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Memória 30 - Generosidade

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 30 - Generosidade

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Acordei muito cedo no outro dia pela manhã. Estava enjoado e minha cabeça doía um pouco. Aquela era a primeira vez que tinha acordado daquela forma em minha vida. Talvez fosse assim que as pessoas acordassem no outro dia depois de uma noite inteira bebendo. Essa deveria ser a mesma sensação da famigerada ressaca. Arrumei-me rapidamente, precisava encontrar meu pai antes dele me mandar embora. Conhecendo aquele homem, ele não demoraria muito para aparecer e me enxotar da casa.

Assim que sai do quarto deparei-me com meu pai que vinha sorrateiro naquela direção. Ele provavelmente estava indo para me acordar de uma maneira não muito agradável. Foi uma pena enorme acabar com sua diversão, para ele pelo menos. Fiz a ele a minha pergunta e recebi risos como resposta. Claro que eu não estava muito esperançoso com isto. Se houvesse algo como uma fórmula milagrosa para se fortalecer não haveria necessidade das pessoas se matarem de treinar com esse propósito.

Depois de algum tempo aguentando as piadas que ele fez dada a minha pergunta, ele levou-me até a sala de jantar. Sentamos ali para comer um pequeno almoço e conversamos sobre o que eu iria fazer em Ruma. Haviam muitos boatos de desaparecimentos na cidade desde meses atrás, mas por se tratar de filhos de pessoas de baixa classe social, as autoridades não deram muita importância e resolveram que esse era um assunto pequeno demais para reportarem ao meu pai.

Shosuro Shoichiro não é nenhum santo e ele nunca agiria de uma forma que não houvesse ganho pessoal ou para o Clã. Ele era um Escorpião clássico, ninguém iria ficar surpreso com algo assim. Meu pai ficou muito irritado quando ficou sabendo disto. Alguns desaparecimentos são de fato irrelevantes, mas quando se passa das dezenas ou quando esses desaparecimentos são frequentes é um problema grave.

Não entenda errado, Shoichiro não se importa com as pessoas de classe social inferior, mas para ele cada uma dessas pessoas é essencial para que o Império funcione corretamente. Etas fazem os trabalhos que todos os outros se recusam a fazer. Não porque eles querem, mas porque precisam. Etas passariam fome se não fizessem tais trabalhos e o Império sofreria se eles não fizessem. Heimins cuidam de todos os outros trabalhos braçais, logo essas duas castas são indispensáveis para o Império funcionar.

Se elas perdem a fé nos Samurais que deveriam cuidar deles, uma revolução estará muito perto de acontecer. Um governador sábio deve cuidar bem de seus inferiores ou não terá nada para governar. Assim que ele ficou sabendo de tais irresponsabilidades, meu pai mandou punir todos os envolvidos para tentar amenizar a revolta daquelas pessoas. Isso ajudou bastante a acalmar os ânimos em Ruma, mas infelizmente mesmo com todo o trabalho que tiveram não conseguiram encontrar nenhuma pista do que estava acontecendo.

Alguns achavam que eram Oradores de Sangue que estavam envolvidos, mas ninguém achou nenhuma prova. Nem mesmo os Kuroiban que investigaram encontraram rastros de qualquer coisa relacionadas a essa Organização, é creio que eu posso falar dos Oradores assim. O que é Kuroiban? Não há problema em contar-lhe, no fim nada vai importar, certo? Kuroiban é uma ordem secreta dentro do Clã Escorpião. Eles são shugenjas poderosos que recebem treinamento especial para encontrar fontes de mácula pelo Império, principalmente nas terras Escorpiãs e as eliminam sem muita comoção. Esse é um resumo grosso do que é a organização.

Se eles não encontraram nada é porque não existe nada. Infelizmente, há seis dias outras pessoas desapareceram e a filha de Sayo ficou muito doente. Meu pai enviou vários médicos para tentar tratar da menina, mas o que ela tinha apenas se agravava, mas para a nossa sorte Mayuu havia chegado dois dias atrás. Meu pai pensou em enviá-la sozinha para tratar rapidamente do problema e então pedir que voltasse para casa, mas ele viu que não iria resolver nada. Foi então que Naomi intercedeu pela cidade e disse que eu deveria ir junto para investigar o que estava acontecendo.

― Claro que para mim não faz sentido nenhum mandar alguém cego para investigar – meu pai disse.

Eu concordo com ele, mas Naomi disse que aquilo serviria de treinamento para mim. Não haviam motivos para me impedir de continuar vivendo normalmente. Tais eventos serviriam de provação para as minhas habilidades melhorarem. Em parte eu concordo, mas como alguém que nem mesmo conseguiu usar a habilidade de visão direito poderia ajudar em uma investigação. Você deve pensar o mesmo que eu, mas devo dizer infelizmente que sorte também é uma habilidade minha.

― Bem, eu não acho realmente que eu vá conseguir ajudar em alguma coisa – disse – mas eu posso tentar.

― Querendo ou não agora você terá que ir – Shoichiro disse rindo – eu já disse para Sayo que estaria enviando meu filho para ajudar.

― Mas claro que você não avisou que “meu filho” era cego – comentei.

― E por qual motivo eu deveria entrar em detalhes? – ele perguntou – “Meu filho” não é menos capaz por algo tão banal, certo?

― ah... – suspirei – você me cansa. Poderia pelo menos mandar mais alguém comigo.

― Infelizmente eu não estou com pessoal o suficiente – ele falou – sinto muito.

Infelizmente, ele tinha verdade na primeira parte da sentença. De fato, esse período era muito conturbado para todo o Clã. Primeiro porque a capital Escorpiã, Ryoko Owari, estava para iniciar um Festival. Todo o Clã se mobilizava para preparar produtos e serviços nesse Festival. Havia muito lucro envolvido, afinal. Meu pai estava também fazendo alguns preparativos para uma cerimônia de Genpukku que aconteceria na próxima semana e não podia mandar ninguém comigo. Eu entendo isso e por isso falei que a primeira sentença era verdade, mas a segunda não era. Ele sentia muito, coisa nenhuma. Seria possível até dizer que ele estava se divertindo com a situação.

― Se é apenas isso, eu estou voltando para o quarto – falei – preciso terminar de arrumar algumas coisas.

― Um momento – ele disse pegando alguma coisa que fez o som de moedas e colocou entre nós dois – leve isso para pagar as despesas da viagem.

― Que generoso, pai – disse.

― Eu sou um poço de generosidade – ele falou – apenas não esqueça de entrar em contado depois de resolver o problema de Ruma.

― Claro – disse pegando a bolsa com as moedas – enviarei uma mensagem quando terminar o trabalho em Ryoko Owari.

Levantei-me saindo dali. Fui cuidadosamente voltando para o quaro e ao abrir a porta senti uma presença ali dentro. Aquela era uma presença muito familiar para mim agora e não haviam dúvidas quanto aquela pessoa. Ao entrar no quarto, fechei a porta e ajoelhei-me sentando em meus próprios calcanhares de frente para a minha visita.

― Não esperava que você invadisse meu quarto, Naomi-san – falei.

― Você já pode dizer quem é apenas de sentir a presença? – ela pareceu um pouco surpresa – é um grande progresso.

― Eu não estou muito confiante, no entanto – falei – você e meu pai tem energias fáceis de sentir, talvez seja esse o motivo.

― Sim, talvez seja – ela disse em um tom vago.

― Então, o que a traz até aqui? – perguntei educadamente.

― Vim me despedir – ela disse – tenho alguns assuntos importantes para resolver em nome do Dragão e infelizmente não poderei entrar em contato com você por algum tempo.

Eu devo dizer que depois de ser treinado por ela, talvez, penso eu, que um sentimento ou laço, seja como você queira chamar, de mestre e discípulo formou-se entre nós. Naomi tinha ganhado um espaço em meu coração Escorpiônico e eu a pretendia manter próxima a mim. Ouvir que ficaria algum tempo sem contatá-la encheu-me de tristeza, mas eu estaria mentindo se dissesse que eu não esperava por isso. Pelo que meu pai havia contado sobre ela, Naomi era alguém de muita importância para o Clã Dragão.

Como aqueles dois se conheceram isso é um mistério para mim. Talvez ele, meu pai, já tenha me contado como a conheceu, mas se o fez eu não lembro no momento. Caso eu consiga lembrar eu com certeza falarei para você o ocorrido, não precisa ficar com essa cara emburrada. Ora vamos, não fique assim. Eu prometi que falaria toda a verdade para você desde o começo, nos mínimos detalhes, não falei? Escorpiões não são conhecidos por quebrar nossas promessas. Se fizéssemos o que mais teríamos?

Você acha que eu estou mentindo? Escorpiões nunca descumprem aquilo que dizem. Nossa palavra e lealdade com ela é a única coisa que temos. Como eu falei antes, se não tivermos palavra não temos nada e eu posso garantir para você; nem um Leão tem mais palavra do que um Escorpião. Isso eu que vi no seu rosto foi um sorriso? Cuidado amigo, dá muito azar rir de um Escorpião.

― Fico triste em saber disso, Naomi-san – comentei.

― Sim, seu treinamento terá que ser interrompido – ela falou – mas espero que você continue seu progresso. Não se atreva a ter progredido pouco da próxima vez que nos encontrarmos.

― Sim, senhora – eu disse.

― Quando entrei em seu quarto, eu encontrei algo muito interessante – ela falou e moveu algo levemente pesado para entre nós dois. Pude ouvir o arrastar da madeira no tatame. Levei os dedos até o objeto e senti a textura fria de uma caixa de madeira polida. Passei os dedos um pouco mais e senti que havia um símbolo em baixo relevo. Concentrei-me um pouco e abri os olhos vendo de forma borrada uma caixa de madeira fina.

A caixa era feita de um rico material e era lisa ao toque. Reconheci o símbolo, mesmo borrado por minha visão ainda não estar totalmente desenvolvida, mas não haviam dúvidas. Aquela era a caixa de madeira que continua o presente de Miya Otome, a Voz da Imperatriz.  Senti minha cabeça ficar um pouco zonza e logo a minha visão foi escurecendo novamente, mergulhando-me na “escuridão”. Assenti com a cabeça, confirmando que sabia do que aquilo se tratava.

― Quem lhe deu este objeto? – ela perguntou curiosa – infelizmente, eu não sou tão versada em heráldica, pois não me interessa nem um pouco.

― A chefe da Familia Miya – respondi francamente – a atual Voz da Imperatriz.

― É um presente muito valioso – ela falou – você deve ter feito algo heroico, no mínimo.

― Nada além de minhas obrigações, eu posso lhe assegurar – falei calmamente – por que a pergunta?

― Este objeto, você sabe do que se trata? – ela perguntou.

― Um leque – falei.

― Sim, eu sei – ela suspirou – mas você já sabe o que ele é?

― Akatsuki falou que é um tipo de madeira muito rara – comentei.

― A madeira que constitui esse leque é bem especial – ela falou – ela permite uma melhor manipulação do Vazio através dela. Leques desse tipo são muito disputados entre os shugenjas, pois parecem ajudar na invocação de suas magias.

Eu fiquei agora um pouco receoso por ter um item desse tipo. Algo assim não era apenas valioso, mas perigoso de se possuir. Claro que eu não poderia me livrar dele, pois foi um presente e de alguém de muita importância na sociedade. Eu deveria simplesmente deixar com meu pai para que ele o guardasse em segurança? Não, aquilo seria desrespeitoso com Otome-sama, eu deveria mantê-lo comigo e usá-lo. Creio que tenha sido esse o propósito desse presente.

― Você deveria pedir para alguém de confiança estuda-lo antes de o usar – Naomi disse – mas creio que não há nada de mal-intencionado nesse presente.

― E como eu deveria usá-lo? – perguntei.

― Este leque pode ser usado como catalizador – ela disse – você deve usá-lo para auxiliá-lo quando acessar o Vazio. Provavelmente, facilitará muito o seu progresso. Apenas lembre-se de não abusar muito ou você ficará dependente dele.

― Tudo bem, eu tomarei cuidado – falei para ela.

― Mais uma coisa – ela disse – isto é para você.

Ela pegou de dentro do bolso um pequeno rolo de pergaminho e entregou-me. Fiquei espantado por esse tipo de presente. Como ela mesmo havia falado antes mesmo que eu conseguisse chegar no limite da técnica de visão eu não poderia jamais ler. Agora ela me vem com um “presente” como aquele, para mim, inicialmente, pareceu ser um tipo de deboche. Eu poderia pensar assim para qualquer pessoa, mas Naomi era um caso especial. Vendo a minha confusão ela apenas sorriu dizendo:

― Não se preocupe, quando o momento chegar você saberá o que fazer com isso.

― Está bem – falei – eu irei guarda-lo até que o momento certo chegue.

Por um momento, eu ponderei se deveria mostrar para outra pessoa. Era um pergaminho, poderia ter algo escrito que talvez fosse de alguma utilidade para descobrir do que se tratava. Naomi disse que quando o momento chegasse eu saberia manuseá-lo corretamente, no entanto. Talvez fosse melhor, realmente, guarda-lo até lá. Coloquei o pergaminho no bolso do quimono e uma outra hora pensaria em um lugar melhor para guarda-lo até que fosse útil.

Naomi saiu do quarto em seguida, deixando-me sozinho para enfim arrumar meus pertences para a viagem. Primeiro eu tive que ir até o depósito de meu pai para repor o que tinha gasto na luta contra Ayumi-sama. Desde aquele dia eu não tinha tudo o que precisava para uma emergência. Também estava sem minhas espadas duplas, não que eu precisasse já que tenho agora Hime, mas não seria prudente não estar preparado para uma situação emergencial.

― Já faz muito tempo velho – falei adentrando ao depósito.

― Oh, é você mestre Ichijou? – uma voz velha disse entusiasmada, porém cansada – O que o senhor precisa?

― Eu preciso de suprimentos para minha viagem – falei aproximando-me do balcão – gastei muitos recursos na última e pretendo reabastecer antes de partir.

O depósito ficava no subsolo da mansão de meu pai. Tudo ali era de certa forma legal, porém algumas coisas não deveriam ficar à vista para as pessoas comuns e muito menos para os olhos curiosos de pessoas não autorizadas. Meu pai tinha muito cuidado em quem poderia entrar aqui ou não. Levou algum tempo para que eu tivesse acesso, mas agora eu sou livre para vier aqui e pegar o que precisar por um preço menor que o habitual.

Geralmente eu não pago pelas coisas que eu uso, afinal meu pai precisa ter algumas dividas ocasionais feitas por mim. Quando eu resolvo pagar, eu apenas pago metade do valor de mercado. Sim, ser filho do senhor do lugar tem ótimas vantagens. Reabasteci algumas das coisas e fui informado de alguns itens novos que haviam chegado nos últimos dias. As espadas que eu usava foram modificadas para um material um pouco mais leve e resistente, ainda estava em fase de teste, mas os resultados até aquele dia tinham sido animadores. A espada foi confeccionada de forma que pequenos canais partiam desde o cabo que era oco e cobriam parte da lâmina da espada fazendo pequenos veios menores que se ligavam a um principal. Pareciam raízes de uma árvore.

Fiquei com uma daquelas novas espadas para testar e comprei alguns fracos pequenos de substâncias próprias para utilizar naquela arma. Havia um tipo novo que foi descoberto recentemente e meu pai deixou uma mensagem para mim junto com 6 frascos daquela substância. A mensagem dizia que eu deveria testar os resultados dela durante minha viagem e reportar para ele a eficiência desse novo “produto”.

Paguei pela espada e guardei os fracos juntos a ela. O homem entregou-me uma ashigaru melhor que a usada. A armadura ainda era feita de tecido, mas era de um novo tipo o qual estava sendo testado. Teoricamente falando, ela deveria ser tão resistente quanto uma armadura média. Tirando a cabeça, ela dava proteção para todo o resto. Foi desenvolvida por um Irmão de Clã e alguns colaboradores do Clã unicórnio.

Você achava mesmo que o Clã Escorpião não tinha infiltrados em todos os Clãs? Veja bem, isso é bem óbvio, assim como nós temos, os outros também têm. O Escorpião apenas não vê nenhum problema em dizer algo assim. Faz as pessoas ficarem mais cautelosas ao guardar segredo e em toda a sua cautela eles os deixam ainda mais expostos.

A armadura deveria ser usada por baixo do quimono e foi feita de forma que se passasse como uma roupa comum. O tecido era um pouco grosso e resistente, gostaria de saber como elas eram feitas. Vesti o quimono novamente e paguei 10 kokus por tudo. Infelizmente, tive que pagar pela armadura também, mesmo sendo apenas um protótipo. De fato, foi algo bem revoltante. Essas moedas poderiam fazer falta se meu pai não tivesse me dado algum dinheiro antes.

De volta ao meu quarto e já com tudo pronto, peguei minhas coisas e fui até a frente da casa. Ali meu pai estava dando as últimas ordens para o cocheiro que me levaria até Ruma. Era uma carruagem simples, mas que daria algum conforto até a cidade. Meu pai virou-se para mim levantando a voz para demonstrar que estava ali. Foi-me concedido uma bengala para que eu pudesse me guiar sozinho de um lado para o outro. Fui instruído de como deveria usá-la para auxiliar no caminhar. Aquilo fazia um pouco de barulho e o tato e aquele som serviam de guia para mim.

Recusei a utilizar no começo, mas Naomi disse que era necessário até que eu pudesse caminhar perfeitamente sem o auxílio daquilo. Como eu não podia refutá-la tive que acabar cedendo em utilizar aquela coisa, mas era um “atraso”. Como aquilo fazia muito barulho, eu não poderia utilizar de todas as minhas habilidades furtivas. Resolvi marcar um objetivo em minha mente, livrar-me o quanto antes daquela maldita bengala.

Caminhei lentamente até meu pai que me apresentou ao servo que me levaria e o mesmo pegou minhas coisas colocando na carruagem. Meu pai mais uma vez mandou que eu tivesse cuidado e seu tom me pareceu levemente preocupado. Se eu não o conhecesse poderia ser que eu diria que eu era o alvo dessa preocupação. Ele provavelmente estava aflito por mandar um cego para investigar o ocorrido, mas eu era a única pessoa disponível naquele momento.

Subi na carruagem com a ajuda do cocheiro e fiquei ali dentro esperando pela chegada de minha sobrinha. Eu tinha dito que ela era minha prima antes, certo? Sinto muito, foi apenas um erro meu, desconsidere isso. Mayuu era minha sobrinha, filha de minha irmã mais velha. Meia irmã, para ser mais preciso. A menina não demorou muito e entrou sorridente no veículo, desejando-me um bom dia. Ela deu-me um caloroso abraço, mas eu fiquei parado como estava desde que ela entrou. Assenti com a cabeça para ela e desejei-lhe um cordial bom dia.

Mayuu parecia ser uma boa menina, mas algo nela me incomodava eu não conseguia dizer o que eu era. Para mim, havia certa falsidade em todos os seus atos. Talvez por estar tão acostumado com meu pai sendo a cobra que é eu me recusava a achar que qualquer pessoa que fosse boa demais, escondia segredos nefastos. Ela foi me falando sobre o seu treinamento e como estava feliz por estar ali.

Ela tinha ouvido falar do que havia acontecido em Tsuma e pediu para que eu lhe contasse a experiência que eu tinha passado. Eu infelizmente não pude ser muito útil a ela, talvez até seria decepcionante. Como eu não entendia quase nada do que aconteceu; tudo que eu pude lhe fazer de bem era contar o que tinha visto até o momento que caiu no abismo. Ela mesmo assim não pareceu muito incomodada por eu não entender o que aconteceu.  Uma boa menina como eu, havia dito. Mesmo para um shugenja experiente, entender aquele lugar era um trabalho para a vida toda.

Eu contei tudo o que sabia para ela, não haviam motivos para deixa-la de fora do que aconteceu, afinal não havia nenhum segredo para esconder de quem quer que fosse. A menina ficou entusiasmada com a descoberta de um lugar tão incrível e ficou bem entristecida por não ter acesso a um lugar fantástico como aquele. Ela tinha razão é claro, mas eu gostaria de nunca mais ter voltado para aquele lugar. Aquele reino era muito perigoso por conta de toda a sua liquidez. Nada era estável e isso incluía até mesmo as pessoas que entravam ali. Nada podia garantir que o que entrava lá era imutável diante das possibilidades que naquele reino existem.

Eu mesmo era a prova disso. Entrei e o atravessei inteiro, voltei mudado. Eu não lembro de uma parte fundamental do que aconteceu a mim naquele lugar. A queda ao abismo ainda era uma página em branco em minhas memórias e sempre que eu tentava recordar delas minha mente tornava-se uma bagunça. Dor e medo mesclavam-se formando uma tempestade de vários outros sentimentos bizarros.

De certa forma, parecia que havia outra coisa faltando. Não só as memórias, mas algo mais “palpável”. Esse misto de sentimentos estranhos era o que me fazia recuar sempre que eu pensava na queda. Talvez essas memórias voltassem com o tempo e eu teria as respostas que eu precisava. Eu tinha que pensar daquela forma para poder acalmar-me, pois de nada adiantava ficar remoendo nesse assunto. Apenas dor ele me trazia.

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Notas do Autor:

Atrasei-me um pouco na entrega esse capitulo, espero que não tenha feito vocês esperarem muito e que não estejam com raiva. Minha corretora esqueceu que tinha que trabalhar essa semana e acabou tendo que corrigir de última hora, infelizmente não consegui postar no domingo par ao povo que não é do Nordeste, mas foi próximo o bastante,

Vejo vocês na próxima semana.

Por Yamimura | 14/01/19 às 00:49 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror