me acostumei a ver. Aquela construção era mais “divina”, por assim dizer, ficava acima de uma colina cercada de cerejeiras, um prédio de puro branco e de incontáveis andares, como uma torre. De suas paredes, bandeiras com o símbolo da Garça dançavam. Tudo naquele lugar lembrava a romântica primavera, deixando em minhas narinas os aromas apaixonados das flores.

Ela me explicou enquanto tomávamos chá. Aquele reino ficava dentro da espada, era a morada dela. Ela não sabia explicar como cheguei naquele lugar, mas provavelmente apareci lá quando fui tragado para o Gaki-dô. Como ela tinha explicado antes, eu fui o primeiro a pisar em sua casa, nada de especial. Provavelmente aconteceu por estar segurando a espada que continha seu espírito quando cai no reino dos espíritos famintos e para me salvar, a espada me levou para aquele belo lugar. Continuamos conversando até que o chá acabou e eu sabia que estava na hora de voltar.

― Eu devo voltar – falei levantando-me – ainda preciso devolver a daisho ao seu dono.

― Você foi uma ótima companhia, Sr. Escorpião – ela curvou-se se despedindo – eu espero encontrá-lo outra vez.

― Será uma honra encontrar a senhorita mais uma vez – eu disse sorrindo – No entanto, acho que será impossível, eu irei devolver a espada ao seu legítimo dono.

Quando eu estava de pé tudo ficou escuro e senti meu corpo caindo novamente. Senti batendo em alguma coisa, abri meus olhos tossindo. Eu estava na sala de Hida Samano e tinha acabado de destruir a mesa dele. Fugir das garras do tigre para cair na boca do dragão, sorte a minha. Eu gemi dolorido pela queda e tive a ajuda do Leão para me levantar.

― Achei que você tinha dito que este homem morreu, shugenja – Hida samano olhava para mim irritado.

― Não parece ser fácil este Escorpião morrer – o Kuni suspirou.

― Eu tomarei isso com um elogio – eu ri.

Caminhei até a frente de Hida Samano e me ajoelhei, colocando a testa ao chão e pedindo desculpas por ter destruído sua mesa. Ele parecia irritado, mas um sorriso maligno apareceu em seu rosto. Ele teve uma ideia interessante, aparentemente ele cobraria esta mesa de Doji Haruki.

Por Yamimura | 09/09/18 às 11:57 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror