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Memória 24 - Forte presença.

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 24 - Forte presença.

― Ichijou? – Karasu piscava descrente enquanto olhava para mim – Como você sobreviveu àquela queda?

― Não consigo lembrar de nada – respondi sem olhar para ele, enquanto afagava os cabelos de Akatsuki – Tudo que lembro é de estar caindo em um lugar completamente escuro e então bater contra a grama. As marcas da queda devem estar ali.

― Que conveniente – Karasu disse serrando os olhos descrente.

Hiruma seta caminhou até o lugar onde apontei e abaixou-se para verificar. Havia de fato uma pequena cratera e muito sangue seco. Ele verificou as marcas e segundo ele, a queda tinha sido muito feia; estava espantado de eu estar ainda inteiro e bem, mesmo depois de perder tanto sangue. Ryu aproximou-se junto a ele e arregalou os olhos. Ele virou-se para mim segurando meu braço. Seu rosto ficou pálido e virou-se para Karasu, o chamando para verificar o que tinha encontrado. Eu ainda o encarava sem entender até que o Shugenja olhou para mim muito sério e afastou-se alguns passos para trás.

― Como você consegue estar tão bem com o braço nesse estado? – perguntou inquieto.

― O que quer dizer? – eu perguntei erguendo as sobrancelhas.

― Você não deveria estar movendo esse braço sem sentir muita dor – ele apertou o próprio bastão apoiando-se nele, e uma onda de decisão podia ser ouvida em suas palavras.

― Eu não sei o que isso deveria significar – respondi com sinceridade – mas eu sinto que esse braço não responde direito.

― Afastem-se dele – Karasu brandiu – está é uma criatura das trevas.

― Quê? – Ryu ficou espantado e deu um passo para trás olhando para mim.

Akatsuki apenas olhou para meus olhos e eu a afastei com um sorriso. Karasu entoou um encantamento pedindo auxílio aos kamis. Sua prece era intensa e eu conseguia sentir um tipo de fervilhar vindo da sua direção. Raios pareciam reunir-se nele e dançavam à medida que ele agitava o braço. As mangas de seu quimono esvoaçavam enquanto ele terminava a prece. Eu não tinha certeza do que ele estava fazendo, então resolvi dar um passo para trás, mas foi tarde. Ouvi apenas quando algo foi projetado em minha direção e senti algo me transpassar tão rápido que eu poderia ficar enjoado. Eu gemi de dor e pude notar quando várias armas foram sacadas, não pude segurar o riso naquele momento e levantei a cabeça para encarar meu agressor enquanto levantava um dos braços me rendendo.

― Brincadeira – eu tentei segurar o riso, mas não consegui – Eu não sei o que isso significou, mas eu não senti nada.

― Impossível! – Karasu disse irritado – Aquele raio de jade deveria ter queimado completamente você. Não há maneira disso acontecer.

― Claro que não é impossível – Akatsuki ficou entre mim e Karasu – Ele não está infectado com a Mácula. Kuni-san já deve ter notado que nada nesse lugar parece maculado, não faz sentindo nenhum Ichijou estar infectado se ele caiu em um precipício deste lugar.

― Isso é... - Karasu ficou sem ter o que dizer.

― Podemos falar sobre esse assunto outra hora – Togachi Hoshi falou dando um basta – precisamos sair daqui o quanto antes.

Os outros pareceram concordar e pude sentir o toque suave de uma mão. Quando senti seus dedos entrelaçando-se pelos meus eu sabia que era Akatsuki, seu cheiro também era inconfundível. Os outros apressaram-se passando pela ponte. Akatsuki ficou parada e tocou meu peito. Virei meu rosto para ela com um sorriso amarelo e fui seguindo os outros. Eu senti o peso do olhar de alguém e Akatsuki me parou.

― O que aconteceu com você? – ouvi a sua doce voz ao meu lado – Você não consegue ver?

Apenas sorri, não sabia bem o que deveria dizer para ela. Certamente aquilo não era mentira, eu não conseguia enxergar nada. Eu conseguia diferenciar uma gama de vultos e sons, mas nenhuma definição naquilo que deveria enxergar. Balancei a cabeça deixando os ombros caírem, mas mesmo não podendo ver absolutamente nada eu podia ver claramente a expressão que ela fazia. Suas sobrancelhas estavam franzidas e ela tinha os olhos marejados. Passei lentamente o polegar em seus olhos enxugando suas lágrimas e isso a encheu de esperanças, mas eu apenas sorri balançando a cabeça. Encostei minha testa na dela e pude sentir o cheiro dela muito mais forte agora.

― Eu posso não enxergar – sussurrei encostando meu nariz ao dela – mas sei que tipo de cara você está fazendo agora. Sorria para mim.

― Mas... – ela disse contendo um soluço.

― Eu não me importo de ser cego se ainda posso ver seu sorriso – disse com um sussurro enquanto meus lábios tocaram os dela.

Eu conseguia dizer perfeitamente como ela estava naquele momento. Suas bochechas ficaram vermelhas e seus olhos ficaram vagos quando a peguei de surpresa. Quem poderia culpa-la? Eu estava a beijando na frente de muitas pessoas, alguns muitos anos mais jovens que ainda não tinham nem experimentado aquilo ainda, mas sabe o que? Eu não ligava. Não sei dizer quanto viram aquilo, mas não me incomodaria mesmo que todos eles tenham visto. Eu não sei explicar porquê, mas naquele momento eu senti como se tivesse ficado sem aqueles lábios por um tempo incalculável e aquele era meu limite. Eu precisava de seus lábios e os tomei para mim.

― Vamos – Eu sorri afastando meu rosto do dela – eu vou precisar que você guie o caminho para mim.

― Certo – ela gaguejou tentando organizar os próprios pensamentos.

Akatsuki me puxou por algum tempo e senti quando mudamos de ambiente. Nenhuma vertigem veio, mas uma inquietação veio ao meu peito. Eu não sei dizer o que eu estava sentindo, mas era algo novo, estranho e horrível. Eu ouvia um sussurro, tão baixo quanto a própria palavra faz parecer. Vinha da minha frente um pouco mais abaixo que a linha dos meus olhos. Aquilo, seja o que for, parecia olhar para mim. Era notório o seu incômodo com a minha presença, sentia a ameaça contra a minha vida, dei um passo para trás e minha mão foi na direção de minha arma, mas Akatsuki pareceu notar e me impediu. Ter ela ali me acalmou um pouco, ela não parecia nem um pouco alterada, então não parecia existir nenhum perigo, mas não consigo entender o motivo de sua calma, havia uma criatura extremamente perigosa a minha frente.

― O que você está fazendo? – ouvi ela sussurrar em meu ouvido.

― Quem está aí? – eu sussurrei de volta ficando tenso.

― A imperatriz, seu tolo – ela disse com um tom de raiva – ah, desculpe.

Seu tom envergonhado chegava a ser bonitinho de se ouvir, mas minha preocupação só aumentou. Se a Imperatriz estava ante a uma criatura tão perigosa precisávamos tirar ela daquele lugar o mais rápido possível. Eu sentia que fosse o que fosse aquilo poderia matar todos nós ali com a mesma facilidade que eu tinha para respirar. Minhas mãos tremiam, precisava acalmar-me de alguma forma e convencer a todos a procurar o que fosse aquela coisa.

― Você está bem, meu jovem Samurai? – eu ouvi a doce voz imponente da imperatriz.

De alguma forma eu sabia que era para mim que ela dirigia a palavra. Deveria estar tão tenso que deixei minhas emoções transparecerem em meu rosto. Sem pensar muito ajoelhei-me perante ela em dogeza e encostei minha testa ao chão. O que me deixou mais incomodado era que a voz da imperatriz parecia vir do mesmo lugar que a coisa que eu sentia. Tremi com o simples pensamento da Filha do céu estar tão próxima do perigo.

― Perdoe a incapacidade de um Servo em não a reconhecer, minha senhora – eu disse em alto e bom som – por favor, puna-me como achar mais apropriado.

― Para quem está se curvando? – Eu ouvi a voz dela vir um pouco para a esquerda e agora eu tinha certeza que a voz dela vinha do mesmo lugar. Os pelos em meu corpo arrepiaram-se e o corrigi, virando-me para ela.

― Perdoe-o, minha senhora – ouvi a voz de Kitsu Aoshi – Akodo Ryu me contou que ele ficou cego durante sua passagem por uma das salas.

― Se este é o caso, como ele parecia estar olhando para mim desde que pisou aqui? – a Imperatriz perguntou.

Eu fui pego de surpresa naquele momento. Eu estava olhando para ela aquele tempo todo? Então a ameaça que estava sentindo todo aquele tempo era a Imperatriz? Algo não estava certo, talvez eu tenha simplesmente confundido a forte presença dela com alguma outra coisa muito mais perigosa e maligna? Já tinha ouvido muitas histórias a respeito da força do simples olhar dela, mas não achava que seria daquela forma. Franzi as sobrancelhas, apertei os olhos e ousei levantar o rosto.

― Sinto muito, minha senhora – eu disse – sua presença nesta sala foi tão forte que eu notei-a mesmo sem poder ver. Por um momento eu achei tratar-se de um inimigo devido a tanta presença, quando ouvi que a senhora estava aqui temi por sua vida sem saber que tratava-se da senhora. Peço que perdoe minha falta de modos e minha incompetência.

― Então foi isso que aconteceu – ela disse secamente – Se foi apenas isso não há motivos para pedir desculpas, ter um Samurai tão zeloso comigo enche-me de alegria. Agora levante-se. Antes de mais nada eu devo agradecê-los por trazerem minha amiga em segurança. Otome-san é alguém por quem tenho muita estima, depois do que aconteceu eu temi por sua segurança a todo o momento. Vocês devem estar cansados por tudo o que passaram, assim como eu estou, não vamos perder muito mais tempo aqui. Aoshi, lidere o caminho para fora desse lugar, você disse mais cedo já saber uma forma de sair, então não vamos mais perder tempo.

― Sim, minha senhora – Aoshi disse – Vocês, ajudem a quem precisar ser ajudado e me sigam, assim como a Imperatriz ordena, irei guia-los para fora deste reino.

Akatsuki ajudou-me a levantar. Segurou em minha mão e foi me guiando com cuidado para não bater em ninguém. A mudança de lugar veio com uma súbita massa de ar gelado que penetrou até os ossos. Foi quando senti algo errado, algo dentro de mim parecia furado. Uma dor avassaladora tomou conta de meus braços, minhas pernas fraquejaram e caí de joelhos sentindo como se houvessem duas outras pessoas sobre mim. Minha mente estava em branco enquanto sentia que havia perdido meu braço direito, levei a mão até ele o apertando. Ele ainda estava no lugar, meus dedos não mentiam para mim, mas o aperto apenas piorou a dor. Gritei de dor e notei meu rosto quente. Minhas lágrimas queimavam a minha pele, mas eram viscosas, sangue. As costelas apertavam meus órgãos e o refluxo veio, coloquei tudo para fora até que minha barriga doesse. Tentei chamar por alguém, mas minha voz não saia, estiquei a mão em busca de auxílio, mas minha mente apagou-se antes de conseguir.

Acordei algum tempo depois, não sabia há quanto tempo estive apagado, mas eu estava com roupas limpas, deitado em um colchão macio que cheirava a jasmim. Havia mais alguém junto a mim naquele quarto. Sentei-me no colchão e passei a mão nos olhos, minha cabeça estava muito leve, ainda não tinha me acostumado a ter cabelo curto. Escutava a pesada respiração de alguém e quase podia ouvir o som de seu coração batendo, franzi o cenho tentando “ver” algo que me ajudasse a reconhecer, mas era inútil, apenas conseguia ver borrões indistinguíveis.

 ― Então você realmente ficou cego, garoto – disse a voz rouca de um homem à minha direita. Eu poderia reconhecer aquela voz em qualquer lugar. Aquele homem tinha um olhar sempre sereno que ficava em contraste com suas feições duras. Seu queixo era quadrado e o nariz um pouco torto, algo possível de notar apenas se alguém prestasse bastante atenção. Seus cabelos eram curtos e desgrenhados naturalmente, não importava o quanto ele penteasse, nunca iria ficar como queria.

― É um prazer encontrá-lo, Junzou-sama – eu disse me curvando para ele.

― Eu já não disse para me chamar de sogro? – o homem suspirou – Você logo ficará melhor, Aka-chan estava cuidando de você até agora a pouco.

― Conhecendo aquela garota, ela deve ter exagerado novamente – disse balançando a cabeça – ela está bem?

― Ela estava exausta depois de passar dois dias aqui o tempo todo tratando suas feridas – ele disse – Se eu não tivesse enxotado ela daqui, aquela menina ainda estaria rogando aos kami para curarem você.

― Você tem o meu agradecimento – eu disse curvando o tronco e baixando a cabeça – e sinto muito por seu genro ter se tornado um inválido.

― Ambos sabemos que não é o caso – ele disse, ouvi quando ele abriu um leque – Akitsuki-kun falou sobre o duelo para mim, alguém cego não deveria conseguir utilizar aquilo. Você aprendeu aquilo com Kaito?

― Sinto muito Junzou-sama, eu não faço ideia – disse levando a mão a cabeça. Sempre que tentava lembrar de alguma coisa depois de cair no abismo minha cabeça doía, como se várias agulhas perfurassem meu cérebro. Eu senti o vento em meu rosto e notei que Junzou-sama abanava o leque para mim.

― Você não consegue lembrar de nada depois de cair, certo? – seu tom era de preocupação – abra os olhos, deixe-me ver o estado deles.

Apesar de não ter certeza se estava ou não com os olhos abertos antes eu tentei fazer o que ele me pedia, mas sinceramente eu não sentia nenhuma sensação diferente. Talvez eu não conseguisse abrir os olhos, porém consegui notar algo diferente. Agora eu já não via borrões eu via uma tela negra, como se o mundo tivesse perdido toda a luz. O que será que eu fiz de errado? Apertei os olhos tentando me esforçar para ver, mas nada adiantava. Eu ainda via um mundo sem luz. Junzou-sama estava em silêncio, mas eu conseguia ouvir um coração aflito bater, seria o meu? Levei a mão ao meu próprio peito, será que eu estava tão dormente que não sentia meu próprio coração batendo? Não, eu estava enganado, meu coração estava normal, mas não estava enganado, podia ouvir claramente um coração bater rápido. “Junzou-sama? ”, eu chamei por ele e ouvi o som do coração saltar e por um momento sua respiração cessou. O silêncio tornou-se constrangedor para mim, tateei o ar em busca dele e toquei-o no ombro. Seu ombro tremeu ao contato da minha mão.

― Ichijou-kun, o que realmente aconteceu com você? – eu consegui distinguir um tom de hesitação em sua voz.

― Qual o problema, Junzou-sama? – eu perguntei pousando a mão sobre minhas pernas.

― Seus olhos estão completamente negros – ele disse depois de uma pausa – se Aka-chan não tivesse me falado eu suspeitaria que você está com a Mácula.

Encolhi os ombros surpreso quando senti o toque morno de sua mão contra minha bochecha e quando se aproximou mais para olhar de perto meus olhos. Ele ficou ali muito próximo de meu rosto e não sabia dizer se estava ou não com os olhos abertos. Talvez aquela tela negra que estivesse vendo indicasse para mim que eu estava com os olhos abertos, mas eu sabia que tinha algo errado. Junzou-sama afastou a mão e pareceu ficar pensativo, pude ouvir o roçado dos dedos em seu queixo e suspirou. Sua mão agarrou meu rosto tapando meus olhos, retruquei sobre isso, mas ele mandou que ficasse quieto um pouco. Começou a fazer algumas preces de forma ordenada pedindo auxílio aos kamis. Um arrepio tomou conta de minha espinha e a temperatura do quarto caiu drasticamente. Abracei meu próprio corpo para conter o calor que parecia deixar meu corpo. A mão deixou meu rosto e senti um toque suave em meu ombro.

― Consegue ver alguma coisa? – Junzou-sama perguntou.

Levantei o rosto, mas ainda era a mesma coisa e balancei a cabeça negativamente. Apenas uma tela totalmente negra que periodicamente apareciam alguns borrões, nada além disso, porém. Havia ali, no entanto, algo diferente. Eu podia sentir a presença de algo mais. Para mim parecia a mesma sensação que senti quando caminhávamos pelo outro “plano”, por assim dizer. A sensação partia de onde Junzou-sama estava e de certa forma, de uma forma inexplicável, aquela sensação me dava tranquilidade. Para mim, parecia inútil dessa vez, mas algo dentro de mim queria continuar a tentar. Sentia meu peito sendo rasgado para dar espaço aquele desejo de ver mais uma vez e levei a mão ao rosto para ter certeza que meus olhos estavam bem abertos.

“Apenas sinta, não tente entender”, uma voz veio. Não sei dizer de onde, a voz parecia vir do fundo de uma caverna. Ecoante e distante, chegou a mim apenas o sussurro, mas o suficiente para entender o seu poder. O Vazio dentro de mim estava inquieto e ardia como uma chama, porém gelada. Ele irradiava uma energia que parecia percorrer cada fibra dos meus músculos e convergir para meus olhos. Concentrei-me naquela sensação e a convergência pareceu-me ficar mais intensa. De certa maneira, em minha mente parecia haver uma espécie de visão externa do meu próprio corpo. Veias de brilho prateado partiam do centro do meu estômago e subiam como galhos de árvore estendendo por todo o meu corpo. Braços, pernas, dedos, alguns até mesmo pareciam ir para meus cabelos, mas as dos olhos tinham algum problema, estavam completamente apagados.

O fluxo de prata queria forçar passagem, mas não importava o esforço, apenas resquícios de energia passavam pelas veias defeituosas. Quando minha mente se focou em mandar mais energia eu vi as veias inflando e passarem através da força pelo lugar defeituoso. As veias expandiram para facilitar a passagem, mas ainda assim a energia que fluía para os olhos era pouca. Foi quando a energia fluiu e se condensou em meus olhos que a tela preta foi recebendo forma. Para mim pareceu que alguém desenhava em um tecido com um giz branco. Parecia um desenho rústico, podia dizer onde estava cada coisa, mas não o que era rapidamente. Percebi o contorno do colchão e a silhueta de Junzou-sama, mas não havia detalhe algum. Olhei para as minhas próprias mãos, assim como todo o resto, eu apenas via seus contornos, não haviam traços ou qualquer outra coisa.

― Eu consigo ver – disse olhando para as minhas próprias mãos.

― Você fez algo de diferente? – Junzou-sama perguntou intrigado.

― Não sei – olhei para ele e toquei meu estomago – eu senti uma energia fluir daqui para meus olhos depois que me concentrei eu consegui ver novamente, mas apenas rabiscos.

― Eu já ouvi falar de algo assim antes – ele coçou o próprio queixo – irei falar com algumas pessoas sobre o assunto. Shoichiro seria o melhor para ver o seu problema, mas duvido muito que ele se daria ao trabalho.

― Meu Pai é um homem ocupado, Junzou-sama – eu disse com um sorriso e senti a energia deixar meus olhos logo voltando apenas a ver borrões – Não durou muito tempo.

― Ser ocupado para o próprio filho é o motivo de sua mãe ficar tão irritada com ele – ele disse com um suspiro longo – Eu irei escrever uma carta para ele. Você também deveria ir visitar sua mãe logo.

― Eu não acho que minha mãe fosse querer que eu fosse visitar ela agora – eu disse – ela deve estar ocupada com o dojô, agora que uma nova turma de alunos deve estar preparando-se para a graduação.

― Que besteira! – ele deu um tapa na própria perna – Sua mãe ficará muito contente em vê-lo.

― Não faça esse tipo de brincadeira comigo, Junzou-sama – eu ri – Eu tenho o mesmo rosto que o meu Pai e minha mãe se sente mal quando olha para mim.

― Não diga isso – ele falou enquanto levantava-se - apenas faça uma visita para aquela mulher antes que ela me deixe louco. Eu preciso ir agora, mas mandarei alguém aqui para ajudá-lo a trocar de roupa.

― Estou sendo requisitado em algum lugar? – perguntei sem entender.

― Ah sim, peço desculpas por não dizer mais cedo – deu um tapa na própria testa – a Imperatriz deseja agradecer a cada um de vocês pela ajuda. Ela já agradeceu aos outros, mas como você estava indisposto devido a condições especiais, ela pediu para levá-lo até ela assim que acordasse.

― Agradecer-me? – disse com as sobrancelhas erguidas – Eu não lembro de ter feito nada para que ela me agradecesse.

― Não diga tolices! – ele brandiu batendo com o leque em minha cabeça – Vocês salvaram Otome-sama, uma amiga pessoal da Imperatriz. Irei mandar preparar um banho e roupas adequadas para a ocasião, não posso deixar meu genro fazer minha família passar vergonha.

Passei a mão sobre a cabeça ainda sentindo o lugar que foi acertado latejar. Ouvi seus passos afastando-se pelo tatame e abrir a porta saindo do quarto. Muitas coisas passavam por minha cabeça naquele momento. O que deveria ser aquilo que vi? Será que mesmo nas condições que estava eu ainda merecia o direito de casar-me com Akatsuki? Bem, eu tinha certeza que minha vida acabaria no momento que perguntasse isso para ela, tanto Akatsuki quanto seu Pai me matariam. Kaito iria rir, mas ajudaria eles a me matar. Não lembro se disse isso antes, mas Kaito é o nome de meu rival e Cunhado. Um dos melhores duelistas com o qual já enfrentei.

Não demorou muito para alguém chegar em meu auxílio. Fui levado para tomar um banho, poderia ter tomado sozinho, mas parece que foi ordenado a ser ajudado com tudo. Pelo que ouvi as criadas falando, pelas minhas costas, meu cabelo está péssimo, as pontas estavam queimadas e os fios estavam quebradiços. Foi um choque para mim que sempre cuidei tão bem do meu cabelo, havia uma forma de fazê-lo voltar ao normal, mas seria trabalhoso. Levaria anos para ele crescer novamente, mas era algo que valeria a pena o esforço. Instrui que fizessem algumas misturas para mim, pois desejava iniciar o tratamento logo, não iria suportar ver meu cabelo se despedaçando com o vento. Como um Ator, meu cabelo era uma de minhas armas, sem uma delas para lutar eu ficaria indefeso em certas ocasiões. Você não consegue entender do que eu estou falando? Tudo a seu tempo, mantenha a calma e você entenderá.

Depois de falar com Junzou-sama eu fiquei tentado a escrever uma carta para minha mãe, não sabia como ela iria reagir. Havia o problema de não ter como escrever naquele momento, mas eu poderia facilmente pedir para que Akatsuki escrevesse para mim enquanto falava para ela o que desejava. Ajudado a vestir um quimono, logo fui levado para encontrar-me com a Imperatriz, não havia tempo nem mesmo para comer algo antes. Ela precisava sair o quanto antes de volta para as terras Imperiais. Como é de se supor, o Torneio foi cancelado até terminarem as investigações sobre o grupo terrorista, e até aquele momento não havia nenhuma informação nova.


Nota do autor:

Olá à todos os que estão aqui lendo mais uma memória. Só tenho a agradecer a todos vocês que tiram um tempinho do dia para ler as memorias de Ichijou, garanto que ele sempre fica muito feliz em ver vocês aqui de volta toda semana. Espero que vocês já tenham perdoado a nós dois por termos ficado uma semana sem entregar essas Memórias e vim dizer uma coisa que talvez deixe vocês felizes caso eu consiga cumprir.

Apesar de Rokugan não comemorar o Natal, alguns de nós comemoramos, salvo nossos amigos Judeus, se algum leitor for um. Eu estou tentando entregar de 2 a 3 Memórias no Natal, que chega na semana que vem então espero que vocês fiquem no aguardo, mas não vamos gerar muitas expectativas. hahaha. Desejo à todos um otimo fim de semana e até semana que vem.

Por Yamimura | 16/12/18 às 10:11 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror