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Memória 14 - Punição

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 14 - Punição

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Levei a mão para a ferida tentando inutilmente conter o sangramento. Ouvi os passos de Doji Daiori correndo na minha direção e levantei a espada. Desviei um pouco para o lado, sentindo a espada roçando em minhas roupas e cortando um pedaço do quimono. Com um movimento da espada eu lhe cortei o braço e ele gritou de dor afastando-se. O corte deixou seu braço pendurado, sendo segurado basicamente por sua pele. Daiori olhou ofegante para o braço que se tornou inútil e passou a katana nele. Ele gemeu de dor deixando o braço decepado cair como um baque molhado ao chão. Ele continuou a ofegar, olhando para mim e começou a andar de lado, forçando-se a manter os olhos abertos. Assim como eu, Daiori tinha perdido muito sangue e a luta deveria acabar logo. Eu embainhei as espadas e elas tornaram-se novamente uma daisho.

Comecei a andar junto a ele, separados por um metro e meio. O vento estava muito frio e fazia meus dentes baterem, sensação essa dada à perda de sangue. Aquilo não foi um duelo, não confunda as coisas, um duelo é mais cerimonial, honrado e demorado. Nós não tínhamos o luxo de perder tempo com cerimônias. Senti uma dor aguda no peito e parei tempo o bastante para dar a oportunidade para Daiori agir primeiro. Quando ele estava a menos de um braço distante de mim, sua espada em riste pronta para descer em minha cabeça, eu desembainhei a minha o mais rápido que consegui, parando o golpe com a katana. Com a outra mão, a wakizashi deixou sua bainha e cravou-se na coxa de Daiori. O homem gemeu de dor, dei um passo para o lado e cortei através de suas costelas. O movimento foi limpo e jogou muito sangue à grama. Tingindo de vermelho muitas das pétalas que foram levadas pelo vento.

Daiori respirava com dificuldades e cheio de dor ele tentou ainda desferir um golpe, mas sem forças para continuar de pé. O balanço o pôs de joelhos. Olhou para mim impotente e ofereceu-me seu pescoço. Respirei fundo e o decapitei, dando alguns passos na direção de Hime que tinha acabado de preparar o chá. Dei dois passos naquela direção e meu corpo entrou em colapso. Senti... Melhor, eu não senti nada, meus olhos ficaram pesados e todo o meu corpo latejava. Parecia que meu corpo inteiro estava sincronizado com as batidas de meu coração. Ele estava irregular e batia de forma desordeira, sem nenhuma lógica. Parei e quando dei por mim já estava de joelhos. Meu corpo recusava-se a obedecer e, não obstante, eu já nem lembrava como o fazer mover-se.

Minha katana estava cravada ao chão de frente para mim e através de sua lâmina eu podia ver meu próprio reflexo. Talvez por efeito da luz a superfície do metal estava tão polida quanto uma daqueles espelhos do Clã Unicórnio. Através dela eu podia ver meu próprio semblante e ele era horrível, muito mais do que eu lembrava. Não havia sentido tantos golpes quando a minha figura estava mostrando. Meu quimono estava destruído e completamente encharcado de sangue. Eu já tinha visto muitas feridas e pessoas morrerem de sangramento, mas devo dizer para você, eu nunca havia visto tanto sangue em toda a minha vida.

Pela quantidade que existia em minhas roupas, naquele momento, eu não ficaria surpreso se alguém me dissesse que foram jogados em mim o sangue de mais quatro pessoas. As feridas eram profundas e estavam posicionadas em lugares estratégicos por todo o meu corpo. Minhas pernas já não me obedeciam, pois nelas haviam vários cortes que talharam meus músculos até os ossos. Eu sentia dificuldades para respirar, pois pelo menos seis costelas foram cortadas e esmagadas contra meus pulmões. Cada tragada de ar que era dado eu podia sentir meus pulmões sendo dilacerados por meus próprios ossos, e agora eu até mesmo os sentia pesados.

Eu não entendo tanto assim de medicina, mas olhando bem e pelos meus estudos de anatomia, que ninguém sabia que eu estudo esse tipo de coisa, além do fato de eu sentir aquele peso em meus pulmões, eu posso dizer que provavelmente, daqui há alguns momentos, eu me afogaria em meu próprio sangue. Consegui levar minha mão, mesmo trêmula, até minhas costelas e ao tocar eu senti pela primeira vez meu corpo reagir, mas teria sido melhor se isso não tivesse acontecido.

Senti um choque percorrer cada pedaço de meu ser e a dor excruciante fazer-me encolher sobre meu próprio corpo. Serei os dentes para conter e foi quando senti uma regurgitação. Vomitei meu próprio sangue misturado ao chá que havia bebido há pouco tempo e senti minha garganta queimar. Comecei a tossir violentamente e continuei colocando tudo o que tinha em meu estômago para fora, até que meu próprio corpo foi forçando o que estava acontecendo e minha garganta travar.

Levei minhas mãos até a garganta, pois já não estava conseguindo respirar corretamente. Meu corpo foi dando alguns espasmos e cai para frente ainda tentando forçar-me a respirar. Olhei na direção de Hime e ela olhava para mim calmamente enquanto estava bebendo seu chá. Ela não moveu nenhum músculo para ajudar-me, eu não conseguia pensar em nada naquele instante, mas depois eu me dei conta de quão fria ela estava sendo.

Estendi minha mão em busca de sua ajuda, mas lá no fundo eu sabia que ela não ajudaria. Sem conseguir respirar meu corpo não durou mais muito tempo. Não que ele fosse durar muito mais mesmo que eu estivesse conseguindo o fazer. Minha mente foi esvaindo-se lenta e cruelmente, afundando na escuridão. Senti um frio mortal penetrar em minha pele como mil agulhas. Estas iam entrando por todo o meu corpo e caminhando até meu coração que ia batendo mais fraco a medida que as pequenas pontadas de frio iam ficando mais próximas.

Em um último espasmo, senti meu coração finalmente ceder ao frio e parar finalmente. Em um último suspiro apenas uma imagem veio à minha mente e adormeci. Mesmo que eu já não estivesse em meu corpo eu podia sentir-me ainda vivo, por assim dizer, eu estava caindo ou talvez subindo, não tenho como afirmar para você nesse momento. Tudo o que posso dizer é que certamente eu estava em movimento?  Não sei, eu posso estar enganado, eu sentia que estava em movimento, mas não tenho como provar isso, vamos dizer que eu instintivamente sabia disso.

Eu estava em um lugar totalmente branco e que a medida que, vamos dizer que eu estava caindo, eu continuava caindo tudo ia mudando de cor gradativamente. Continuei minha queda até que tudo estava preto e uma pequena onda de calor, partindo do meu próprio peito foi esquentando novamente meu coração. A onda foi espalhando-se por todo o Eu e logo eu ouvi um saudoso som. Ouvi um coração bater, tão baixo, tão envergonhado que mais parecia um sussurro. Eu sabia, dentro de mim, que aquele era o meu coração. O som foi aumentando lentamente até que eu não conseguia mais ouvir nem meus próprios pensamentos e em um último badalar, voltei a mim mesmo.

Senti meu corpo dando um espasmo enquanto desesperadamente buscava puxar o máximo de ar que conseguia em uma só respirada. Encontrei-me em um lugar diferente. Eu deveria estar no jardim junto com Hime, mas eu agora estava em uma varanda. Aquele era um lugar familiar para mim, ficava na casa de Akatsuki. Aquela varanda me trazia muitas boas memórias, foi ali o cenário de muitas das coisas que fizemos. Sua primeira declaração de amor a mim foi sob aquele teto ao som de uma finíssima chuva de verão.

Levantei com certa dificuldade e encontrei a mim mesmo sentado de frente para Akatsuki. Ela usava pouca maquiagem, mas o suficiente para realçar sua beleza já natural. Seu rosto fino ficava ainda mais lindo quando tinha nele um sorriso de declaração. Creio que o mesmo sorriso que estava fazendo naquele momento era o que aquele meu outro eu estava expressando naquele momento. Um sorriso que fazia meu coração frio esquentar, não pelo sorriso em si, mas pelo sentimento que ia crescendo em meu peito enquanto olhava para ela.

Eu estava revivendo uma memória? Por que agora? Seria isso o que algumas pessoas chamam de reviver as próprias memórias enquanto morre? Olhei em volta e de fato parecia ser uma memória. A mobilha que ela usava atualmente naquele lugar era menos colorida. Ela agora usava uma cor mais suave, as cores do próprio Clã e almofadas com as cores do meu. Ela dizia querer me deixar mais à vontade enquanto estivesse naquele lugar. Eu sempre dizia ser desnecessário, já que estar com ela me deixava à vontade, mas você irá entender, no futuro, que é mais fácil convencer uma porta.

Além da mobilha ser diferente, havia também o fato de que o Eu sentado à mesa parecia mais jovem. Deveria ter por volta de meus vinte anos naquele dia, eu não me importo muito com a idade que eu tinha naquele momento, havia muita coisa melhor para lembrar-se naquela data. Eu não estava enganado, naquele dia eu recebi algo muito especial, eu recebi o amor dela. Akatsuki me entregou uma carta, um poema que escreveu para mim. Sim, aquele papel que está em minhas mãos agora. Eu jamais poderia esquecer aquele poema, foi algo muito bom e que encheu meu coração Escorpiônico com felicidade.

Aproximei-me para ler aquele poema, eu lembrava-o de cór, mas lê-lo daria uma sensação muito melhor para mim. Ao colocar meus olhos no papel, porém, um sentimento totalmente diferente arrebatou meu peito; desespero. Meus olhos não podiam crer no que eu estava vendo ou melhor, no que eu não estava vendo. Aquele papel, aquele tão simples e importante papel, para mim, estava em branco. Nem mesmo gotículas de tinta estavam visíveis. O que estava acontecendo?!

Olhei em volta novamente, tudo estava tão perfeito, tão detalhadamente igual àquele dia, tantos detalhes eram tão depressíveis, mas tão absolutamente destacados em minha memória, como poderia aquilo que era muito mais importante não poder mais ser lido? Afastei-me balançando a cabeça e comecei a respirar mais lentamente, eu precisava acalmar-me, aquilo deveria ser só um estresse, logo as palavras iriam voltar a pintar o papel. Mesmo que eu não pudesse mais ler não importava, eu ainda tinha gravado em minha mente o que estava escrito, era muito fácil de lembrar; o poema era... Pelas Fortunas! Eu também não lembrava, como aquilo era sequer possível?! Mesmo que eu me esforçasse as palavras eram apenas um enorme borrão.

― Você está falando sério sobre isto? – meu outro eu perguntou.

― Sim, eu estou – Akatsuki respondeu.

― Eu gostaria de ouvir isso da sua própria boca – meu outro eu disse com um sorriso.

― Você é muito mau, Ichijou – Akatsuki disse com o rosto avermelhado – o poema já diz o que sinto, não preciso dizer nada.

Era fofo a forma como ela ficava emburrada quando eu a pressionava daquele jeito. Akatuski era alguém envergonhada naturalmente, e alguém fácil de irritar. Ela virou o rosto para não olhar diretamente para mim, enquanto o eu daquela memória apenas sorria de forma a provocar ela. Aquela era a forma como eu sempre sorria quando estava brincando com ela, e mesmo depois de tanto tempo talvez ela nunca tenha notado. Depois de alguns segundos de silêncio, ela virou-se para mim mantendo os olhos baixos e envergonhados olhando-me apenas de canto.

― Eu não vou dizer isso – ela disse com a voz trêmula .

― Ora vamos – meu outro eu disse rindo – não há nenhum problema, diga.

Akatsuki baixou o rosto um pouco mais, olhando para as próprias pernas, suas orelhas estavam ficando ainda mais vermelhas e eu quase podia ver fumaça saindo pelos seus ouvidos. Seus lábios tremeram e abriram levemente, mas nenhum som veio deles. Akatsuki ainda estava muito envergonhada para falar. Ela respirou fundo e ergueu a cabeça, seus olhos me fuzilavam e claramente havia estampado em sua testa “Você me paga por isso”. Seus lábios se partiram e ela começou a gesticular.

Naquele momento eu fiquei pálido, eu não conseguia ouvir o que ela dizia, mas eu tenho certeza que ela estava falando aquilo que o poema queria dizer. Mesmo que eu soubesse ler lábios, eu não conseguia dizer o que ela estava falando, minha mente estava muito confusa e isso me impedia de compreender o que ela estava dizendo. Afastei-me cambaleante dos dois e bati com as costas na parede de papel. Meus olhos estavam ficando embaçados e senti um fio quente rolar por minha bochecha, lágrimas. Minha visão foi ficando ainda mais embaçada e acabei, pela força que exerci contra a fina parede, rasgando-a e comecei a cair em um abismo negro.

― Está na hora de acordar – ouvi a voz de Hime.

Abrir meus olhos e encontrei-me novamente no jardim de flores com Hime, que estava sentada à minha frente tomando calmamente seu chá. Ela me olhava de forma impassível como sempre, como uma verdadeira professora. Seu olhar era penetrante e pouco amigável naquele momento. Sua expressão estava pacífica, mas eu conseguia sentir uma aura de irritação vindo dela.

― O que você fez comigo?! – perguntei

― Eu não havia dito? – ela disse calmamente – essa é a sua punição por ter perdido.

― Eu derrotei ele – falei surpreso.

― Mas morreu – ela retrucou – eu avisei que morrer era uma derrota automática.

― Você é uma mulher muito difícil de agradar – suspirei – mas qual foi a minha punição?

― Sua punição é esquecer – ela falou com um leve sorriso.

Esquecer? Eu estaria esquecendo de alguma coisa? O que deveria ser? Forcei minha mente para tentar encontrar sentido no que ela estava falando mais nada vinha. Hime sorriu e com uma pancada de seu leque na própria mão, o som me fez lembrar do que ela estava falando. Eu ainda não conseguia lembrar o que estava escrito no papel ou o que Akatsuki havia dito. Meu coração disparou desesperado, quase pulando para fora de meu peito.

― O que você fez comigo?! – perguntei com a voz alterada.

― Eu já lhe disse – ela sorriu – Você está sendo punido por ter perdido. Sua punição é esquecer os momentos felizes que teve com sua noiva. Você irá continuar esquecendo até que não consiga nem mesmo lembrar dela.

Aquelas palavras abalaram todo o meu mundo. Aquilo era de fato muito cruel para se fazer. Forçar-me a esquecer aquilo que eu mais amava poderia ser muito efetivo agora que paro para pensar. Seria uma boa maneira de me fazer ficar motivado a não perder mais. Olhei para ela que apenas devolveu com um olhar austero.

― Isso não é cruel demais? – perguntei.

― Responda você – ela falou – isso é cruel demais?

― Pensando pelo lado emocional, sim – respondi .

― Um professor movido pela emoção cria um aluno desleixado – ela respondeu firme.

― Que mulher cruel você é, sensei – respondi com um suspiro.

— Agora você sabe por que meu casamento teve que ser arranjado – ela riu – Você fez bem na luta, apesar de ter muitos pontos negativos. Você fica distraído muito fácil e isso é um visível problema, além disso, tem muitos movimentos inúteis e por isso acaba cansando fácil.

— Isso não parece difícil de resolver – eu comentei.

— Você começará a correr todo o dia pela manhã, você começará com 20 km por dia e pode dividir em duas vezes, e a noite você vai voltar aqui antes de dormir – ela tomou um pouco do chá – como você irá viajar por uma semana irá correr menos, mas irá passar mais tempo nesse lugar treinando.

— Eu fico cansado com o treinamento daqui? – perguntei.

— Não, mas você consegue dormir meditando? – ela perguntou calmamente – até onde sei, apenas alguns monges conseguem fazer isso e eles não costumam dizer como se faz para ninguém fora de seus monastérios.

Parece que ela conseguiu ler minha mente. Realmente, eu queria fazer esse treinamento enquanto eu dormia, assim eu teria mais tempo livre durante o dia, mas era impossível para mim naquela época. Saí da meditação para sentir um choque percorrer meu corpo e a dor daquele mundo dentro da espada espalhou-se pelas minhas costas. Fiquei tonto só de imaginar que tipo de dor eu estaria sentindo se eu tivesse caído naquele buraco cheio de lâminas. Achei estranho não estar sentindo nenhuma dor do corte que levei no peito, mas eu não iria reclamar disso. Olhei para fora da minha janela e vendo que ainda estava no meio da tarde eu resolvi começar o treinamento que Hime passou. Eu consegui correr apenas metade do que ela me pediu antes de o cansaço bater. Apoiei-me em uma árvore e tomei um gole fundo de água quando ouvi algo se aproximar sorrateiro. Minha Sombra estava na minha frente e curvou-se prestando o respeito.

— Eu cumpri meu dever, Mestre e tenho uma mensagem do jovem Aka – Ela disse de joelhos na areia.

— O que ela diz? – perguntei ofegante.

— Ele pede seu auxílio em uma missão estranha dada por Aquelas pessoas – Ela disse limpando o suor de minha testa.

— Eles começaram a se mover, não é? – eu fechei os olhos respirando fundo – Peça para que minha senhora mande que eu vá para a mesma missão, não podemos levantar suspeitas, além disso, faça um pedido ao Artesão.

— Qual o pedido desta vez, Mestre? – Ela olhou para mim guardando o lenço negro.

— Eu quero que ele faça três pares de chinelos de corrida para mim – falei me levantando – estes já estão ficando gastos e são desconfortáveis.

— Meu senhor resolveu aumentar sua resistência física? – Ela falou espantada – que surpresa.

Balancei a cabeça rindo e voltei para a vila correndo. Cheguei quando o dia já estava quase se tornando noite e não lembro como entrei no meu quarto, apaguei ainda no portal da vila. Pela manhã, meu corpo estava fedendo a suor e tomei um banho demorado para tirar aquele cheiro horrível. Doji Haruki veio até meu quarto preocupado, pois a guarda lhe avisou que eu havia chegado correndo ao portão da vila e desmaiei assim que o cruzei. Rindo eu expliquei que resolvi começar a treinar meu corpo, pois eu estava muito sedentário. Ele me levou para junto dos outros para comermos e então partirmos para Tsuma.

Levaria mais ou menos uma semana para chegar à Tsuma e pelo menos meio mês para minha sombra ir e voltar das terras do Clã. Eu teria tempo de sobra para apreciar o Torneio de Topázio, assim tendo uma “folga”.

O comboio saiu quando o sol estava no topo do céu e as malas de Doji Haruki já estavam na carruagem. Nós fomos convidados a dividir a mesma carruagem de Doji Haruki, mas os Caranguejos recusaram, pois ela era pequena demais para caberem. Então, apenas eu e Akodo Ryuu fomos com o daimyo. Para não sermos injustos, nós resolvemos trocar com os Caranguejos o direito de ir conversando com o homem, mas Hida Hiato continuou na recusa, pois não tinha nada para conversar. Kuni Karasu estava menos irritado comigo depois de dois dias de viajem, mas fazia comentários estranhos sempre que me via passando. Tanto rancor guardado naquele coraçãozinho Caranguejo, o pobre shugenja vai acabar tendo um infarto. No meio da viajem, Doji Haruki recebeu uma carta de seu filho, o que o deixou animado. Ele e Hida Samano tinham firmado um acordo de comércio parcial e quem sabe no futuro essa relação avançasse um pouco mais. Como hoje eu tenho informações que não tinha antes, posso dizer que a relação entre eles avançou muito. Os dois daimyos tornaram-se muito amigos e até casaram seus netos. Evento que posso contar outra hora, eu descobri coisas interessante nesse dia.

Toda manhã e finalzinho da tarde eu fazia o percurso que Hime tinha passado e a noite eu meditava antes de dormir fazendo seus treinamentos. Toda noite eu enfrentava o mesmo adversário, Doji Haruki, ferido em batalha e sabe o que é mais estranho? Eu posso jurar que a habilidade do Boneco estava melhorando lentamente, ficando mais difícil vencer a cada noite. Quando indaguei sobre isso com Hime ela me disse que o Boneco melhoraria até um limite. Tirando tudo isso, a viajem foi bem tranquila, nosso comboio era bem guardado, então os bandidos passavam longe com o medo da morte certa caso atacassem. Sem muitos problemas na viajem, nós chegamos à Tsuma em menos de 5 dias, o que foi incrível. O próprio Haruki espantou-se com a velocidade da viajem.

Tsuma era uma vila pequena, mas uma das mais bonitas vilas da Garça, por dois motivos. O primeiro era o fato de que esta vila foi construída exclusivamente para sediar o Campeonato de Topázio. O segundo motivo era por conta de um dos maiores dojôs de Duelista Kakita. Os Kakitas eram conhecidos por serem os que levavam a arte do duelo ao extremo. Praticamente todas as suas técnicas de escola eram voltadas ao duelo. Chamá-los de os maiores duelistas do Império não seria errado, mas evite fazer isso na frente de um Dragão, você provavelmente acabará no mínimo morto. Foi em um dos dojôs dos Kakitas que conheci meu melhor amigo e cunhado, Doji Shiroe. Quando crianças nós iniciávamos um duelo por qualquer coisa e lembro-me de uma vez que duelamos por um onigiri feito por sua amável irmã, Doji Akatsuki. Agora adultos ainda fazemos nossos tradicionais duelos por motivos ainda tão idiotas quanto antes, mas diferente daquele tempo fazemos isso porque é divertido.

Quase todas as estradas do Clã Garça levavam à Tsuma e duas estradas principais de outras Terras davam ali. As duas eram a estrada do Leão cauteloso, obviamente do Clã Leão, e a estrada da Chama dourada do Clã Fênix. Ambas as estradas cortavam as terras do Leão levando aos Castelos dos Daimyos dos Clãs, uma forma de demonstrar a amizade entre eles.

Por Yamimura | 07/10/18 às 19:10 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror