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Memória 15 - Tsuma

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 15 - Tsuma

Aquele era um ano de boas festividades para o Império de Esmeralda, ou pelo menos era o que o sentimento geral passava. Naquele ano, depois de tantos anos em guerra, os Clãs maiores cessaram todos os conflitos armados e entraram em um estado de paz, por assim dizer. Claro que os nervos ainda estavam a flor da pele e todos temiam que a guerra fosse explodir a qualquer momento. A Imperatriz usou aquela oportunidade rara para tentar unir os Clãs e decretou que naquele ano o um evento muito aguardado retornaria; O Campeonato de Topázio, haviam é claro aqueles que achavam idiotice tentar forçar os Clãs a se reunir em um único lugar. Qualquer erro e os conflitos voltariam a acontecer. Claro que ninguém seria tolo o bastante para arrumar confusão em um evento orquestrado pela própria Imperatriz, seria minimamente suicídio.

Ao meu ver, toda essa preocupação era apenas os medos de homens tolos. A guerra já estava começando a dar prejuízos para vários Clãs, minha mãe me disse algumas vezes que os recursos estavam começando a ficar escassos mesmo no Clã Leão, um Clã que vive exclusivamente da batalha. Eu não entendo muito de guerra, mas entendo um pouco sobre dinheiro, quando algo começa a gerar prejuízo será parado quase imediatamente. Não ache que a guerra é diferente.

A cidade estava já muito movimentada com Samurais para todo lado. Heimins limpavam e enfeitavam as ruas para deixar tudo pronto para a manhã seguinte. A excitação era enorme, pois boatos diziam que seria a própria Filha do Sol, a Imperatriz, quem daria início ao Campeonato. Heimins trabalhavam mais arduamente apenas para poderem agradar a Imperatriz. Muitos boatos surgiam por todos os lados, mas a maioria era ignorável. Tsuma não tinha tantas pessoas a visitando nos Campeonatos anteriores, o que mostrava que talvez a aparição da Imperatriz fosse verdade. Haviam várias pousadas espalhadas pela vila, mas a mais conhecida e frequentada era a Pousada da Carpa Sorridente. Por se tratar da maior hospedaria e casa de chá da vila ela estava lotada, mas para a nossa sorte Doji Haruki tinha feito reservas antecipadamente para todos nós.

Ninguém conhecia o atual dono daquele lugar; alguns diziam ser um comerciante muito rico do Unicórnio, outros que era uma velha Cortesã da Garça que colocou de lado as intrigas da Corte Garça e resolveu comprar a velha pousada, mas nenhum desses boatos importava. O que importava era que esta pousada sofreu uma grande reforma depois que o dono mudou e a mudança veio para melhor. O dono triplicou o tamanho da hospedaria comprando vários prédios vizinhos. Antes o lugar tinha apenas um andar e oferecia 20 quartos. Hoje a Carpa Sorridente possui quase 150 quartos, além de uma parte do primeiro andar funcionar como casa de chá e restaurante. Seja lá quem foi o dono, ele iria lucrar muito este ano.

O lugar não funcionava como casa de saquê, mas tinha parceria com a casa de saquê da vila. A pousada oferecia um dos saquês mais famosos do Império, o famoso “Amigo viajante”. Ele não era o melhor, mas certamente era o mais consumido, não era tão caro quanto os outros dois e sua produção anual era muito maior. Os outros eram feitos poucos exemplares por ano não por serem difíceis de produzir, mas por uma questão puramente econômica. O sabor dos outros era melhor que o Amigo viajante e a produção era mais barata. Então você pode me perguntar, por que então ele não é vendido e consumido muito mais que o outro? Como eu disse uma questão de lucro. Se algo é melhor por que não vender mais caro? Essa provavelmente era a lógica por trás de um deles. O outro, no entanto, era uma questão de preço e dificuldade de produção. A fermentação era muito demorada e levava um tempo até ele atingir o sabor que o diferenciava de todos os outros saquês pelo Império.

Agora me deixe falar um pouco sobre o Campeonato de Topázio, essa era a primeira vez acontecendo em muitos anos. Desde que a Guerra dos Clãs começou, o Campeonato tinha parado de acontecer, ninguém era louco de colocar seus jovens juntos ao inimigo e obviamente ninguém demonstraria seus jovens prodígios arriscando perdê-los em um ataque sorrateiro de um outro Clã. O Campeonato era um dos maiores e mais prestigiosos eventos de Rokugan. Você primeiro precisa entender que a importância desse evento é muito mais Político e Social que qualquer outra coisa. Dinheiro pode ser muito importante de fato, mas existem outras coisas que são tão importantes ou talvez até mais. Dinheiro sozinho é difícil de conseguir, mas tendo as outras coisas fica muito mais simples. Fama e contatos são as duas coisas que eu considero tão importantes quanto dinheiro, e nesse Campeonato é muito fácil de conseguir ambos.

Existe um único ponto que pode ser considerado um problema. Contatos sempre são bons, não me leve a mal, porém, Fama é uma história completamente diferente. Meu pai costuma dizer que Fama é uma faca de dois gumes pelo mesmo motivo. Você fica mais conhecido, por ser mais conhecido as pessoas tenderão a fazer algumas coisas que você pedir, por ser conhecido você não vai conseguir passar despercebido pelos lugares e as pessoas podem aprender mais sobre você do que poderá controlar. Segredos são sempre muito importantes, uma sociedade jamais conseguiria se manter sem ter seus segredos e suas mentiras, seria simplesmente catastrófico.

O que foi? Você duvida? Vamos colocar sua dúvida sob prova então. Vamos fazer uma pequena aposta. Passe uma semana contando nada mais que a verdade, não importa o quão doloroso ou destrutivo ela seja. Apenas conte a verdade e no fim dessa semana volte e me conte o resultado. Se você tiver ficado temeroso parabéns, és uma pessoa muito sábia. Verdades são muito importantes, mas as pessoas não estão tão preparadas para elas quanto acham que estão. Mentiras as vezes, muitas vezes para ser sincero, são muito mais afáveis aos ouvidos. Eu não estou dizendo que deves mentir o tempo todo, longe de mim falar uma besteira dessas. Tudo o que estou dizendo é que você deve minimamente pensar muito bem e ponderar se contar uma verdade será algo bom.

Analise a situação como um todo, se ficar com dúvidas lembre-se da história que contei envolvendo a briga de Doji Haruki e Hida Samano. Minha mentira foi muito melhor para o convívio dos dois do que a verdade. Dizendo o que realmente tinha acontecido provavelmente a briga entre eles não fosse ficar muito pior, mas se analisar friamente como eu sempre faço, vais notar que a mentira que contei ali foi muito mais eficiente.

Do que eu estava falando? Ah sim, o problema com a Fama e sobre os segredos. Se você já tiver terminado de processar tudo o que eu falei já deve ter entendido o meu ponto, caso não medite, um pouco mais o entendimento sobre aquele ponto é muito importante. Segredos são ainda mais importantes para serem mantidos na guerra. Um segredo muito bem guardado pode mudar enormemente a maré da batalha. Uma arma desconhecida, as habilidades de seus homens, seus suprimentos, quantidade e qualidade de armamentos, tudo isso é deveras importante para a guerra.

Mentiras também são tão importantes quanto segredos. Mentir e enganar o adversário no momento certo ou para o fazer cair em uma armadilha poupará muito de seus recursos, tanto humanos quanto materiais. Leões detestam mentiras com todo o seu ser, para mim eles são apenas um bando de idiotas hipócritas. Oh desculpe, falar assim incomoda você? Mil perdões, não era a minha intensão, sinto muito mesmo. Leões são hipócritas, pois eles detestam mentiras, mas se forem contar da guerra e salvar seus recursos de forma hábil eles serão considerados heróis pelos seus semelhantes. Você não acredita em mim? Procure os ensinamentos de Akodo e você verá a verdade.

No Campeonato de Topázio, as forças dos jovens do Clã serão de conhecimento público, seus talentos e as técnicas tanto de combate quanto as sociais serão expostas. Sim, eu concordo com você, os Clãs poderiam mandar garotos menos capazes, mas existe um porém. Ninguém gosta de perder uma disputa, estou errado? Você acha mesmo que um Clã aceitaria calado uma bofetada dessa magnitude? O Campeonato era algo muito além de mera diversão, era um evento para os Clãs demonstrarem seu poder e humilhar, por assim dizer, os outros Clãs. Sabotagens podem, é claro, acontecer, isso na verdade era muito comum, mas acho que não preciso dizer o terrível destino que aguardava aqueles que trapaceavam. Você, minha criança, deve entender que mesmo assim existem aqueles que fazem esse tipo de coisa mesmo sabendo que estarão encurtando suas vidas, não me peça para explicar o que se passa na mente dessas pessoas, pois nem mesmo eu consigo as entender.

Dessa forma, os Clã juntam seus melhores jovens para mandar o melhor entre todos eles para competirem do Campeonato. O evento também era muito importante para os jovens, pois além de ganharem Fama e reconhecimento por seus feitos, ele passaria pelo Gempukku de forma coletiva. O evento permitia que jovens de Clãs menores também pudessem se juntar, desde que fossem apadrinhados por um Clã maior e isso não era tão incomum. Por mais incomum que possa parecer, ronins também tinham permissão para participar, precisavam apenas serem, assim com os jovens de Clãs menores, serem apadrinhados por um Clã maior.

Gempukku é um dos principais rituais para a vida de um Samurai, assim como o nascimento que é cercado de bênçãos por um Shugenja, o Gempukku marca o renascimento, a passagem que todo jovem aspirante a Samurai deve atravessar para se tornar um adulto. Quando uma criança atinge a idade de sete anos seus pais mandam-na para uma academia onde estará sob a orientação de um sensei. O sensei irá guiar o estudante pelos caminhos marciais ou espirituais, no caso dos shugenjas. Também será aquele que irá guiar os outros estudos do aluno assim como seus ensinamentos sobre Moral e Ética, dessa forma você pode notar quão importantes são os sensei para a nossa sociedade. Algumas dessas pessoas são tão requisitados pela qualidade de seus ensinamentos que pequenos torneios podem ser feitos para preencher as vagas em seus dojôs. Minha mãe é uma dessas pessoas. Um aluno irá treinar continuamente até que possa mostrar hábil com a primeira técnica de sua escola, só então ele será aceito como Samurai e poderá aprender o resto das técnicas.

Normalmente, um jovem será submetido à cerimônia de Gempukku quando atingem os 14 anos, mas alguns prodígios conseguem fazer em menos tempo. Uma das histórias que ouvi, foi que um menino de apenas 10 anos se provou digno de ser um duelista dos Kakitas, mas esses talentos são muito raros. O Campeonato é bem equilibrado, para que ninguém tenha uma vantagem grande demais sobre os outros, as provas testam todos os aspectos que os nobres acham que um verdadeiro Samurai deve possuir; Jiujutsu, Heráldica, Armas, Iaijutsu e outros aspectos que realmente não me recordo agora.

Existe uma história muito difundida sobre o destino que aguarda aquele que vencer o torneio. É dito que a força dos ancestrais é infundido em seu ser e que o vencedor recebe benção das fortunas, podendo fazer feitos que qualquer um ficaria espantado. Seu conhecimento e técnica, as que aprendeu com seu sensei se tornam muito mais apurados e fortes. Eu não acredito nessas histórias, é claro, para mim tudo isso é mera fantasia que os vencedores inventaram para engrandecer ainda mais a si mesmos.

Entramos na pousada e fomos recebidos adequadamente pelos funcionários. O ambiente era muito bom e mesmo com aquela massa enorme de pessoas tinha um cheiro agradável no ar. Os empregados se vestiam de forma elegante e tinha uma polidez impressionante em seu discurso. Devo dizer que por vezes eu duvidei que fossem heimins, mas haviam muitas características em seu comportamento que os entregava. Eu parti para meu quarto sem muita demora, tomei um banho e coloquei um quimono mais fino. Era uma de minhas melhores roupas, das que estava levando comigo, obviamente. A situação pedia por roupas melhores, mas infelizmente eu não tinha nada comigo nesse sentido. Arrumei-me de forma bem agradável e fiz questão de estar com boa aparência.

Devo dizer que aquela viagem me desgastou bastante e que eu me espantei quando olhei-me no espelho. Foi um choque para mim ver o quanto estava acabado, passei um bom perfume e escovei-me os cabelos, passei um creme em meu rosto e apenas depois de algum tempo eu estava satisfeito com minha própria aparência. Sinto muito se você não é uma pessoa que gosta de cuidar de sua própria aparência, mas seria um desperdício alguém tão bonito quanto eu não me cuidar, apropriadamente.

Sai de meu quarto revigorado e apressei-me para tomar um pouco de ar fresco, fiquei sentado na varanda do pátio principal, de frente para um pequeno lago artificial. A brisa suave balançava meus cabelos e me deixava relaxado, só depois de relaxar alguns minutos eu lembrei-me do motivo de ter vindo aqui, eu não lembro se falei antes e se o fiz me perdoem por estar repetindo. Minha senhora me mandou para acompanhar um aluno da escola Bayushi, seu sensei teve alguns problemas de saúde muito em cima do evento.

Passei os olhos pelo salão, olhando por cima do ombro quando senti uma presença se aproximando de mim. Eu olhei um pouco mais para o lado e vi um jovem rapaz travado olhando para mim surpreso. Aquele era o jovem que eu deveria acolher como seu professor temporário durante o Campeonato. Pude dizer que ele era a pessoa certa pelo emblema em seu peito e as cores escuras do Clã escorpião, porém mais suaves indicando que aquele jovem ainda não era um Samurai. Ele deve ter tentado me pegar de surpresa, mas para pegar um Shoruso desprevenido seria necessário outro Shoruso ou quem sabe um Hiruma. O rapaz ajoelhou-se para prestar o respeito e eu acenei com a cabeça, como nossas posições sociais ainda eram diferentes, ele deveria prestar o respeito para mim com seu superior.

Ele era um jovem magro e de rosto fino, usava uma máscara feita de seda negra. Aquela máscara provavelmente foi pensada para fazer alusão e homenagem ao Mestre e Criador do Clã Escorpião, Bayushi-sama. Duvido muito que seja o caso, mas talvez o rosto dele não fosse tão bom. Não estou dizendo que é de obrigação que um Escorpião seja bonito, mas é um pouco estranho que não seja. Ele amarrava seus cabelos em um rabo de cavalo, um penteado bem comum entre os Escorpiões. Creio que eu não seja o único que ache aquele tipo de corte tradicional horrível, meu Clã pelo menos é sensato.

― Bayushi Kage mostra respeito à Shosuro-sensei – ele falou de forma suave olhado para mim.

― “Shosuro-sensei”, hein? – eu segurei um riso – eu preferia que uma jovem estivesse me chamando assim, não um rapaz, mas nem tudo na vida é perfeito.

Kage-kun olhou para mim e segurou um riso. Nós conversamos por algum tempo e eu descobri algumas coisas dele. Kage estava um pouco nervoso com os testes físicos, mas confiava no próprio talento para os testes de inteligência, ele era muito bom com a heráldica, conseguindo dizer alguns de meus ancestrais. Eu tomei um pouco de chá enquanto levantei um tópico aleatório para discutirmos, eu queria ver o quanto aquele menino era bom com as palavras e não foi muita surpresa ver que ele era bom. Ele também tinha olhos muito bons, eram ativos olhando sempre ao redor para ter certeza que não havia ninguém nos ouvidos ou se tinha, que não estivesse escutando mais do que deveria.

Talvez se ele fosse bem treinado ele pudesse ser um ótimo Cortesão, disso eu tenho certeza, mas ser bushis creio que seja um mal dos jovens, isso não é tão comum em meu Clã, o que é muito bom para nós. Não adianta ser alguém com muito talento se sua morte vem muito cedo, é muito melhor que não se tenha nenhum talento, mas que seja útil para o Clã por mais tempo.

No meio de nossa conversa, eu vi com o canto dos olhos quando Hiruma Seta saiu para o jardim de pedras. Foi uma surpresa para mim vê-lo ali, mas ele deve ter sido indicado para acompanhar algum jovem. Ele passou pela varanda e atrás dele um jovem com roupas mais simples, um jovem rounin que o Clã Caranguejo deveria estar patrocinado.

Se aquele rapaz tivesse sorte em mostrar suas habilidades durante o Campeonato, ele provavelmente seria formalmente convidado a se juntar à família Hiruma. Essa era uma prática muito comum no Clã Caranguejo, onde a mão de obra sempre era muito escassa. O Clã precisava de um contingente muito grande para defender a Muralha do Carpinteiro que era constantemente atacada pelas forças das Terras sombrias.

Havia uma história que corria pelos comuns que qualquer um, e quando digo isso é realmente qualquer um, que estivesse seguro de suas próprias habilidades era aceito para se juntar a uma das famílias. Mesmo Heimins e talvez até Etas fossem aceitos, isso é apenas uma possibilidade, é claro. O teste era muito simples, mas não o torna mais fácil, o candidato deveria adentrar nas terras sombrias e voltar com a cabeça de trinta goblins ou a cabeça de um ogro. Apenas armas eram dadas aos candidatos que não fossem do Clã e nenhuma delas eram novas, apenas entulho, praticamente.

Caso o candidato morra talvez alguns goblins foram eliminados, mas se voltasse vitorioso ele seria aceito em alguma das famílias. Esse também era o Genppuku padrão dos Hida. Eu devo dizer que é uma forma interessante de demonstrar a própria força. Se é de pessoas corajosas e fortes que eles precisam em suas trocas essa era uma ótima forma de fazer os covardes recuarem, um covarde nunca entregaria sua vida para ascender na vida, alguns não tem a força necessária.

O Samurai queria testar as habilidades marciais de seu protegido, puxou sua lâmina Kaiu e entrou em postura de batalha. O menino ficou nervoso com a possibilidade de ferir o Hiruma, mas julgando pelo que eu conhecia de Hiruma Seta e pela postura do rapaz, eu julguei impossível para ele. Tudo bem, eu não conhecia muito bem, mas não seria um jovem sem nome que tiraria sua vida.

Depois de cair em si, o jovem notou que jamais iria conseguir acertar um golpe no Hiruma se não lutasse com tudo o que tinha e talvez mesmo assim ainda não o acertasse. Ele avançou com um grito Kiai e atacou o Samurai. Hiruma Seta defletiu o golpe com a katana, mas não atacou. Vamos pular para o que interessa, muitas coisas aconteceram e se eu fosse explicar tudo o que aconteceu nessa simulação, demorariam horas.

A luta entre eles dois durou cerca de trinca minutos, o jovem deu tudo de si naquela batalha para acertar e até lembro que alguns Samurais estavam o incentivando bastante. Para um jovem aspirante, apenas uma mera palavra de incentivo era o bastante para o encorajar a continuar, se ele acertasse um ataque no homem a sua frente ele seria visto com bons olhos, mas se não conseguisse ninguém iria julgá-lo, afinal o que ele estava enfrentando era um Samurai pleno, seria mentira dizer que alguém esperava muito de um jovem.

Eu vou ser sincero, esforço é bom em treinamento, mas se em uma luta de verdade um inimigo é muito mais forte que você, só se esforçar não adianta de nada. Sua vida era apenas entregue de uma bandeja bem ornamentada, mesmo que você ainda possa ser lembrado com um herói é apenas isso que você será, pois não haverá mais vida para ser vivida. Eu não estou dizendo para fugir feito um covarde, isso seria muito desonroso. Sendo assim, deixe-me dar uma dica, apenas saiba escolher suas batalhas, lute apenas batalhas que você sabe que irá ganhar.

É fácil dizer, eu entendo muito bem. Houveram muitos momentos em que eu não tinha o controle da situação e tive que lutar mesmo sem ter certeza de minha vitória, mas veja, cá estou eu. Essa é uma prova que eu consegui sair vivo dessas batalhas e isso me deixou mais forte, tanto físico quanto mentalmente. Existem momentos em que não se pode escolher e a batalha irá iniciar mesmo contra a sua vontade, sendo assim, apenas use sua cabeça para tentar sair da situação que colocaram você.

Hiruma Seta podia ter terminado aquela luta no exato momento que começou, mas aquilo era treinamento e o Samurai queria testar as habilidades do garoto. Como eu disse, esforço tem suas recompensas em treinamento, mas em uma luta real analisar sua situação é a melhor coisa que você faz. O menino poderia ter vencido de várias formas diferentes, mas talvez as formas que eu imaginei não pudessem ser executadas com sua habilidade. Hiruma Seta é um homem que gosta de desviar bastante, ele luta da mesma forma que eu. Existe uma técnica comum para pessoas como nós, usada para fazer o inimigo ficar muito descuidado quando bate, ele é forçado a bater antes mesmo de começarmos a desviar e dessa forma podemos guiar onde o ataque deveria acertar, assim fica muito simples não ser acertado. Obviamente eu não vou dizer como isso funciona, eu posso precisar disso um dia, certo?

Muitas pessoas estavam assistindo aquela luta; alguns assistiam apenas para se divertir, outros, no entanto, estava ali por motivos mais obscuros. O Caranguejo não deve ter notado já que estava concentrado no treino, mas esses olhares pervertidos não escapariam facilmente de mim. Eu vi duas ou três pessoas avaliando o ronin, provavelmente comparando-o com o seu protegido e posso jurar ter ouvido alguém comentando, quase em um sussurro, que aquele jovem deveria ser eliminado. Eu poderia dizer para vocês que vi todos os que desejavam mal àquela criança, mas eu estaria mentindo e eu não minto... Sem um motivo.

Voltei minha atenção novamente para o garoto junto a mim e não demorou muito para uma serva de Doji Haruki vir ao meu encontro. O lorde tinha nos convidado a jantar com ele. Como um bom amigo, eu não poderia fazer a desfeita de recusar, chamei o garoto para me acompanhar e fui guiado para uma sala privada que o daimio tinha reservado. Doji Haruki fez questão que eu sentasse mais próximo a ele e aceitei de bom grado. Antes que os outros chegassem ali, Haruki expôs um pensamento estranho, ele achava que eu era a razão pela relação dele e Hida Samano ter melhorado. Eu apenas sorri para ele, não havia porque ficar me gabando de algo que fiz meramente por altruísmo. Os outros foram chegando, cada um acompanhando por um jovem e para minha surpresa, Hiruma Seta também foi convidado.

Em uma carta que Haruki recebeu mais cedo seu filho falava que Hida Samano havia mandado um de seus fiéis homens para ajudar na busca do item que fora roubado. Na época, ele tinha outros motivos, mas agora ele percebeu que foi bom ter mandando um de seus homens para auxiliar e para agradecê-lo, o lorde pessoalmente o convidou para se juntar à mesa, afinal gratidão é algo muito importante para qualquer Samurai ou melhor, para qualquer pessoa.

Akodo Ryu trouxe uma beleza selvagem junto a si, Matsu Kaori, uma moça aprendiz das guerreiras Matsu. Ela tinha um corpo definido e musculoso, mas isso não atrapalhava em sua beleza. Muitos não gostavam de mulheres tão musculosas, mas eu não me importava tanto assim. A Leão tinha cabelos mais curtos do que era de se esperar para a sua idade, um choque para muitos, mas assim eram os Leões. Depois deles apenas os Caranguejos e alguns do Clã Louva deus não seguiam muito o padrão de cabelo.

Hida Hiato apresentou Hida Yato um jovem aprendiz dos Hida, mesmo jovem ele já era grande e musculoso, um Hida afinal. Ele era tão carismático quanto os outros três caranguejos que viajaram comigo. Hiruma Seta introduziu o jovem ronin, seu nome era Takao e foi seu pai foi quem o ensinou o que sabia. O pobre garoto estava acuado de estar entre tantos Samurais e ficava com a cabeça baixa o tempo todo. Kuni Karasu não disse nada, foi a própria garota que se apresentou, ela pronunciou-se como Kitsune Aoshi, uma shugenja do clã menor da Raposa. Ela tinha um belo rosto e seu peculiar cabelo cor de fogo a deixava mais charmosa. Ela olhava para cada um de nós com um sorriso, mas ao passar os olhos por mim ela congelou. Meu cabelo cobria parte de minha máscara, mas ela reconheceu rapidamente o mon de minha Família, ela pareceu ser perfurada por várias agulhas quando lhe abri um sorriso e rapidamente desviou os olhos de mim.

Eu fui o último, olhei para o rapaz ao meu lado que fez uma reverência longa a todos ali. Bayushi Kage tinha os cabelos curtos e cobria seu rosto com um tecido negro. Ele já foi aceito como um Escorpião e estava fazendo todo o possível para provar ser digno do Clã.

O jantar prosseguiu tranquilo, ouvimos as aspirações dos mais jovens e tiramos algumas dúvidas deles sobre alguns testes. Como era de se esperar quase nenhum deles entendia muito de corte e jogos de palavras, eu os ajudei como pude, mas não iria conseguir um milagre. Alguns eu tenho certeza que acabei ajudando, mas para outros creio que nem mesmo que eu tivesse anos para ensiná-los os caminhos corretos para serem tomados durante conversas na corte seriam suficientes para os fazer melhorar. Depois de conversarmos por algumas horas, os mais jovens pediram permissão para conhecer a cidade, eles tinham chegado cedo, mas por ficaram nos esperando não saíram para ver a cidade. Durante minha batalha de palavras com Kage, descobri que os aprendizes tinham combinado de sair para beber, e fora aqueles que estavam conosco iriam ainda um Mirumoto e um Kakita. Eu fiquei um pouco receoso de permitir que um Dragão e um Garça saíssem juntos para beber, mas Kage me tranquilizou dizendo que os dois, apesar de rivais, se respeitavam.

Enquanto os outros continuavam na sala privada bebendo, eu acompanhei Kage até a entrada da pousada. Mesmo que não fosse o responsável pelos outros eu os adverti que não deveriam voltar muito tarde, pela manhã eles teriam um Campeonato para participar. Eu parei a porta vendo o Mirumoto e o Kakita que o pequeno Escorpião me falou, apesar de estarem discutindo eles pareciam estar gostando daquilo.

― Eu não sabia que um Escorpião se preocupava com as crianças de outros – uma doce voz falou ao meu ouvido quase em um sussurro.

― E eu não sabia que ter nascido Escorpião me fazia um monstro – eu sorri ainda olhando para as crianças – Já faz algum tempo, A-chan.

Senti um beliscão em minha cintura e olhei por cima do ombro. Uma bela mulher estava parada atrás de mim, como eu descrevi antes ela era idêntica a Hime, mudando apenas seus olhos que eram verdes e as feições alguns anos mais jovem. Seus olhos esmeraldas fitavam os meus e para mim o tempo parecia parar enquanto ficava olhando para aqueles belos olhos verdes. Talvez, olhando para ela agora, eu tenha cometido um engano, me perdoem. Aquela mulher era ainda mais bela que Hime, não havia comparação entre elas. Seu rosto parecia muito mais suave e os lábios destacavam-se ainda mais que os de Hime, seus lábios eram rosados e delicados, quase feitos de algodão. Seu sorriso era ainda mais brilhante que os raios de sol e não havia impureza que resistisse aqueles dentes que pareciam perolas.

Seus olhos tinham uma ternura que não se pode calcular ou descrever, se Hime parecia uma deusa eu devo dizer que aquela estava muito além do que palavras humanas podem descrever. Meu coração batia feito um louco e meu corpo esquentou-se quando a fitei. Ainda podia sentir o aperto em minha bochecha, mas não havia nenhuma dor, devo dizer que eu parecia estar dormente.

Ela era o tipo de mulher que tentava ficar brava, mas sua fofura impedia ficar com medo dela. Vocês devem conhecer alguém assim, então devem saber do que estou falando. Diferente de Hime que tinha os cabelos brancos naturalmente, quase todo Garça pintava os cabelos de branco para assim ficarem mais próximos de Lady Doji.

― Quem é “A-chan”? – ela perguntou emburrada – Nós não somos mais crianças.

― Seu nome é muito cumprido, Akatsuki-san – Eu abri um sorriso ainda mais largo, olhando-lhe para os lábios rosados.

― Muito formal – Ela estreitou os olhos apertando o indicador contra meu peito - você está querendo me irritar?

― Imagine, eu nunca faria qualquer coisa para lhe irritar – eu sorria.

― Sei... – Ela suspirou – Veio para o Campeonato?

― Obviamente que eu vim apenas para poder ver o seu sorriso novamente – eu disse com um sorriso.

Eu a peguei com a guarda baixa, ela arregalou os olhos e seu rosto tornou-se vermelho. Seus olhos ficaram confusos e seus delicados lábios tremeram de espanto. Ela afastou-se envergonhada, evitando olhar para mim e para esconder toda a vergonha ela abriu seu leque, cobrindo boa parte de seu rosto bonito.

― Como você consegue dizer esse tipo de coisa tão facilmente? – ela disse irritada.

― O que? – perguntei fingindo desentendimento.

― Quem é o jovem que você ficou responsável? – ela perguntou.

― É um bom rapaz, lhe falta um pouco de tato, mas nada que não possa ser resolvido – falei

Por cima do ombro eu olhei para o grupo de jovens que iam afastando-se de nós e apontei para um deles. Akatsuki notou de quem eu estava falando e abriu um sorriso, e mostrou um outro rapaz. Um jovem kakita que ela havia ficado responsável a pedido de seu pai. Olhei para ele e voltei a olhar para ela. “Então você não veio apenas para me ver? ”, perguntei. Akatsuki voltou a ficar vermelha, mas dessa vez aproximou-se ainda mais de forma que se não fosse pelo leque nós poderíamos nos beijar. Seus olhos brilharam de forma ameaçadora e suas sobrancelhas quase juntaram-se.

― Você não cansa de se achar, não é? – Ela riu por trás do leque.

― Nem um pouco – eu sorri.

Tirei o leque da frente de seu rosto e me aproximei para tomar sua boca. Ela abriu um sorriso e por um momento eu achei que a beijaria, mas seu indicador pousou em meus lábios me impedindo de lhe beijar.

― Não aqui, Escorpião – ela disse com um largo sorriso


Nota do Autor:

Devo antes de mais nada me desculpar com todos os meus queridos leitores que estam acompanhando semanalmente minha história; esse fim de semana eu fui acampar em uma serra e não tinha internet para poder postar mais cedo a Memória desta semana, agradeço profundamente pela compreensão de todos vocês. Devo me desculpar com minha corretora também por colocar nela uma pressão tão grande para corrigir sendo que apenas ontem mandei o capitulo para a correção, a semana foi muito corrida. Enfim, espero que todos vocês estejam bem e obrigado por acompanhar meu trabalho.

Por Yamimura | 14/10/18 às 23:50 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror