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Memória 29 - sobre-humano

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 29 - sobre-humano

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Soshi Mayuu era uma jovem de 14 anos. Seus cabelos eram curtos, um pouco acima dos ombros, pretos e lisos. Ela tinha um rosto levemente redondo, característica da idade. Sua pele era macia e rosada. Quase como uma boneca. Ela tinha um sorriso misterioso enquanto olhava para mim, mas não custou para mudar para algo mais caloroso quando meu pai nos apresentou. Foi ótimo que meu pai tenha feito uma pequena descrição dela para que eu pudesse pintá-la em minha mente; do contrário ela seria uma estátua de argila sem rosto sempre que eu fosse conversar com ela. 

 É um prazer conhecê-lo, primo – ela disse fazendo uma pequena reverência para mim – cuide bem de mim. 

 Mayuu-chan irá prestar Genpukku daqui alguns meses – meu pai comentou – ela acompanhará você para aprender mais como se comportar como um Escorpião. 

Eu fiquei confuso naquele momento. Catorze anos já era quase o limite para um jovem do Clã prestar o Genpukku. Se mesmo com todo o treinamento até aquele momento ela ainda não sabia como ser alguém do Clã, aquela menina deveria ter sérios problemas. Vendo a minha confusão meu pai suspirou e viu-se na obrigação de explicar. 

Apesar de ser da Família Soshi, uma das famílias de shugenjas de nosso Clã, Mayuu desenvolveu o poder muito cedo. Seu poder era tamanho que algumas shugenjas do Clã Fênix se interessaram por ela. Os pais dela viram aquilo como uma oportunidade para enviar alguém às terras da Fênix e estudar seus segredos. Mayuu passou muito tempo estudando com nossos Primos e agora precisava reaprender muitas coisas sobre o Clã. 

Meu pai viu aquilo como uma forma de enviar alguém mais próximo para ser os meus e os seus olhos. Só um tolo acharia que meu pai daria um ponto sem nó. Eu me apresentei para ela. Mayuu ficou surpresa pelo fato de eu estar debilitado, mas não disse nada que pudesse me ofender, não naquele momento. Meu pai disse que deveríamos nos preparar, pois partiríamos amanhã pela manhã. 

 Amanhã? – fiquei confuso – não deveria ser só daqui alguns dias? 

 Outro problema surgiu – ele falou – preciso que o resolva para mim. Você irá até Ruma. 

 Ruma? – perguntei – O que aconteceu lá? 

 Uma das filhas de Sayo ficou muito doente, além de vários outros relatos estranhos – ele falou – preciso que você vá até lá e investigue o que está acontecendo. 

 Se uma das filhas de Sayo-san está doente, não seria mais prudente mandar um médico? – perguntei. 

 Nenhum médico conseguiu resolver o problema – ele respondeu – por isso estou mandando Mayuu-chan com você, ela certamente poderá resolver este inconveniente. 

Você pode está se perguntando o motivo de meu pai estar tão “preocupado” com aquela cidade. Normalmente não ficaria, porém Ruma era parte de sua jurisdição, então era dever dele zelar pela cidade. Além disso, Sayo-san era uma parceira comercial muito importante para meu pai e para os Escorpiões. Ela fazia uma das melhores maquiagens, utilizada pelas Gueixas do Clã e, exclusivamente para meu pai, ela criava um perfume especial. 

Meu pai muitas vezes foi questionado sobre a origem de tal perfume, mas ele nunca disse a ninguém. Esses “ninguéns” incluía a mim até um tempo atrás, até que descobri o seu segredo. Por que esse perfume é tão importante? Não sei se eu deveria falar, mas isso não importa. No fim, você saber ou não, não fará diferença. O perfume fazia aqueles que o cheiravam relaxar e suas mentes se tornavam mais maleáveis. Dito isso, acho que você já pode imaginar os usos que um Escorpião teria. Meu pai o utilizava muitas vezes em suas aulas para desenvolver a resistência e a técnica dos alunos de resistir às manipulações, mas havia um uso muito “obscuro”, por assim dizer.  

Ele usava tal perfume principalmente para conseguir informações com seus espiões. Se a pessoa sob efeito fosse facilmente manipulada, então seria muito simples obter informações. Era assim que meu pai fazia para conseguir as informações. Não, ele não usava o perfume em si próprio. Veja bem, perfume é o termo que eu prefiro usar, mas ele não tinha bem essa função. Ele pode de fato ser usado assim por ter um cheiro excelente, mas trata-se de uma substância que ingerida é muito mais potente. 

Meu pai colocou suas mãos em tal produto não fazia muitos meses e ainda estava em fase de testes. Ao perceber seus usos, tratou logo de deixar isso no anonimato para benefício próprio. Claro que as informações são de propriedade do Clã, mas a forma como tais informações são conseguidas é um segredo que varia de Escorpião para Escorpião. Dito isso, parece que não era o tipo de pedido que eu poderia acusar, eu podia acabar me beneficiando com aquela visita. Pensei assim naquele dia, mas infelizmente não foi bem desta forma. 

 Certo, tudo bem – eu disse com um suspiro – eu irei tentar ajudar nesse pequeno problema. Vais precisar de algo mais? 

 Não – meu pai disse dando um leve tapa em meu ombro – agora vá deitar, você partirá bem cedo amanhã. Já faz alguns dias que você não dorme apropriadamente. 

Eu não precisei de mais que isso para girar em meus calcanhares e me afastar. Se demorasse muito, meu pai poderia mudar de ideia e essa era a última coisa que eu iria querer naquele momento. Já estava um pouco acostumado ao espaço e consegui guiar-me pela mansão sem maiores problemas. Preparei-me então para dormir, o que não custou muito a acontecer. 

Meus sonhos foram confusos naquele dia. Pareciam tão reais e tão tangíveis que era quase como se realmente eu estivesse lá. Sonhei com uma terra distante e fantástica. Haviam pessoas diferentes das que estava acostumado. Essas pessoas lembravam vagamente alguns conhecidos do Clã Unicórnio, mas haviam outros completamente diferentes. Haviam homens tão baixos quanto a minha cintura, com longas barbas cheias. Seus músculos eram tão grandes ou talvez até maiores que os homens do Clã Hida. 

Mesmo pequenos eles tinham grande capacidade. Construtores impressionantes que faziam casas em pedra extremamente fortes. Comparadas àquelas casas, os edifícios Rokuganis eram frágeis e simples. Eles também conheciam técnicas de forjamento que nunca achei que fossem possíveis. Eles faziam pequenos detalhes e faziam dobras no ferro que deixariam mesmo um Kaiu abismado. 

Estes pequenos homens viviam em uma imensa montanha, tão grande que o seu topo ficava acima das nuvens e imensos trovões rasgavam os céus, e convergiam para a montanha como se fossem absorvidos por aqueles pequenos homens para alimentar a sua pitoresca cidade. Mesmo sendo por dentro de uma montanha, ela era bem reta e equilibrada. Haviam pequenos blocos feitos de pedra trabalhada no qual eles construíam as paredes. Tudo era bem firme na cidade e até mesmo o chão era feito de pedra.  

Sua tecnologia era muito mais avançada que aquela que estou acostumado. Mesmo coisas mais simples como carroças eram bem-feitas. Elas pareciam bem mais leves do que as que já estava acostumado a ver. Eu não sei se conseguiria reproduzir algo assim, mas certamente eu poderia levar para alguém mais capaz a ideia e esta pessoa desenvolveria o projeto para mim. 

Despertei de meu sonho e encontrava-me em um lugar diferente do que fui dormir. Sentia o ar ali mais leve e eu estava vendo perfeitamente. Eu estava na dimensão de Hime, contudo não estava no habitual jardim. Agora eu estava em um ambiente um pouco menos iluminado, os tons ali eram mais escuros e alguns tecidos que dançavam sutilmente sob a brisa. Achei estranho aquela mudança tão repentina de ambiente e levantei-me com a mão no cabo da espada. Algo poderia estar errado ali e eu precisava estar pronto. 

Ouvi, mas quase não pude, uma risada debochada vinda de todos os lados. Talvez se divertindo com o meu nervosismo, talvez achando engraçado eu estar tenso sem motivo aparente. Fechei meus olhos e concentrei-me em aplicar o que tinha aprendido com Naomi. Expandi meus sentidos para fora de meu corpo e descobri que aqui era muito mais simples. Hime havia dito que esse lugar estava muito mais ligado com o Vazio desde que caí no abismo, talvez esse tenha sido o motivo. 

Meus sentidos foram tão longe quanto aquela sala podia ir. Sentia cada coisa que estava naquele lugar. Era como se tudo o que ali existia tivesse vida e respondesse a mim. Havia uma presença no centro da sala e foi nela que me foquei. Ainda de olhos fechados, eu disparei tão rápido quanto uma fecha. Desviando dos tecidos eu cheguei bem perto da presença e desferi um ataque, mas nada aquilo fez. Apenas falou: 

 O que está fazendo? – ouvi uma voz familiar – pretende me matar? 

Quando ouvi a voz de Hime, parei imediatamente o ataque e abri meus olhos em espanto. O fio da espada estava a menos de um dedo de distância da cabeça dela, mas Hime continuava inabalável. Ela tomava chá calmamente enquanto mantinha os afiados olhos em mim. Soltei a espada ainda a olhando e pedi desculpas várias vezes antes de ela cogitar me perdoar pela indelicadeza. 

 Então, o que estava tentando fazer? – ela perguntou fria. 

 Eu achei estranho a imensa mudança do lugar e ouvi uma risada estranha quando coloquei a mão em minha espada – disse para ela. 

 Hm – ela tomou outro gole de chá – isso não é desculpa para atacar uma dama. 

 Nada é desculpa para se atacar uma dama – eu falei arrependido – sinto muito por isso. 

 Basta não deixar que isso se repita – ela falou. 

Eu sentia que ela ainda estava brava comigo de alguma forma, mas quem iria culpa-la? Aparentemente ela é imortal enquanto estiver nesse lugar, mas isso não significa que ela ficaria feliz de ser atacada. Principalmente por alguém que ela aparentemente “confia”. Eu não sei dizer ao certo se ela realmente confia em mim, não é como se eu conseguisse pensar em alguma forma de lhe fazer mal, mas acho muito forçado dizer com certeza que eu sou alguém de confiança para ela. 

 O que eu estou fazendo aqui? – eu perguntei – Não era suposto eu só entraria aqui através da meditação? 

 Sim, esse era o caso até muito tempo atrás – ela comentou – no entanto, desde que você caiu naquele lugar e começou a treinar com Naomi as coisas aqui mudaram um pouco. Ainda é mais viável você entrar através da meditação, mas agora eu posso te puxar para este lugar por algum tempo enquanto você dorme. 

 Isso será bastante conveniente – falei – mas por que ainda é mais viável entrar aqui através da meditação se você pode me puxar até aqui agora? 

 Porque ainda existirá uma pequena fadiga mental para você quando eu o forçar a vir para cá – ela respondeu – sua mente ainda não é forte o bastante para aguentar tal ato sem consequências, talvez em um futuro próximo isso seja possível. Espero que sim. 

 Eu sei, sinto muito por lhe deixar sozinha aqui por tanto tempo – falei. 

 Não lembro de ter comentado nada a este respeito – ela bebericou o chá. 

Sim, ela não precisava dizer diretamente aquilo para mim para notar que esse era parte do problema. Hime era uma mulher que gostava bastante de companhia. Ela passou muitos séculos sozinha, então era óbvio que ela iria querer passar o máximo de tempo possível com alguém que pudesse conversar calmamente. Ela tinha muito a dizer e precisava de alguém disposto a ouvi-la. Como nossos destinos agora estavam entrelaçados, de alguma forma eu deveria cuidar melhor dela, afinal esta é a mulher que me salvou a vida. 

 Creio que tenha um motivo para você ter me trago até aqui mesmo com o risco – comentei – você não me traria aqui apenas para mostrar-me que agora é possível. 

Muito perceptivo – ela riu. 

Seu humor havia melhorado um pouco, o que era muito bom de saber. Apenas as fortunas poderiam imaginar que aquela mulher iria fazer comigo se ainda estivesse de alguma forma irritada com o que aconteceu alguns momentos atrás. Ela tirou de dentro das vestes dois rolos de pergaminhos muito antigos. Eles estavam muito bem conservados, mas era possível ver o efeito do tempo na cor do papel e o seu cheiro de antiguidade. Havia uma corda azulada selando os pergaminhos quase brancos. Ela então os colocou entre nós e olhou para mim com um sorriso. 

 Acho que chegou a hora de ensinar para você algumas técnicas – ela disse. 

 Técnicas de combate? – eu perguntei olhando para os pergaminhos. Já havia ouvido falar de algumas técnicas de combate que eram passadas através de pergaminhos. No papel havia, é claro, apenas a teoria por trás de cada movimento. Não era muito comum tal forma de ensino, mas daquela forma o aluno poderia ter um esclarecimento melhor, de forma que poderia avançar no treinamento sem maiores problemas. 

 Sim, técnicas de combate – ela respondeu. 

 Não vai ser um problema? – perguntei novamente – essas técnicas não são dos Kakitas? 

Havia o mon dos Kakitas nos pergaminhos e pela beleza da ornamentação daquele papel era bem óbvio que aquele era um documento oficial do Clã Garça. Não fazia nenhum sentido Hime ter tais papéis, sendo que ela estava presa naquela espada por tantos séculos. Mesmo que houvesse sentido em tudo isso, entregar algo que uma Família guarda à sete chaves era algo perigoso, se isso chegasse aos ouvidos de algum Kakita eu seria caçado no Império inteiro. 

 Não existe nenhum problema – ela disse – recebi permissão do próprio autor da técnica para passa-la adiante caso encontrasse alguém digno de usá-la. Claro que você não é o candidato perfeito, bem longe disso, há muitas pessoas mais capazes e eu preferia passar para elas no lugar. 

 Uau! – eu gargalhei – isso foi bem duro. 

 Eu prefiro não enganar você lhe dando falsos elogios – ela respondeu friamente – se acha que eu estou errada prove para mim o contrário. 

Ela disse aquilo com um sorriso meigo. Eu poderia dizer que de alguma forma eu havia corrompido ela. Talvez tanto tempo com um Escorpião tenha feito a personalidade dela mudar um pouco. Dar um tapa como aquele e depois sorrir como se nada tivesse acontecido era tipicamente Escorpiônico. Balancei a cabeça contendo um riso e olhei novamente para os pergaminhos, afastando aqueles pensamentos de minha mente. 

 Você só poderá escolher um deles – ela falou – poderá aprender os dois é claro, mas apenas um por vez. Quando eu achar que você já está preparado eu irei lhe entregar o outro. O da esquerda é uma técnica que permite sacar a espada e atacar ao mesmo tempo.  

 Você não precisa dizer a outra técnica – eu falei apontando para a minha escolha – eu escolho essa. 

 Você tem certeza disso? – ela perguntou – a outra pode ser melhor, não? 

 Pode, mas você provavelmente está me fazendo escolher técnicas opostas  eu respondei – Se essa é a técnica que depende mais de agilidade que de força, acho que por hora ela é perfeita para mim. Além disso, ela irá servir de defesa para mim, não? 

Você é realmente muito perceptivo – ela riu – sim, de fato. Como você não pode enxergar muito bem, lá fora essa técnica é perfeita. Ela pode servir muito bem para atacar, mas para defender ela não peca. 

 Está decidido, então – disse estendendo a mão para o pergaminho, mas Hime bateu em minha mão com o leque. Ela me olhava como se estivesse me avaliando e disse que eu não deveria ter tanta pressa. Ela pegou o outro pergaminho, sumindo com ele no meio de suas vestes e disse algumas palavras quase inaudíveis. O laço reagiu ao seu comando e foi desatando sozinho. Ela então olhou para mim permitindo-me pegar o mesmo, mas sorriu e falou: 

 Tenha cuidado. 

Olhei para ela com dúvida, não tinha entendido o motivo para o seu comentário, mas eu iria descobrir logo. Quando tomei-o em minhas mãos minha mente afundou. Em um segundo eu já não via mais Hime e não parecia mais estar em meu próprio corpo. Era como estar vendo através dos olhos de outra pessoa. Eu não tinha controle das ações daquele corpo, mas podia sentir cada sensação. O toque do tecido das roupas em minha pele. O calor do sol sobre mim e a textura da tsuba em minhas mãos. 

Próximo a mim havia um homem. Ele fuzilava-me com os olhos e estava pronto para atacar. Estávamos em meio a um duelo. Haviam pessoas assistindo e Hime estava lá. Ela vestia um quimono bem diferente do que estava acostumado a vê-la. Era muito mais bem feito e cheio de pequenos detalhes que indicavam uma posição destacada no Clã. Ela assistia impassível àquele duelo. 

A disputa acontecia diante de um homem que parecia muito importante. Aquele lugar me era familiar de alguma forma, mas não havia nenhum símbolo que eu podia ver que mostrasse para mim de onde eu o conhecia. Passei os olhos um pouco mais e então voltei a olhar para Hime. Ela não parecia muito contente de estar ali, havia um incômodo constante em sua expressão, mas eu não pude olhar por mais tempo. 

 “Pare de me encarar dessa forma” – ouvia apenas a voz de Hime em minha cabeça – “Eu não o mandei até esse lugar para ficar olhando para mim, concentre-se no duelo”. 

Virei-me então de volta para o homem a minha frente. Ele estava nervoso e olhava-me com um pouco de receio. Olhei para as minhas próprias roupas e fiquei um pouco surpreso. Aquelas roupas eram muito comuns para um nobre e não havia nenhum tipo de símbolo que indicasse de qual Clã eu era. Aquele era um homem sem nome1? Afastando aqueles pensamentos foquei-me no que deveria fazer, e então o que eu estava ali para ver aconteceu. 

Foi tão rápido que se fosse a minha própria visão eu não teria visto. Pareceu-me sobrenaturalmente impossível e eu diria que era apenas história se eu não tivesse visto pessoalmente. O adversário atacou primeiro, erguei a espada até o alto da cabeça, para mim parecia que eu levaria aquele golpe sem ter nem tempo para reagir, mas não foi assim que aconteceu. Aquele corpo deu um passo para frente esticando a perna esquerda e a espada foi saído da bainha. O braço tencionou até o último momento, quando a kissaki2 saiu da bainha, então o braço ficou solto para o movimento tomar para si a velocidade de um raio. 

O golpe fez com que as pessoas saltassem de onde estavam sentadas, atordoadas pela velocidade e graça daquele golpe. O movimento continuou suave, mesmo quando as espadas se chocaram. A lâmina que estava “comigo” cortou a do adversário como papel. O braço então tencionou novamente puxando a espada do golpe e a guardou na bainha, seguindo a mesma linha perfeitamente. A precisão daquele movimento era espantosamente sobrenatural. A kissaki entrou tão reta na bainha que o roçar do metal foi quase inaudível. 

Tudo aquilo aconteceu muito mais rápido do que um piscar de olhos. Aqueles que piscaram no momento que o duelo começou ficaram sem entender o motivo da espada de um dos participantes cair partida em duas. O corte fora tão perfeito que não haviam estilhaços, apenas dois pedaços de espada. A visão então terminou. Ao abrir meus olhos, Hime estava a minha frente, eu estava novamente no salão. 

 O que achou? – ela perguntou. 

 Aquilo é pelo menos possível de se reproduzir? – eu ainda estava tremendo de excitação pelo que tinha visto. Nunca havia visto nada igual, mesmo quando tinha assistido o Campeonato de Esmeralda muitos anos atrás junto à minha mãe. Aquilo parecia impossível para um humano fazer, mas aquele homem em minha visão tinha feito e ele não parecia muito velho. Seja lá quem fosse era um verdadeiro gênio. 

 Eu disse que você não era o candidato ideal – ela riu – agora é com você provar que eu estou enganada. 

 Fácil falar – disse pensativo – eu nem mesmo sei dizer ao certo o que aconteceu. 

 Você teve uma experiência única – ela falou – nem mesmo aqueles que aprenderam diretamente com aquele homem puderam ter o mesmo entendimento que você pode ter dessa técnica. Você viu ela sendo executada pelos olhos e corpo do próprio criador dela, afinal. Você ainda tem algumas horas antes do sol raiar, medite sobre o assunto. Eu irei estar aqui se precisar. 

Ela tinha razão. Deveria aproveitar cada segundo que eu tinha nesse lugar e tentar entender o que foi aquilo que tinha visto. Aquela era claramente uma técnica de saque rápido, mas nunca tinha visto algo tão intenso e rápido. Havia força naquele golpe, mas também havia graça. Aquele golpe parecia essencialmente o que os próprios Kakitas acreditavam. Força não é a única resposta. 

Para a minha sorte, eu podia ver aquela cena várias vezes em minha cabeça, podia sentir cada mudança e saber o quanto de força eu deveria aplicar sem muito esforço. Aquele corpo não era meu, mas naquele momento era como se fosse. Eu sabia que não iria conseguir utilizar tão perfeitamente um ataque como aquele em meu corpo físico. Precisaria fortalecê-lo um pouco mais e entender melhor cada etapa daquele momento. Só então, talvez, eu pudesse reproduzir tamanho poder destrutivo. 

Talvez meu pai, mas era muito mais fácil que minha mãe soubesse, no entanto, uma forma de fortalecer meu próprio corpo de uma forma mais rápida. Precisava entrar em contato com minha mãe rapidamente. Falaria com meu pai na manhã seguinte para ele ajudar-me com essa pequena dúvida. Ainda não sabia uma forma para evitar perguntas desnecessárias. Talvez apenas ser um pouco direto resolvesse o problema. 

 

Nota do Autor: 

- Aqui refere-se ao fato do homem não possuir um sobrenome de família ou não possuir nenhuma fama. Para a sociedade Rokugani alguém sem nome é um pária. 


2 – Kisxaki pode-se referir a ponta da espada japonesa.

Por Yamimura | 06/01/19 às 07:15 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror