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Memória 31 - Ruma

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 31 - Ruma

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

A viagem até a Vila de Ruma demorou dois dias. Foi algo bem tranquilo; passei a maior parte do tempo meditando ou conversando com Mayuu. A menina também passou algum tempo estudando seus pergaminhos sobre suas magias. Eu fui levado forçadamente para a dimensão onde Hime residia, ali ela me fez treinar mais vezes a nova técnica até que eu já não precisava recorrer ao pergaminho para poder relembrar as sensações e executá-la.

Dado o fato de eu estar cego, Hime teve que fazer um novo cronograma de treinamento para mim. Uma série quase infindável de exercícios que eu podia fazer parado. Tivemos apenas uma parada em uma pequena vila a qual nos hospedamos, na noite anterior a que chegamos à Ruma. Naquela noite, eu pude ouvir algumas pessoas fazendo comentários engraçados pelo fato de que eu estava treinando a noite e praticando a minha técnica, mas eu deixei entrar por um ouvido e sair pelo outro. Eu não tinha tempo a perder com baboseiras, precisava dedicar toda a minha atenção àquilo.

Chegamos à Vila na noite do segundo dia, já faziam algumas horas que o sol tinha sumido por trás da montanha e não havia lua naquele dia. A escuridão era profunda e vertiginosa, por vezes quase parecia tentar engolir as chamas das duas tochas que iluminavam precariamente alguns poucos metros ao redor. Senti quando a carruagem deu um solavanco e tive que me segurar firme para não cair. Mayuu que estava cochilando acabou sendo acordada ao cair do banco da carruagem e praguejou irritada.

A carroça balançava violentamente enquanto o cocheiro tentava acalmar os dois cavalos que puxavam o veículo, mas todo seu esforço era em vão. A escuridão era quase sobrenatural e parecia haver uma presença predatória sedenta à espreita. Obriguei-me a descer da carruagem para ajudar o pobre homem a conter os animais inquietos que pareciam estar ficando agora apavorados. Seus relinchos ecoavam pelo negrume pestilento, avisando para tudo que se escondia por baixo do nefasto véu de sombras: “Nós estamos bem aqui”.

Quando coloquei o primeiro pé ao chão, ouvi e senti a textura molhada da terra feito pasta sob a sola de minha sandália. Era estranho, pois nessa época do ano não se costumava chover. O inverno estava muito próximo, mas chuvas eram raras. Continuei andando até chegar perto do homem que puxava com força o cabresto dos animais descontrolados. O homem respirava ofegante, já tão assustado quanto os animais e eu podia o entender.

O vento soprava gélido e trazia consigo um cheiro de carniça misturado ao sabor sobrenatural dos seres noturnos que ali estavam. Tai criaturas pareciam zombar-lhe do medo em seu continuou murmúrio. Morcegos cortavam o espaço próximo a cabeça do pobre homem que dava pulo e praguejava contra os animais. Quando viu-me andando ao lado dos animais ele fez um som de visível alívio e ao mesmo tempo receio de ser reprimido por não conseguir conter a situação sozinho.

Passei lentamente a mão pela anca do animal mais próximo, seus músculos estavam tensos. Pude ouvir sua longa calda chicotear e as patas batiam ao chão, enquanto de suas fortes narinas uma explosão de ar emitindo um som estridente de inquietação urgia. Algo estava errado, precisávamos sair daquele lugar o quanto antes. Cavalos são seres sensitivos e muito inteligentes, por vezes podem até serem mais que humanos. Uma Unicórnio me disse isso, deve ser verdade.

Não sei dizer como, talvez o próprio instinto, mais aguçado que o humano, talvez algo sobrenatural que permeia o seu cerne. Seja qual for a explicação, o que depende de quem você buscará tal resposta, o cavalo sabe quando algo não está bem. Ele sabe quando há um predador pronto para dar o bote e aqueles animais estavam avisando sobre isso. Eu não sou nenhum cavaleiro experiente, longe disso, na verdade. Tudo o que sei devo a uma valorosa conversa que tive com duas pessoas. Ambos Unicórnios, um que tive o prazer de encontrar em uma casa de saquê. Eu não entendi esse seu risinho, criança. Você acha que eu vivo em casas de saquê? Você está me achando com cara de quem frequenta apenas esse tipo de lugar? Pois saiba que eu também visito casas de chá, desde que eles deem a opção de ter algo mais forte para beber. A segunda pessoa, foi uma samurai-ko muito bela por sinal, uma esplêndida beleza rústica e mal aproveitada, que tive o prazer de fazer parte do meu grupo de viagem por algum tempo.

Eu falarei dela daqui algum tempo, esta mulher me ensinou muitas coisas interessantes sobre a cavalaria e os objetos estranhos que seu Clã trouxe das terras estrangeiras. Objetos esses que muitos de nós Rokuganis repudiamos apenas por serem de fora da cultura do Império, mas que no fim se provaram riquezas inigualáveis.

Agora de frente para ambos os cavalos, passei a mão pelo focinho de cada um dos animais e por um momento eles até ficaram mais calmos. Foi o bastante para saltar ao lado do heimin que guiava a carruagem e o fazer partir dali o quanto antes. Saímos daquele lugar tenebroso. O número de animais pareceu ter, no entanto, aumentado. Os morcegos acompanhavam todo o nosso movimento e de certa forma, parecia até que os tentáculos da escuridão acompanhavam os animais ansiando para nos engolir.

As luzes de tochas apareceram de súbito. O homem ficou mais aliviado quando as viu e ainda mais ao entramos na vila. O lugar estava deserto, típico de uma pequena vila, atípico era ver alguns estabelecimentos fechados. Tal como a casa de saquê, normalmente este lugar e a casa de chá, de certas vilas é claro, fica abertas até um pouco mais tarde. Aqui, no entanto, havia um certo ar mórbido que pairava por entre os prédios. Para mim, parecia que um toque de recolher estava imposto para aquelas pessoas. Não fazia nem uma hora que o sol tinha se posto e já não tinha uma única alma perambulando pelas ruas.

Nem mesmo guardas haviam. Foi estranho ver que não havia nenhum cuidado com a segurança noturna da vila. Será que eles estavam tão aterrorizados com as coisas que aconteciam que mesmo Samurais evitavam estar de guarda durante a noite? O homem levou a diligência até o centro da vila onde havia ali um poço. Não era incomum ver um poço no centro das pequenas vilas pelo Império de Esmeralda.

Havia um silêncio aberrante. Nem mesmo os morcegos que nos acompanhavam estavam mais por perto. As pequenas criaturas pareceram de certa forma evitar a cidade, como se algo ali tivesse mandado ou os assustado o bastante para não se aproximarem.

Permita-me falar um pouco sobre a Vila, apesar de não ter tanto o que falar dela. Ela era um lugar pequeno, havia uma pequena mureta, circulando toda a Vila, com pouco mais de um metro de altura. A estrada de terra batida a qual íamos seguindo caminho cortava a Vila bem ao centro, levando-nos até um poço bem no centro da cidade. As construções eram distantes do poço alguns metros, talvez 20 metros, formando uma praça circular imaginária ao redor do poço.

Havia bem a nossa frente um prédio maior de dois andares. A casa das pétalas dançantes. O lugar funcionava como um estabelecimento misto; pousada, casa de chá e Okiya. Creio nunca ter falado sobre esse tipo de lugar antes, talvez você não deva nem conhecer também, então eu irei lhe contar. Okiya é o estabelecimento conhecido como a casa delas, é o lugar onde elas recebem treinamento e residem até que sejam patrocinadas por alguém com mais condições. Existem nesses lugares três tipos de pessoas. Gueixas, Maikos e as empregadas comuns. A hierarquia nessas casas segue a mesma ordem que citei os nomes e a proprietária ou gerente do lugar, seja como você queira chamar, são conhecidas como Okusan1. Pode acontecer de um Samurai mais rico ser o dono de uma dessas casas, como é o caso desta, ou ela ser de propriedade de algum Clã; em raríssimos casos o dono de uma Okiya é um comerciante.

Gueixas mantém o lugar através de seus atendimentos, todo o lucro que elas ganham nas visitas de um Samurai vai para a Okiya. Seus “salários” são pagos através de bolsas que sobem de acordo com a sua hierarquia e seu grau de importância para a casa. Maiko são normalmente crianças que conseguiram ingressar em uma Okiya, seja por talento, seja por indicação de alguém; algumas Maikos podem ser mulheres mais velhas que a Okusan jugou apropriada para o treinamento ou uma das empregadas da casa que recebeu o privilégio de ser escolhida. As empregadas domésticas são como o próprio nome sugere, mulheres que trabalham zelando pela casa, seja limpando, seja cozinhando. O objetivo dessas mulheres, normalmente, é provar-se digna para ser escolhida como Maiko.

Em resumo, uma Okiya é uma casa onde gueixas residem e onde aspirantes podem buscar refúgio e treinamento para se tornar gueixas e sair do estado de pobreza. Gueixas normalmente são heimins, mas que ganham uma posição de destaque entre eles ao atingirem o status gueixa. Dois Clas são bem conhecidos por abrigar o maior número de gueixas; sendo eles o Clã Escorpião e o Clã Garça. Até mesmo algumas filhas de Samurais podem tornar-se gueixas, mas isso é muito mais comum no Clã Escorpião, e tudo tem um propósito.

O Clã considera a beleza uma arma e a sensualidade o instrumento que calibra tal arma. A disputa de beleza está sempre nesses dois Clãs; Escorpião e Garça. Não que não existam lindas mulheres em outros Clas, seria mentira de minha parte dizer que não e se você lembrar, eu sempre digo que eu não sou um mentiroso. Tirando a média entre os Clãs, no entanto, você perceberá que esses dois Clãs são os com a maior concentração de pessoas bonitas.

A Garça é conhecida por ter uma beleza mais pura e delicada, tanto a masculina quanto a feminina. Homens e mulheres que quase podem ser considerados seres celestiais, em alguns casos. Minha Akatsuki entra nesse seleto grupo. Claro que o fato de ser seu noivo não interfere nisso, eu sou alguém muito imparcial. Imagine a beleza Garça como um jarro de porcelana; brilhante e muito bem trabalhado, polido e sem nenhuma falha. Pode-se dizer que quando o “Jarro” é feito com esmero o resultado será uma obra prima, digna de estar entre as melhores pesas para por todos ser apreciado. Essa beleza, porém, é muito frágil. Um simples risco pode acabar com todo o equilíbrio da obra e estraga-la completamente. Um arranhão e tudo desmorona.

O Escorpião, todavia, é uma beleza mais ousada. Somos aqueles que tudo ousamos e até na beleza somos ousados. Sim, de fato ovelhas negras sempre aparecem na família. Não é um problema corriqueiro em todas elas? Sensualidade é o termo correto, mas não quer dizer que uma criança já nasce sensual em nosso Clã. Isso seria errado de tantas maneiras. Quer dizer que, por termos essa condição quase natural, homens nascem com tendência de terrem corpos mais definidos e o rosto levemente mais fino, as vezes um pouco, sutilmente, mais quadrado. Já as mulheres desenvolvem mais suas curvas, o resto é apenas por nós mesmos.

Fazemos nossa roupa mostrar mais pele. O vermelho e o negro em nossas roupas dão um ar mais sensual. Nossa maneira de agir, andar, falar. Tudo é praticado perfeitamente até que seja natural. A beleza Escorpiônica é uma técnica que depende de fatores que vem desde os primeiros dias de vida e vai sendo moldada até que o membro do Clã atinja o status de Samurai. Imagine um Escorpião com uma tira de seda. Já é macia ao toque e bela em sua forma bruta. Quando trabalhada com as técnicas de costura, vira um belíssimo quimono que poderia ser presenteado à Imperatriz. Não chegamos a isso, no entanto, porque essa beleza pode sempre ser usada de várias formas. Seda representa beleza, mas representa ainda mais a possibilidade.

Quando um Samurai coloca sua filha para se tornar uma gueixa ele pode ter infinitos propósitos, os mais comuns são para arrumar um bom marido para talvez uma filha problemática. Talvez por achar que a filha deva dedicar sua vida para a própria arte. Gueixas, como eu farei sempre questão de lembrar, não são prostitutas, elas são antes de mais nada artistas de muito destaque no Império. Escorpiões tem outro propósito, no entanto, você deve sempre ter isso em mente. Um Escorpião, assim como qualquer outro, sempre tem um propósito para o que faz, sempre.

Escorpiões colocam as melhores mulheres e homens, os mais adequados, é claro, para tornarem-se acompanhantes. O que foi? Achou estranho eu dizer que homens também se tornam gueixas? Chamam-se formalmente Houkan, mas talvez você os conheça como Taikomochi. Não? Você é realmente muito ignorante, minha criança. Houkans treinam seus corpos e sua mente assim como as gueixas para a arte do entretenimento. Eles “nasceram” primeiro e seus primeiros trabalhos foram para divertir.

Houkans e gueixas Escorpiônicas são treinados e usados pelo Clã principalmente para persuadir e seduzir seus clientes. Não para serem patrocinados, longe disso. Nossos artistas não precisam de esmolas. Eles o fazem para arrancar informações. Sim, torturas podem até ser úteis, mas pessoas bêbadas soltam a língua muito mais facilmente quando estão atraídos por alguém. Bêbados e crianças são as pessoas mais sinceras que você poderá encontrar na vida, guarde o que eu digo. Em Ruma, no entanto, não haviam nem dois Houkans, a demanda por eles na cidade era muito pequena.

Agora que você já sabe um pouco mais sobre gueixas e a Okiya, pode acabar ficando surpreso de ter uma nesta pequena vila. Devo confessar que inicialmente, quando descobri, fiquei surpreso, mas depois de ficar sabendo de quem era o lugar toda a minha surpresa passou imediatamente. Aquele lugar pertencia ao meu pai. Como eu já cansei de dizer para você, meu pai nunca faz nada sem um motivo. Ele colocou aquele estabelecimento na vila de forma que sempre tivesse olhos e ouvidos prontos para informa-lo sobre qualquer coisa fora do lugar. Claro que a ligação entre a Casa e meu pai era totalmente secreta, não podíamos deixar “invasores” com a guarda alta tão facilmente.

 Talvez fosse uma boa ideia passar a noite naquele lugar e ir apenas pela manhã encontrar-me com Sayo. Estava um pouco tarde e toda essa aura em volta da cidade me incomodava profundamente. Eu estava me sentindo fadigado mesmo sem ter feito nada. Minha energia parecia ir esvaindo-se como a fumaça que ia saindo de chá quente e dispersando-se no ar. Mandei o cocheiro não se arriscar voltar a noite. Aquele lugar estava estranho e sair naquele momento poderia ser perigoso para a sua vida. O pobre homem ficou extremamente agradecido, pude sentir isso pelo seu tom de voz ao agradecer.

Eu sabia que ele voltaria imediatamente se assim eu o ordenasse, mas seria muita maldade de minha parte fazer algo assim. Ao entrar fui recebido por uma voz quase rouca, seca e desgastada.  Era uma voz feminina bem idosa, uma voz que guardava amargura e melancolia por todo o tempo que teve que falar aquela aborrecida palavra; “Bem-vindos”. Foi até muito animado se levar em consideração toda a tensão que a vila passava. Um vento seco e com cheiro de mofo veio trazendo aquele som rasgado da garganta velha. Aquele tom, a entonação na voz era de alguém conhecido por mim.

Não lembrava de ninguém, no entanto, que tivesse um timbre tão entristecido e poeirento na voz. Escutei então um pequeno tom de surpresa naquela voz e mais um “bem-vindos”. Agora, porém, muito mais suave e quente. Eu podia quase sentir o calor de um abraço animado e o doce cheiro da animação novamente naquela garganta puída. A voz, diferente de antes, assumiu um tom mais jovial, rejuvenescendo vários anos em apenas um instante.

Os passos distantes iam aproximando-se de mim rapidamente, tropeçando algumas vezes devido a tamanha pressa. A mulher então curvou-se a minha frente delicadamente. Ouvi o roçar do tecido enquanto ela se curvava. Não era um som áspero, ao contrário, era bem suave e delicado. Ela tinha um cheiro agradável de flores. Um perfume feito na própria vila.

― Mestre Ichijou! – ela exclamou com excitação – minha casa fica honrada com vossa visita.

― Esta voz... – fiquei surpreso – Asuka-san?!

― Sim, mestre – ela disse em um tom mais alegre e curvou-se um pouco mais – fico feliz que tenha lembrado de meu nome.

― Quase não pude reconhecer sua voz – falei ainda um pouco surpreso – ela estava muito diferente de sua voz suave.

― A vila tem feito isso com todos nós nos últimos meses – ela disse em tom de desculpas – Algo aconteceu ao senhor? Não esperava vê-lo de cabelo curto.

― Ah isso! – eu disse com um sorriso – muita coisa aconteceu nesses últimos dias.

Eu não sei se seria sensato falar dos acontecimentos. Não era segredo é claro, mas muitos rumores estanhos poderiam surgir dependendo de como eu falasse o que aconteceu e para quem eu falasse. Resolvi deixar o assunto de lado e pedi por um quarto. Asuka-san ficou, é claro, muito feliz de saber que eu passaria a noite em seu estabelecimento e ofereceu seu melhor quarto para mim. Eu não sei se podia pagar por aquela extravagância, mas ela fez questão.

Fui guiado até o quarto onde repousaria. Estava com um pouco de fome, então resolvi perguntar se eu poderia jantar alguma coisa. Asuka-san ofereceu-me seu mais confortável atendimento. Foi oferecido uma gueixa para acompanhar-me enquanto eu jantava. Eu aceitei, nada melhor do que uma boa companhia e boa música para tirar o cansaço de uma viagem como aquela.

Entrei no quarto sozinho. Mayuu foi para outro quarto que lhe foi oferecido e o hiemin que nos levou até a vila foi para a casa de um conhecido, onde repousaria até a manhã do dia seguinte. Sozinho no quarto eu fui caminhando até que senti o toque macio de almofada contra a bengala e tateei o tatame para ter certeza do que era. Sentei-me confortavelmente, suspirando de alívio e relaxei um pouco. A carruagem que nos levou até ali era bem confortável, não me entenda mal, mas ficar várias horas sentado em um lugar como aquele era no mínimo desconfortável.

Ouvi passos vindos do corredor e o frio da noite atingindo minha nuca. Os passos pareciam levar uma eternidade antes de chegar mais próximo da porta. Os passos eram lentos e pesados, arrastavam-se pelas tabuas velhas, trazendo consigo um rangido seco e agudo. Comecei então a sentir um cheiro estranho. Um cheiro adocicado de putrefação vindo dos cantos do quarto, e o silêncio inquietante era quebrado apenas pelo ranger nefasto das tábuas de madeira.

Podia sentir o frio tomar o quarto. Eu deveria fechar logo a janela antes que aquele vento constante me congelasse. Levantei-me e fui tateando o tatame com a bengala, o tatame do quarto, seguindo o fluxo do vento que vinha em meu rosto. O quarto não era muito grande, mas talvez por ainda não estar acostumado com ele, pareceu-me muito maior que imaginava. Precisei andar quase um minuto até encontrar a janela, sim, eu agora ando muito mais devagar por medo de tropeçar em alguma coisa, mas caminhar um minuto dentro de um simples quarto é ridículo. Tateei a parede até que encontrei as janelas corrediças e fechei ambas as bandas. Foi um barulho seco e inacreditavelmente alto. Alto ao ponto de doer em meus ouvidos. O barulho tinha sido como o roçar de metal, um som rasgado e estridente.

Desde que fiquei sem minha visão, meus outros sentidos melhoraram um pouco. Descarte a questão sobrenatural. Talvez isso tenha acontecido inconscientemente, mas deve certamente ter uma explicação. Pode ser que meus sentidos estejam da mesma forma, mas por não depender mais exclusivamente de minha visão e passar a usar mais os outros, tive a impressão que eles estavam melhores. Aquele som tinha feito com que desejasse estar surdo no lugar de cego naquele momento. Meus ouvidos arderam e continuaram reverberando o som por algum tempo. Era quase como ter colocado a cabeça dentro de um sino no momento da badalada.

Afastei-me desnorteado da parede. Com o som ainda ecoando em minha mente já não era possível ouvir nada. Coloquei a mão dentro do bolso e puxei o leque que me foi dado de presente. Toquei com ele no meio de minha testa e tentei concentrar-me. Infelizmente eu não conseguia concentrar-me o suficiente para iluminar meus olhos.

Voltei a sentir a brisa fria em meu pescoço, mas dessa vez era mais densa. Parecia haver algo bufando em minha nuca. Virei-me balançando o braço, mas foi apenas o ar que esbofeteei. Meus dedos pareciam até mesmo tocar aquela massa densa de ar e foi quando pensei ter ouvido a sílaba final de um riso medonho. O cheiro de mofo foi apenas piorando, como se o quarto inteiro estivesse sendo tomado por aquilo.

Eu pude ouvir pequenos sons arrastados e fervilhantes por baixo do tatame vindo na direção da superfície. Saltei imediatamente da almofada segurando o cabo da espada, mas o fervilhar já tinha parado. Todos aqueles sons não eram reais, não havia como. A atmosfera tensa daquela vila estava mexendo com meus nervos, depois que eu me acalmasse aquele tipo de coisa não deveria mais acontecer.

Foi naquele instante de lucidez que senti uma mão tocar meu ombro. Não uma mão delicada e suave de uma donzela. Era uma mão áspera e calejada. Aquela mão era fina como uma folha de papel e gelada como o toque de metal. Seus dedos esguios apertavam-se contra o meu ombro e as unhas afiadas penetravam meu quimono. Senti um cheiro ainda mais nauseante que o primeiro; era o cheiro de algo podre que se aproximava por minhas costas. Pensei em puxar minha espada para atacar o que quer que fosse aquilo. Ouvi então o som de algo rasgando a parede de papel do quarto e segurar-me pelo pulso. Estava agora preso e desprotegido para o que quer que fosse.

― Quem está ai? – perguntei.

Por Yamimura | 20/01/19 às 14:46 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror