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Memória 27 - Caminho Vazio

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 27 - Caminho Vazio

Nada fazia sentindo para mim. Não havia como aquela mulher não querer nada. Motivos altruístas simplesmente não existem, ninguém faz nada sem querer algo em troca. Talvez o meu rosto confuso a divertisse, pois ela ficou um bom tempo rindo de mim enquanto estávamos no dojô. Ainda me perguntava como ela iria ajudar em minha condição, magia, ao que me parece, não era o caso. Ise zumis normalmente usam um tipo estranho de magia, creio que nem possa ser dado esse nome já que nem mesmo os shugenjas o entendem muito bem.

Apenas saí de meu estado de confusão quando senti um cheiro adocicado de incenso e sem demora minha mente foi relaxando. Não ouvi quando ela se levantou para pegar os palitos, porém agradeci por eles agora espalharem seu cheiro pelo dojô. O cheiro ia ficando mais ameno e ajudou-me a pensar melhor. Minhas dúvidas, é claro, não diminuíram, mas resolvi deixá-las de lado por hora e lidar com isso apenas no futuro.

― Você está pronto? – ela perguntou calmamente.

― Sim – respondi convicto.

― Eu não sei quanto tempo nós temos – ela falou – o processo demora anos, mas teremos que acelerar. Você não tem anos e eu não posso ficar anos aqui.

― Eu posso até, de forma forçada, ser chamado de gênio – eu disse – mas a senhora acha que isso vai funcionar?

― Mesmo que seu talento pudesse abalar todo o Paraíso Celestial, ainda não seria o bastante – ela suspirou – eu o ensinarei todo o básico e o resto vai depender apenas de você. Você terá que se forçar em aprimorar tudo o que eu disser e dependendo de você talvez, e apenas talvez, você consiga se igualar a um Ise zumi.

― Isso não seria um problema? – perguntei – não acho que seria uma boa ideia isso sair do Monastério Togachi.

― Qualquer um pode ter acesso a essas informações – ela disse – além disso, eu já tenho permissão superior para revela-las. Tudo vai depender apenas de quão bem você irá absorver tudo o que eu lhe ensinar. Antes de mais nada me responda; Como você entende o Vazio?

― Uma força que move as coisas – respondi – quando eu uso esta força eu consigo sentir meu corpo reagindo a ela e liberando energia.

― Você não está errado – ela sorriu – apenas está incompleto.

― O que quer dizer? – perguntei confuso – existe algo mais?

― Esse conhecimento não é comum entre os bushis, mas shugenjas e monges que se aprofundam no Tao tem o início desse conhecimento – ela respondeu – o Vazio é tudo o que nos rodeia e ao mesmo tempo nada.

Eu suspirei, não me admirava que esse conhecimento viesse do Tao, ele era tão confuso quanto tal. Sim, eu sei essa foi uma péssima piada, mas acontece. Eu tentei entender o que ela queria dizer com aquilo, mas foi bem difícil. Cresci ouvindo minha mãe explicando sobre o caminho do guerreiro e das aplicações do Vazio em nossos corpos para fortalecê-lo até certo ponto, mas nunca tive uma visão religiosa sobre o assunto, nem mesmo minha mãe. Como uma típica Leão, ela prefere o conhecimento teórico que o Tao pode oferecer para fins militares e nada mais. Todo bushi, ou melhor dizendo, quase todo, utiliza do Tao apenas como um pequeno guia Espiritual. Poucos são aqueles que realmente aplicam-no na sua vida, como é o caso do Clã Fênix, falarei dele mais tarde; começar a falar sobre eles agora seria um aborrecimento. Poderia haver alguma verdade em suas palavras dado o que havia acontecido quando entramos naquele semi plano. Nada daquilo existia de fato, mas ainda estavam lá, podíamos ser feridos e mesmo mortos naquele lugar, mas de alguma forma não parecia real.

― Não me surpreende sua confusão – ela disse – O que essas palavras querem dizer é que o Vazio pode tornar-se qualquer coisa, porque ele liga tudo de forma harmoniosa.

― Quando você diz tudo, você quer dizer literalmente tudo? – perguntei.

― Eu não tenho nenhuma comprovação que seja literalmente tudo – ela pareceu levemente aborrecida – mas eu ainda estou buscando saber. Hipoteticamente? Sim, o Vazio liga todas as coisas. As roupas que você veste, a madeira nesses pilares, o ar que você respira. Muitos anos atrás um velho monge teorizou que tudo que existe possui pequenas partículas, muito menores que os grãos de areia.

― Ele disse porque pensou assim? – perguntei.

― Ele falava de visões que teve durante sua meditação, nada que realmente comprove o que ele falou – ela disse – seus pensamentos são motivo de chacota pelos Ise zumis, mas eu sei que existe alguma verdade no que ele fala. Eu consigo entender porque ele chegou a essa conclusão.

― E qual seria a razão? – perguntei curioso.

― Primeiro, o crescimento - ela falou – isso é muito mais aparente em seres vivos. Nós vamos crescendo à medida que ficamos mais velhos até um certo limite. Como se algo fosse adicionando pequenas peças como em um quebra cabeça. Outra forma de pensamento seria o inverso. Peguemos uma laranja como exemplo. Podemos dividi-la em duas partes, então irmos dividindo várias vezes até chegarmos a um ponto que os olhos humanos já não podem mais ver.

― Isso é bem complexo – disse coçando o queixo – se isso for verdade, o que você está propondo é que o Vazio mantém essas partículas unidas?

― Exato – ela disse – foi o que o próprio monge propôs e no que eu acredito.

― Pode ser possível comprovar isso – falei perdido em pensamentos.

― Como? – ela perguntou.

Recentemente eu havia ouvido falar de um jovem do Clã Fênix que tinha uma certa fascinação pelas estrelas e que estava tentando desenvolver uma forma de vê-las mais de perto, mas ainda não tinha como fazer seu desejo se tornar realidade. Eu digo recentemente, mas já faz alguns meses desde a última vez que tive alguma notícia. Com alguma sorte talvez ele já tenha conseguido fazer progresso em sua pesquisa. Devo pedir a alguém para me informar sobre isso. Quando falei para ela o que tinha pensado ela ficou um pouco confusa, mas então revelei onde queria chegar.

― Talvez se ele pode de fato ver as estrelas mais de perto então ele também possa ver essas partículas – falei para ela – as estrelas também são muito pequenas para vermos como elas realmente são apenas com nossos olhos.

― Esse pode ser o caso – ela falou – mas vamos voltar nosso foco para o seu treinamento.

― Claro – falei – você dizia que o Vazio está em todos os lugares ligando todas as coisas, mas o que isso quer dizer?

― Trocando em miúdos se minha hipótese estiver correta, quer dizer literalmente isso – ela disse – Significa que o Vazio pode ser aquilo que ele quiser ser. Você já viu algum Ise zumi da Ordem Togachi usando alguma tatuagem?

Eu tive que pensar um pouco e tive certa dificuldade para lembrar, mas sim, eu já havia visto um. Togachi Hoshi havia usado uma tatuagem, mas naquele momento minha mente recusava-se a lembrar. Havia um grande vazio em minhas memórias, algo faltava ali e quando forcei-me a lembrar senti minha cabeça doer. Apesar da dor, consegui lembrar o nome do monge e o que ele tinha feito, mas a forma da tatuagem era um imenso borrão.

Naomi ficou apenas me olhando enquanto gemia de dor e ouviu atentamente quando falei que de fato havia visto Togachi Hoshi usando uma tatuagem. Eu não lembrava como ela era, mas disse o que ele tinha feito. De sua boca, chamas haviam saído e queimado tudo à frente. Ela não demorou para nomear como a Tatuagem do Dragão. Ela então explicou que tatuagem não necessariamente tem o mesmo formato, precisando apenas de uma tinta especial e obedecer um conceito, apenas isso já faz a tatuagem tornar-se funcional.

― Tatuagens ganham poder através de sua tinta feita com base no sangue ancestral do fundador do Clã Dragão – ela disse – essa tinta tem propriedades mágicas, e o conceito da tatuagem permite utilizar poderes além da compreensão.

― Onde quer chegar? – perguntei – que com o Vazio é possível produzir os mesmos efeitos?

― Sim – ela falou – eu não tenho a tatuagem do Vazio, mas eu consigo imitar seus efeitos e enxergar. Não é tão poderoso quanto a tatuagem em si, mas eu não preciso dela para ter efeitos similares. As Tatuagens de minha Ordem facilitam o processo, mas sem elas ele também é possível. Requer muito mais treinamento e meditação, mas é possível.

― Então, por onde devemos começar? – perguntei curioso.

― Primeiro você deve aprender a controlar sua própria Força Vazia – ela respondeu – mesmo conseguindo usá-la você não me parece do tipo que o faz apropriadamente. Depois que seu controle estiver melhor iremos fortalecê-lo, porém esse processo você o fará sozinho, provavelmente eu não estarei mais hospedada na casa de Shoichiro. Quando o seu controle estiver melhor talvez você consiga aprender a técnica para enxergar, pode demorar anos para você ver de forma plena, mas pelo menos você não estará mais completamente cego.

Ela então passou a me explicar a teoria por trás do que eu iria fazer e como eu iria fazer. Ela explicou o que eu tinha visto naquela “visão” de antes. Todos os seres vivos, puros até certo ponto, ou seja, aqueles que não fossem totalmente corrompidos pela Mácula, tem uma espécie de “depósito” onde a Força Vazia acumula-se. Para alguns, o depósito é o próprio corpo, mas alguns preferem pensar em um órgão, mesmo que ele de fato não exista, pois dessa forma eles conseguem compreender melhor. Pense em uma tigela totalmente fechada por onde o Vazio pode entrar e acumular-se, gerando a Força que qualquer um pode ter acesso.

Como o Vazio pode entrar ele também pode sair com a mesma facilidade. Naomi então disse que como normalmente as pessoas não tentam ter controle sobre a própria Força, ela fica sendo expelida a todo instante. Dessa forma, mesmo quando não se faz nada o dia todo qualquer um pode ficar cansado. Pelo que entendi, a Força Vazia e a Força vital estão intimamente ligadas e Naomi disse que eu realmente estava certo ao pensar assim. Forçar demais o corpo a gastar a Força Vazia pode, em casos extremos, levar um indivíduo à morte prematura.

― No Templo, nós forçamos o corpo até o limite para que ele possa se superar alcançando um novo patamar sempre – ela falou calmamente.

― Isso parece difícil – comentei.

― Sim – ela respondeu – mas sem isso não poderíamos alcançar a Iluminação que Togachi propõe.

Ela também falou sobre algumas técnicas de respiração e relaxamento. O cheiro do incenso iria ter muito peso, mas as técnicas tinham o real poder. Ela me ensinou algumas e mandou que eu as praticasse, pois demoraria um pouco para meditar enquanto ficava focado em lembrar cada passo que dava, mas eu não deveria levar mais de dois dias para conseguir. Durante dias eu pratiquei da maneira como ela pediu, mas não tive um progresso tão animador quando achei que teria. A técnica de respiração consistia em manter ela constante e suave enquanto ia fazendo movimentos com o corpo, como uma dança, porém muito mais lenta. Cada movimento deveria ser preciso e firme.

Naomi dizia que esse treinamento servia para estimular a Força Vazia. Eu deveria me concentrar até que de alguma forma pudesse sentir como se meus dedos pudessem tocar a própria Força, meus pés deveriam estar tão firmes que nada pudesse me tirar da posição e minha pele deveria arder como braças. Quando eu alcançasse essa sensação eu deveria continuar até que meu corpo já não suportasse nem mesmo respirar. Levaram dias para sentir algo semelhante, eu podia sentir minhas mãos agarrando algo enquanto eu continuava a “dançar”, minha mente estava limpa e já não conseguia ouvir nenhum som enquanto executava cada um dos passos instintivamente.

Quando estava muito cansado para continuar com os movimentos eu parava para meditar.  Naomi havia dito que durante a meditação eu deveria me concentrar exclusivamente em minha respiração nos primeiros momentos. Quando ela se tornasse perfeita, apenas o ato de respirar daquela forma me colocaria em um estado de semiconsciência. Quando nesse estado eu poderia aplicar o próximo passo. Que era dividido em outros dois, segundo ela. O primeiro permitia, através da meditação, captar o Vazio presente no ar e abastecer minhas próprias reservas. Assim não era necessário dormir para recuperar a Força Vazia, porém essa forma não era tão eficiente e apenas um pouco da Força podia ser adquirido. O segundo podia ser usado fora da meditação, mas precisava de um certo grau de controle, com essa técnica era possível enxergar, mas podia ser usado de outras formas. Afinal, ela consistia em expandir a própria Força Vazia para fora do corpo e manipulá-la.

A segunda forma era a mais difícil de realizar já que meu controle interno não era tão bom. Expandir a Força Vazia para fora do corpo seria como deixar a própria consciência ser uma com tudo que há em volta e senti-la. Isso permitiria sentir mesmo coisas que estivessem escondidas, mas usada de maneira mais precisa poderia gerar algo bem próximo da visão. Eu entendo você, essas coisas místicas são difíceis de entender, eu mesmo não entendo muito bem, a prova disso é que eu não conseguia avançar no treinamento.

Ao término de cada dia, quando alguém vinha buscar-me para tomar um banho e jantar, eu parava o treinamento. Por algumas vezes Naomi acompanhava-me durante o jantar e aqueles eram os poucos momentos que podia tirar dúvidas sobre o que estava fazendo errado. Enquanto eu estava treinando ela raramente ia até o dojô para ver se estava indo tudo bem. Segundo ela, isso atrapalharia meu progresso e me faria demorar ainda mais.

Minhas dúvidas eram sempre as mesmas e isso parecia aborrecê-la, mas o que eu podia fazer? A forma como ela explicava não fazia nenhum sentido para mim. Apesar disso, era sempre fazia questão de reexplicar tudo o que era necessário, empurrando o conhecimento garganta abaixo. Durante a noite quando ia dormir, eu era puxado para dentro da dimensão de Hime. Na primeira noite que isso aconteceu eu expliquei para ela o treinamento que estava fazendo e Hime fez questão de me ajudar. Em sua dimensão o contato que eu teria com o Vazio era muito maior, então ali meu progresso foi bem maior que do lado de fora, mas fazer o mesmo progresso do lado de fora era muito mais difícil. Talvez porque o Vazio onde meu corpo físico estava não era tão presente como naquele lugar. Treinei por cerca de uma semana incansavelmente até que algum resultado fosse aparecendo lentamente.

Praticando os movimentos e a meditação eu pude ver os frutos de meu trabalho duro. Eu conseguia durante a meditação e sentir as vibrações aos meus arredores. Ainda não conseguia dizer quais as coisas que sentia, mas eu sabia que elas estavam ali. Não porque estavam em minhas memórias, mas através dessas vibrações. Eu não conseguia perceber essas vibrações se elas estivessem mais distantes que um metro, e para mim aquilo já era uma boa distância. Minha nova mestra havia dito antes que com a Tatuagem certa um Ise zumi poderia expandir sua consciência por centenas de metros. Comparado a eles, eu ainda tinha um longo caminho pela frente.

Depois de dias de treinamento, o Kata já estava fixado de tal forma em minha mente que os passos apenas fluíam sem precisar sequer pensar em executá-los. Apenas pensar e executar o primeiro era necessário para que todos os passos viessem em sucessão. Cada movimento deste Kata era feito para ir lentamente acumulando a energia pelo corpo de quem o executava. Quando o acúmulo chegava em seu máximo, algo em torno de 25 a 30 movimentos, os próximos deveriam levar a energia até as palmas das mãos. Esse Kata tinha a única finalidade, de aprender a manipular a Força Vazia, mas mesmo que tivesse apenas essa finalidade ainda havia, entre os Mestres, quem o praticava periodicamente para refinar ainda mais o controle.

Quando executei o último movimento previsto pelo Kata, na palma de minhas mãos havia uma forte energia acumulada. Eu não sei dizer se ela era visível ou não por motivos óbvios, mas eu sabia que ela estava ali, sabia que não era apenas a minha impressão. Finalizei o movimento empurrando toda a massa de energia e meu corpo despencou. O suor escorria pesadamente por toda a minha pele que ardia e doía com o peso das minhas próprias roupas. Com dificuldade arranquei a parte superior de meu quimono e o joguei para longe. Meus músculos tremiam e uma onda de frio abateu-se sobre mim. Mal conseguia manter a minha consciência enquanto ofegante ouvi alguém entrar no dojô. Os passos ecoavam em minha cabeça como sinos e cada um deles provocava dor em minha cabeça.

― Parece que você chegou bem perto – ouvi a voz de Naomi.

― Eu... – falei sem fôlego – não me sinto muito bem.

― É a prova que você está no caminho certo – ela sorriu – deite-se e descanse um pouco. Você está praticando já tem alguns dias.

― Certo – eu falei, mas estava confuso – espere, dias?

― Eu imaginei que você não tinha reparado – ela riu – fazem dois dias que você está executando os movimentos sem parar. Se não estivesse treinando nesse dojô, seus pés estariam sangrando agora.

― Então eu não estou cansado porque executei corretamente os movimentos? – perguntei desanimado – mas porque eu passei dois dias fazendo isso?

― Você executou muito bem o último movimento – ela disse – seu cansaço de fato vem dos dois dias que esteve em claro, mas também da excelente execução do Kata. Você tem meus parabéns por não simplesmente desmaiar depois de executá-lo tão bem.

― Não sei se riu agradecido ou se simplesmente desmaio e acabo logo com isso – eu disse cansado.

― Sinto muito acabar com esse desejo, mas ainda temos coisas para fazer – ela disse – você perdeu muito tempo para poder sentir essa sensação e agora estamos correndo contra o tempo aqui.

― Algo aconteceu? – perguntei tentando me erguer, meus braços tremiam doloridamente com esse mero esforço.

― Sim, agora concentre-se – ela falou - você precisa refinar a técnica da visão em três dias.

― Vamos ser razoáveis aqui – eu ri cansado – o que está me pedindo é impossível.

― Para você sozinho, talvez – ela disse sentando-se bem a minha frente – infelizmente nós não temos mais o luxo de sermos devagar.

Quando ela terminou de dizer aquilo eu ouvi alguns passos vindo da direção onde ficava a porta do dojô. Passos pesados e apressados. Virei um pouco a cabeça e senti o cheiro desagradável do shampoo de meu pai. Fiz uma careta que foi seguida por um gargalhada divertida. Os passos foram ficando mais próximos até que eu ouvi o roçado de tecido no ar e logo um chute veio em minhas costelas. Foi um ataque surpresa bem desleal da parte dele, mas o que mais eu poderia esperar de meu pai? Carinho? Afeto? Isso pode servir para um pai normal, mas não para o meu.

A dor do chute junto com as dores que sentia nos músculos me fez gemer. Creio que a dor tenha sido ainda maior pelo susto de receber aquele ataque furtivo dele, mas a culpa era minha. Como eu já tinha dito antes, baixar a guarda na frente daquele homem era pedir para esse tipo de coisa acontecer. Você deve lembrar-se quando ele ofereceu saquê e antes de provar eu cheirei-o bem. Eu já havia sido envenenado por ele muito anos antes quando ele queria testar uma nova fórmula de seus preciosos venenos.

― Ora, desculpe por isso – ele falou – achei que você já estivesse vendo e pudesse desviar.

― Maldito mentiroso... – eu disse entre um gemido de dor.

― Ei, eu não chamei você aqui para deixa-lo em um estado pior – Naomi disse com um suspiro – se vai fazer isso faça depois do treinamento.

― Não, não, não – eu suspirei retrucando – ele não deveria fazer isso em momento algum.

― E o que um pai deve fazer? – ele perguntou curioso.

― Não isso, seu desgraçado – falei – o que esse maldito está fazendo aqui?

― Você não deve falar assim com seu pai! – ele disse com raiva.

― Ele está aqui para aliviar a sua fadiga para podermos continuar – Naomi falou.

― Obrigado por seu trabalho duro, querido pai – falei curvando-me um pouco para ele.

― Ei! – ele pareceu incomodado – isso não foi fácil demais?

Ele ajoelhou-se atrás de mim entoando algumas preces aos kamis da água. Eu já tinha ouvido aquelas palavras antes em Tochigui, mas antes elas não faziam nenhum sentindo para mim, era como uma língua totalmente diferente e que parecia difusa em um balde d’água. Agora, no entanto, aquelas palavras faziam sentindo, eram como uma música harmônica bem trabalhada que me agradava os ouvidos. Eu ainda continuava sem entender o que ela significava, mas não parecia mais tão estranha. Senti um frio percorrer minha espinha e o toque morno de água que partia das mãos de meu pai. Minhas roupas não ficavam molhadas, mas eu sentia claramente como se água fosse deslizando por minha pele, cobrindo ela onde estava mais dolorido. O calor daquilo tirou a tensão de meus músculos e dei um suspiro aliviado, sentindo o cansaço passar.

Virei o rosto para meus próprios braços, sentia ali aquela estranha sensação de água que não existia, percorrendo minha pele como um redemoinho, fazendo meus músculos relaxarem com a morna massagem que recebiam. Dali eu sentia uma irradiação energética vindo de meus braços. Havia certa semelhança com a energia que sentia enquanto praticava o Kata, fria e calma, mas essa era calorosa e gentil. Ouvi o que pareceu uma risada vindo de meus braços, mas logo quando a sensação parou os risos cessaram.

― Você conseguiu ouvir alguma coisa? – Naomi perguntou.

― Risos e uma sensação de água percorrendo meu corpo – falei levantando a cabeça na direção dela.

―Excelente – ela disse – agora vamos começar.

― Espere um segundo – pedi – vocês ainda não me falaram o motivo dessa pressa toda.

― E você precisa saber? – disse meu pai atrás de mim.

― Não, mas eu não gostaria de ficar mais no escuro do que já estou – disse suspirando.

― Mas é divertido – meu pai disse rindo.

― Talvez eu deva falar para minha mãe sobre essa sua nova forma de se divertir – comentei com um sorriso.

― Ah, então você vai começar a jogar baixo, hein? – ele disse rindo – moleque astuto.

― Aprendi com a cobra de meu pai – respondi calmamente.

 

Nota do Autor:

Terceiro e último capítulo do Combo Natalino.

Infelizmente chegou ao fim, mas o Fim é sempre um novo começo. Depois desse ditado Clichê eu me despeço de vocês por essa semana. Devo dizer que fiquei bastante cansado com o esforço a mais que precisei fazer essa semana para poder escrever tanta coisa, mas por vocês eu devo dizer que valeu a pena. Minha revisora teve muito mais trabalho do que eu, afinal é ela quem tem que interpretar algumas bizarrices que eu escrevo as vezes. Mesmo que ela não seja da equipe da Saikai eu terei certeza de passar os sentimentos de vocês para ela, então não esqueçam de expressá-los.

Creio que depois de tanto tempo seja finalmente a hora, isso se eu já não tiver feito antes já que eu tenho uma péssima memória, diferente do meu Protagonista, de agradecer à Saikai. Vocês me acolheram aqui e eu agradeço muito pela oportunidade de poder trabalhar com vocês. Então muito obrigado e vamos continuar trabalhando juntos. Eu até hoje devo uma leitura nas novels de alguns conhecidos meus aqui, mas a minha preguiça as vezes é maior que as minhas dividas e vou sempre empurrando com a barriga, mas eu prometo que estou lento elas vagarosamente, mas estou lendo.

Creio que seja apenas isso, agradeço à todos por tirar um pouco do seu precioso tempo para ler essas Memórias e espero profundamente ver 500 comentários essa semana, hahaha. Ajudem a divulgar o trabalho se for de sua vontade, eu só posso agradecer. Sinceramente falando eu não ligo se 2 pessoas leem e gostam ou se 1000 gostam, eu continuarei postando as Memórias mesmo assim. Eu não preciso de falam, tudo que quero é saber que cada um que lê pelo menos gosta. Então comentem ou Ichijou vai fazer uma visita a vocês na calada da noite. No geral creio que seja apenas isso, acho que já estou comendo demais o tempo de vocês. Então que todos tenham um ótimo fim de semana e um Feliz Natal para todos.

 

Do seu querido autor,

Yamimura.

Por Yamimura | 23/12/18 às 09:52 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror