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Memória 25 - Encontro com a Imperatriz

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 25 - Encontro com a Imperatriz

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Em meu quarto fiquei esperando por algum tempo antes de Akatsuki entrar apressada. Queria saber como eu estava, se estava com alguma dor ou incômodo. Apenas fiquei sorrindo para ela enquanto ouvia sua doce voz cheia de aflição e preocupação. Fez algumas preses aos kamis, suas duas frágeis mãos tocaram meu rosto e a sensação que tive foi de água saindo de suas mãos e percorrerem meu rosto até os olhos. Seus dedos acariciaram minhas bochechas, ouvia suas fungadas, levei a mão para seu rosto secando suas lágrimas com um sorriso.

― Papai falou-me sobre os seus olhos – ela disse quase como um sussurro.

― Não se preocupe com isso – eu disse dando um beijo na palma de sua mão – não é sua culpa.

― Como isso não...? – ela perguntou, mas eu tapei a sua boca com o indicador e sorri. Ela tremeu quando tirei suas mãos de meu rosto, puxei-a para mim. Meus lábios tocaram os dela, provei o gosto salgado de suas lágrimas enquanto a puxava mais para perto. Primeiro ela resistiu, depois tremeu e notei novamente lágrimas correndo por suas bochechas, mas logo ela agarrou-se a meu quimono abraçando-me com força.

Encostei meu nariz no dela passando a mão lentamente por seus cabelos, notado ela tremer em meus braços. Ela se culpava pelo meu estado e mesmo tentando tanto nada do que fazia parecia adiantar para melhorar meu problema. Chorou um pouco mais até que sua respiração foi se acalmando e afundou o rosto contra meu peito. Ela apertou suas delicadas mãos contra meu quimono, abraçando-me pela cintura, e deitou a cabeça em meu peito. Com um sorriso eu a permiti ficar daquela forma afagando seus cabelos. Em minha mente eu podia vê-la perfeitamente, seus olhos inchados pelas lágrimas e o rosto avermelhado. Os traços em seu rosto se tornaram menos rígidos quando um sorriso foi brocando ali, beijei-a nos cabelos e sabia que ela já havia esquecido a tristeza.

― Assim está melhor – disse – depois que a reunião com a Imperatriz acabar eu preciso de sua ajuda com um pequeno problema.

― Claro – ela falou de imediato – do que você precisa?

― Quero escrever uma carta á minha mãe – respondi e notei a surpresa em seu rosto – quero deixa-la a par do que aconteceu e de meu estado atual. Sei que as notícias logo chegaram para ela e será melhor informar eu mesmo sobre o ocorrido. Além disso, quero pedir permissão para ir encontra-la depois de conversar com meu pai.

― Você vai visitar seu pai? – a surpresa dela pareceu aumentar – acho difícil ele ter pedido por isso.

― Não pediu, mas seu pai me convenceu a ir vê-lo – disse para ela – Meu pai certamente deve conhecer um meio de me curar.

― Sim, ele deve conhecer, mas ele vai querer ajudá-lo? – ela demonstrou sua preocupação.

― Se eu ainda for útil para ele de alguma forma, sim,  ele irá – suspirei – Você não deveria falar assim do seu sogro, você sabe que ele gosta muito de você.

“Eu não me importo com aquele velho pervertido, mas por você eu irei escrever para ele”, ela disse um pouco irritada pela simples lembrança de meu pai. Sempre que ela ia visitá-lo, meu pai a tratava como uma boneca e a enchia de mimos, mas ela detestava. Akatsuki seria a filha que meu pai nunca teve, talvez por isso ele me vestia de garota quando eu era mais jovem? Bem, é melhor não remoer sobre o passado.  teve, talvez por isso ele me vestia de garota quando eu era mais jovem”Se eu falar com ele, com certeza ele deve ajudar”, ela complementou. Eu sabia que para ela aquilo era um grande esforço, afaguei seus cabelos imaginado que tipo de rosto fofo ela estaria fazendo.

Ouvi passos aproximando-se daquele quarto, passos leves e rápidos, parecia haver pressa em cada toque contra a madeira. Dei uma tapinha na cabeça de Akatuski que reclamou docemente, segurei o riso e sussurrei “Alguém se aproxima”, ela tremeu sobre mim e abri um sorriso. “Ainda temos tempo, não precisa se desesperar”, eu disse e ela levantou-se de um pulo. Ouvi o rosado de suas mãos pelo tecido do quimono. Concentrei-me nos passos e sabia que ainda haviam alguns poucos segundos antes de quem quer que fosse chegar. Sorri quando vi ela terminar de arrumar-se e ouvia ela tentando acalmar-se, como uma dama da Corte e filha de um daimiô da Garça ela deveria ter sempre uma Aura de dignidade.

Quando ela finalmente havia se acalmado eu a puxei pelo pulso segurando por sua cintura, apertei-a contra mim com um único movimento. Seus olhos arregalaram-se e seu coração disparou quando tomei seus lábios, apertando-os contra os meus.  Por um segundo ela resistiu e por dois eu a beijei. Afastei-a, empurrando-a pelos lábios com o indicador e eu podia ouvir seus arfados. “O que foi isso? ”, ela perguntou com a voz trêmula e falhada. “Eu simplesmente não consigo resistir quando você fica com essa expressão de desespero”, sussurrei dando-lhe um sorriso provocador. Ela quis dizer alguma coisa, mas alguém chegou junto à porta.

― Shousuro-sama – uma mulher disse com um tom modesto.

― Entre – eu respondi.

A porta foi aberta delicadamente e como rege o costume, a mulher ficou com parte do corpo por trás da parede de papel. Ela curvou-se para nós dois. Akatsuki relutou bastante, mas me descreveu-a mais tarde, apesar de suspeitar que muito do que ela disse foi uma mentira. Seu rosto era simples, não havia nenhuma característica que pudesse ser lembrada. Seus cabelos eram longos e não pareciam bem cuidados, apesar disso ela se vestia bem... Em momento nenhum aquela mulher olhou para dentro do quarto, mantendo a nossa privacidade.

― Iweko-sama pede a vossa presença – ela disse – estou aqui para guiá-lo.

― Espere um momento – disse.

Levantei-me e Akatsuki fez o mesmo. Ela arrumou minhas roupas, seus olhos fixaram-se em meu rosto e o toque morno de sua mão afagou-me a bochecha. “Boa sorte” ela sussurrou para mim. Sorri para ela, dei-lhe um beijo à palma da mão e me afastei indo até a porta. Virei-me para a mulher ainda ajoelhada ao sopé da porta. Fiquei parado por um segundo até que a mulher levantou a cabeça e perguntou se estava tudo bem. “Akatsuki, me ajude a acompanhar esta dama. ”, disse virando-me para trás. “Espero que não se incomode, eu não posso enxergar, então será difícil de acompanhá-la. ”. A mulher curvou-se e disse que não havia nenhum problema. Estendi a mão para Akatsuki, ela demorou um pouco, mas por fim veio segurar minha mão e seguimos atrás da mulher.

“Você podia seguir ela muito bem sozinho. ”, Akatsuki disse em um sussurro. “Sim, mas ela não tem que saber dessa parte, certo? ”, disse aproximando meu rosto de seu ouvido. Seu coração deu um salto no próprio peito, apertou mais a minha mão contra si e ficou um pouco mais a frente me guiando. Caminhamos por uma sequência de corredores, mas em algum momento caminhamos por uma varanda, pois senti a brisa quente da manhã e o cheiro agradável das flores que trouxe. Havia muito barulho além dos muros, a cidade parecia alvoroçada com os últimos acontecimentos, mas o reboliço parecia ser mais de alegria que qualquer outra coisa. “Algo está acontecendo na cidade? ”, perguntei. A guia não afrouxou os passos, virou o rosto para a cidade e respondeu, “Esta manhã formos informados que alguns dos desaparecidos começaram a retornar pelo portão principal, mais alguns devem ter retornado agora”. Lembrei de Kage, o qual ninguém havia me dito nada e Hida Hiato que não pareceu retornar conosco. Ponderei em perguntar por eles mais tarde e ir ver se estava tudo bem com eles.

O dojo Kakita estava aberto e alunos treinavam arduamente. Os sons de seus esforços lutando com espadas de madeira enchiam as paredes de papel do dojo, mas no geral o silêncio predominava. Kakitas pregavam o silêncio porque gritos davam forças apenas aos tolos que recorriam apenas à força bruta por falta de treinamento e equilíbrio. Isso claro, era uma filosofia bonita, mas pouco empregada no campo de batalha, poucos eram aqueles que conseguiam manter o equilíbrio emocional em batalha, haviam muitos fatores envolvidos. O sensei era o único a esbravejar contra os alunos quando cometiam erros imbecis. “Ah, um duelo”, ouvi a voz de Akatsuki dizer, mas ela pareceu arrepender-se quando parei. Suspirei entristecido por não poder apreciar àquele duelo e puxei Akatsuki para continuar nosso caminho. Ela afagou meu braço me confortando e sorri para ela.

Depois de mais alguns minutos de caminhada chegamos ao destino. A mulher anunciou nossa chegada e uma voz desconhecida para mim ordenou que entrássemos. Fizemos o que foi pedido e Akatsuki levou-me até uma almofada, ela me apontou a Imperatriz e ambos nos ajoelhamos, pagando o devido respeito a ela. O lugar era pequeno, apenas para pequenas reuniões como esta. A Imperatriz estava confortavelmente sentada em uma Zaisu e na frente dela, à direita, estava Miya Otome. Foi nos oferecido um lugar para sentar, a Imperatriz pareceu incomodada com a presença de alguém que não havia chamado.

― Quem é essa? – a Imperatriz perguntou.

― Peço humildemente por seu perdão, minha Imperatriz – eu disse me curvando até encostar a cabeça no tatame – ela veio me guiando até aqui por minha falta de visão, está é minha noiva, Doji Akatsuki.

― Não há porque se desculpar – Iweko-sama disse – Eu o chamei aqui porque minha amiga Otome queria agradecer a cada um de vocês por terem salvo sua vida.

Otome fez uma longa reverência e eu a acompanhei me curvando ainda mais que ela; a diferença de posição social entre nós exigia tal comportamento de minha parte. Ela inicialmente agradeceu por termos salvo a vida dela, estava profundamente grata, mas como ela sabia, ninguém o fez por altruísmo. Talvez esse fosse o caso, como uma figura importante para o Império fazê-lo por interesse em boas relações com a família Miya seria uma boa ideia. Esse pensamento não havia me passado pela cabeça inicialmente, como poderia eu tirar proveito de uma jovem em perigo apenas por interesses pessoais?

― Aceite este presente como forma de gratidão – Otome-sama disse empurrando uma pequena caixa.

― Não há necessidade de um presente, Miya-sama – eu disse recusando ao presente – Não fiz o que fiz para receber algo em troca.

― Isso é reconfortante de ouvir, mas não posso deixar que meu salvador parta de mãos vazias – ela retrucou com um sorriso.

― Eu entendo, mas ainda assim, alguém como eu não merece um presente de vossas mãos, Miya-sama – eu disse para ela recusando mais uma vez.

― Que tipo de mulher eu seria então, se aquele que me salvou a vida não pode receber um presente de mim? – ela perguntou – Este é um presente de coração que o entrego para demonstrar como me sinto por me salvar.

― Se este é o caso, ficarei grato em receber tal presente – disse me curvando para ela.

Ela abriu um belo sorriso, empurrando a caixa para mais perto de mim. Akatsuki ajudou-me a encontrá-la e ao abriu encontrei um leque. Era feito de madeira, tão polido que poderia ser confundido com porcelana. Deslizei os dedos pela superfície do leque e notei algumas pedras. Eu podia sentir algo diferente naquele leque, não sei explicar o sentimento que eu sentia, parecia como se tentasse absorver forçadamente minhas energias. Ele não me desgastava de fato, como disse, era uma sensação. Notando minha hesitação depois de receber o presente, Miya-sama sorriu e olhou para Akatsuki. Minha noiva que teve um estalo e olhou para o presente, seus olhos se arregalaram. Não era nada muito extraordinário nem mágico, mas se dizia ser uma das melhores madeiras do Império. Esta madeira era extraída de uma árvore que crescia apenas nas terras da Fênix e tinha propriedades que beiravam às mágicas. Segundo alguns estudiosos do Clã Fênix, essa madeira conseguia absorver melhor o Vazio, mas não era nada comprovado. Atualmente, está madeira era utilizada apenas por padrões estéticos, o que elevava muito o seu preço.

O Leque era negro e brilhoso, as pedras nele formavam um escorpião e na parte interna havia o mon dos Shosuro, pintado em tinta preta, além da palavra Lealdade. Esta é a Virtude que tem mais peso para o Clã Escorpião. Depositei o presente novamente na caixa e me curvei uma vez mais para Miya-sama, agradecendo pelo presente. Tomei a caixa, colocando-a de lado e voltei a ficar ereto esperando para ser dispensado.

― O que fará em relação ao seu problema visual? – a Imperatriz perguntou.

― Viajarei até meu pai para buscar sua ajuda com esse problema – respondi pousando as mãos sobre o colo – Ele tem um grande conhecimento médico e mágico, talvez consiga dizer a fonte do problema.

― Entendo – ela disse pensativa – depois de se curar vá até as terras imperiais. Vou gostar de ouvir sobre sua melhora e tenho certeza que Otome também ficará contente.

― De fato – Otome disse.

― Sim – eu disse curvando-me para ela – colocarei um esforço extra para atender às expectativas de vossa Majestade.

Fomos dispensados e nos curvamos para a Imperatriz antes de sair. Peguei a caixa com o presente e minha noiva ajudou-me a caminhar de volta até o quarto que me foi cedido. Eu iria embora o mais rápido possível, mas ainda haviam coisas para resolver antes de partir. Entreguei o leque para Akatsuki para saciar sua vontade. Segundo ela, poucas peças daquela madeira eram produzidas a cada ano e a procura era grande demais, resultando em uma enorme dificuldade para consegui-la. Aquela era a primeira vez que a via e realmente emanava uma aura diferente, quase mágica.

Depois de me devolver o leque pedi ajuda com a carta que escreveria para minha mãe. Também a ajudei a escrever uma carta para meu pai. Haviam também as pessoas que queria visitar, quando me contou sobre o que aconteceu com Kage eu me enchi de tristeza. Akatsuki não sabia se Hida Hiato havia retornado, mas iria informar-se daquilo mais tarde. Passamos a tarde inteira conversando e tentando de todas as formas que ela conhecia para resolver o problema de minha visão, mas não tivemos nenhum resultado.

Akatsuki deixou o quarto já no começo da noite dizendo que seu pai já deveria estar preocupado com ela. Depois de jantar, fui levado mais uma vez para banhar-me e ao retornar fui meditar. Já havia um tempo que não tinha entrado em contato com Hime. Ainda precisava encontrar minha espada porém, e naquele momento, por estar sozinho, encontrá-la seria difícil. Andei pelo quarto tateando por ele todo em busca de minha espada, mas aquela revelou-se uma tarefa impossível para mim. Sentei-me aborrecido no colchão e perguntei apenas para mim mesmo “Onde está você, Hime?”. Sentado na cama cruzei as pernas, deixando as mãos sobre os joelhos e respirei fundo. Enquanto mergulhado em minha meditação, o mundo ficava silencioso e as únicas coisas que podia ouvir eram minha respiração e o coração em meu peito que se sincronizava a ela.

Por algum motivo eu podia sentir diversas coisas ao meu redor, deixe-me tentar explicar para você. Alguma vez enquanto caminhava conseguiu sentir que havia algo ou alguém atrás de você? Essa era a mesma sensação que eu tinha, mas eu sentia para todo lado. Uma voz dentro de minha cabeça interrompeu minha meditação. “Aqui”, a voz disse, uma voz que não era nem de homem nem de mulher, uma mistura das duas e mesmo vindo de minha própria cabeça ela tinha uma direção. Guiado pela voz que ia chamando por mim, levantei do colchão e andei com cuidado para não esbarrar em nada. “Quase lá”, ouvi mais uma vez e a voz agora parecia bem mais perto. Bati com força os dedos na cômoda e praguejei cerando o punho com força tentando amenizar a dor. “Mais para cima”, mais uma vez a voz veio, tateei a cômoda até, em cima dela, encontrar um expositor onde minha katana estava.

― Então era aqui que você estava – eu falei.

Não houve resposta dessa vez. Encostei o cabo contra a testa aliviado por tê-la encontrado e fui cuidadosamente voltando até o colchão. Assumia novamente a posição para meditar e colocava a espada embainhada em meu colo. Não demorava muito para começar a afundar em minha consciência. Os sons externos iam desaparecendo e logo os sons do meu próprio corpo foram também sumindo, substituídos por passos. Sentia que estava pisando no limite entre liquido e gás e passei por uma parede da mesma forma.

O cheiro de flores tomou-me o nariz e a luz chegou a ferir meus olhos. Sim, aqui eu conseguia ver, foi uma surpresa agradável para mim. O campo de flores parecia ainda mais belo que das outras vezes. Cada flor parecia uma obra de arte pintada cuidadosamente por um mestre, suas cores eram vivas e encantavam meus olhos enquanto passava por elas. Talvez seja um reflexo de não poder mais enxergar. Tão pouco tempo eu passei sem ver e estou reagindo assim, imagino aqueles que já não veem a anos. Ao longe havia uma elevação, uma mulher estava sentada sob um guarda-sol azul claro.

A estrada que eu seguia levava diretamente até ela, mas por várias vezes eu parava para admirar a paisagem. O calor era moderado ali e a brisa morna trazia o canto das cigarras distantes. O céu estava completamente azul, com uma tela pronta para ser pintada pelas disformes nuvens. Aproximei-me da elevação e havia um tecido branco estendido. Hime estava lendo um livro pousado em seu colo, passou uma página ainda mantendo os olhos no papel quando sentei. Olhei para ela por algum tempo, mas fechei os olhos para aproveitar a lufada de vento e quando abri novamente os olhos, Hime olhava-me com um sorriso.

― Você está diferente – ela comentou olhando para meus cabelos.

― Não foi uma escolha – eu disse tocando os cabelos – Muita coisa aconteceu desde que vim aqui da última vez.

― Faz muito tempo realmente – ela disse aborrecida – achei que tivesse cansado de minha companhia.

― De forma nenhuma eu teria cansado de vossa presença – eu retruquei – não foram apenas alguns dias?

― Não, não foram – ela disse marcando o livro com uma pétala – a noção de tempo aqui é diferente como já disse a você, mas foram bem mais que alguns dias, muito mais.

― Sinto muito por deixá-la sozinha e quebrar minha promessa com você – eu disse me curvando.

― Está tudo bem – ela disse e seu tom vinha junto com um sorriso – Eu sei que não fez por mal.

― Isso é ótimo – eu disse levantando a cabeça, mas engoli o resto que ia dizer. Hime olhava diretamente para mim com um brilho enraivecido nos olhos, contrapondo ao gentil sorriso que me mostrava. Seus olhos inquisidores me julgavam culpado e estavam a um passo de aplicar a pena pelo meu pecado. Baixei a cabeça novamente encostando a testa ao chão e pedido pra ela me perdoar, mas não sei se adiantaria muita coisa.

― Chega – ela disse virando o rosto – eu não estou com raiva.

― Mesmo que não esteja eu não deveria tê-la deixado sozinha neste lugar – respondi – sinto muito.

― Desde que você entenda – ela disse olhando com o canto dos olhos.

Olhei em volta, havia certa nostalgia em mim, porém eu sentia algo diferente naquele lugar. A energia parecia mais densa, quase tangível. Olhando melhor pude notar que haviam flores completamente prateadas que emanavam a mesma energia que eu canalizava para aprimorar meus golpes. Levantei-me caminhando até uma delas e a toquei com os dedos, sentindo seu poder fluir através de mim e o meu através dela. Afastei a mão, as pontas de meus dedos estavam dormentes e meu braço inteiro formigava. Hime estava atrás de mim, ela tocou meu ombro e a olhei cheio de dúvidas.

― O que é essa flor? – perguntei.

― Não existe um nome para ela – ela sorriu – mas não existe na sua realidade, apenas em planos paralelos ao Vazio. Elas são como pequenos buracos por onde a Energia flui indefinidamente. Tudo tem uma confecção com o Vazio, por isso humanos podem acessar de forma limitada seus poderes, mas essas “flores” expelem energia bruta, foi isso o que sentiu.

― Isso não estava aqui antes – falei olhando novamente para a flor – eu vim aqui muitas vezes, mas nunca tinha visto elas antes.

― De fato elas não existiam aqui antes – ela disse sentando nos próprios calcanhares ao meu lado – você deve ter levado a espada para algum plano onde o Vazio tinha forte influência, não?

― Quando mataram o Oráculo do Vazio fomos sugados para um lugar assim – respondi.

― Hm – ela resmungou – Nunca vi algo assim acontecer, esse Oráculo deveria ter uma forte ligação com o Vazio. O que aconteceu lá?

― Passamos por muita coisa – eu falei pegando minha katana – Parecia um Campeonato de Topázio. Talvez a memória mais recente que todos tinham quando foram tragados. Depois de passar por várias “salas” eu acabei quase morto em uma batalha, fui ferido mortalmente. Para não deixar os outros correrem perigo, principalmente minha noiva, eu cortei o ponto que estava e caí junto com vários inimigos. Em um abismo...

― Esse abismo deveria ligar diretamente ao Vazio – ela falou com preocupação na voz – admira-me você estar vivo. Você lembra de alguma coisa?

― Nada – respondi com um longo suspiro – apenas de continuar caindo até conseguir sair, depois disso eu estava cego.

― Hm – ela levantou os olhos para o céu limpo – se a espada caiu com você nesse abismo explica muita coisa que aconteceu aqui. Você deve ter notado que a energia do Vazio nesse lugar está mais forte. Este lugar quase foi destruído algumas vezes e passou muito tempo fora do meu controle, mas depois eu estava mais forte e provavelmente a espada também. Talvez eu consiga até mesmo falar com você enquanto estiver lá fora.

― O que está dizendo? – ergui uma sobrancelha – Claro que consegue, você falou comigo mais cedo quando estava procurando pela espada.

“Não fui eu”, ela respondeu balançando a cabeça confusa. Fiquei ainda mais confuso que ela, havia claramente escutado uma voz que me guiou até a espada naquela hora. Sei que não estava ouvindo coisas. Saquei a espada, olhei bem para a lâmina. Havia de fato uma aura que emanava dela agora e quando adicionei minha energia Vazia na lâmina, de alguma forma, ela parecia mais afiada. Precisava testar seu poder, mas, para mim, parecia faltar alguma coisa no que eu fazia. Aumentar o poder de corte da própria espada era algo que qualquer Samurai podia fazer, afinal nosso treinamento levava a isso. Por não saber o que faltava, essa técnica não estava completa, e eu não podia emprega-la com todo seu poder em combate, me faltava treinamento.

― Essa técnica – Hime comentou – eu conheço alguns princípios dela, mas não completamente, posso ajudar com o início dela, mas você vai precisar de um professor mais experiente que eu.

― Talvez minha mãe conheça ou talvez meu pai– falei colocando pouca confiança nessas palavras – Eu irei viajar às terras do Escorpião para ver meu pai. Como ele é um shugenja, ele pode saber alguma coisa sobre o assunto.

― Shugenjas sabem manipular melhor que um bushi a energia Vazia, mas um monge é muito melhor nesse aspecto – ela falou.

― Pode ser – olhei para ela – meu pai é um caso especial, no entanto.

― Nós teremos que mudar sua rotina de treinamento para aumentar sua estamina – ela disse – Você falou que ficou sem a visão, então correr já não é mais viável. Eu irei pensar em alguma coisa e falarei para você depois.

Conversamos por mais algum tempo e fui convidado a trocar golpes com alguns dos bonecos que Hime criou para esse propósito. Algumas horas depois, já mentalmente cansado, acordei da meditação, voltando a não enxergar nada e acabei adormecendo não muito tempo depois.

 

Nota do Autor:

Primeira Memória do combo Natalino.

Eu havia avisado na semana passada que esse Combo seria possível, mas sinceramente falando eu tive receios de não conseguir portar no decorrer dessa semana. Foi um pouco corrido e eu tive que fazer minha corretora ter um trabalho triplicado. Não preciso nem dizer que ela ficou muito irritada, certo? Pelo menos deu tudo certo.

Esse é o meu presente de Natal para as pessoas que acompanham essa história, quanto ao meu presente, eu realmente não preciso de nada. Para mim meu Presente é saber que vocês estão gostando, apesar de quem quase ninguém comenta nada. Então a partir de hoje, você meus amados leitores estão intimidados a comentar hahaha. Agradeço à todos que leem e desejo a você um ótimo fim de semana e um Feliz Natal. Como diria uma boa amiga minha...

 

Beijos de Luz,

 

Yamimura.

Por Yamimura | 23/12/18 às 09:36 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror