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Memória 11 - Trégua

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 11 - Trégua

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

― Vamos continuar. – Hida Samano disse – O que vocês descobriram sobre a ladra?

O Lorde olhou de canto para mim com um pouco de desdém. Não era de estranhar dada a forma como tinha feito minha entrada no recinto, mas ele não fez nada além disso. Ele olhou de canto para o Kuni do nosso grupo, devolvendo-lhe, aparentemente, a palavra. Os ânimos tinham se acalmado, havia batido a poeira de minhas roupas e me foi oferecido um lugar entre meus camaradas para sentar-me.

― Como eu dizia antes de começar a chover Escorpiões – ele falou olhando para o Lorde – Nós descobrimos que a ladra estava agindo sobre o comando de Seppun Ayumu.

Os olhos de Hida Samano quase saltaram de suas órbitas, e o rosto dele empalideceu com a loucura que o shugenja estava lhe dizendo. Como já cansei de repetir nessas Memórias, Seppun Ayumu era um homem importantíssimo para o Império como um todo; Líder de uma das Famílias mais influentes e poderosas, acusá-lo daquela forma, mesmo em um âmbito privado como aquele, era algo muito grave e deveria ser evitado ao máximo. Não havia nenhuma surpresa em ver a cara que Hida Samano fazia enquanto ouvia tais, para ele, absurdos. Não havia nenhuma prova senão a palavra de alguns Samurais; contra um Líder de Família e um Seppun nenhuma delas tinha valor.

― Nós entendemos que isso é uma grave acusação – eu disse – mas encontramos com Seppun Ayumi e ouvimos de sua própria boca. Não estamos aqui querendo incriminá-lo, antes que essa ideia venha à tona, queremos apenas esclarecer o ocorrido.

― Digamos que eu acredite nessa história absurda – Hida Samano moveu-se na cadeira – Porque Seppun Ayumu mandaria roubar uma coisa que supostamente ele mesmo deu de presente?

― As espadas estavam amaldiçoadas – Akodo Ryuu falou – ele parece ter ficado preocupado com sua reputação por ter dado um objeto amaldiçoado para alguém.

Um brilho de entendimento passou pelos olhos de Hida Samano. Era entendível o argumento do Leão, mas cometer a gafe de tentar o próprio presente por um motivo desse? Difícil de engolir, para não dizer impossível. Hida Samano encostou-se melhor na cadeira que estava sentado e seu corpo enorme pareceu relaxar, enquanto ele estava pensativo com a possibilidade. Seus olhos balançavam de um lado para o outro enquanto tentando buscar uma solução mais lógica para o que estava acontecendo em suas terras, mas nada pareceu vir. Para forçar um homem de boa índole como Seppun Ayumu, e com uma posição social tão alta, cometer um crime tão hediondo, a maldição poderia ter uma escala Imperial.

― Ainda é difícil de acreditar – ele falou com o pensamento longe – Como vocês quebraram a maldição?

― Eu diria que foi sorte – eu respondi – As espadas quebraram e tivemos que concertá-la.

Entreguei a Samano as espadas para que talvez assim suas dúvidas cessassem. O Lorde tomou ambas as lâminas nas mãos. Pousou uma sobre as coxas e desembainhou cuidadosamente a outra. Samano olhou bem de perto para a espada, não conseguindo encontrar onde a espada tinha quebrado antes, assim como eu tinha lhe dito. Ficou impressionado com a beleza da arma e ainda mais pelo trabalho de recuperação. Ela agora tinha uma sutil diferença, mas que a deixava ainda mais bonita. O Hamon da lâmina tinha um aspecto diferente de antes; agora parecia tomar a forma de pequenas pétalas de cerejeira, mais claras que o tom rosa metálico. Para mim, parecia que agora a cor estava ainda rosa, mas levemente tendido para um vermelho escuro, como sangue. As pétalas de cerejeira em seu Hamon davam um toque sutil de beleza diferente. Quem disse que uma arma que servia apenas para assassinar não podia ser bonita? Eu, é claro, mas parece que eu estava errado.

Hida Samano olhava para aquela espada com entusiasmo cometido. Claro que era belíssima espada, mas o fato de pertencer a um Garça e principalmente pertencer a um homem que ele repudia com todas as forças, Doji Haruki, fazia o Caranguejo moderar ao máximo suas reações. Para mim, era difícil alguém esconder as reais emoções, eu fui treinado para ver através delas. Hida Samano estava impressionado e enraivecido por uma espada como aquela ter sido dada de presente a, em sua opinião, um homem tão medíocre como Haruki. Ele embainhou novamente a espada e a entregou para mim, tentando ao máximo esconder sua vontade de sumir com aquela espada, mas posso dizer que sua Honra falou mais alto naquele momento. De fato, Samano era um bom homem.

― Eu particularmente não gosto de Doji Haruki, ele é pomposo demais para um homem – ele disse acostando-se melhor à cadeira – Mas isso não quer dizer que fico feliz em saber que em todos esses anos ele estava sendo acometido por uma terrível maldição.

O Leão ficou muito satisfeito com aquelas calorosas palavras que Hida Samano emitia para seu odioso inimigo. Ninguém é obrigado a amar ninguém, isso é fato. Mesmo uma mãe não é obrigada a amar o próprio filho. Em Rokugan, temos uma “Lei” que diz que mesmo que você odeie seu inimigo deve-se agir educadamente contra ele. Claro que essa “Lei” é algo bem mais moral que uma lei de fato, assim, quebrá-la não é uma coisa tão difícil. Tudo o que acontece é o Samurai, em questão, ficar mal falado.

Ver, no entanto, um inimigo jurado de alguém falar daquela forma, não desejando o mal para alguém de forma tão sincera, era algo até raro. Sim, ele estava sendo sincero, ele não poderia me enganar mesmo que assim desejasse. Para os Leões, Samurais devem lutar suas batalhas com honra e vencer com ela; de nada adianta vencer abdicando a própria honra, no fim, você não teria uma vitória verdadeira. Para mim, tudo isso era apenas tolice e palavras bonitas. Se você tem a força para destruir um adversário, destrua-o. Um inimigo vivo é um inimigo raivoso e perigoso. Um inimigo morto é apenas um cadáver. Se uma ação ira resultar em um inimigo, pense novamente e tente outro caminho.

― Digam a ele que pretendo ser um vizinho melhor daqui para frente – ele suspirou – Mesmo que eu ache que nossos conflitos não vão acabar, talvez eles possam ser menos ferozes. Se vocês já terminaram o que tinham que fazer, melhor voltarem.

Ele disse balançando a mão, ou seja, nos mandando ir embora, pois ainda tinha coisas para resolver e não queria ser atrapalhado. Saímos sem muita demora e eu fui interrogado sobre o que aconteceu depois que fui tragado pelo portal. Eu omiti o fato de encontrar um ancestral Garça, ninguém acreditaria em mim de qualquer maneira. Falei para eles que fui caindo em um lugar escuro e tendo visões que me pareciam o passado daquela espada. Pelo que eu entendi, a maldição tratava-se de um suposto azar que a espada trazia a quem usasse, levando o dono a uma morte muito dolorosa. Os fantasmas dos mortos eram consumidos pela espada e juntavam-se à maldição, tornando-a mais poderosa com o tempo. Ninguém desconfiou da história. Eu devo admitir que sou ótimo em fazer as pessoas acreditarem em mim. Resolvemos passar a noite em Wachimasu e voltar para Tochigi pela manhã, estávamos muito cansados para viajar naquele momento. Chegamos a pousada e fomos atendidos pelo mesmo heimin de antes, ele ficou apavorado quando viu nossas roupas sujas de sangue, mas se tranquilizou quando Akodo Ryuu falou que já tínhamos passado pela enfermaria.

O Leão resolveu tomar um banho, Kuni Karasu e Hida Hiato foram para seus quartos e eu decidi voltar à casa de sakê. O Heimin me recebeu com um enorme sorriso, ele ficou bem contente porque mantive minha promessa de voltar. Sentei-me à uma das várias mesas vazias. O lugar era bem conservado. Em uma vila de guerreiro, aquele era o lugar mais movimentado, mas como disse antes, o motivo de estar tão vazio foram os recentes ataques. A Loja era apenas um salão espaçoso com várias mesas baixas e almofadas bastante confortáveis, e um quarto menor atrás, onde o Heimin armazenava o saquê e tudo que separava esses dois cômodos era um balcão de madeira e algumas prateleiras, onde o Heimin guardava os copos e garrafas vazias de saquê. Ele tinha permissão de Hida Samano para criar a própria bebida e, apesar de não ser das melhores, ela não era ruim.

Ele serviu-me um dos melhores saquês que tinha e foi contando-me histórias sobre a vila. Primeiro, ele falou sobre o daimyo, ele foi um incrível general na muralha defendendo sozinho ela de uma horda quase infindável de goblins, um pouco exagerado, eu admito. Aparentemente, ele aposentou-se depois de uma luta que quase lhe custou a vida. Seu pelotão foi quase inteiramente dizimado por um único oni. Eu nunca tinha visto tal criatura até aquele dia. O primeiro oni de verdade que vi foi em Ryoko Owari, mas isso é uma história para depois. Ele também comentou sobre a antiga intriga entre ele e Doji Haruki que começou depois que Hida Samano teve prejuízo em uma troca comercial com o Garça.

Durante nossa conversa, o homem falou sobre um problema na região. Um grupo de bandidos estava atormentando os viajantes nas estradas. Eles atacavam principalmente nas estradas que cruzavam a floresta, a rota principal era larga demais para uma emboscada. A vila estava segura por causa da guarda, pois os bandidos não estavam seguros se poderiam atacar a vila e sobreviver. Perguntei se ele sabia quantos homens haviam nesse grupo e ele comentou que não sabia ao certo, os viajantes falavam de ataques em grupos de oito ou dez. Pelo que entendi, os bandidos atacavam a qualquer hora do dia, então deveriam ser pelo menos de trinta a quarenta homens.

A descrição batia com os bandidos de mais cedo e, durante a conversa, o heimin disse que havia um emblema mal feito de um tigre em chamas em suas roupas. Eu busquei na memória várias vezes, mas nunca consegui me recordar disso, talvez fosse apenas um boato. Eles usavam armas boas demais para um grupo de arruaceiros quaisquer. Estavam roubando as armas de suas vítimas e usando em seus próximos saques. Contei sobre nosso encontro com aquele grupo e o Heimin ficou branco, preocupado comigo. Gargalhei quando vi o seu nervosismo, enquanto eu contava sobre o ocorrido. Em minha versão, enfrentamos pelo menos 40, os corpos estavam jogados pela floresta e precisaríamos de alguns Etas para recolher os corpos.

A conversa, em algum ponto que não lembro, chegou novamente à Hida Samano e contei como o lorde de Wachimasu nos ajudou, ordenando que seu melhor ferreiro ajudasse a reforjar duas espadas amaldiçoadas. A maldição estava afetando diretamente seu arqui-inimigo Doji Haruki, pois essas lâminas à ele pertenciam. Estávamo-nos procurando uma maneira de quebrar essa maldição e Hida Samano se ofereceu, pois em algum lugar em seu grande coração ele queria ter paz com Doji Haruki e ele esperava que com essa atitude a situação entre as duas vilas melhorasse. O heimin ficou bastante surpreso por seu Senhor ter esse tipo de pensamento. Ele sabia o tipo de homem que Hida Samano era, e algo assim era uma surpresa para ele, mas acreditou em minha história, pois conhecia muito bem seu mestre e sabia que ele era muito bondoso.

Com isso, meu objetivo naquela longa conversa, foi alcançado, espalhar boatos sobre Hida Samano. Para o resto do plano, eu agora só precisaria conversar e convencer Doji Haruki. Dando um longo bocejo senti a preguiça tomar meu corpo enquanto eu me espreguiçava. Perguntei quando eu devia e o heimin balançou os braços, nervoso, dizendo que a história que contei foi o pagamento pelo saquê e como agradecimento por ter mantido minha promessa de voltar, ele me vendeu um saquê especial que ele estava testando, e queria a opinião de quem conhecia bem o saquê. Eu sorri comprando duas garrafas e disse que mandaria uma carta em resposta ao sabor da bebida para ajuda-lo a melhorar.

Deixei a casa de saquê com um bocejo enorme, apoiei o braço no cabo da katana em minha cintura e gelei. Eu tinha me esquecido de guardar a daisho de Doji Haruki e continuei passeando com ela em minha cintura. Levei a mão à cabeça com uma careta e tentei pensar em uma desculpa para dar aos outros quando eu retornasse para a pousada, mas para a minha sorte não haveria ninguém acordado esperando meu retorno. Digo, havia alguém, mas não do meu grupo.

Cheguei à pousada caminhando cambaleante e tive a ajuda do Heimin que cuidava da pousada para entrar. Eu tinha passado quatro horas tomando saquê e não era estranho que eu estivesse nesse estado. Como tinha responsabilidade sobre a daisho em minha cintura, eu estava constantemente com a mão sobre ela para evitar que alguém a tirasse de mim. Fui levado para tomar um banho quente antes de dormir e agradeci ao Heimin pela ajuda. Ele me olhou estranho, parecia ser o primeiro agradecimento que recebia em um mês e continuou me ajudando com mais vontade. Arrumou-me roupas limpas e toalhas para o banho. Enquanto eu esperava ele preparar a banheira, que ele disse estar inadequada para alguém como eu, eu coloquei a daisho à minha frente e fui tirando o kimono sujo de sangue. O Heimin arrumou-me um cesto de palha para colocar a roupa suja. Ele lavaria ainda esta noite e seria entregue amanhã.

Eu arranquei qualquer coisa que pudesse ligar aquele kimono a mim, joguei a roupa suja e me enrolei em uma toalha. Passei os olhos pela sala adjunta ao banheiro e encontrei um espelho. Outros dos estranhos objetos que o Unicórnio trouxe das terras estrangeras e tornou-se muito popular, já que há um deles em uma vila pequena como esta. Prendi a toalha para não cair e passei os dedos por minha pele. De alguma forma, minhas feridas não tinham deixado nenhuma marca, o que era um grande alívio. Passei os dedos pelo músculo de minha barriga e senti alguém olhando para mim. A princípio achei que fosse o Heimin, mas quando virei para olhar não havia ninguém no recinto. Depois de algum tempo o Heimin saiu pela porta que ligava aquela sala e o banheiro dizendo que o banho estava pronto.

Entrei no banheiro ouvindo o Heimin dizer que colocaria as roupas limpas em uma das prateleiras de madeira, para que eu pudesse trocar de roupa depois de acabar. Agradecendo mais uma vez, fechei a porta e sentei-me em um banquinho de madeira começando a lavar o corpo e meus cabelos antes de entrar na banheira. Meu cabelo estava cheio de pequenos galhos de árvore e suado,  já começando a feder pelo tanto que corri e rolei naquela floresta. O Heimin se esforçou bastante para me agradar apenas por um agradecimento singelo como aquele, pobre homem, que tipo de tratamento os caranguejos davam a ele? Pensei comigo mesmo que daquele dia em diante eu trataria melhor os de posição celestial inferiores à minha. Não apenas pelo benefício que isso trazia, mas porque essas pessoas não eram muito bem tratadas pela maioria dos samurais. Depois de lavar o cabelo, eu o cheirei para conferir se aquele odor horrível ainda estava ali e fiquei satisfeito que consegui retirá-lo. Levantei entrando na banheira. Fiquei algum tempo dentro da água quente, sentindo toda a minha fadiga ir embora. Estava tão relaxante ficar ali que quase peguei no sono duas vezes. Sai do banheiro e me arrumei para ir dormir. A roupa colocada ali era muito boa e estava com um cheiro bem agradável, coloquei as toalhas usadas sobre outras e passei pela porta que dava acesso ao corredor. O Heimin estava ajoelhado esperando por mim.

― Como foi o banho, meu senhor? – ele perguntou com um pouco de receio.

― Eu não encontraria um melhor nem em uma vila garça – eu sorri.

Era uma mentira, óbvio, mas que mal traria agradar o pobre homem uma vez? Ele ergueu a cabeça olhando para mim, seus olhos brilhavam pelo elogio e ele baixou a cabeça agradecendo por isso. Pedi para ele mostrar-me o quarto onde passaria a noite e ele me levou para um quarto bem melhor. Eu disse que não precisava de tanto luxo, iria apenas dormir, mas ele insistiu que eu ficasse ali. O quarto não era tão luxuoso assim, mas comparado aos outros era como estar em uma pousada completamente diferente. O ofurô era bem mais confortável e macio, parecia ter sido limpo a pouco tempo, pois ainda estava um pouco frio. Os móveis no quarto eram mais novos e bem cuidados e o tatame fora trocado recentemente. Realmente não era para tanto, mas não reclamei. Aquela pousada era apenas para clientes ocasionais, como comerciantes ou parcos visitantes à vila, então tanto “luxo” que me deixou surpreso. Os habitantes daquela vila tinham suas próprias casas e os guardas viviam no quartel.

Eu fui o primeiro a acordar na manhã seguinte e agradeço a minha mãe por ter recebido dos meus parentes Leões a resistência à ressaca. Já vi muitas pessoas reclamando de uma terrível dor de cabeça na manhã seguinte de uma bebedeira, mas eu nunca sequer acordei de mau humor. Eu levantei esticando meu corpo e dando um pesado bocejo. Troquei a roupa de dormir por meu quimono sobressalente, dobrei a roupa que estava vestindo antes, o colchão e sai para encontrar com o servo da pousada que estava varrendo a frente do estabelecimento. Ele me recebeu com um enorme sorriso, curvando-se para mim até que suas costas se alinharam com sua cintura. Ele disse que o café da manhã estava pronto e perguntou-me se deveria servir-nos.

Eu não sabia em relação aos outros, mas eu estava faminto. Pedi que o homem colocasse a refeição e eu contaria para os outros. Algum tempo depois, os meus companheiros foram aparecendo na recepção e levei-os para comer. A mesa foi posta com comida o bastante para nos satisfazer, certo, Hida Hiato tinha o dobro do meu tamanho, então tente imaginar o tanto que ele comeu. Depois de comermos, montamos nos cavalos e partimos de volta para Tochigi.

A viajem de volta foi bem mais longa, pois não tínhamos tanta presa para voltar já que a caravana partiria para Tsuma apenas pela tarde. Nós chegamos à vila por volta das 8 da manhã e ela já estava um pouco movimentada. Vimos um comerciante saindo com suas mercadorias vindo em nossa direção. Talvez ele fosse agora para Wachimasu tentar a sorte com os moradores de lá. Alguns Hemin limpavam as folhas da rua principal e quando passávamos, eles baixavam a cabeça mostrando-nos respeito.

Na frente da casa do daimyo alguns servos preparavam o comboio que levarias alguns samurais e Doji Haruki à Tsuma.  Recebidos à porta pela serva pessoal de Doji Haruki, fomos levados a seu escritório para esperá-lo. Não demorou muito tempo até que ouvimos os passos apresados dele vindo pelo corredor. O daimyo estava ainda com um rosto abatido pelo ocorrido da noite anterior, mas seus olhos brilhavam quando ficou sabendo de nosso retorno tão rápido. Ele achava que demoraria pelo menos uma semana para encontrarmos sua daisho.

Nós resolvemos dar o trabalho de entregar a daisho ao homem à Karasu, já que ele tinha deixado sua wakizashi nas mãos de Doji Haruki antes de sair. No momento que viu sua preciosa daisho, o rosto do homem corou e pareceu rejuvenescer vários anos. Ele lacrimejou um pouco e curvou-se para nós extremamente agradecido.

― Agradeço pelo que fizeram por mim – ele disse entregando a espada de Karasu – sua lâmina me serviu bem, eu agradeço pelo que fez por mim.

― Não foi nada, Haruki-sama – Karasu curvou-se para ele.

― O que vocês fizeram com a ladra? – ele perguntou com um tom sombrio.

― Infelizmente, ela fugiu – O Akodo baixou a cabeça – e por motivos de força maior cancelamos nossa perseguição.

― O quê?! – Haruki gritou irritado – Como vocês puderam deixar o ladrão fugir?!

Demorou alguns minutos para acalmá-lo, mas conseguimos explicar o que aconteceu. Doji Haruki ficou pálido quando eu falei sobre o possível envolvimento de Seppun Ayumu no roubo de sua daisho. Era óbvio que ele não conseguia acreditar que um nobre faria aquilo. Eu coloquei minhas dúvidas sobre o fato de Ayumu recorrer a um método nada ortodoxo. Explicamos sobre a maldição que havia nas espadas, mas ainda assim, aquilo deixaria um gosto estranho na boca de qualquer um.

― Tem mais, infelizmente durante a batalha a katana foi quebrada – Akodo-san explicou – e Hida Samano descobriu sobre o roubo.

O rosto de Doji Haruki ficou ainda mais pálido que de Kuni Karasu e sua mente explodiu como pimenta Gaijin. Seus olhos ficaram vagos e pareceu ir envelhecendo vários anos em segundos, tornando-se um cadáver falante em alguns segundos. Com esse tipo de informação nas mãos do inimigo era simplesmente impossível evitar cair em desgraça. Hida Samano espalharia para os quatro ventos o que aconteceu e a vida de Haruki se tornaria difícil.

― Droga, aquele desgraçado irá me fazer provar o inferno – Haruki-sama praguejou.

― Dificilmente isso se tornará verdade, Haruki-sama – eu fale com um sorriso.

― Hm? – Haruki-sama ergueu uma sobrancelha – você não conhece aquele homem, ele é uma cobra.

― Isso pode ser verdade – eu apontei para a daisho – mas ela foi concertada pelo desejo e gentileza de Hida Samano.

Todos me olharam com espanto nos olhos, principalmente Kuni Karasu que estivera comigo o tempo todo e sabia que o que falei era mentira.

― Quando ele ficou sabendo que essa arma estava amaldiçoada pelo ódio de Doji Daiori, ele temeu por sua segurança e prometeu-lhe ser um vizinho melhor – eu explicava enquanto via o choque nos olhos de Doji Haruki – essa daisho é um agora, representa o fim da inimizade entre dois daimyos.

O homem parecia atordoado com o que falou, ele nunca achou que seu inimigo faria algo assim. Ele entendeu o que aquilo implicava. Talvez os conflitos entre os dois nunca acabassem, mas no melhor dos cenários, talvez os dois voltassem a ter relações comerciais.

― O que você quer dizer com “pela gentileza de Hida Samano”? – ele ainda estava intrigado.

― Veja, quando a espada foi quebrada, eu e Karasu-san fomos ao ferreiro de Wachimasu, foi difícil, mas consegui convencê-lo – eu suspirei – Tensin-san foi muito prestativo quando ouvi as intensões de findar a inimizade entres as vilas. Ninguém é feliz com tanto ódio entre os senhores, e eles fariam qualquer coisa para ajudá-los a tornarem-se amigos.

 Kuni Karasu não sabia como reagir aquilo e apenas balançou a cabeça quando os outros dois o interrogavam com os olhos. Ele suava frio a cada palavra minha, mas conseguia se controlar para não dizer nada desnecessário. Doji Haruki aceitou aquilo depois de algum tempo, mas ainda estava um pouco desconfortável, talvez ele fosse investigar aquilo. Felizmente, o boato sobre a “gentileza” de Hida Samano já estaria muito bem espalhado e deveria chegar a esta vila ainda hoje. Ainda ao fim deste dia, uma misteriosa carta estaria chegando às mãos de Hida Samano, mas infelizmente, eu não tenho ideia de quem a enviou.   

 

Por Yamimura | 16/09/18 às 15:07 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror