CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Memória 28 - Além da Compreensão

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 28 - Além da Compreensão

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

― Otome-sama? – perguntei confuso – e por qual motivo? Foi dito algo?

― Tudo o que dizia na carta é que você precisava ir para Ryoko Owari em no máximo nove dias – meu pai respondeu.

― Bem, a viagem em si só me custará três dias – comentei – mas me espanta que ela tenha pedido minha ajuda sabendo de meu estado.

― Pelo que deu a entender, ela chamou todos os que a ajudaram no incidente com o Oráculo do Vazio – meu pai disse.

― Então eles devem ter sido chamados – falei.

― Chega de conversa – Naomi falou – se temos apenas 6 dias, precisamos concluir o treinamento em 1.

― Então é por isso que ele está aqui – suspirei – muito bem, vamos continuar.

― Gosto dessa sua atitude – Naomi falou – vamos ver quanto tempo você consegue mantê-la. Seu treinamento a partir de agora será muito mais agressivo que antes.

― O que isso quer dizer? – recuei um pouco.

― Quer dizer que não temos mais tempo para seu corpo acostumar-se sozinho à manipular a Força Vazia – ouvi meu pai dizer com um pouco de entusiasmo – vamos ter que força-lo a aprender.

― Você está gostando muito disso, seu velho pervertido – disse com desdém.

― Nunca! – ele disse firme, mas eu não conseguia acreditar nele.

Quando eu penso naquele dia todo o meu corpo treme. Foram horas de treinamento infernal. Acho que passei muito perto de ficar completamente louco. Imagine ter seu corpo forçado a dar tudo o que tinha a cada instante e não poder ficar cansado com isso. É, eu tive esse mesmo pensamento pelas primeiras horas; “Não ficar cansado é ótimo”, mas não ficar exausto mesmo dando tudo de si significa que você também não pode parar. No momento que o cansaço ia abatendo-se pelo meu corpo, eu sentia a magia fluindo através de minha pele, fazendo meus músculos relaxarem, mas eu nem mesmo tinha tempo para respirar.

Quando minha condição já estava melhorada, Naomi começava tudo de novo. Foi durante esse treinamento que pensei em uma excelente forma de tortura. Deixar o Alvo quase morrer e então trazê-lo de volta com magia, pode parecer nada para quem está do lado de fora, mas era extremamente cruel. Mesmo não estando próximo da morte eu poderia imaginar a situação dado o que acontecia comigo naquele dojô. Para mim, era o melhor tipo de tortura possível; o Alvo era forçado a estar entre a vida e a morte o tempo todo, mas nunca alcançaria nenhum deles de forma definitiva e esse ciclo seria repetido até que ele quebrasse e a loucura tomasse conta de seu corpo. Loucos são simples de manipular e são muito mais sinceros que um Normal, mas antes de perder-se completamente, a vítima já teria revelado tudo o que tinha para revelar. Seria então muito mais caridoso simplesmente matar o torturado para livrá-lo da agonia, mas sabe, torturadores não são boas pessoas.

O treinamento era bem simples; Naomi passaria a própria força interna dela através de suas mãos para mim e manipularia a minha para que eu pudesse sentir e aprender como deveria manipulá-la também. Ela fazia isso até que a sua própria energia estivesse esgotada e faria uma pausa de alguns minutos para poder recuperar o próprio poder através da meditação. Enquanto ela o fazia eu praticava de forma independente até ficar completamente exausto, só então meu pai utilizava sua magia para me curar. No momento que minha Força Vazia esvaia-se meu pai acertava alguns pontos de pressão com precisos golpe acupunturais; a cada golpe eu sentia o Vazio preencher meu íntimo e voltar a abastecer minhas reservas, e então ele meditaria para recuperar sua própria Força interna. Isso permitia que Naomi tivesse tempo de se recuperar e então o ciclo iniciava uma vez mais.

Não sei por quantas horas eu fui tortu... digo, treinado daquela forma, mas quase, pela primeira vez na vida, chorei verdadeiramente quando alguém veio anunciar que o almoço estava pronto para ser servido. Ainda nem mesmo era meio dia e para mim parecia já terem passado dias. Meu corpo poderia não estar, mas a minha mente já estava exausta e isso afetava na manipulação da Força Vazia. Naomi havia percebido, mas em momento nenhum ela me dava uma folga, pelo contrário ela forçava ainda mais. Fizemos isso por horas, até que meu corpo ficasse frio e o cansaço mental fosse tanto que eu poderia desmaiar a qualquer momento.

― Vamos fazer uma pausa – Naomi disse.

Fiquei aliviado por um momento. Aquelas palavras pareceram tirar um peso colossal de meus ombros. Minha respiração estava pesada e meu corpo coberto de suor. Estava frio e podia sentir meu corpo inteiro tremer enquanto algo parecia faltar. Levantei minhas trêmulas e pesadas mãos até perto de meu rosto e pude sentir algo diferente nelas. Era como se nem mesmo fossem mais minhas. Minha mente já deveria estar começando a ruir naquele momento, pois depois de notar aquilo eu já não conseguia sentir meu próprio corpo.

― O que está acontecendo? – perguntei gaguejante – eu não sinto mais meu corpo.

― Significa que nós conseguimos fazer você chegar onde eu queria – Naomi falou – forçamos tanto o Vazio em você que agora a “tigela” está rachada.

― Isso não é ruim? – perguntei.

― Oh sim, muito ruim – eu a ouvi sorrir – agora que seu corpo não aguenta mais você só tem duas escolhas; Aprender a controlar sua Força interna ou morrer.

Eu teria sentido um arrepio correr minha espinha se eu conseguisse sentir o meu corpo. A sensação de morrer passou pela minha cabeça uma segunda vez e não conseguia parar de pensar no dia o qual cai no abismo. Naomi não fez mais nada, apenas ficou parada esperando pelo resultado. Perguntei para ela o que deveria fazer, não só uma vez, mas ela não respondeu, apenas silêncio recebia como resposta.

O mesmo valia para meu pai, depois que Naomi recusou-se a me ajudar ele também fez o mesmo. Ele deu-me uma sutil resposta, no entanto, começou a meditar e seria nesse momento que você me perguntaria “Como isso poderia ser uma dica?”. O que para um Escorpião é óbvio, para você pode não ser; meu pai havia acabado de sair da meditação quando Naomi falou que pararíamos e apenas depois de ver que eu não sabia o que deveria fazer ele começou a meditar novamente. Então se mesmo depois de explicar isso você ainda não considera isso uma dica, só posso dizer que você tem problemas.

Mesmo não tendo certeza se estava fazendo corretamente eu procurei sentar-me em Lótus. Como ainda não podia sentir meu corpo, eu não me espantaria de estar sentado de uma forma estranha. Quando parecia que eu havia encontrado uma parte da resposta do que Naomi queria que encontrasse, ela resolveu que poderia continuar me ajudando. Ela disse que o motivo de não conseguir sentir meu corpo se dava porque meu fluxo interno estava comprometido e descontrolado. Isso afetava o corpo de várias formas. Eu deveria tentar primeiro controlar o fluxo para só então tentar manipulá-lo, mas essa era a parte difícil. Passei algum tempo me concentrando e percebi que ao invés de progredir eu estava fazendo o caminho contrário. Como percebi isso? Fácil, minha mente estava começando a se perder.

Como não havia encontrado uma resposta ainda, me concentrei naquilo que Naomi já havia me explicado e o que você já deve saber também, se estiver prestando atenção no que estou dizendo. O Vazio está presente em todas as coisas, mesmo que em quantidades que variam para cada objeto ou ser vivo. Ele permeia tudo, pode tudo e quanto alguém o entende, aprendendo a manipulá-lo se tem acesso a imensurável força. Ela também havia dito que para ver eu precisava expandir minha própria consciência para fora do meu corpo, fazendo ele uno com todas as coisas, fazendo elas virtualmente, fazendo parte de meu corpo. Podendo então senti-las como parte do “Eu”, poderia então enxergar de forma limitada. Esse era o começo da técnica.

Para mim esse começo estava incompleto, mas colocar isso em palavras pode ser difícil. Poderia dizer que isso é apenas intuição, mas eu estaria mentindo e como eu já disse várias vezes, eu não sou um mentiroso. Um estalo me ocorreu quando voltei a pensar em meu descontrole. Se eu não podia sentir meu corpo porque minha Força Interna estava descontrolada, então isso não seria o mesmo que dizer que essa Força seria como meu próprio corpo? Talvez se expandir minha mente não para o externo, mas para a própria Força e então a usá-la como um braço ou uma perna eu posso a manipular.

Pode ser que para você isso não faça sentido, porque realmente parando para pensar não faz nenhum mesmo. Talvez aquilo fosse uma fagulha da loucura que estivesse finalmente brotando dentro de minha mente, afinal eu fui tortu... digo, treinado intensamente por horas. Para mim, naquele momento, tudo se encaixava como um enorme quebra-cabeças, todavia. Naomi conseguiu substituir uma de suas partes falhas e ter algo que nunca teve, a visão. Eu então pensei em uma forma de acalmar todo o distúrbio o qual meu corpo passava. Pense em uma superfície d’água turbulenta, é possível acalmá-la com a palma da mão, se ela não pode acalmar-se sozinha ou não se tem tempo para esperar. Basta fazer ondas no sentido contrário a ela e ir reduzindo gradativamente tais ondas até que a superfície esteja calma.

O mesmo valia para o meu estado, o sentido era o mesmo sendo situações distintas. Fiz o que achava ser o correto e demorou um pouco antes de ter um resultado favorável. Fui sentindo meu corpo reagindo e um formigamento o percorrer por inteiro. Agora eu podia sentir a estranha sensação de algo contorcendo-se dentro de mim. A Energia fluía descontrolada e de alguma forma eu sabia que estava errado. Era nítido para mim o problema e o estado que meu corpo estava ficando por conta daquilo. Concentrei-me como pude, assim acalmando a energia violenta que foi se condensando em meu ventre.

Antes eu sentia aquele incômodo constante e quase imperceptível dor que alastrava-se por todo o meu corpo junto com o formigamento. Se eu não tivesse feito aquele treinamento, só as fortunas poderiam saber o que aconteceria comigo. Segundo Naomi, na melhor das hipóteses, meu corpo seria tomado pela dor. Morreria agonizando e nada poderia parar tal dor, pois ela não era física. Sim, essa era a melhor das hipóteses, eu nem mesmo quis entrar em detalhes sobre a pior.

Quando a dor cessou, Naomi pareceu ficar satisfeita. Ela tinha ficado ali o tempo todo, mas eu já não sentia a presença maligna de meu pai. Era estranho para mim o porque dele não ter ficado ali apenas por alguns segundos. Não levou muito tempo para eu completar a “tarefa” que me foi imposta.

― Onde está meu pai? – perguntei fingindo um pouco de preocupação.

― Ele não aguentou esperar – Ela respondeu – Você levou 4 horas.

― An?! – fiquei confuso – 4 horas? Para mim não foram nem alguns minutos.

― Não é como se isso fosse culpa sua ou algo do tipo – Naomi riu – ao meditar em sincronia com o Vazio, a noção de tempo e espaço fica distorcida. Não é de se estranhar que alguns Ise zumis possam ficar meses meditando. Apesar disso, você demorou muito mais do que eu esperava que fosse demorar.

― Isso é ruim? – perguntei.

― Sim e não – ela disse – Sim, porque estamos contra o tempo aqui e não, porque já esperava por isso.

― E agora? – perguntei.

― Agora vem a parte mais difícil – ela falou calmamente – temos que fazer você enxergar. Para a sua sorte já se tem alguém aqui que domina isso, então poderei ajudá-lo.

Naomi mandou que eu ficasse de costas para ela e assim o fiz. Aproximei-me dela, virando-me de costas e sentando logo em Lótus outra vez. Ela disse que isso não deveria demorar muito, mas dependia apenas da minha compreensão sobre o que ela iria ensinar a partir daquele momento. Disse que eu deveria ficar relaxado, mas ainda atento ao que ela faria, ela poderia repetir quantas vezes eu achasse necessário, mas como o tempo era pouco não poderia ficar dependendo dela para sempre.

Ela começou então a me falar sobre Kihos. Essa palavra era nova para mim e acredito que agora para você, mas irei tentar explicar da forma que eu entendi. Kihos são técnicas que separam Katas das magias Shugenjas. Ordem monásticas como os da Irmandade de Shinsei acreditam que Kihos são degraus que levam um indivíduo a alcançar o estado máximo; a Iluminação. Existem duas formas de aprender tais Kihos; ou através do desgastante treinamento monástico ou aprendendo diretamente de um Ise zumi que já conhece algum deles.

Como você pode notar qualquer um pode aprender uma dessas técnicas, porém, sem saber o que se está procurando nunca irá encontrar. Dificilmente eu conseguiria descobrir um Kiho sendo que nem mesmo sabia de sua existência. Essas poderosas e sobre-humanas técnicas são responsáveis, em parte, pelas muitas histórias assombrosas sobre feitos de monges. Naomi explicou-me que os membros da Ordem Togashi tinham acesso às tatuagens místicas que davam muitos outros poderes além dos próprios Kihos, mas que não poderia entrar em detalhes sobre tais tatuagens, pois elas eram um segredo de sua Ordem.

Naomi queria que eu começasse a meditar mais uma vez e depois que eu acalmasse minha energia nós iriamos começar o processo de aprendizagem. Ela disse que eu ainda não estava preparado para aprender um Kiho, mas eu poderia pelo menos entender o sentido de um deles para então começar a me fortalecer físico e mentalmente, para só então poder aprendê-los. Senti então o toque morno das mãos dela em minhas costas.

Sabendo que a partir daquele ponto eu deveria me focar, fechei os olhos e mergulhei em meditação. Inicialmente foi difícil manter a concentração enquanto sentia o toque das mãos dela. Não entenda errado, aquilo não provocava nenhum desejo em mim. Apenas acontecia que o toque de algo estranho para o próprio corpo dificulta a meditação. Logo, quando já estava entregue à Paz interior provocada pela meditação, pude sentir um fluxo, como água, percorrendo por dentro de mim. O fluxo vinha desde meu ventre e subia lentamente, tocando meus órgãos em um toque gentil.

― Preste atenção agora – eu ouvi a voz suave de Naomi.

Depois de dizer aquilo o fluxo continuou subindo, passando por minha garganta. Senti então uma leve ardência e logo meus olhos pareceram estar em chamas. A sensação foi muito diferente da primeira vez que aconteceu. Meus olhos chegaram a lacrimejar e coçar como se areia tivesse sido jogada neles. Levei as mãos aos olhos, mas Naomi disse apenas que eu deveria abri-los. Relutante eu pensei em não seguir seu pedido, porém, algo em mim parecia saber que aquilo era o certo. Fui lentamente abrindo os olhos e tive uma surpresa.

Ainda não era perfeito, mas eu estava enxergando! Havia ainda um leve embasamento e eu não via em cores, apenas em escala de cinza, mas eu estava enxergando! Como foi bom poder ver novamente, não consigo nem imaginar como uma pessoa que nunca enxergou antes reagiria a isto. Para mim foi muito bom, tanto que eu poderia até mesmo chorar. Esfreguei os olhos lentamente e Naomi riu. Minha visão não demorou muito a escurecer quando ela tirou as mãos de minhas costas.

― Você deve tentar sozinho agora – Naomi falou.

― Fácil para você dizer – suspirei.

― Eu nunca disse que era fácil – ela riu – mas você acabou de ter um gostinho do que seu esforço pode te trazer.

― Você enxerga dessa forma? – perguntei.

― Você não deve ter visto muito nítido, pois é difícil manipular o Vazio de outra pessoa – ela respondeu – mas quando você atingir a maestria no controle, você poderá enxergar ainda melhor que um comum. Nunca em cores, no entanto.

― Eu lembro de você ter dito que enxergar era apenas o primeiro passo – falei – mas o primeiro passo para o quê?

― Eu disse? – ela perguntou pensativa – de qualquer forma, sim, é o primeiro passo. Enxergar através do Vazio necessita de um controle fino da manipulação da Força Vazia. Isto quer dizer que ao dominar você estará em um patamar muito maior do que a maioria dos Ise zumis. Aqueles que conseguiram alcançar tal nível foram capazes de feitos sobrenaturais que fariam muitos monges parecerem pessoas normais.

― Você acha que eu sou capaz disso? – perguntei inseguro.

― Qualquer um é capaz – ela respondeu rapidamente – mas existem fatores que diferem aqueles que alcançam e aqueles que não.

― Quais? – perguntei curioso.

― Esforço e disciplina – ela respondeu calmamente – com esses dois fatores as pessoas podem ultrapassar seus limites e é através deles que se pode aprender os Kihos de forma autodidata. Agora concentre-se.

Eu parei de fazer perguntas e afundei-me novamente na meditação. Lembrava como a Força tinha fluído dentro de mim, mas descobri o quão era difícil manipulá-la para produzir o mesmo efeito de antes. Foram preciso horas e muita ajuda de Naomi antes de conseguir fazer a Força mover-se por minha própria vontade. Era como puxar um castelo com um barbante muito mais fino que um dedo. Você poderia puxar da maneira que bem entendesse, mas seria muito mais fácil o barbante se partir que o Castelo mover-se.

Mesmo conseguindo mover a Força Vazia por minha vontade, conseguir enxergar era uma história completamente diferente. Naomi explicou que a sensação de ardência e incômodo que eu senti antes era simplesmente uma “reação alérgica” que meus olhos tiveram quando a Força Vazia os tocou diretamente. Ela admitiu que falar daquela forma poderia causar uma estranheza para quem ouvisse. Alergia significava que a coisa em questão me fazia mal, mas não era o caso.

Ela explicou que apenas porquê meu corpo nunca tinha ficado sobre o efeito direto da Força Vazia essa irritação acontecia, pois o poder que fluía era muito forte. Quando ela falou aquilo eu lembrei da primeira vez que utilizei-a durante meus treinamentos. De fato, meus braços ficaram dormentes na primeira vez, mas com o tempo eu fui me acostumando até que não sentia mais nada ao usar. Se fosse realmente verdade, depois que eu treinasse bastante esse incômodo deixaria de existir.

Naomi apenas advertiu que eu deveria ir com calma quando fosse aplicar esse conhecimento em prática. Treinamento era uma coisa completamente diferente e usar aquilo em combate poderia ser perigoso, pois era uma faca de dois gumes. Eu podia até imaginar sobre o que ela estava falando e ela tinha razão. Utilizar aquela energia desgastava muito o corpo. Outras utilizações deixavam apenas uma leve fadiga, mas porquê o constante treinamento já havia deixado meu corpo mais resistente à utilização. Aplicar esse outro método desgastaria muito mais, no entanto.

Você pode imaginar facilmente o que poderia acontecer, certo? Não? Eu desmaiaria, não é óbvio? Imagine agora que em um momento como aquele que passei com Ayumi, naquela luta de vida ou morte, eu tivesse desmaiado. Eu estaria morto nesse momento e não estaria lhe contanto minhas Memórias. Sim, eu sei que você sentiria a minha falta, não precisa ficar acanhado, eu entendo você. Com isso dito, eu ficaria bastante cuidadoso ao usar isso durante as batalhas.

Naquele momento eu pensei que simplesmente deveria treinar bastante para então não ficar totalmente acabado durante uma batalha. Seria o pensamento mais lógico, mas eu não sabia que teria que lutar tão cedo até aquele dia. Quem poderia me culpar? Eu não era um adivinho.

Depois de passar algumas horas treinando, Naomi disse que já tinha ficado tempo demais ali e que eu precisava descansar. Não argumentei com ela naquele momento, aceitei quase de imediato que eu precisava de um tempo. Estava sujo e o cheiro de suor seco não era muito agradável. Naomi saiu primeiro dizendo que me esperaria para jantar. Não demorei muito para sair, caminhei cuidadosamente até a porta do dojô e ao fechá-la senti uma enorme presença atrás de mim.

Difícil descrever em palavras o que eu senti ali. Era enorme, poderoso. Havia naquilo, seja lá o que fosse, algo aterrador. Não que provocasse terror por ser maligno, mas por ser algo além da compreensão. Aquilo parecia cobrir uma área muito maior que todo o dojô, talvez muito maior até que a própria mansão de meu pai. Não importava agora o que aquilo era, mas sim que ela parecia olhar para mim intensamente. Minha respiração parou e até mesmo meu coração esqueceu que deveria continuar batendo para que eu pudesse continuar vivo. Talvez não poder enxergar tenha feito que minha mente não se derretesse naquele momento mergulhando-me na loucura inevitável do encontro com aquilo.

O ar ficou gelado e respirar era como ingerir navalhas. Minhas pernas tremeram e eu cai prostrado diante da imensidão colossal da criatura. A coisa parecia rir da forma patética eu reagi diante dela, mas creio que você conseguia entender-me. Eu não tinha nem mesmo o controle de meus próprios pensamentos naquele momento. Qualquer um pensaria em correr por sua própria vida, mas nem esse pensamento passou por minha cabeça, nem tinha forças para tal resposta.

Minhas pernas estavam moles e meu corpo inteiro tremia pelo medo que eu estava sentindo. Perceba que era algo alienígena. Nunca tinha visto ou ouvido falar de tal coisa mesmo nos mais fantásticos contos Rokuganis. “Ainda não está pronto”, foi o que eu lembro de ter escutado antes da presença sumir. Fiquei em branco por um momento e olhei em volta. Eu sentia uma forte dor de cabeça e fiquei confuso.

― O que aconteceu? – resmunguei abatido e levando a mão à cabeça.

Não sabia o porquê de estar caído ao chão. Eu havia apagado aquele momento de minha cabeça e só vim lembrar disso recentemente. Levantei-me com dificuldade ainda, inexplicavelmente, tremendo. Respirei algumas vezes para me acalmar e fechei o dojô ao sair. Fui imediatamente lavar-me e lá já havia uma muda de roupa preparada para mim. Ao entrar na banheira de água quente meu corpo relaxou por inteiro e poderia dormir ali mesmo para me recuperar completamente; meu corpo doía inteiro. Prolonguei o máximo que pude até que alguém veio me chamar.

Saindo do banho revigorado, fui levado até o salão onde o jantar seria servido. Ali encontrei pessoas desagradáveis como meu pai e alguns dos convidados dele. Tenho que admitir, eu já estava ficando enjoado por ter encontrado aquele homem tantas vezes naquela casa. Sentei-me ao lado de Naomi enquanto meu pai conversava com alguém. Os murmúrios estavam altos, deveria haver pelo menos umas dez pessoas ali. Naomi permaneceu calada o tempo inteiro, apenas levantando a voz para me chamar ao seu lado.

O jantar foi servido em seguida, infelizmente para mim, precisei da ajuda de uma serva para comer. Eu não precisava enxergar para notar os olhares azedos dirigidos para mim por agora ser uma vergonha para meu pai; um filho “inválido”. Fora isso, eu comi tranquilamente. Meu pai apresentou algumas pessoas que apenas fingi me importar. Primeiro, porque não conseguia enxergá-las ainda e segundo, porque eu não tinha utilidade para a maioria deles. As únicas que me chamaram a atenção foi Lady Misa, uma cortesã amiga de meu pai. Não recordava do rosto dela, mas lembro de já ter a encontrado muitos anos atrás quando meu pai me levou a um “dojô” que treinava gueixas.

Ela era uma mulher de meia idade e que foi uma gueixa por vários anos. Agora, apenas treinava jovens e talentosas garotas para se tornarem gueixas tão boas quanto ela já foi. Se ela estava ali, meu pai deveria estar negociando a sua ajuda para quando conseguisse por as patas... digo, as mãos na Canção dos Beija-flores. Entre os convidados também havia um homem que distribuía saquê e outros mantimentos além de um tecelão. Não haviam dúvidas de que meu pai estava querendo aliados ali.

Dentre todos aqueles, houve apenas mais uma que me chamou a atenção. Uma jovem menina. Ela parecia estar bem à minha frente, pois foi dali que ouvi a sua resposta quando meu pai a apresentou para mim. Virei-me confuso para ele quando ouvi a voz infantil, mas ele não me deu mais atenção. Fiquei na curiosidade até que terminou de conversar com aquelas pessoas. A noite foi bem agradável e as conversas não foram nada do que você pode estar esperando que foram.

Obviamente não se trataria de negócios com tantos olhares curiosos de pessoas que provavelmente não interessaria o assunto. Meu pai foi ser um homem aborrecedor, mas posso garantir que ele não era um tolo. Terminado o jantar, meu pai guiou os convidados de interesse para uma outra sala onde poderiam conversar a vontade, mas antes de partir ele virou-se para mim uma vez mais.

― Como eu já disse a você, está é sua sobrinha, Soshi Mayuu – ele disse segurando meu ombro e virando-me para a direção certa – como eu não podia mandar meu precioso filho sozinho em uma jornada tão perigosa estando sem a visão, pedi para que ela o acompanhasse.

Eu suspirei. Em algum lugar de meu coração eu já estava esperando por algo daquele tipo. Só não esperava que ele já mandasse alguém para me “acompanhar” tão cedo. Minha Sombra provavelmente seria substituída por essa jovem criança.


Nota do Autor:

Não esqueçam de comentar meus amores. Pode parecer bobo, mas é até importante para mim saber se vocês estão gostando ou não.

Desejo à todos um ótimo fim de semana e como só voltarei aqui na semana que vem um Feliz ano novo para todos vocês. Espero poder contar com vocês no ano que vem também.

Por Yamimura | 30/12/18 às 09:56 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror